Viagem sem Fim

Em uma rara conversa com os quatro integrantes juntos, o Franz Ferdinand explica como é ser uma banda de rock do mundo pós-internet

Paulo Terron e Pablo Miyazawa Publicado em 09/11/2010, às 13h06 - Atualizado em 21/05/2012, às 14h15

(Da esq. para a dir.) Bob Hardy, Nick McCarthy, Alex Kapranos e Paul Thomson: acostumado a rodar pelo mundo, o Franz Ferdinand se sente de pernas para o alto quando passa pelo Brasil

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O Franz Ferdinand já se apresentou no Brasil nos formatos mais variados: abrindo para o U2 em estádios, em premiação da MTV, em festa de bebida alcoólica, em festival e em uma apresentação no Circo Voador que entrou para a história dos grandes shows já realizados no Rio de Janeiro. Mas só neste mês a banda vai poder dizer que fez uma turnê verdadeira pelo país, com datas em quatro cidades. "É uma turnê bem específica, algo à parte", explica o vocalista e guitarrista Alex Kapranos. "Não são só umas datas que marcamos para o fim de uma outra viagem qualquer." O guitarrista Nick McCarthy concorda: "Aqui é um lugar especial, nunca faríamos shows comuns".

Assista ao making of das fotos com o Franz Ferdinand.

Antes de partir para shows em Porto Alegre (dia 18),Rio (19), Brasília (21) e São Paulo (23), a banda -completada por Paul Thomson (bateria) e Bob Hardy (baixo) - se reuniu, na capital paulista, onde se apresentaria em eventos promocionais, para falar sobre a vida na estrada, turismo, a evolução da música e a falta de habilidade dos músicos nos videogames.

Vocês fazem muitos shows. Como fazem para distribuir o tempo entre as coisas que precisam e querem fazer quando estão viajando?

Alex Kapranos: Como qualquer outra pessoa que tem obrigações e que também quer aproveitar algum tempo livre, acho. Deve ser o mesmo para vocês, não é?

Mas vocês estão viajando de cidade para cidade.

Alex: É verdade. Cada um lida com isso de uma forma.

Paul Thomson: Quando viajamos de ônibus, geralmente é à noite - então simplesmente dormimos. Não perdemos o dia nem nada assim.

Alex: Às vezes você tem tempo, às vezes não. Eventualmente dá vontade de ir conhecer algum lugar - especialmente São Paulo. Sinto que só vi um pouquinho da cidade, então queria conhecer mais.

Nick McCarthy: Costumamos sair depois do show. Aquela região do São Cristóvão [Vila Madalena] é legal?

É sim, tem uma grande concentração de bares.

Nick: No domingo passado eu fui a um ensaio de escola de samba, foi incrível. Foi bem ali naquela região. Rola uma concentração incrível por ali, com muita gente na rua, aos domingos.

Alex: Como assim pela rua? Tipo uma fila de conga?

Não exatamente. Existe uma escola de samba em Glasgow, não?

Nick: Não! [risos]

Alex: Tem, sim. Não sei se essas escolas são muito grandes, mas elas existem. Paul: Eles fazem shows todo ano... É horrível.

Nick: Não é uma coisa muito legal, não. [risos]

Bob Hardy: Chega a ser representativo na Escócia...

Nick: ... mas seria a mesma coisa que vocês terem uma cena de música escocesa por aqui.

Alex: Rola uma escola de gaita de fole por aqui?

Não, não! [risos]

Bob: Se temos samba, vocês precisam ter gaitas de fole!

Nick: Mas olha, eu fui ao parque aqui em São Paulo, sábado passado, e tinha um cara vestindo um kilt! Aliás, era alguma coisa muito estranha: umas pessoas vestidas de cavaleiros ingleses lutando contra os escoceses.

Tipo um role playing game?

Nick: Acho que sim. Tinha muitos highlanders.

O que é o samba para vocês? Quando eu digo "samba", vocês pensam em quê?

Bob: Percussão! [risos]

Alex: Acho que é o ritmo, não é? Parece ser o coração da coisa toda. É uma palavra que remete a impressionante como tudo é alto! Toda aquela percussão e chocalhos de metal...

Nick: O vocal também. Eles colocam no volume máximo. É extremamente alto, fizeram a mesma coisa no samba que ouvi domingo passado. É impressionante

Entre o primeiro álbum e o segundo, vocês não pararam para descansar e compor as músicas. Já entre o segundo e o terceiro, houve um tempo...

