Um beijo da Manu

Gustavo Krieger Publicado em 13/08/2007, às 17h14 - Atualizado em 30/08/2007, às 15h50

Manuela participa de ato contra a "Cláusula de Barreira", na esquina Democrática
Elson Sempé Pedroso
Ela é a deputada federal mais votada do Brasil. Manuela d'Ávila, a jovem militante que já foi a vereadora "da galera" em Porto Alegre, tem longa carreira de protesto e é capaz de discutir revolução com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, fazer longos tratados sobre emagrecimento e ainda prestar contas de suas ações políticas em blogs. Acabou de se formar na faculdade e está pronta para levar a bandeira da juventude para Brasília. Só avisa que não quer virar musa dos engravatados que dominam a capital federal

Antes de mais nada, é bom esclarecer: esta não é uma reportagem sobre o olhar ou o sorriso da deputada Manuela d'Ávila, de 25 anos. Em primeiro lugar, porque já se falou muito nisso. Assim que foi descoberta pela mídia, ela virou a nova "musa do Congresso". Em segundo lugar, porque puxar esse assunto é o jeito mais rápido de chamá-la para a briga. "Essa tentativa de me rotular como a bonitinha é mais uma demonstração do machismo que ainda domina a política e a imprensa no Brasil", dispara. E em terceiro, tenho de confessar que não vi nem os olhos nem o sorriso em questão. Nossa conversa foi por telefone. Em meio a uma agenda cheia, Manuela, ou "Manu", falou com a reportagem por celular, de dentro do carro no qual viajava de Porto Alegre a Caxias do Sul, na serra gaúcha. Acabara de fazer seu discurso de despedida na Câmara de Vereadores de Porto Alegre e corria para uma atividade política do PCdoB. "Cara, quando me falaram sobre esta entrevista, fiquei até nervosa. Muito tempo antes de vocês chegarem ao Brasil eu já esperava pela Rolling Stone", confessa.

E aí a gente começa a entender os motivos da reportagem. Jornalista e aluna de Ciências Sociais, Manuela é uma garota que lê a Rolling Stone, ouve Nando Reis e adora passar horas no boteco, tomando chope e conversando com os amigos sobre a vida, a música e a política. Mas também é a deputada federal mais votada do Brasil, com impressionantes 271.939 votos. Em uma eleição que consagrou Clodovil e Paulo Maluf, esta pode ser uma surpresa boa entre tantos sustos. A deputada com jeito de estudante sabe o que quer e chega cheia de propostas para enfrentar os problemas da juventude. Mas o que há de especial nela para atrair a atenção e a adesão de tanta gente?

Para começar, uma contradição. ela chama atenção por ser diferente dos outros políticos. E o que a torna diferente deles é o fato de parecer uma pessoa normal. O Congresso é um cenário dominado por senhores engravatados. Empresários, advogados, políticos de carreira. Gente que orbita o poder há décadas. O ex-presidente Fernando Henrique disse que a coisa que mais estranhou ao deixar o poder foi voltar a girar maçanetas e abrir portas sem a ajuda de assessores. A nova deputada usa jeans, camiseta, cabelos soltos. É do tipo que não só abre a porta, mas é capaz de chutá-la se for preciso. Mas as diferenças são mais profundas. No livro Políticos do Brasil (PubliFolha), o jornalista Fernando Rodrigues analisou o patrimônio dos políticos brasileiros. Descobriu que os deputados federais declaram em média um patrimônio de R$ 2,2 milhões. Na declaração de bens que entregou à justiça eleitoral, Manuela não chegou nem perto dos colegas. Ela tem um Santana 2001, avaliado em R$ 23 mil, alienado ao Banco Finasa e financiado em um daqueles carnês intermináveis. Além disso, quando começou a campanha, tinha R$ 9,8 mil na caderneta de poupança.

