COP-15: a causa verde amarelou

Conferência da ONU deveria estabelecer metas para deter as mudanças climáticas, mas foi presa fácil na natureza selvagem da política

Da redação Publicado em 12/01/2010, às 19h00

Ninguém tem dúvidas de que o assunto está pegando fogo. Quer dizer, só os chineses. E os estadunidenses. Pensando bem, alguns europeus também chiaram. E parte dos brasileiros bateu o pé. Tudo bem: não há consenso algum sobre o aquecimento global. Ou melhor, até há, mas quase ninguém quer tomar responsabilidade.

Com exceção da leva paranoica que esperneia sobre uma conspiração mundial para exagerar a participação do homem no curto-circuito ambiental da Terra, o mundo aceita que, caso a temperatura média do planeta cresça mais do que 2°C no século 21 (em relação à era pré-industrial), a conta desse consumo desenfreado dos recursos do planeta vai chegar. Mais cedo ou mais cedo ainda. E as próximas gerações vão pagar caro.

De 7 a 18 de dezembro de 2009, Copenhague, a capital dinamarquesa, recebeu lideranças de todas as partes do mundo para discutir as mudanças climáticas que ameaçam a vida como ela (ainda) é na Terra. Tratava-se da COP-15: 15ª Conferência das Partes, organizada pelas Nações Unidas (ONU) a fim de selar acordos, preferencialmente com poder de lei e abrangência internacional, para minimizar o impacto do homem na Terra.

Cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) soaram o alarme, mais ruidoso do que pancadão heavy metal em fone de ouvido: o mundo precisa pôr o pé no freio. Estudo recente diz que, se chegarmos àqueles 2°C nos próximos 100 anos, o nível dos mares pode subir em torno de 9 metros. Se isso acontecer, adeus, populações costeiras. Pelo menos, projeções sinalizam que boa parte delas sumiria, literalmente, do mapa. Devassada em 2005 pelo furacão Katrina, Nova Orleans, por exemplo, é uma das cidades que perigam acabar debaixo d'água.

O derretimento de geleiras - que acarretaria nos 9 metros de água extra mensurados em 2009, previsão mais alta do que qualquer outra feita no passado - também pode comprometer a Ilha de Tuvalu, no Oceano Pacífico. Tuvalu quem? Até então ilustre desconhecido nas relações internacionais, o pequeno pedaço de terra com menos de 12 mil habitantes virou símbolo do fracasso de Copenhague. Representante da ilha, uma ex-colônia britânica na COP-15, Ian Fry roubou os holofotes ao afirmar que "o destino [de Tuvalu] está na mão de vocês", em referência aos líderes mundiais que formulariam o documento final de Copenhague - aquele que estabeleceria metas concretas para diminuir a emissão de carbono e outros gases de efeito estufa, aumentar o uso de energias limpas e deter o desmatamento, para ficar em alguns exemplos.

O clima na COP-15 era de "agora ou nunca". Está mais para a segunda opção. Com participação de líderes de cerca de 120 países, o encontro fracassou em produzir um acordo com valor legal (porque, como você deve ter adivinhado, depender da boa vontade não é exatamente a melhor estratégia) para frear o aquecimento global.

Secretário-geral das Nações Unidas, o sul-coreano Ban Ki-Moon se contentou com o que tinha em mãos. "O Acordo de Copenhague pode não ser tudo o que todo mundo esperava, mas é um começo importante", disse. Em suma: para quem espera uma conferência com mais do que "começo" (meio e fim seriam boas pedidas), melhor aguardar a COP-16, marcada para acontecer até o final do ano no México. Lá, a discussão será retomada e poderá avançar. Ou não.

Cozido por Estados Unidos, Brasil, China, África do Sul e Índia, o acordo final não foi unânime na plenária da conferência, ocorrida no gelado Bella Center, centro de convenções em Copenhague. Cerca de 30 países, entre eles Estados Unidos e China, os bichos papões da poluição, além do Brasil, levantaram o polegar para metas como pôr o teto de 2°C para a temperatura média do planeta e a criação de um fundo de US$ 100 bilhões (destinados a países pobres) para combater o revés climático. O corte na emissão de CO², ponto capital do debate, ficou de fora do acordo.

É claro que ninguém quer trazer para a vida real o apocalipse que Hollywood alardeia há anos, em produções como O Dia Depois de Amanhã e o mais recente 2012. Mas a questão político-econômica pesa. Países desenvolvidos (principalmente os EUA) não queriam arcar com todas as despesas, nem brecar sua indústria. Países em desenvolvimento reclamaram por terem entrado na festa do desenvolvimento mais tarde. Para não passar a impressão de "conversa para boi dormir", o acordo precisava ser aprovado por todos - norma da ONU para torná-lo legal. Venezuela e Cuba eram alguns dos opositores mais barulhentos.

A União Europeia chamou a COP-15 de "grande fracasso". Lula culpou a UE. A China, que vetou metas de longo prazo para reduzir emissões de CO² em 50% até 2050 (em referência a níveis de 1990), foi acusada de "sequestrar" a conferência. Os Estados Unidos também foram taxados de vilões. De cabelos brancos e feições abatidas, Lula estampou outdoors mundo afora dizendo a seguinte frase: "Desculpem-me. Nós poderíamos ter freado a catástrofe climática. Mas não o fizemos".

A culpa era de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém. A COP-15 começou com pretensões de ser a herdeira bem-sucedida do insuficiente Protocolo de Kyoto. Agora, só mais tarde. Se não for tarde demais.