Em busca de uma realidade impossível

Com o épico de ficção científica AVATAR, o notoriamente volátil diretor James Cameron está tentando mudar a maneira como os filmes são feitos

POR ERIK HEDEGAARD Publicado em 22/02/2010, às 18h28

Os personagens centrais de Avatar, mais recente criação de Cameron: produção consumiu quatro anos de trabalho

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Há 40 anos, Jim Cameron era o tipo de garoto que os fortões da escola não deixavam em paz. Isso acontecia em Chippawa, Ontário, perto do rugido das Cataratas do Niágara no Canadá. Era um fanático por ciência que, uma vez, inventou um sino de mergulho a partir de um pote de maionese e jogou um rato no fundo de um riacho local. Ele tomava o ônibus até os museus em Toronto e passava o tempo desenhando capacetes etruscos e ossos de dinossauro. Era magrelo e desajeitado, um péssimo atleta, provavelmente o pior lutador de toda a escola - "inútil", lembra um colega. Então os fortões aprontavam com ele - esperavam-no no topo da escadaria, arrancavam os livros embaixo de seu braço e os espalhavam pelo chão ou lhe davam socos no estômago sem motivo algum. Ele não se defendia, simplesmente levava o golpe. Era exatamente o tipo de garoto tímido dos subúrbios que cresce e se vinga com muito sangue, revólveres e facas.

Só que ele não tomou essa direção, não exatamente. Em vez disso, virou um grande diretor de cinema e ganhou a reputação de "homem mais assustador de Hollywood". Em 1989, durante as filmagens de O Segredo do Abismo, comandava a produção de tal forma que o astro Ed Harris teve um surto de choro. Em uma tomada, membros da equipe usavam camisetas que diziam "you either shoot it my way or you do another fucking movie" (ou você filma do meu jeito ou vai fazer outra merda de filme). E tem sido assim desde que seu primeiro grande filme, O Exterminador do Futuro, em 1984, levou-o a dirigir alguns dos filmes mais caros (e lucrativos) de todos os tempos - incluindo Aliens, O Exterminador do Futuro 2 e, claro, Titanic/.

A última vez que a maioria das pessoas o viu foi há 11 anos, em uma noite brilhante de 11 Oscars para Titanic, quando subiu ao palco para aceitar o prêmio de Melhor Diretor e, citando seu próprio filme, gritou: "Sou o rei do mundo, uhuuu!" Foi muito criticado por esse comentário, pois cheirava a um petulante excesso de autoconfiança, e, desde então, ele tem se mantido discreto. Só que, neste momento, está sentado em frente a um monitor gigante em uma sala escura dos estúdios da Fox, em Los Angeles, trabalhando em efeitos de computação gráfica para Avatar, seu primeiro filme desde Titanic. A pressão é grande. O filme tem orçamento de US$ 230 milhões e, se for um fracasso de bilheteria, será um fiasco não apenas para Cameron e para a Fox, mas também para toda a indústria cinematográfica. É o primeiro filme para adultos rodado em 3D.Os efeitos são sensacionais - quando um personagem pula de um penhasco, quase dá para sentir a resistência do ar nos globos oculares. Claro, você ainda tem de usar óculos 3D, e até agora apenas 2.500 cinemas nos Estados Unidos têm tecnologia digital (no Brasil, há por volta de 80 salas). Mesmo assim, Hollywood espera que o filme inicie uma Era Dourada, e isso está sobre os ombros de Cameron.

Agora, no monitor, um helicóptero equipado com metralhadoras conhecido como "dragão" entra em cena balançando e começa a disparar seus canhões. Cameron reprisa o clipe algumas vezes, depois circula uma área de fogo e fumaça com uma ponteira a laser e diz para sua equipe de computação gráfica "O que é legal é a taxa de aumento diferencial através da convecção. O nevoeiro está ótimo, e também tem a quantidade certa de simulação, acertando as folhas com o efeito do vento, mas não se esqueçam de dar uma graduada, ter uma queda radial para longe do dragão. Depois, temos de ter outra graduação onde está ativo aqui, menos ativo ali, caso contrário vamos receber uma porrada de críticas sobre como interagimos o fogo com a corrente de ar do rotor".

Todos parecem saber do que ele está falando, balançam a cabeça e fazem anotações, mas, mesmo se você não souber, é interessante ouvi-lo, tanto pela poesia técnica de suas palavras quanto por sua fala - sem raiva, sem muita frustração, nem nada que o tornou tão infame. Será que ele mudou e, de alguma forma, reduziu a distância entre o garoto passivo e o adulto confiante? "Ele é um doce - não acredite nas outras coisas", afirma Richie Baneham, diretor de animação de Avatar.

