O Filho Pródigo de Osama

Seu pai testava armas químicas em cachorros, tentou fazer dele um homem-bomba e o preparou para liderar a Al Qaeda - esta é a jornada sombria e desvirtuada de Omar Bin Laden

Guy Lawson Publicado em 02/05/2011, às 11h24 - Atualizado em 17/07/2013, às 16h12

Omar bin Laden em um café, em Beirute. "Posso enfrentar represálias por falar", ele diz, "mas meu pai jamais me machucaria"

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Já passa da meia-noite quando Omar, o quarto filho de Osama Bin Laden, me conduz a uma boate chamada Les Caves de Boys, no centro de Damasco, capital da Síria. Sinalizado apenas por uma pequena placa em neon em uma rua lateral de um bairro elegante da cidade, o bar subterrâneo é escuro e escondido, envolto por um ar de exclusividade. Omar passa pelos dois seguranças fortões na porta e escolhe uma cabine nos fundos. Uma dezena de árabes ricos bebe uísque e assiste a um show de strippers russas. Para os padrões ocidentais, as performances são mornas - uma sucessão de mulheres de pouca roupa em estilo burlesco -, mas enquanto Omar toma um refrigerante, segue cada movimento, maravilhado como um garoto. As russas, ele me diz, são as mais bonitas do mundo. "É como se o corpo delas fosse moldado em plástico, como bonecas", afirma.

Quando adolescente nas montanhas de Tora Bora, Omar era o sucessor escolhido por seu pai, o filho favorito que deveria liderar a Al Qaeda e fazer a jihad (guerra santa) global. Então, em 2001, alguns meses antes de Osama se tornar o homem mais procurado do mundo, Omar abandonou o acampamento do pai no Afeganistão. Deixou para trás a morte quase certa em troca de tudo isso: o mundo, a Les Caves de Boys, a vida.

Agora, enquanto uma dançarina se junta a um bêbado na cabine perto da nossa, Omar reflete sobre sua própria conexão com as strippers no palco. "Já falei com essas mulheres", conta. "Digo meu nome a elas. Algumas não acreditam que sou um Bin Laden. Outras ficam furiosas. Elas têm de dançar assim porque o país é pobre. Foi meu pai quem deixou a Rússia pobre, na guerra no Afeganistão, arruinou a economia russa. E está fazendo a mesma coisa com os Estados Unidos neste momento."

Omar sorri. É um olhar conhecedor e irônico, a era do terrorismo transformada em uma piada cósmica: dá para acreditar como o mundo está de pernas pro ar? Depois das 2 da manhã, uma dançarina alta e magra surge para o grand finale. Usando sutiã e calcinha com pedrarias e uma coroa de penas de avestruz, ela gira os quadris enquanto Omar assiste, embasbacado.

"Ainda bem que meu pai não é o dono do mundo", diz Omar, sorrindo.

Não há visão mais reveladora de um homem do que através dos olhos de um filho que ele enganou. Para Omar, Osama bin Laden não é um jihadista que luta pela liberdade ou um assassino em massa - ele é um homem perdido, um pai imperfeito e fanático que conteve seu amor, surrou e traiu os próprios filhos e destruiu sua família na busca da fantasia de se tornar um profeta dos últimos dias. "Meu pai tem personalidade forte", diz Omar. "Ninguém pode impedi-lo de realizar seu sonho. Ou ele consegue o que quer, ou morre."

Agora, aos 28 anos, Omar é um dos 11 filhos de Osama bin Laden, mas, desde criança, destacou-se por sua independência. Ele não acredita que algum de seus irmãos continue apoiando o pai, mas é o único filho a condenar publicamente a violência de Osama. Em Growing Up Bin Laden (Crescendo um Bin Laden), coescrito no ano passado com sua mãe e uma escritora norte-americana, Jean Sasson, Omar não apenas captura a insanidade e a crueldade no mundo de seu pai, mas também oferece um retrato íntimo do que é ser filho de um sociopata. "De muitas formas, a história de Omar representa como o mundo árabe moderno está pensando através de suas visões do Ocidente", observa Steve Coll, autor do livro The Bin Ladens (Os Bin Laden). "Eles aceitam a crítica fornecida pela Al Qaeda, mas não sua ideia de guerra infinita. Assim como Omar, eles não seguirão Osama no campo de batalha."

