Garoto Problema

Há poucos anos, Gerard Way era um rapaz arruinado pelo vício em cocaína e álcool que o ajudava a encarar o público. Livre destes hábitos, foi responsável por um dos melhores discos de rock de 2006, The Black Parade

Austin Scaggs Publicado em 13/08/2007, às 17h22 - Atualizado em 02/09/2007, às 22h07

Gerard Way: emo levado a sério
Divulgação

Como surgiu a idéia de fazer um disco sobre uma parada?

Eu tenho uma lembrança bem nítida de meu pai levando eu e o Mikey [irmão mais novo de Way e baixista do MCR] a uma dessas paradas tradicionais, cheias daqueles balões infláveis enormes. Eu nem diria que essa é minha memória mais feliz, mas existe algo realmente cultural nesses desfiles, que é o motivo de eles terem se tornado o conceito por trás do disco. A parada pode representar uma procissão de um funeral, ou o Dia dos Mortos, ou uma celebração religiosa qualquer. Para o personagem central do disco [o paciente], a parada representa o que ele quer que a morte seja.

O humor negro é constante no disco. De onde você tirou todo esse clima pesado?

Provavelmente da comédia britânica. Muito do que minha avó via me influenciou, ela estava sempre assistindo à TV aberta e programas da [emissora inglesa] BBC, como Are You Being Served? ou Fawlty Towers. E também de Monty Python. Sou fanático pelo Terry Gilliam. Ele foi uma grande inspiração para a estética desse disco.

Por que você escolheu a cantora Liza Minelli para participar da faixa "Mama"?

Queríamos alguém que tivesse bastante força e muita mágoa na voz. Alguém que tivesse enfrentado coisas muito duras, até ridículas, e que tivesse tanto talento, que sua voz fizesse sombra sobre tudo de negativo ou positivo que fosse dito sobre ela.

No que você tem gasto a grana que anda ganhando?

Sinceramente, em nada. Comprei um computador e às vezes pego uns DVDs de ficção científica dos anos 60, tipo Além da Imaginação e o Jornadas nas Estrelas original. Eu também curto muito Planeta dos Macacos.

Se a Black Parade pudesse inspirar um movimento social ou musical, qual você gostaria que fosse?

Não quero que as pessoas temam a vida, e acho que esse é justamente o maior medo de todo mundo. Quero que cada um se expresse do jeito que quiser. Se isso significa vestir roupas femininas, que seja. Sou totalmente contra a intolerância, o racismo ou o sexismo. Os homens ainda são chamados de "viados". E até no mundo do punk rock eu vejo mulheres sendo tratadas como se fossem de segunda categoria. Aceitação pra mim é tudo.

Foi difícil ficar sóbrio durante a Warped Tour?

Bem difícil. Eu adorei aquela turnê, foi bem legal, mas ela rolou durante meu primeiro ano "de cara limpa". E é aquela coisa: você anda cinco passos e aparece alguém esfregando uma garrafa na sua cara. Tive de ficar no ônibus o tempo todo, o que me deprimiu muito.

Diante de quem você teria medo de tocar?

Billy Corgan. Escutei o Siamese Dream mais do que qualquer outro disco. Ele me ajudou a segurar a barra quando tomei um pé na bunda no meu primeiro namoro. Uma noite, estava deprimido pra caramba e fui a um campo de beisebol perto de casa. Deitei no banco de reservas escutando o disco e acabei dormindo ali mesmo. Quando eles fizeram a turnê do Mellon Collie and the Infinite Sadness, meu irmão Mickey me levou ao show deles, no Madison Square Garden. Ele era tão fanático que seguia os caras por todas as cidades e tinha ingresso para todos os shows dos Pumpkins.