Para entender essa jovem do PCdoB é bom conhecer sua história. Ela nasceu em Porto Alegre, às 7h18 de 18 de agosto de 1981. A mãe, Ana Lúcia, guardou na memória a hora exata do parto e o jeito enfezado da filha, que já saiu berrando. Ela e os quatro irmãos passaram a infância andando de "caminhão de mudança", como se diz no Rio Grande do Sul. A mãe passou no concurso para juiz e enfrentou a tradicional rotina de transferências entre as comarcas do interior. "Com 2 anos de idade, fui morar em Estância Velha. Reza a lenda que brincava de marcar audiências", conta em um texto autobiográfico. Depois, passou por três outras cidades. Em 1995, a adolescente que estudava no Colégio Santa Joana d'Arc, em Rio Grande, não imaginava que fosse virar um dia deputada federal. Mas estava ainda mais longe de adivinhar que se tornaria musa. "Nessa época já estava bem gordinha. Lembro do pânico do primeiro dia de aula de Educação Física. O Professor Denis começou a pesar os alunos. Me vi diante da balança. 61 quilos, 1,61m. Daí comecei a crescer, para cima e para os lados. Mas nesse período já era a contestadora da escola. Com 14 anos me reencontrei com Porto Alegre. Sempre soube que seria meu paradouro final. Ponto de partida e de chegada. Fui estudar então no Colégio Pastor Dohms. Lá agucei minha rebeldia e aprendi o conceito de disciplina. Sofri muito preconceito por ser esteticamente diferente daquilo ditado pelos padrões, ou seja, gorda! Mas também foi ali que traduzi meu sentimento de inconformidade em paixão pela história. Aprendi que tudo é construído histórica e socialmente: principalmente a exploração e os preconceitos."

Manuela é assim. Capaz de misturar socialismo e emagrecimento na mesma frase. A deputada magrela de 2006 é, ao mesmo tempo, uma conseqüência e uma ruptura com a estudante gordinha de 95. A transformação começou no 2o grau. Rebelde, comandou uma fuga coletiva da escola. "Todos os 36 alunos fugiram", orgulha-se. "Até os CDFs". Ao mesmo tempo, a garota passava por um rígido processo de reeducação alimentar e descobria um olhar diferente dos colegas e amigos. Em 1999, passou no vestibular para Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e para Jornalismo na PUC. Como na canção de Cazuza, chegou ao ensino superior procurando uma ideologia para viver. Não demorou a encontrar. Ainda era caloura quando descobriu a União da Juventude Socialista (UJS), o braço do PCdoB no movimento estudantil. "A universidade fez com que descobrisse quem realmente sou. Não a universidade. Mas tudo o que acontece nela. Talvez daí minha convicção de que todos tenham direito a passar por ela. A viver dentro de seus muros. Conviver com suas contradições e desafios." Como ela mesma diz, nesses tempos em que se dividiu entre duas faculdades, se "virava horrores". Tinha bolsa de pesquisa do CNPq de manhã, UFRGS à tarde e PUC à noite. E ainda achava tempo para a militância.

Além disso, havia o choque da diferença entre os dois ambientes. Na PUC, uma faculdade moderna cheia de equipamentos de última geração. Na Federal, uma estrutura sucateada, muitas vezes sem as condições mínimas de estudo. A estudante encontrou motivos para protestar nas duas instituições. Na particular, reclamava "contra o aumento abusivo nas mensalidades". Na pública, a luta era "contra a ofensiva neoliberal do [presidente] Fernando Henrique e do [ministro da Educação] Paulo Renato". Manuela jura que "os dois queriam vender a nossa universidade". Então, como FHC passou oito anos no poder e a universidade continua pública? "Pela resistência dos estudantes, professores e funcionários", rebate a deputada, com aquela lógica inabalável, mesmo que muitas vezes cartesiana, que caracteriza os militantes.

Só em 2001, depois de muita discussão, ela se filiou ao PCdoB. Ou, como diz naquele mesmo tom militante, "ingressei nas fileiras do Partido Comunista do Brasil". Cresceu muito, e rápido, no partido e no movimento estudantil. No ano seguinte, já era da direção nacional da UJS. Um ano depois, foi eleita vice-presidente da UNE, a União Nacional dos Estudantes. Ano passado passou a fazer parte do Comitê Central do PCdoB, o órgão mais importante da militância comunista no país. A moça tornou-se um quadro político do partido.

