Montage

Iggy Pop do semi-árido

Ademir Correa Publicado em 13/08/2007, às 16h57 - Atualizado em 11/09/2007, às 11h41

Leco Jucá e Daniel Peixoto injetam drama e perversão na cena electro rock do Brasil
Caroline Bittencourt

Enfim, uma banda mutante de electro rock com atitude punk, pop, glam, new wave, e letras que falam sobre drogas, fama, Pombajira, dinheiro, Benflogin, canibalismo, sexo, noite e ginástica olímpica. "No palco, a gente ainda faz uma espécie de ritual. Você já foi na macumba? As pessoas vestem aquelas roupas para entrar em um transe, mas é tudo muito espontâneo, exatamente como acontece comigo. Tem uma vibe - parece que a gente está sob efeito de drogas", explica o vocalista Daniel Peixoto, que forma o duo Montage junto com Leco Jucá (groove box e sintetizadores).

O grupo começou em Fortaleza em 2005, veio tentar o electro em São Paulo em 2006, e tinha em sua formação Daniel, Leco e o guitarrista Patrick Bachi - que saiu antes do lançamento do primeiro disco, I Trust My Dealer, pelo selo Segundo Mundo (do produtor Dudu Marote). A sonoridade da (agora) dupla é influenciada por bandas de rock e eletrônicas como Daft Punk, Garbage, Vive La Fête, Underworld, Chemical Brothers e Prodigy. "O Leco morou em Israel nos anos 90 e lá a cena eletrônica estava bombando. Ele voltou completamente estimulado. E o Patrick entrou na história para injetar o rock'n'roll. Mesmo no Ceará, nós três nunca fizemos parte da cultura local, do forró, do maracatu", diz o vocal.

A performance do Montage é um espetáculo que também faz parte dessa pluralidade de referências - são seguidores fiéis de Madonna, David Bowie e Iggy Pop. "As pessoas falam que sou parecido com o Marilyn Manson, mas ele é uma mistura da Madonna com o Iggy, então é melhor ir logo na raiz da questão", salienta Daniel. Ao vivo, eles pulam, eles giram, eles dão cambalhota, parafraseando "Ginastas Cariocas", um dos primeiros hits montados: "Sou completamente desprovido de vergonha. Nada mais surpreende minha mãe. A única coisa que faltava era ela me ver nu. E isso já faço - baixo a cueca e simulo sexo na frente de todo mundo", orgulha-se o frontman dos figurinos ultraextravagantes. "A primeira idéia que vem na cabeça das pessoas é a de que sou um travesti. Uso o que gosto e busco, sim, uma identidade visual com o público. Mas ninguém está ali fantasiado."

Musicalmente falando, eles querem ganhar o mundo e têm coragem de correr atrás de sonhos. "Divulgamos tudo, fizemos o disco e viemos para São Paulo por conta própria. Se não tiver nada de concreto na Europa, estaremos lá do mesmo jeito", entusiasma-se Daniel. Misturando letras em inglês e português, a banda também entra na onda musical da diversão: "Por trás de todas as nossas letras tem um quê de humor. O Montage é um produto genuinamente cearense por causa desse sarcasmo, escancara coisas que todo mundo faz e não tem coragem de tocar no assunto abertamente. Mas as canções não são autobiográficas. Até porque falo de feet fucking [em 'Masochist'] e nunca deixei ninguém fazer isso em mim", ri Daniel. "Mas a gente canta sobre a cultura da noite - em 'Money, Success, Fame, Glamour'. Tem uma música - 'If U Like It' - sobre o Armin Meiwes, o canibal de Rotemburgo, que buscava pessoas para comer na internet. Outra que traz uma visão lúdica das celebridades ['Hi Oprah!'] e por aí vai."

I Trust My Dealer, o primeiro disco, foi lançado em 5 de janeiro deste ano, dia do aniversário do rei do bizarro Marilyn Manson e também de Daniel Peixoto, que confidencia: "A gente quer piratear nosso álbum. Vai ter a versão com pôster, encarte, enfim... E a cópia. Nossa idéia é vender nos shows e até em camelôs. Não que seja a favor disso, mas antes que alguém faça, chego antes. Se os fãs não podem pagar R$ 35, compram o pirata por R$ 5." No meio da zona que os sons de I Trust My Dealer fizeram aqui na redação, alguém questiona se eles ouvem as próprias canções. "Escuto quando quero ficar feliz", suspira Daniel.