"Ainda tenho meus dias ruins, como todo mundo", o próprio Cameron conta durante uma pausa. "Só que, antes deste filme, eu me sentia muito em luta contra minha equipe. Mas agora, quando tenho um mau momento, puxo a pessoa de lado e peço desculpas ou faço isso em público, na frente do grupo." Ele para por um momento e fica ruborizado, parecendo um pouco incomodado. Ele não gosta de ter de defender suas ações. "Olha", continua, "Avatar é um filme com orçamento grande, mas não é uma coisa louca que fugiu do controle como Titanic foi. Estamos no caminho certo, então, essa não é uma história. Quanto a mim, aprendi muito na última década, então isso de eu ser louco não é mais notícia, acho. Portanto, qual é a novidade?"

Ele deixa a pergunta perdurar. Para ele, é óbvio - não se trata do cineasta, e sim dos incríveis efeitos 3D de seu novo filme ou o trabalho interno emocional de sua história sobre um ex-fuzileiro naval paralítico cujo avatar azul de 2,74 m de altura se apaixona por uma alienígena e salva toda uma raça de alienígenas. Vale a pena falar de coisas nos dois ângulos - só que todos os caminhos levam de volta a Cameron e ao que fez de si mesmo e de seus sonhos impossíveis, que são muitos. "Ele sabe o quanto nossa existência na Terra é curta e aproveitará isso ao máximo", diz o ator Bill Paxton, que apareceu em quatro filmes de Cameron e o considera um bom amigo. "É um cara que está tentando desvendar os segredos do universo com a força de dez homens e o cérebro de 20. Sim, é intransigente e pode ser difícil, mas todos precisam de um Jim Cameron em sua vida! Todos!"

Noite passada, o ex-saco de pancada de Chippawa saiu do trabalho por volta das 22h30, retornou ao hotel InterContinental ao lado, sua casa longe de casa, passou uma hora se acalmando, assistiu a alguns minutos de um filme chileno chamado Na Cama ("meio chato"), desligou a TV, pensou em um de seus vários e diversificados empreendimentos de negócios (neste caso, a construção de veículos submergíveis na Austrália) e, finalmente, foi dormir. Ele tem 55 anos e passou os últimos quatro trabalhando em ,Avatar, com base em um tratado que escreveu em 1994, misturando computação gráfica e elementos de ação real de forma a torná-los indistinguíveis. Ao longo do caminho, sua atenção obsessiva aos detalhes exigiu a contratação de um professor de linguística para inventar um novo idioma para sua recém-criada cultura alienígena. Para facilitar as filmagens, gastou US$ 14 milhões no desenvolvimento de uma câmera digital 3D que pesa 5,9 kg, contra 68 kg das antigas. Trabalha sete dias por semana, do amanhecer à meia-noite, comendo no bufê do estúdio e engolindo vitaminas cujos nomes desconhece ("porque minha esposa é obcecada por saúde"). Hoje, seus olhos abrem novamente às 7h30. Em vez de se levantar, ele passa os próximos dez minutos remoendo metas. O rolo 8 será mixado, então tenho que ter a música pronta para isso. Tentar travar a imagem no rolo 10. Às 10h da manhã, discutir o beijo com o compositor. A música entra antes, durante ou depois? Depois, há 60 tomadas para repassar com a Weta, a equipe de efeitos especiais do cineasta Peter Jackson na Nova Zelândia, via teleconferência diária, e assim por diante. É muita coisa para pensar.

Um pouco depois, ele abre a porta do Edifício 29 no estúdio da Fox - um cara alto com pouco menos de 1,80 m, cabelo ralo, totalmente grisalho, vestindo uma camisa comum, calças comuns, sapatos comuns. Tem a aparência bem comum para um homem que gosta de fazer tudo grandioso e ousado. É um mergulhador ávido que ama seus carros velozes e suas grandes Harleys; uma vez, treinou para uma missão espacial soviética; outra vez, levou uma pretendente para passear de balão no primeiro encontro, sofreram um acidente com o balão e, depois, foram dar tiros de AK-47 no deserto (mais tarde, eles se casaram e se divorciaram); nunca fez um filme em Hollywood que não ganhasse dinheiro, gastando mais de US$ 500 milhões, mas dando um retorno bruto de US$ 3 bilhões, o que é uma bela relação risco-recompensa, mas de dar nos nervos durante o processo.