Omar é impressionantemente parecido com o pai: tem um nariz longo e largo, sobrancelha grossa, olhos penetrantes. Sentado no bistrô do hotel Four Seasons, na manhã seguinte à nossa visita ao Les Caves, Omar atrai olhares desconfiados dos carregadores e das garçonetes. Mais baixo e musculoso que Osama, tem cabelos pretos, longos como os de um astro de rock, presos em um rabo de cavalo, o cavanhaque bem aparado. Usa uma jaqueta de couro preta, camiseta Versace, jeans de marca e, talvez o insulto final à estética da jihad, tênis prateados brilhantes. Com o toque final dos óculos escuros, a vestimenta dá a Omar a aparência de uma celebridade tentando não chamar atenção - ao mesmo tempo que atrai atenção com um disfarce extravagante.


"Muitas vezes me reconhecem na Arábia Saudita", conta. "Dizem que eu deveria ter orgulho do meu pai. Há milhões que concordam com ele. Para muitos, é respeitado e idolatrado. Posso enfrentar represálias porque não se pode falar mal do próprio pai no mundo muçulmano. Muita gente diz que eu não deveria falar, mas meu pai jamais me machucaria."

Sentada perto de Omar, bebendo uma piña colada sem álcool, está a esposa, Zaina, uma avó britânica com quase o dobro de sua idade. Baixa, de pele clara e com olhos azuis impressionantes, ela usa um casaco negro até o tornozelo que parece uma fantasia de O Senhor dos Anéis. Zaina atua como elo entre Omar e o mundo ocidental, servindo de agente, figurinista e intérprete, prestando atenção em cada palavra e se apressando em esconder qualquer coisa que considere danosa ou polêmica. Desde que se conheceu, há quatro anos, o improvável casal virou assunto dos tabloides na Inglaterra. "Somos maiores do que o príncipe Charles e Diana", diz Omar, balançando a cabeça.

Não ajudou o fato de Zaina ser considerada por muitos na imprensa britânica uma golpista sedenta por atenção, uma aspirante gananciosa que estava usando Omar e seu infame pai como uma chance de se tornar rica e famosa. "Contarei toda a minha história de vida a quem quiser me dar 10 milhões de libras", afirmou ao jornal londrino Daily Mail. "Minha história vale isso porque sou casada com o filho de Osama bin Laden." Ninguém aceitou a oferta, mas os detalhes de seu passado agitado logo chegaram aos jornais: seus cinco casamentos anteriores, incluindo um com um membro da gangue Hell's Angels, sua adoção do título "Lady", a tatuagem de teia de aranha que tem nas costas.

"Eles me fazem parecer louca", Zaina reclama. "Disseram que o Omar havia fugido com uma 'avó que gastou milhares de libras em cirurgia plástica'. Não tenho nenhuma cicatriz. Eles inventaram isso, mentiram a nosso respeito."

Assim como o pai, Omar é um homem em busca de um país - um cidadão da Arábia Saudita, onde mora desde que deixou Osama, que teve um visto negado pela Inglaterra e asilo político rejeitado pelo Egito e pela Espanha. Depois de meses de negociação, finalmente aceitou se encontrar comigo na Síria, onde iria visitar a mãe, Najwa, primeira esposa de Osama bin Laden. Passamos quatro dias juntos, primeiro em Damasco e, depois, em uma viagem de carro pelo vale Bekaa até Beirute, uma cidade que Omar queria ver, mas nunca havia visitado.

Na noite anterior, no clube de striptease, Omar estava relaxado, mas quando ligo meu gravador no bistrô do Four Seasons, mergulha em um silêncio constrangido.

Quando pergunto sobre o pai, fica defensivo e evasivo. "Eu o amo porque é meu pai", diz. "Não quero que seja preso e posto em julgamento. Isso partiria meu coração. Queria que ele pudesse morrer antes de ser achado, não quero ver meu pai sob as regras de outra pessoa. Meu pai é meu pai até hoje e até o dia em que eu morrer. Vim do corpo dele, sou parte dele."

"Como você se sente quando o vê na TV?", pergunto

.

"Fico preocupado", responde Omar. "Por mim, pelo meu pai, pelo mundo."