Alex: [interrompendo] Não houve, não.

Uns seis meses, não?

Paul: Ah, é, mas nesse tempo não teve folga. Acabamos a turnê e fomos morar juntos para fazer o disco.

Alex: Além disso, tivemos outros compromissos nesse período: o Grammy e coisas desse tipo. Acho que, para quem vê de fora, pode parecer que existem uns períodos de tempo grandes entre um álbum e outro... Para os fãs pode parecer muito tempo. Se eu fosse um, pensaria: "Nossa, mas faz tempo que o último disco foi lançado! Por que eles ainda não fizeram outro?" E a resposta é, bem, porque estamos aqui falando com vocês. E fazendo shows. Então, sim, tivemos uma pequena pausa entre os dois trabalhos mais recentes, mas não foi algo tão intenso quanto pode parecer. Não tem tanto tempo quanto tivemos para juntar a banda e fazer o primeiro disco.

Mas existe um processo que vocês tenham adotado? Agora vocês escrevem as músicas na estrada ou esperam para fazer isso em estúdio?

Alex: Fazemos dos dois jeitos, acho. Não temos regras rigorosas. Nick e eu temos escrito um pouco. Na semana passada estávamos em Londres e, enquanto esperávamos um voo, trabalhamos em uma música - só porque tínhamos aquele tempo livre, juntos. Ainda não tenho certeza do que faremos com o próximo disco.

Existem artistas que não gostam de compor durante as viagens porque, segundo eles, você está exposto a coisas chatas, como quartos de hotel e check-ins em aeroporto.

Alex: Não dá para escrever muito porque você não tem tempo livre para fazer isso. Mas eu já escrevi canções boas enquanto viajava. Escrevi "Walk Away" em turnê, e gosto bastante dela.

Nick: No último disco teve "Send Him Away" também. Acho que acabam surgindo muitos fragmentos de músicas nesse período.

Quais tipos de música nascem mais na estrada? As que são compostas no violão, quando você não precisa de teclados e coisas assim?

Alex: Particularmente, acredito que qualquer canção pode ser tocada em um violão. Mesmo que você imagine um trecho que peça um sintetizador. Deixa eu pensar em um exemplo...

Nick: "Ulysses".

Alex: Isso! "Ulysses" usa um sintetizador e uma bateria eletrônica, mas você consegue reduzi-la a um violão. Dá para ouvir a melodia dela. E melodia é melodia. Um ritmo é um ritmo. É só usar a imaginação. Pense no modo que um compositor erudito usa: ele não escreve com uma orquestra à frente dele. Ele se senta ao piano e usa a imaginação para saber como os outros instrumentos soarão.

Dá mesmo para reduzir "Ulysses" ao violão?

Alex: Na verdade, essa música nasceu com o baixo. E, depois, a maior parte foi composta no piano. Ela não nasceu do sintetizador. A maior parte das músicas pode ser arranjada para qualquer instrumento. Talvez isso fique mais claro quando você escuta versões de canções. Como se chama aquela banda francesa que faz covers?

Nouvelle Vague.

Alex: Mesmo que não te agrade, faz você perceber que é só uma música - e que ela pode ser arranjada da forma que você preferir.

Vocês sempre viajam com violões por perto?

Alex: Eu não trouxe nenhum desta vez, já que seriam só alguns poucos dias, mas costumo, sim.

Isso quer dizer que não ouviremos nenhuma música nascida por aqui no próximo CD.

Nick: Mas olha só, pelo menos estamos levando muitos discos brasileiros que compramos por aqui.

Antes do Tonight: Franz Ferdinand (2009) sair, vocês fizeram um teaser em vídeo que mostrava as capas de alguns discos brasileiros. O quanto da informação que vocês absorvem nas viagens acaba no trabalho de vocês?

Alex: Isso até acontece, mas hoje é tão mais fácil achar música na internet, no blog de alguém, que nem precisaríamos viajar.

Bob: Ontem um amigo me levou para comprar discos e voltei com uma pilha de samba-rock. E uns dois discos do [Luiz] Bonfá. Então os amigos também ajudam.

O que mais você comprou?

Bob: Tim Maia, aquele álbum estilo disco dele. Os Originais do Samba. E um lance meio ítalo-brasileiro, cujo nome esqueci. Talvez nem seja brasileiro, só italiano.

Vocês já tocaram com o Green Day. Como foi enfrentar um público tão diferente do seu?