Aí, acabam as semelhanças entre Manuela e o jovem típico. Quando lembra de suas viagens, explode em entusiasmo ao falar no Festival Mundial da Juventude na Argélia ou no seu encontro com Hugo Chávez para discutir a "revolução bolivariana" na Venezuela. "Ainda construiremos na América Latina uma grande pátria bolivariana", diz apropriando-se dos jargões produzidos por Chávez. Para Manuela, a militância é a vida. O partido, o mundo. E a sociedade se divide em bandidos e mocinhos, exploradores e explorados, neoliberais e esquerdistas. Essa visão pode chocar quem não pensa do mesmo jeito ou não tem a mesma história de vida. A boa notícia é que Manuela não é Heloísa Helena. Criticou o governo Fernando Henrique sem ter de apelar para adjetivos como "bando de canalhas" ou "corja", usados pela ex-senadora alagoana a cada vez que atacava adversários políticos. E usa jeans e camiseta sem que eles pareçam um uniforme.

Manuela é dogmática. Não é de se estranhar. Ninguém chega ao comitê central do partido comunista se não souber adaptar-se aos princípios do "centralismo democrático". Criado por Lênin antes mesmo da revolução soviética, tornou-se o método de funcionamento padrão das organizações de esquerda. A idéia é simples. Todo mundo é livre para discordar dentro do partido e apresentar sua proposta. Quando a posição é tomada, todo mundo deve defendê-la. Funciona no movimento estudantil, nos sindicatos e nos parlamentos. Não é à toa que, no meio da geléia política brasileira, o PCdoB orgulha-se de ser uma legenda criada em 1922 e que sobreviveu até à clandestinidade imposta pelos períodos de ditadura no Brasil. É um dos partidos dos quais a gente menos ouve histórias sobre brigas internas e divisões entre correntes.

Isso está longe de significar que a vida de Manuela seja livre das discussões políticas. É só lembrar que ela foi formada naquelas intermináveis assembléias do movimento estudantil e que passou os últimos dois anos na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. As conversas sobre política não terminam nem em casa. O "namorido", como ela define o companheiro Adriano, é militante do PT. Quem acompanha política de longe pode achar que está tudo bem. Afinal, os dois são partidos de esquerda e os dois apóiam o governo Lula. Quem conhece um pouco melhor a militância de esquerda sabe que não é bem assim. PT e PCdoB, muitas vezes, disputam os mesmos espaços, especialmente na universidade. "Às vezes é complicado, mas a gente se respeita muito. Eu não teria me apaixonado pelo Adriano se ele não fosse uma pessoa assim, que luta pelo que acredita." É bom levar a sério. Durante a campanha eleitoral, em uma entrevista a um blog gaúcho, Manuela disse o impensável. "Vocês querem ser do PFL, gente? Melhor ser do PFL do que uns taipas." Taipa, em bom gauchês, é um mané, uma anta. Ou, para a deputada eleita, um analfabeto político.

Manuela era vice-presidente da une quando o PCdoB decidiu lançar sua candidatura a vereadora em Porto Alegre em 2004. Foi uma aposta arriscada. O partido não costuma ter força para eleger mais de um candidato por vez e, normalmente, concentra suas apostas em um nome - um candidato que domina os espaços na propaganda do rádio e TV e recebe todo o apoio da militância. Em Porto Alegre, o PCdoB já tinha um nome consagrado, o vereador Raul Carrion. Manuela teve de correr em faixa própria e concentrou sua campanha na juventude. Investiu especialmente nos estudantes. Deu certo. Com 9.948 votos, foi a quinta candidata mais votada em Porto Alegre. Deu tão certo, aliás, que nas eleições de 2006, o PCdoB inverteu a chapa. Manuela foi lançada para deputada federal e Carrion para estadual. Os dois foram eleitos.