Após um longo silêncio, Omar pega o celular e me mostra o logotipo de uma empresa que ele e Zaina estão montando, a B41. O primeiro projeto da companhia, diz, será uma linha de roupas sofisticadas. "Será como Armani, mas com um estilo diferente", explica Zaina. "Será uma mistura entre Oriente e Ocidente, seda e tecidos de qualidade, uma mistura semiconservadora." A noção de o nome Bin Laden ser remodelado como o ápice do luxo pode parecer risível, mas Zaina tem planos grandiosos para a B41. Ela diz que vai desenhar equipamentos para equitação - rédeas e mantas - seguidos por outro livro, centrado nas experiências dela e de Omar após o 11 de setembro. Fica claro que esta entrevista faz parte de uma estratégia geral de negócios: Omar e Zaina esperam que um investidor leia sobre sua empreitada e coloque muito dinheiro na B41.

Desde que voltou à Arábia Saudita, pouco antes dos ataques terroristas de 2001, Omar luta para ganhar a vida, uma injustiça que o deixa profundamente incomodado. Ele havia presumido que entraria sem esforço na vida de jatos particulares e casas luxuosas desfrutada por seus parentes ricos sauditas, mas, em vez disso, foi forçado a trabalhar para a família como agente imobiliário, mediante comissão. "As famílias sauditas têm medo de ficar perto de mim", conta. "É por isso que não pude me casar com uma de minhas primas ou com uma garota saudita da minha classe. Fui rejeitado sete vezes, por pessoas do mesmo nível de minha família." Ele conseguiu juntar centenas de milhares de dólares ao montar um ferro-velho, mas, para um Bin Laden acostumado à imensa riqueza, essa quantia era uma mixaria. Assombrado pelos crimes do pai e incapaz de construir um nome por conta própria, Omar mergulhou em uma depressão profunda.


Então, em um passeio a cavalo perto das pirâmides do Egito em 2006, conheceu Zaina. "Vi seus olhos azuis e seu cabelo negro e senti que queria me casar com ela", conta. "Ela estava no mesmo grupo que eu. Era um sinal de que poderia realizar meu sonho. No segundo dia, descemos as pirâmides e falei quem eu era. Muitas vezes as pessoas fogem. Ela me disse que sabia quem eu era, não fugiu do problema. Por que ela iria querer ficar comigo e enfrentar esta bagunça toda se seu coração não fosse limpo e correto?"

"Antes de Omar, eu tinha uma vida muito tranquila", afirma Zaina. "Preferia andar a cavalo, gostava de ficar sozinha. Então, coisas horríveis saíram no jornal e fiquei envergonhada. Todos acreditaram nessas coisas horríveis sobre Omar e eu. Pensam que ele é exatamente como o pai."

"Sou julgado por causa de meu pai o tempo todo", diz Omar. "Não é certo. Estou tentando lutar para que o mundo inteiro pense algo diferente a meu respeito. Dá muito, muito trabalho."

Como uma história de amadurecimento, a infância de Omar certamente é uma das mais estranhas já registradas. Quando era criança na Arábia Saudita, seu pai estava no Afeganistão, lutando contra os soviéticos. "Naquela época, meu pai era um grande herói para o Ocidente também", observa Omar. Mas os anos de guerra e as privações que sofreu no Afeganistão deixaram as opiniões de Osama frias e espartanas. "A vida tem de ser um fardo", aconselhava aos filhos. "A vida tem de ser difícil. Vocês ficarão mais fortes se forem tratados com rispidez. Vocês se tornarão adultos capazes, conseguirão enfrentar muitas dificuldades."

Enquanto seus primos desfrutavam do luxo e conforto por serem de uma das famílias mais ricas e poderosas da Arábia Saudita, Omar e seus irmãos eram forçados a viver como se estivessem no século 7: nada de filmes, TV nem música indecente. O ódio do pai pelo "mal da vida moderna" significava nada de refrigerantes, brinquedos ou um inalador para a asma de Omar. Se ele tivesse um ataque, o pai dizia que ele poderia respirar através de um favo de mel.

"Ouvíamos que não devíamos ficar empolgados com nenhuma situação", lembra Omar em seu livro. "Não podíamos contar piadas, e a ordem era para não expressarmos alegria com nada. Ele dizia que permitiria que déssemos um sorriso, desde que não ríssemos. Se perdermos o controle de nossas emoções e dermos uma risada, devemos ter cuidado para não expor os caninos. Passei por situações nas quais meu pai realmente contava os dentes expostos, repreendendo os filhos pelo número que sua alegria tinha revelado."

