Cara Estranho

Como Rivers Cuomo envelheceu, constituiu família e aprendeu a se relacionar com o universo sem perder seu apelo de roqueiro geek frente ao Weezer.

Por Gavin Edwards Publicado em 16/03/2010, às 07h22

Rivers Cuomo posa em Santa Monica (Califórnia), em setembro

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Rivers Cuomo, vocalista e compositor da banda weezer e outrora prodígio nerd do rock, completou 39 anos. Hoje ele tem uma família, uma casa bem mobilhada e os primeiros sinais de calvície. Em seu tempo livre, gosta de esculpir em madeira e é capaz de dissertar com propriedade sobre as vantagens do crochê em relação ao tricô. Mas é impossível perceber tudo isso ao escutar o mais recente álbum do Weezer, Raditude. As músicas têm títulos "felizes" como "Trippin' Down the Freeway", "Let It All Hang Out", "The Girl Got Hot" e, bem, "Can't Stop Partying". Cuomo diz querer "criar uma atmosfera de diversão" para os fãs do Weezer. "Tenho de me divertir com o que estou fazendo", diz, "mas não consigo fazer isso se estiver cantando sobre algo que significa muito para mim, mas que as outras 15 mil pessoas na plateia não querem ouvir". Por boa parte de sua carreira profissional, Cuomo não se divertiu com o que fazia. Em 1995, quando deveria estar aproveitando o sucesso do álbum de estreia da banda (conhecido como o "disco azul"), o vocalista escreveu o seguinte em seu diário: "Estou sentindo a escuridão se fechar. Me sinto muito sozinho. Insano de verdade. Toco piano constantemente. Pelo menos quatro horas por dia, no total, concentração completa e mente vazia... Estou pirando, definitivamente".

Cuomo tem sabotado a própria carreira constantemente. Passou 13 meses com a perna direita engessada depois de quebrá-la propositalmente para que ficasse do mesmo comprimento que a esquerda. Cursou Harvard com frequência irregular entre os 25 e os 34 anos, antes de se graduar Phi Betta Kappa [distinção mais ligada às artes do que ao desempenho curricular]. Passou boa parte dos anos de 1998 e 1999 enfiado em um apartamento, em Los Angeles (com as paredes pintadas de preto e as janelas cobertas de insulfilme), compondo obsessivamente e tentando desvendar o código secreto da música. [Em dezembro passado, Cuomo sofreu um acidente com o ônibus de turnê que resultou em cinco costelas fraturadas e o pulmão perfurado. Após um mês e meio de recuperação, ele voltou à estrada com o Weezer].

A intensidade desastrada de Cuomo o ajudou a vender oito milhões de discos só nos Estados Unidos, com sucessos que vão de "Buddy Holly" a "Pork and Beans" estourando nas rádios. O álbum Pinkerton serviu de mapa para o movimento emo, com suas letras confessionais sobre a volubilidade de Cuomo e sua tara por japonesas. Agora, parece que ele finalmente encontrou certo equilíbrio em sua vida. "Está bem difícil reclamar", conta, sorrindo.

É uma tarde chuvosa de terça-feira, em Los Angeles, e Cuomo está gravando uma música sobre insetos para o programa infantil Yo Gabba Gabba! No estúdio caseiro do veterano Tony Berg - uma pequena cabana, logo depois da piscina, com uma cópia do vinil The Chipmunks Sing the Beatles Hits na parede. Lendo os versos em seu BlackBerry, Cuomo canta, "Ele dorme o dia todo e flutua pelo ar". Na quinta, os integrantes do Weezer se vestirão como insetos e tocarão no programa, por isso Cuomo está preparando sua própria versão da música.

"Quero subir uma nota um tom", ele diz. "Fica bom?"

"É, soa legal", diz o produtor Shawn Everett. "Tem como cantar a partir do começo do verso da libélula?" "Estes são meus amigos, mesmo sendo insetos", canta Cuomo, jogando o peso do corpo de um pé para outro. Ele para, balançando, avaliando a frase.

"É um verso bem legal."