Alex: Nós também pensamos isso antes da turnê, mas não foi tão diferente assim. Houve um nível alto de reconhecimento das nossas músicas. E posso falar por mim: se vou a um show, interesso-me por bandas bem diferentes. Posso ver o Public Enemy em um dia e o Arcade Fire no outro. São tipos bem distintos de música, mas gosto de presumir que as pessoas tenham gostos variados. Pareceu- nos que foi assim com o público do Green Day. O público costuma gostar de bandas boas, não de algo muito específico.

Existe uma barreira para o Franz Ferdinand no mercado norte-americano? O mercado de lá ainda é difícil para os europeus?

Alex: Sempre nos demos bem por lá. Muita gente nos disse que os Estados Unidos eram um lugar difícil para os britânicos - e até conheço alguns de nossos contemporâneos que tiveram dificuldade por lá -, mas...

Paul: É mais fácil na parte costeira. Sempre nos demos bem no oeste e no leste, mas no meio do país, nas cidades menores, é mais difícil mesmo. Não sabemos por que, mas é assim. Nas cidades que têm universidade também somos mais populares, já que eles têm um monte de estudantes jovens.

Alex: Tudo depende da quantidade de shows e turnês que você faz. As bandas de lá viajam muito mais pelos Estados Unidos, então conseguem construir a reputação delas. É simples assim. Acontece a mesma coisa com grupos norte-americanos que vão tentar a sorte na Europa e precisam tocar em lugares menores. Foi assim com artistas que consideramos nossos correspondentes, como o Modest Mouse, Death Cab for Cutie e Of Montreal. Os lugares onde eles tocam nos Estados Unidos são muito maiores que os na Europa.

Bob: Para eles, uma turnê britânica se resume a um show em Londres e outro em Glasgow. Do nosso lado, quando vamos aos Estados Unidos passamos um mês por lá - e as viagens internas deles duram mais de três meses.

A música de vocês é universal?

Alex: Com toda certeza. Somos de Glasgow, mas não acredito que você precise ser escocês para gostar de nós. Tem muita música que é assim: você não precisa ser brasileiro para gostar de Jorge Ben.

Ao mesmo tempo, o rock é a música pop de vocês. No Brasil, não é a nossa. Dá para sentir isso nos shows de países latino-americanos?

Bob: Sentimos que parece ser especial. A reação das pessoas brasileiras é excepcional, elas se jogam de cabeça. Todo mundo parece estar grato por você ter vindo até aqui, é um grande acontecimento.

Alex: Existe também algo mais social. Em alguns lugares da Europa e dos Estados Unidos, as pessoas são mais reservadas. Eles vão à loucura, mas do modo deles. Por aqui - e também no sul da Europa - as pessoas têm menos limites, divertem-se mais. Ficamos muito gratos.

Vocês se apresentaram aqui em todas as turnês, o que é razoavelmente incomum para uma banda estrangeira.

Nick: É que a primeira vez, no Circo Voador, no Rio, foi tão incrível e marcante que nunca conseguimos esquecer.

Alex: Outro motivo que nos faz querer voltar é o retorno que temos dos fãs brasileiros. Eles nos escrevem pelo site oficial, pelo MySpace, pela gravadora. Isso nos faz pensar: "Nossa, essas pessoas querem muito nos ver!" Essas coisas chegam até nós e acabamos sentindo que precisamos retribuir essa dedicação toda.

A distribuição ilegal de música pela internet incomoda vocês?

Alex: Isso chegou a um ponto em que as pessoas presumem que a música é gratuita. Acho que essa atitude não é tão fácil de se alterar.

Nick: Quando você pensa em ouvir alguma banda, a primeira coisa que vem à mente é o download ilegal.

Alex: A Lily Allen foi destruída pela imprensa por dizer que as bandas mais novas sofrem mais com isso. Pode até haver hipocrisia no que ela falou, mas não é muita. É uma observação razoável: as pessoas estão consumindo algo pelo qual não pagaram. Muita gente tem reações ambivalentes nesse assunto, mas existe mais hipocrisia em quem ataca a Lily Allen do que nela. E não estou falando da pessoa média, que só baixa as músicas. Estou falando das pessoas que disponibilizam esse material. Elas tentam espalhar essa idéia de um mundo socialista, mas eu poderia apostar que elas vivem felizes dentro das vantagens que o capitalismo traz a elas. O debate sobre direito intelectual é muito amplo. Não acho que existe uma solução simples e direta. Não é tão fácil quanto ser dono de uma loja de doces e dizer: "Estes doces são meus, se você roubá-los eu vou chamar a polícia". É uma situação muito interessante. Tudo está mudando.

