Um Senhor de Bem

Enquanto Johnny Alf luta contra o câncer, amigos relembram o valor de sua obra

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 22/02/2010, às 09h23

Johnny Alf fez muito pela MPB, mas não foi reconhecido
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" Se Johnny Alf não foi um grande sucesso popular, azar do sucesso.Um puta azar...", esconjura Luís Carlos Miéle, minutos antes de apresentar Genialf, show de Filó Machado e Cibele Codonho em homenagem ao amigo Johnny Alf, em São Paulo, no mês passado. O mestre de cerimônias está duplamente certo. Primeiro porque, de fato, fazer valer o "p" em MPB nunca foi o forte de Alfredo José da Silva, 80 anos completados em maio. E Miéle acerta de novo ao dizer que o Silva que virou Alf, um "voluntário ermitão da música", não saiu perdendo. "Ele se afastou de todas as possibilidades de sucesso. Ter talento sempre lhe bastou."

O exímio pianista do lendário bar do Plaza, o compositor com tiques de Cole Porter, o precursor da bossa nova, o alquimista que usava o jazz para ver que samba dava, o brasileiro com nome artístico de crooner de boate em Las Vegas, o amigo que recomenda Amy Winehouse à cantora Cibele Codonho, o artista que passa longos períodos na Sibéria musical do país (este lugar com recepção popular bem mais gelada do que aquela reservada a contemporâneos como Tom Jobim - de quem, aliás, recebeu o apelido "Genialf"). É essa a biografia esquizofrênica, com pontos que passeiam por sua carreira como carrinhos de bate-bate, de Johnny Alf.

Recluso por natureza, o músico está ainda mais na toca, em luta há três anos contra um câncer de próstata. Passou boa parte desse tempo internado no hospital Mário Covas, em Santo André, no ABC paulista, com parte das despesas médicas paga pelo governo estadual. Atualmente, vai ao hospital toda semana para agressivas sessões de quimioterapia, conta Nelson Valencia, seu empresário desde o começo dos anos 90. O octagenário não produziu muito nos últimos dez anos, mas um disco seu, gravado em Nova York cerca de dez anos atrás, permanece inédito, garante Valencia. Nos últimos anos, parte do acervo de Johnny foi relançada pela Warner.

"O cara tinha letras e harmonias absolutamente inéditas na música brasileira, e é por isso que Cesar Camargo Mariano, Roberto Menescal, Luiz Eça e Carlos Lyra, garotos que mal podiam entrar no lugar, iam ao Beco das Garrafas só para vê-lo", lembra Miéle. O fato é que, de Tom Jobim a João Gilberto, cedo ou tarde quem já era ou ainda seria alguém na música brasileira passava por lá para ouvir Johnny tocar uma música que não era bem jazz, mas também não era samba, e ao mesmo tempo levava um bocado dos dois. Com molho extra. Um trailer tanto da bossa nova como do samba-rock. Alguns artistas têm trajetória clara como propaganda de alvejante. Se a de Johnny é mais encardida em termos de popularidade, a mudança para São Paulo em meados dos anos 50, com a bossa nova acomodada no barquinho que a levaria à maré de sucesso, pode não ter caído bem para a turma carioca.

"O que ele tem de talento, falta de marketing", especula Miéle. Já Ed Motta topa com uma pedra racial no meio do caminho: "Naquela época, o preconceito era muito pior, e isso marca. De Elza Soares a Cartola, milhares de gênios ficaram à margem desta maioria prestigiada". O sobrinho de Tim Maia também acha que Johnny é "antítese da música brasileira há muito tempo" por ser "ultrassofisticado", coisa que saiu de moda ao mesmo passo que "os pianos foram sendo deixados para o lado". "Ele deveria estar fazendo turnê no mundo inteiro, tocando em todos os festivais de jazz. Tem muita gente nada a ver fazendo isso hoje. As pessoas compram gato por lebre."