Depois de acabar a música, Cuomo se senta em um banquinho no estúdio para falar sobre si mesmo. Frequentemente faz pausas longas antes de falar, não como se estivesse tentando se esquivar das perguntas, mas sim construindo as respostas cuidadosamente em sua cabeça. Cuomo cresceu em um ashram [uma comunidade ligada ao hinduísmo] em Connecticut, e às vezes tem-se a impressão de que jamais aprendeu as regras básicas de interação humana.

Lembro Cuomo de quando, em 1996, estive no ônibus de turnê da banda, no Texas, e assisti com os outros três membros do Weezer enquanto ele entrava no Holiday Inn com uma garota que tinha pegado depois do show. O horário de saída veio e passou, e ficava cada vez mais claro que Cuomo não sairia do quarto tão cedo. Depois de alguns telefonemas nervosos, o gerente de turnê ordenou que o motorista seguisse para o leste; pela manhã, Cuomo pegou um avião para a próxima cidade. "Só ouvir essa história já me deixa triste", diz Cuomo. "Eu estava tentando descobrir como ser feliz e agindo como um astro do rock supostamente deveria. E sei que aquilo era um beco sem saída." Ele reflete: "Passei a vida alternando entre ter móveis absurdos e viagens caras até ter só um tapetinho no chão de um apartamento vazio". Ele faz uma pausa de novo, deixando o silêncio tomar conta do ambiente. "Não quero me julgar, porque fiz o melhor que podia, mas passei por extremos desnecessários. Hoje, tudo isso me parece um tanto idiota. Desde que me casei, as coisas se estabilizaram de verdade."

Cuomo conheceu a esposa dele, Kyoko, em 1997, depois de um show solo em Boston; ele a notou na plateia e a procurou depois que o espetáculo acabou. Os dois ficaram amigos, "mas não tivemos muitos encontros propriamente ditos, como casal", diz Cuomo. Há alguns anos, quando ele decidiu que queria se casar, começou a pensar nela. Infelizmente, a garota havia voltado para o Japão, acabando com a oportunidade de uma aproximação mais direta - restando a eles apenas ligações telefônicas e duas viagens para se verem. Ao fim de 2005, quando o Weezer estava excursionando no Japão, "tirei a aliança do bolso e me ajoelhei", lembra-se. "Foi um passo enorme e assustador, mas fico feliz por tê-lo dado." O casal tem uma filha de 2 anos - e ele pede para que o nome dela não seja publicado -, que gosta de imitar as performances do pai no palco, tocando airguitar e depois pegando uma imaginária garrafa de Gatorade.