Vocês enxergam uma solução?

Nick: Eu não vejo. [risos]

Alex: Você vê uma solução?

Muita gente diz que a resposta é investir em outras áreas, como os shows e o merchandising. Tanto que as gravadoras têm feito novos contratos, que incluem participação nesse tipo de coisa. E também há a venda de músicas pelos games.

Alex: É verdade, tudo isso está mesmo acontecendo. Mas ainda assim não vejo uma resposta definitiva. Acho meio triste essa conversa de que os músicos só ganham dinheiro com apresentações ao vivo, porque essa situação exclui os artistas que só trabalham em estúdio. Isso vai ser muito ruim para os produtores e pode implicar na queda da qualidade de gravação. Você precisa, sim, de investimento financeiro para fazer um disco como, sei lá, o [clássico do Beach Boys] Pet Sounds. Você precisa pagar os músicos, os engenheiros de som. Se isso tudo acabar, vai ser triste. Tudo o que vai existir será gravado em um quarto, em um laptop. E, claro, ótimas ideias são realizadas dessa forma, mas vai ser triste ver o outro lado desaparecer.

Se vocês fossem uma banda dos anos 60, como seria a carreira do Franz Ferdinand?

Bob: Acho que viajaríamos mais, por muitos lugares, só que faríamos mais shows no Reino Unido. Porque era assim que as pessoas descobriam as bandas: você precisava levar tudo até a casa de cada um.

É curioso lembrar que os Beatles nunca vieram à América do Sul - e que o Elvis nunca nem se apresentou fora dos Estados Unidos.

Alex: É, não é? Parece até meio maluco. Sinto que nossas turnês são bem mais intensas do que qualquer banda dos anos 60 faria. Até certo ponto, acho que isso tem um impacto negativo na criação musical. Os artistas passam um ano, 18 meses na estrada - e isso só vai aumentar! Porque agora eles vão depender ainda mais disso, já que a importância das gravações só deve cair.

Paul: Qual era o intervalo entre os discos dos Beatles?

Alex: Um ou dois anos. Menos, no começo.

Bob: Quando eles pararam de tocar ao vivo, foi um álbum por ano. Imagine poder se dar a esse luxo!

E os singles não estavam nos álbuns.

Alex: Isso é uma coisa que eu acho legal nos anos 60, e que quase não se vê mais: a ênfase em faixas individuais. Isso está meio que voltando, com os downloads, mas não é a mesma coisa. Só que agora os artistas não lançam só a música, geralmente ela vem de um álbum. Não sei... Deve ser divertido lançar um ou outro single avulso, sem ter de se preocupar muito.

A fascinação dos bootlegs também morreu com o advento do YouTube.

Alex: Eu gostava do mistério. Quando era moleque, eu amava a caixa Nuggets. Eu sabia como o Castaways soava, mas não fazia ideia de como eles eram fisicamente. Recentemente me lembrei disso e fui procurar no YouTube. Claro que havia centenas de imagens deles. Fiquei chocado ao descobrir que era um cara cantando, não uma mulher![risos] A voz dele é incrível! O lado bom disso tudo é que a informação está ali. Mas é diferente.

Vocês costumam lançar edições especiais dos seus discos. Além disso, o DVD Franz Ferdinand tem uma quantidade gigantesca de material. Isso é para combater a pirataria?

Todos: Não!

Paul: São os nossos bootlegs oficiais.

Nick: Só gostamos de que os fãs tenham material legal.

E o disco dub Blood, a versão alternativa de Tonight: Franz Ferdinand? Como ele surgiu?

Alex: Quando estávamos gravando, fizemos versões diferentes das mixagens das faixas. Os dubs foram surgindo. Aí decidimos lançar, porque é um olhar diferente sobre o mesmo disco. É divertido. Somos nós criando algo que gostaríamos de ouvir das bandas das quais gostamos. E sempre fui fã de versões alternativas de álbuns e músicas. Lembro-me de quando essas coisas começaram a ser facilmente encontráveis na web. Por exemplo, pegar "I Chase the Devil" e descobrir que o Lee Perry tinha feito uma versão chamada "Disco Devil", anos antes. Acho isso incrível! É maravilhoso ver para quantas direções você consegue ir com uma ideia. Claro, isso não é para o fã eventual, é mais para os hardcore, como nós. Tenho um respeito maior por fãs desse tipo. Sinto-me mais próximo deles, são quem mantém a alma da banda viva.