No bufê de café da manhã, devora alguns ovos e conversa com seu sócio-produtor, um homem jovial chamado Jon Landau. "Ontem foi definitivamente um dia abaixo do normal", diz Cameron. "A Weta só nos deu 31

tomadas para repassar."

"Hoje tem muito mais", responde Landau. "Algumas dessas tomadas demoram muito para criar. Quer dizer, a Weta tem a terceira ou quarta maior potência em computação do mundo."

"Do Hemisfério Sul", corrige Cameron.

"Do Hemisfério Sul", Landau continua, "7.500 processadores."

"Não, dez mil."

"Dez mil", fala Landau, e por aí vai. Cameron é a pessoa com todas as respostas. A grande surpresa, no entanto, é que parece ser um cara legal - tem olhos azul-claros e uma voz suave. Na verdade, é meio decepcionante, quando você foi levado a crer que o que poderia ver era ele dar esporro em algum subalterno.

"Reservado, quieto, não fala muito" é como um de seus colegas de ginásio se lembra dele. Seu pai era engenheiro em uma usina de papel, sua mãe uma ex-enfermeira, e juntos tiveram cinco filhos. Jim era o mais velho, gostava de construir coisas que voassem - uma vez, utilizou o calor de velas para enviar um saco de lavagem a seco às alturas, criando um susto local quanto a um óvni - ou fossem às profundezas, como fez com o rato no pote. Suas obras de arte frequentemente eram mencionadas no jornal local. Um colega de escola se lembra de um projeto de arte que consistia de um bebê de brinquedo preso a uma armação e coberto com um saco plástico, muito avançado para sua idade. "Eu não me achava estranho", conta Cameron. "Se as outras crianças me achavam estranho? Provavelmente."

"Ele era considerado por muitos um 'porre' - chato e tedioso", lembra Brett Palmer, um colega de ensino médio. "E não se defendia muito bem, ele tinha um alvo enorme nas costas."

"Eu não me dava com os fortões e eles não se davam comigo", diz Cameron, mas, claro, os fortões se davam com ele, sim, com socos no estômago e coisas do tipo. Parece se incomodar. "Não era tão ruim", fala, como se fosse estoico ou estivesse em negação. Então, como agora, seus sonhos eram "cheios de coisas horríveis e fantasmagóricas, ondas gigantes, levitação", que não podiam ser consideradas empolgação escapista até o dia em que viu 2001: Uma Odisseia no Espaço - depois disso, começou a rodar filmes caseiros.

Aos 17 anos, mudou-se com a família para a Califórnia, começou e abandonou a faculdade, casou-se com uma garçonete da rede de fast-food local, interessou-se por rachas (seu veículo: um Mustang Mach 1 1969, com um motor turbinado que ele mesmo reconstruiu) e teve vários empregos comuns, como caminhoneiro e zelador de escola. Gostava de sua cerveja, de seu baseado e seu ácido. "Mas é claro que sim, está brincando, na minha época de faculdade eu adorava ácido", conta. "Já era um cara viajandão, e percorrer o universo do seu cérebro à velocidade da luz é muito divertido, mas, no fim, não acho que isso seja muito criativo, porque você não consegue criar enquanto está viajando, não consegue fazer nada."

Então, depois de testemunhar o milagre de Star Wars, redobrou seus esforços para entrar para a indústria cinematográfica e, em 1980, conseguiu um emprego construindo maquetes na oficina de filmes B New World Pictures, de Roger Corman. "A beleza de trabalhar para Corman é que você não tinha pretensão alguma", lembra. "Se você conseguisse uma chance de dirigir, aproveitava, porque era um trabalho de direção. É o que todos estávamos ali para fazer." Um ano depois, Cameron aproveitou a chance de dirigir seu primeiro filme, Piranha II: Assassinas Voadoras, e, três anos mais tarde, rodou O Exterminador do Futuro, baseado em um de seus sonhos fantásticos. "Eu via essas imagens de uma figura metálica da morte surgindo do fogo como uma fênix", contou uma vez. "Acordei e comecei a escrever. Estava em Roma, não tinha como voltar para casa e mal conseguia falar o idioma. Eu me sentia alienado, então foi fácil imaginar uma máquina com uma arma."

