Memórias de um Beatle

Ringo Starr fala sobre Y Not, seu álbum mais recente, sobre tocar com Paul McCartney e odiar celulares

Por Neil Strauss Publicado em 17/03/2010, às 14h15

Ringo não tem medo de cantar sobre o passado

Ver Galeria
(11 imagens)

Ringo Starr está sentado no meio de uma galeria de arte em Santa Monica, selecionando suas músicas preferidas para uma playlist de famosos do iTunes. É uma visão estranha, porque nos últimos seis anos o catálogo dos Beatles esteve conspicuamente ausente do iTunes, apesar de vários anos de boatos de que o grupo e a Apple haviam chegado a um acordo. Usando óculos escuros e uma camiseta vermelha estampada com uma foto de Frank Sinatra quando foi preso, Starr parece bem mais jovial do que seus 69 anos. "Estou de volta ao reggae", explica enquanto adiciona Burning Spear e Peter Tosh a sua playlist, junto com Sam Cooke, Michael Jackson e o primeiro disco que comprou, "Love Is a Many-Splendored Thing", do Four Aces.

Relembre, nas imagens ao lado, a carreira de Ringo Starr.

Don Was, que toca baixo no novo (e 15º) álbum de Starr, Y Not, pergunta a ele se encontrou Marley. "Não conheci Bob Marley", responde Starr em seu sotaque oscilante. "Mas ele pode ter me conhecido." Ele não está sendo arrogante - simplesmente vivenciou mais do que consegue lembrar. "Já me pediram para escrever um livro, mas só querem de 1962 a 1970", afirma, referindo-se ao auge dos Beatles. "E sempre digo que haverá nove volumes antes de chegarmos lá."

Então, em vez disso, Starr tem encaixado sua história em suas músicas. Em "The Other Side of Liverpool", de Y Not, canta sobre o pai abandonar a família quando Ringo tinha 3 anos, sua mãe aceitar um emprego de garçonete de bar e os amigos que fez ao trabalhar como aprendiz de empreiteiro aos 17 anos. "O plano é, se eu fizer outro CD, haverá outro vislumbre de Liverpool", diz, depois para e olha para Bruce Grakal, seu advogado e amigo. "Este é um ótimo título: Another Glimpse of Liverpool. Onde o sol sempre brilha!" Os dois riem sobre a letra irônica enquanto sobem a escada até o estúdio de Was. No caminho, Starr explica a situação com o iTunes: "Bom, a coisa com o iTunes é, sabe, uma situação de três vias. Os Beatles estão interessados, a Apple também, mas ainda não há nenhuma conclusão".

Y Not é o primeiro álbum que Starr basicamente produziu sozinho e, como boa parte de sua carreira solo nos últimos 20 anos, recorre à nostalgia. Com suas letras autorreferentes cantadas na voz afável, mas imperfeita, de Starr, é agradável e melancólico, mas é um álbum mais para fãs de Ringo do que para fãs de música em geral. O disco conta com duas colaborações com Paul McCartney, marcando a primeira vez que os dois pisaram juntos em um estúdio em 12 anos. McCartney canta em "Walk with You", um louvor doce a Deus e à amizade duradoura em rock suave, e toca baixo em "Peace Dream", uma homenagem a John Lennon, com Starr cantando o verso "So try to imagine if we give peace a chance" [Tente imaginar se dermos uma chance à paz]. "Teria sido esquisito se você tivesse feito isso, mas para mim foi mais fácil porque o conheci", afirma Starr. Nem toda música fala dos Beatles. Em "Fill in the Blanks", uma faixa nada caracteristicamente raivosa, ele reclama da tecnologia moderna. "Todos têm esses celulares idiotas agora", diz. "Dizem tchau, mas quando chegam ao carro já estão ligando novamente."

Por enquanto, Starr está em uma nova fase de produtividade. Lançou três álbuns solo em cinco anos, muito diferente do final dos anos 80 e início dos 90, quando passou nove anos sem lançar um disco de estúdio, parcialmente devido ao abuso do álcool. "No início dos anos 70, gravei meus melhores álbuns", conta Starr. "Mas nos 80... estava mais interessado em outras coisas." Quando Starr começa a discutir seu estilo de tocar bateria, Was entra no estúdio e interrompe. "Se você voltar e ouvir uma música como 'Something', ele dá o preenchimento no mesmo lugar em que um guitarrista daria", diz Was. "Sempre achei que, se você está cantando, vou me conter", responde Starr. "Mas, se você parar, eu entro! É como quando eu tinha 13 anos. Entrei para bandas para tocar com bons músicos. Era tudo o que queria. É claro que acabei entrando em uma banda realmente ótima, mas foi um pouco louco."