Goiânia, a cena independente mais celebrada do país

Só o rock salva

Tiago Carandina Publicado em 14/08/2007, às 11h10 - Atualizado em 02/09/2007, às 22h21

MQN: prata da casa agita no Goiânia Noise
Anderson Brito

Em se tratando de um festival independente, os números impressionam: 33 bandas de dez diferentes estados, dezenas de expositores, público estimado em mais de 8 mil pessoas durante três dias. O saldo da 12ª edição do Goiânia Noise Festival, principal festival independente do país ao lado do Abril Pro Rock (PE), é positivo e considerável.

O sucesso tem relação com a consolidação da cena independente local. "O crescimento é nítido", confirma Túlio Fernandes, dono do estúdio República, um dos pontos de encontro das bandas goianas. "Existem cerca de 200 bandas na cidade, algumas com ótimo potencial." Com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado, a edição deste ano aconteceu no recém-inaugurado Centro Cultural Oscar Niemeyer, com ótima infra-estrutura para shows de grande porte. Além do apoio estatal, a organização captou recursos de empresas privadas por meio da Lei Goyazes de incentivo à cultura. Por conta disso, o evento ganhou visibilidade inédita na cidade, com cobertura de jornais e emissoras locais e presença do público "não-roqueiro", atraído pelas atrações mais famosas. A estrutura mais caprichada não evita com que as bandas novas continuem a arcar com certos custos. A maioria dos músicos de outros estados paga passagens, em troca da hospedagem e alimentação oferecidas pelo festival. "Apresentamos nosso trabalho, vendemos alguns discos e fazemos contatos para futuros shows. É claro que compensa", afirma Toshiro, baixista da curitibana Los Dianõs.

O relativo marasmo da rotina goiana explica o clima de cordialidade entre bandas de gêneros diversos: fãs e integrantes de grupos locais como MQN, Violins, Rollin' Chamas, Motherfish, Mechanics e WC Masculino convivem amigavelmente. Por conta da escassez de espaços, a maioria dos shows limita-se ao Centro Cultural Martim Cererê, o DCE da Universidade Federal de Goiás e o estúdio Republica. Se hoje existe uma cena prolífica em Goiânia, é porque os próprios músicos montaram um circuito. "A culpa é da Monstro Discos", diz Jimmy London, vocalista do Matanza. "Foram eles que criaram essa cena debaixo de muita paulada." Além de selo, a Monstro é produtora do Goiânia Noise e do Bananada. Mesmo dando aula de infra-estrutura e movimentando a economia local, Goiânia jamais revelou uma banda para o grande público e nem dá sinais de que isso vá acontecer tão cedo. Grandes gravadoras não assinam com as bandas da cidade, a música não toca nas rádios locais e ninguém leva a música como principal fonte de renda. "Sempre achamos que vamos largar empregos e viver disso, mas ainda continuo vendendo roupas de bebê e tecidos", confessa Leonardo Ribeiro, fundador da Monstro.

Instituição na cidade, o MQN é exceção: possui clipes na MTV e uma agenda de shows em outros estados. Assim mesmo, levanta a bandeira da independência. "Não acredito em hits que levam você ao estrelato", diz Fabrício Nobre, vocalista e produtor do Goiânia Noise. "Acredito em um público de 300 pessoas em cada cidade, em um real circuito independente. Com isso, ninguém precisará chegar ao mainstream. Vamos ter tesão de continuar tocando, viajando e gravando. Parece piegas, mas é o que mais importa no final das contas."