Hoje, Omar se orgulha de poder mostrar os dentes quando ri. Com alguma sorte, espera escrever comédias um dia. "Por que não?", pergunta. "Adoro o Jim Carrey, ele é brilhante. Para mim, comédia é sobre adultos com mentalidade de crianças. Jim Carrey é adulto, mas não leva isso a sério."

Embora Omar venha de uma sociedade que não tenha nada a ver com a psicologia moderna, ele consegue ver que seu desenvolvimento foi profundamente afetado pela forma como o incentivo lhe foi negado na infância. "Ainda que seja difícil para qualquer pessoa descrever sua personalidade com exatidão", diz em seu livro, "sei o suficiente sobre mim mesmo para estar convencido de que a vida que meu pai impôs a seus filhos me moldou negativamente". Entretanto, a dura criação não destruiu a necessidade de Omar pelo afeto do pai. "De todos os meus filhos", sua mãe conta no livro, "Omar era o que desejava mais o amor do pai".


Em 1992, quando Omar tinha 10 anos, Osama levou a família para um acampamento jihadista no Sudão. Isolado e empobrecido, Omar ficava cada vez mais desesperado para se conectar com o mundo fora daquilo. Proibido de assistir a filmes ou TV, ele improvisava. Quando pegava o ônibus para a escola, em Khartoum, fazia com que um de seus amigos recitasse cenas inteiras de Rambo, fala por fala, enquanto imaginava como era o ator na tela.

"Conte a história sobre encontrar o Sylvester Stallone", diz Zaina.

"Conheci o Rambo em Roma", conta Omar com um sorriso. Ele viajou à cidade com Zaina em 2008 para aparecer em um programa de TV italiano.

"Ele mentiu sobre nós", diz Zaina.

"Até conhecê-lo, ele era um de meus heróis. Achava que seria simpático, mas ele não se importa com ninguém em sua volta."

"Estávamos hospedados em um dos melhores hotéis de Roma", descreve Zaina.

"O dono perguntou se eu queria conhecê-lo. Respondi que sim, claro, só para dizer 'oi', mas ele nem me olhava. Não respondeu quando tentei me apresentar. O dono do hotel ficou envergonhado. Depois, em um jornal, disse que eu era 'filho do Hitler'."

"Disse que estava enojado de estar na mesma sala com o Bin Laden", diz Zaina. "Foi inacreditável."

Os eventos na infância de Omar não foram marcados por aniversários ou férias em família - eram pontuados por bombardeios a embaixadas, ataques com mísseis e noites dormindo no deserto para se preparar para o armagedom. Omar ficou amigo dos filhos adolescentes dos homens que, então, tramavam o primeiro bombardeio ao World Trade Center, além dos bombardeios às embaixadas norte-americanas no Quênia e na Tanzânia. Mesmo assim, ele se lembra daquele tempo com carinho, relativamente falando. Omar e os irmãos foram enviados para a melhor escola do país, até que, um dia, uma bala atingiu uma janela e o acampamento foi sitiado por atiradores que tentaram matar Osama. O ataque só aprofundou o compromisso de Bin Laden com a jihad, além de sua paranoia e raiva. Quando o macaco de estimação de Omar foi deliberadamente atropelado por um dos homens de Osama, Omar descobriu que o pai tinha convencido o homem de que o animal era um judeu transformado em macaco "pelas mãos de Deus"."Na opinião desse homem estúpido, ele havia matado um judeu!", conta um assombrado Omar.

Omar diz que a forma de islamismo que pratica hoje é "moderada", mas sua experiência de infância claramente ajudou a moldar suas crenças religiosas. Caminhando com Zaina pelo lotado mercado em Damasco, Omar chega à fachada austera da mesquita Umayyad, um dos lugares mais sagrados do Islã. Ele aponta para um minarete ornamentado. Aqui, ele diz, é o lugar onde o profeta Maomé declarou que Cristo retornaria à Terra. "Quando Cristo voltar, Deus dirá aos cristãos que não há mais cristandade", diz Omar. "Os cristãos se tornarão muçulmanos."


Zaina rapidamente corta o marido. "Ele não quer dizer isso literalmente", ela interrompe, tentando moderar a visão de Omar sobre como a história se desdobrará. "É uma questão de interpretação do Alcorão."

Mas Omar não suaviza sua própria opinião. "Acredito 100% nisto", insiste. "É um fato. Para ser muçulmano, você tem de acreditar, porque é isso o que o Profeta disse."