Tonight é bem diferente dos anteriores. Em algum momento vocês têm crises de criatividade e acham que não conseguiriam mais fazer nada?

Alex: Nunca é exatamente uma preocupação... Não dá para ter ideias o tempo todo, não é assim que funciona. O melhor a se fazer, se você está sem ideias, é ir fazer outra coisa. Ou você também pode sentar e tentar escrever, insistir. Qualquer pessoa que esteja envolvida com processos criativos precisa ter certo nível de disciplina. E muitos dos músicos que eu conheço são preguiçosos.

Nick: Você precisa fazer rascunhos, aprender músicas de outras pessoas. Tudo isso ajuda também. Escutar muita música. É daí que surge a inspiração.

Alex: Existe o mito de que os músicos se sentam e decidem: "Vou escrever uma obra-prima". E realmente, em alguns momentos a inspiração vem rapidamente, mas é tudo dentro de um contexto maior, que inclui muito trabalho duro. Você pode ter um flash de inspiração, mas é com o trabalho e a disciplina que você chega a isso.

Foi assim com o seu livro de crônicas gastronômicas [Mordidas Sonoras, editora Conrad]?

Alex: Escrever qualquer coisa com um prazo para entrega pode ser difícil. Mas também gosto da disciplina. Porque quando você está em turnê, a tendência é levar uma vida desregrada. Como tudo que é necessário é organizado para você por outras pessoas, é fácil cair na desordem. Isso foi responsável, em parte, por eu querer escrever aquelas crônicas. Era como se eu sempre tivesse lição de casa, era um alongamento para o cérebro.

Vocês não gostam de fazer coisas por puro entretenimento? Tipo jogar videogame?

Alex: Eu não gosto de games por um motivo simples: não sou muito bom neles. Não gosto de fazer coisas nas quais não sou bom.

Paul: É difícil chegar ao fim dos jogos! Quase nunca dá.

Bob: Acho que o objetivo nem é esse. É só algo para ocupar o tempo. Matar tempo mesmo. Por exemplo, se você vai de Sydney para Glasgow e tem um jogo desses, o tempo passa voando. Pode ser o game mais simples de todos, não importa. Tem esse debate de que os jogos musicais estão matando a música, e não acho que isso seja verdade. Os moleques não estão tocando instrumentos, são umas merdas feitas de plástico! Por outro lado, muita gente nos escreve dizendo que começou a tocar um instrumento de verdade depois de jogar um game desses.

Paul: Eu acho esses jogos [ao estilo do Guitar Hero] ridículos! Mas só digo isso porque não os jogo.

Muita gente deve ter chegado à música de vocês porque "Take Me Out" está em Guitar Hero.

Bob: Eu já joguei. Você vai alternando entre a linha de baixo e a de guitarra, depois pula para a melodia. Chegou uma hora que pensei: "Não, não consigo".

Alex: Como compositor, acho que é uma visão fascinante sobre o modo como as pessoas que não tocam ou escrevem veem a música. As pessoas começam a notar a melodia, o baixo, a bateria. Isso me ajuda na hora de escrever, de vez em quando é bom ficar no básico e evitar as coisas espertinhas que o seu lado artístico te obriga a fazer. Você pensa: "Ok, qual é a parte boa disto aqui?" E, se você não encontrar essa parte boa, então a sua música provavelmente não é tão boa assim.

Por isso as pessoas da plateia cantarolam o riff de "Take Me Out".

Alex: É verdade! E quando a canção tem uma boa virada de bateria, todo mundo canta também.

Vocês gostam de futebol?

Bob: Gosto de futebol na Copa do Mundo.

Vocês pretendem assistir aos jogos?

Paul: Claro.

Bob: Eu adoro quando esses grandes jogos rolam durante os festivais de verão, na Europa. Porque aí as bandas de vários países diferentes se juntam para assistir às partidas, na área comum do backstage.

Nick: Vou torcer para Trinidad e Tobago, porque um dos jogadores deles se chama Jason Scotland! [risos]

Mas vocês já tiveram jogadores bons, como o Kenny Dalglish, em 1982.

Alex: Ah, é!

Nick: Eu queria vir para o Brasil, na Copa daqui. Vai ser maravilhoso, não?