Chegou na Câmara de Porto Alegre com 23 anos. Como tinha prometido, dedicou o mandato às bandeiras da juventude. Ou, como ela mesma diz, "um mandato da galera". Apostou em bandeiras concretas. Em junho, conseguiu que a prefeitura adotasse a meia-entrada para estudantes e menores de 15 anos. Em dezembro, antes de deixar o cargo de vereadora, viu a Câmara aprovar seu projeto de lei que determina a cassação do alvará de casas noturnas ou bares nos quais a segurança agrida os clientes. O projeto também prevê o fechamento de qualquer estabelecimento que discrimine clientes por raça, gênero ou orientação sexual. Na Câmara dos Deputados, Manuela promete nacionalizar essas bandeiras. "Jovem tem de ter o direito de estudar. Merece uma escola de qualidade." Também promete lutar por oportunidades de emprego, crescimento econômico e justiça social.

Mas e a beleza? Manuela será musa do Congresso? Provavelmente, por mais que se revolte contra os rótulos. Escolher musas é um hábito nacional. Seja na seleção brasileira, seja no Congresso. A deputada protesta: "Há tantos homens bonitos na política e ninguém diz que eles foram eleitos pela beleza". Na eclética avaliação de beleza masculina da parlamentar há lugar para os olhos azuis do novo governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e para o figurino militante do companheiro de partido e ex-ministro Agnelo Queiroz. Pode ser machismo, como denuncia Manuela, mas será difícil escapar disso. Inclusive nos corredores do Congresso, um ambiente tipicamente machista. Lá, a presença mais forte é de homens, com mais de 40 anos, acostumados a deter o poder nas mãos. No final da legislatura, era grande a curiosidade dos políticos para conhecer a jovem comunista gaúcha. Manuela diz que não espera cantadas. "Passei dois anos entre os vereadores de Porto Alegre e ninguém foi desrespeitoso." Mas, se alguém tentar, as chances são mínimas: "Amo meu companheiro e minha casa", avisa. Não é que não goste de elogios. Até pelos problemas da adolescência acima do peso, ela reconhece que gosta de ser considerada bonita. Chegou a realizar aquela fantasia recorrente de modelo e desfilou na passarela do Porto Alegre Fashion Show. Verdade que representou a confecção de uma comunidade pobre de Porto Alegre, em um desfile politicamente correto.

Intuitiva, a gaúcha é uma marqueteira nata. Sabe explorar politicamente o que a faz diferente. Usou a internet na campanha como ninguém. Criou comunidades no orkut para prestar contas do mandato e conversar com os eleitores. Responde aos e-mails que recebe e assina as mensagens com "um beijo da Manu". Mantém um blog falando de política, mas foge da fórmula típica da colagem de discursos ou dos bastidores. Prefere contar o que aconteceu no dia. Seu site, criado por um time de garotos gaúchos, trocou o vermelho do PCdoB pelo rosa e lilás. O nome "e aí, beleza?" serve para puxar conversa com quem acessa, mas também puxa para o lado "musa" da deputada. As páginas são decoradas com uma versão de Manuela para histórias em quadrinhos. A Manuela desenhada tem grandes olhos castanhos e um jeito de menina. Aparece dançando na página de cultura e abraçada a uma versão "fofinha" do presidente Lula na hora de falar em política. Na campanha, o personagem foi transformado em boneca, daquelas de 1,80m de altura. A deputada e sua versão "boneco de Olinda" fizeram campanha lado a lado. Manuela já ocupou até as páginas da Revista Playboy. Vestida, claro. Produzida, cabelo ao vento, blusa dourada, empunhava uma foice e um martelo, como na bandeira do seu partido. De cara, avisou que não aceita posar nua. Depois, aproveitou as perguntas para fazer política. Deve ser a primeira vez que uma moça entrevistada naquela seção da revista usa o espaço para bater no Fernando Henrique...

Nossa conversa durou 40 minutos. Pelo jeito, foi boa. Quando terminou, ela confessou: "Fiquei tão animada em falar com a Rolling Stone que peguei a estrada e esqueci meu vereador em Porto Alegre. Vou ter de ligar para ele e pedir desculpas".