Desde então, houve muitos orçamentos estourados, muitos casamentos fracassados (está no quinto, com Susy Amis, que segue Linda Hamilton, atriz de O Exterminador..., a diretora Kathryn Bigelow e a produtora Gale Anne Hurd - rodar filmes ao estilo de Cameron tem seu preço), bem como muitos inimigos e muitas alusões nada lisonjeiras feitas a ele, de coronel Kurtz a capitão Bligh e Napoleão. Tudo culminou no pódio dos vencedores do Oscar, com ele citando seu próprio filme e ouvindo todo aquele revide - injusto, em sua opinião. "Só compreendi a reação das pessoas ao ver Ang Lee citar O Segredo de Brokeback Mountain quando ganhou o Oscar, então pensei, 'Ah, agora entendi. Não cite seu próprio filme. É um pouco besta'. Mas, para mim, foi um momento em que estava me sentindo bem, mas entenderam como 'Ok, sou o rei do mundo, fodam-se vocês, fodam-se todos vocês'. Mas não me arrependo de coisas que faço e são mal compreendidas. Não penso dessa forma."

À medida que se desenrola, em qualquer discussão sobre Cameron, é difícil não querer reviver o passado infinitamente. Como poderia ser diferente? "Bem, sabe, acho um tédio falar sobre o lado furioso do Jim", diz seu velho amigo Paxton, só que Paxton não consegue evitar: "Ele é intenso e pode ser brilhante em sua ira, mas também ama fazer as coisas só pelo efeito. Por exemplo, quando está bêbado, toma uma golada de [rum] 151 e o cospe no chão enquanto acende um isqueiro nele. Ele sempre está aprontando algo". Esse "algo" resultou em uma verdadeira saga "vingança dos nerds" que continua sem parar, com outro momento divisor de águas na história do cinema prestes a acontecer, apesar de certa hesitação da parte de Cameron. "Você tem de ter limites", diz em uma tarde, friamente, pouco depois de haver falado sobre os incidentes de assédio na escola, uma conversa que chama de "coisa desconfortável, como sessões de terapia" e lhe faz se contorcer na cadeira. "Olha, estou focado nos resultados", continua, "não estou tão interessado em mim mesmo, o artista. Não persigo a fama de Hollywood ou o dragão do dinheiro".

"Ele é cheio de contradições", afirma Sigourney Weaver, estrela de Aliens e Avatar. "É um homem renascentista, um dos poucos na indústria do cinema. Tem uma mente brilhante e nunca é tão feliz quanto quando fala sobre ciência e o futuro." É este homem que está em evidência agora, sentado em sua sala de edição, explicando algumas das maravilhas técnicas que levaram a Avatar.

"Vê esta grade? Tem 10,6 m por 24,4 m, e acima dela há 120 câmeras usadas para capturar o movimento. A captura facial é feita por cima. Aqui está a Sigourney. O equipamento fotografa seu rosto, pega bem dentro da boca, a interação da língua com os dentes, dos dentes com os lábios, e assim por diante. Ela pega o movimento dos olhos". Seus olhos brilham. "Esta é uma coisa complicada, que, em um momento, estava além de todos nós, estávamos em território desconhecido. Nunca tinha trabalhado em um filme no qual não tivesse a mínima ideia do que estávamos fazendo." Parece feliz - talvez como tenha ficado quando era criança e mandou aquele rato no pote para o fundo de um riacho, bem longe dos fortões agressores que cresceram e se tornaram os executivos de estúdio que gosta tanto de enfrentar.

("Se você um dia for a uma reunião de 25 anos de formatura", disse recentemente, "garanta que, nos dois meses anteriores, você tenha rodado o filme mais lucrativo do mundo, ganhado 11 Oscars e ficado fisicamente maior do que a maioria dos caras que lhe batiam. Fui até eles e disse: 'Sabe, eu poderia lhe dar uma surra agora, e estou com vontade, mas não vou fazer isso'.")

Um pouco mais tarde, começa a falar sobre o futuro - e seu interesse na colonização de Marte. "Sabe de uma coisa?", diz, "Se eu fosse um dos donos do Google, estaria construindo um foguete agora. Poderia tomar posse de Marte. Poderia ser dono de um planeta!" Ele iria? "Tenho de pensar nisso", responde. "A única maneira de fazer isso de um jeito barato é ir, sem voltar. Parece maluquice, mas não é. A maioria das pessoas desperdiça a vida com bobagens mundanas. Quantas têm a chance de fazer algo extraordinário?" Mas ele iria? "Agora não, só por causa da minha mulher e meus filhos." Então, você perceber que sua mente começar a viajar. Ele já testemunhou muitas coisas extraordinárias. "Não sei", finalmente responde. "Tenho de pensar." Só que, da forma como ele diz isso, você sabe que a decisão já está tomada.