Cuomo tira três meses de férias do Weezer todo ano. Parte do tempo é passado visitando a casa dos pais de Kyoko, no Japão, mas 45 desses dias são devotados ao silêncio completo da meditação Vipassana, em um dos centros que transmitem os ensinamentos de S. N. Goenka. "Sei que parece radical, mas fui trabalhando isso aos poucos, gradualmente", conta. Ele começou a meditar em 2003, seguindo uma sugestão do produtor Rick Rubin. "Me deu um meio de me livrar de necessidades, aversões, instintos, obsessões, sentimentos", explica ele. Ao ser questionado sobre como descreveria Cuomo, Brian Bell, guitarrista do Weezer, diz: "Ele é uma das pessoas mais focadas que já conheci. E uma vez, quando fomos a um restaurante, ele pediu um copo de leite - nunca tinha visto um adulto fazer isso". Raditude, o sétimo álbum do Weezer, é recheado de hinos grandiosos e distorcidos no estilo power-pop. O primeiro single, "(If You're Wondering if I Want You to) I Want You to", é uma ode à eletricidade constrangedora da luxúria juvenil. Mas hoje as músicas soam mais como metáforas da vida de Cuomo do que descrições literais. "I'm Your Daddy", por exemplo, soa como uma desajeitada tentativa de sedução sustentada por um groove grave de eletro: "Eu gostaria de te dar uma demonstração do que faço / Te levar para jantar no Palermo, dividir um fondue de queijo". Mas a origem da música está em uma semana tensa, quando a filha esteve no hospital. "A contagem de células brancas dela caiu muito e ninguém sabia o que estava acontecendo ou se ela melhoraria", conta. Depois de ficar ao lado da cama dela por cinco dias, ele tirou uma folga. "Não estava adiantando nada ficar lá 24 horas por dia. Então saí e escrevi essa música, e a primeira frase era 'Você é meu bebê esta noite, eu sou seu papai'. E continuou a partir daí e tinha tudo o que eu amo: riffs pesados, melodias bonitas e linhas de eletro com sintetizadores." Cuomo é um compositor solitário, normalmente. Ele tem centenas de músicas inéditas arquivadas (37 de suas gravações demos podem ser ouvidas nos álbuns Alone e Alone II). Cuomo também demonstra sua esperteza quando está sozinho, digitando seus pensamentos no Twitter ("Como Nietzche tem tão poucos seguidores no Twitter?"). Este ano, ele está em clima de parcerias. Ele se inspirou no evento que protagonizou em conjunto com a turnê de 2008 do Weezer, no qual fãs chegavam com instrumentos e tocavam as músicas da banda - às vezes meio sem jeito, mas sempre com alegria. O DVD Not Alone documenta um show no qual Cuomo se vestiu de maquinista, cantou "Butterfly" com um banjo acompanhando e conduziu centenas de fãs que cantavam "El Scorcho". Ele também procurou outros músicos, algo que começou quando Shirley Manson, do Garbage, pediu que ele a ajudasse a compor para o novo (e ainda inédito) álbum solo dela. "Era coisa fina em questão de composição pop", diz ela. "Rivers tem essa coisa extraordinária. Todas as minhas amigas têm uma queda louca por ele." Cuomo se divertiu tanto que resolveu entrar em contato com outros compositores, de Dr. Luke a Aly e AJ. "Ele coescreveu com cada panaca do país, incluindo eu", diz Butch Walker, que trabalhou em "The Girl Got Hot" e no single "I Want You to". "Cuomo quer sempre que tudo seja um desafio e um experimento - ele tem esse charme de garotinho, mas a mente de um gênio." Walker, fã do Weezer de longa data, sentiu a responsabilidade de fazer algo que fosse relevante para as rádios pop, como Cuomo queria, mas fizesse jus aos clássicos da banda: "Disse a ele que queria 'My Name Is Jonas', não Nick Jonas". Algumas das músicas eram destinadas a outros artistas: "Pick You Up", por exemplo, foi recentemente gravada por Adam Lambert, estrela do programa American Idol. Cuomo admite que "ele tem uma voz mais convincente do que a minha". Katy Perry gravou outra. "Gosto muito de todas essas garotas estrelas do pop", confessa Cuomo, sem disfarçar o entusiasmo. "Miley Cyrus é minha favorita."

O título Raditude veio de Rainn Wilson, ator mais conhecido pelo papel de Dwight em The Office. Depois de entrevistar Cuomo para seu site SoulPancake, Wilson soube que o Weezer estava procurando um título que tivesse um certo sentimento de rebelião juvenil para o álbum. Ele fez uma lista que incluía Arrow Through the Head and Into the Brain (Flecha Através da Cabeça até o Cérebro) - e Raditude. Cuomo sentiu a necessidade de arrumar um significado para a palavra, que hoje ele define como o estado de concentração necessário para realizar feitos que de outro modo seriam impossíveis - como sua habilidade de dar um salto mortal de costas da plataforma da bateria, durante os shows (Wilson tem uma definição mais simples: "awesomeness", ou "sensacionalidade").

A melhor e mais surpreendente colaboração em Raditude é "Can't Stop Partying", que inclui uma parte rap com participação de Lil Wayne (Cuomo não chegou a conhecê-lo: "Ele se esgueirou para dentro do estúdio quando eu tinha saído"). A música havia sido originalmente escrita pelo produtor de R&B Jermaine Dupri como um hino às baladas. Cuomo não se sentia confortável em celebrar o consumo indiscriminado de tequila e ecstasy, mas quando tentou mexer na letra a alternativas não pareciam muito boas. Cuomo passou semanas pensando na música. Durante a meditação, encontrou a solução: diminuiu a intensidade da letra incluindo acordes mais tristes, em tom mais baixo. "Agora você ouve tristeza e desespero", diz. "E com isso eu consigo me identificar." Cuomo enfia as mãos bem fundo nos bolsos, procurando alguma coisa. Não tenho como saber se encontrou. "Preciso dessa complexidade", diz. "O equilíbrio entre a luz e a escuridão."