Na adolescência, Omar começou a questionar o estilo de vida severo imposto pelo pai. Era um garoto obstinado, com uma independência que, Osama orgulhosamente dizia, dava a ele as qualidades de um juiz. Omar ganhou o apelido de "Alfarook", palavra árabe para "espada".

Em 1996, sob pressão crescente dos Estados Unidos, o governo sudanês ordenou a Bin Laden para que saísse de Khartoum. Omar foi o único filho que Osama levou consigo ao retornar para o Afeganistão. "Ninguém conseguia me controlar", lembra Omar. "É por isso que meu pai sempre me levava com ele. Era o escolhido, o favorito do meu pai. Ele me falou isso, disse que tinha muita esperança de que eu fosse fazer algo para o mundo. Eu não queria isso, queria ser um garoto normal. Queria que isso não tivesse acontecido. Deus dá a responsabilidade aos líderes do mundo, não a mim."

Em maio de 1996, após pegarem um voo em avião particular para Jalalabad, pai e filho chegaram a uma nação mergulhada na guerra civil e ainda sofrendo as consequências de uma década de campanha contra os soviéticos. Eles imediatamente receberam as boas-vindas de líderes tribais, que deram de presente a Bin Laden uma montanha chamada Tora Bora. Levado a esta fortaleza remota - pouco mais do que um conjunto de barracões abandonados -, o coração do jovem Omar, 15 anos, afundou no peito. Ele esperava uma casa, eletricidade, talvez alguns confortos terrenos. Seus primos em Jeddah tinham jet skis e faziam viagens a Londres e Beirute nos fins de semana. Tinham uísque, mulheres, liberdade. "Eu realmente não conseguia acreditar que nossa vida tinha chegado àquilo", recorda Omar no livro. "Aqui estava eu, filho de um rico Bin Laden, vivendo em uma terra sem lei, cercado por guerreiros afegãos carregando armas poderosas, a caminho de ajudar meu pai a tomar uma cabana na montanha para ser o lar de nossa família."

Osama estava extasiado em Tora Bora. O "sheik", como seus homens lhe chamavam, começou a agir como se fosse o próprio Maomé. "Meu pai sempre era uma fonte de conversas reverentes", lembra Omar. "Seus homens ficavam tão impressionados com sua presença que acreditavam que tudo o que ele falava era um sinal de Deus." Mas enquanto seus seguidores tratavam Bin Laden como a encarnação moderna do Profeta, Omar sofria ao presenciar seu pai desaparecendo em um mundo de fantasias extremistas, em uma viagem infinita para reviver as batalhas sangrentas do passado.

Em Tora Bora, Omar se tornou o servente pessoal do pai, lavando os pés de Osama antes das orações todos os dias. Seu pai frequentemente ouvia a rádio BBC em um aparelho transistor, gritando em um ditafone (aparelho antigo para gravar discursos) sobre a perversidade dos Estados Unidos. "Depois de uma semana ouvindo suas tiradas, fechei os ouvidos a seus desvarios desagradáveis, mas agora me arrependo de minha falta de atenção", diz Omar. "Muitas vezes queria ter aquelas fitas em mãos para poder entender melhor o que levou meu pai a odiar tantos governos e tantos inocentes."

Sozinho com o filho, Osama também dividia histórias de sua própria infância. Falava que havia sido abandonado pelo pai e da dor que sentia quando o pai batia nele - assim como Osama batia em Omar e seus irmãos. "Fiquei confuso", conta Omar no livro. "Se depois de tantos anos ele conseguia se lembrar de quanta dor sentia quando seu pai lhe surrava ou ignorava, eu não conseguia entender como podia tão facilmente, até avidamente, bater ou ignorar seus próprios filhos. Nunca tive coragem de lhe perguntar isso, embora agora lamente não tê-lo feito."

Vivendo em um esconderijo remoto na montanha com um pai determinado a dominar o mundo, a existência de Omar era como uma versão maluca na vida real do filho do Dr. Evil dos filmes de Austin Powers. Omar ri com a comparação. Admite que haja uma boa semelhança, mas, para ele, Austin Powers realmente acertou na relação entre seu pai e os seguidores dele. "Esses homens são todos Mini Me", diz. "Querem ser exatamente como meu pai - parecidos com ele, agindo como ele, sendo ele."


Vivendo no acampamento em Tora Bora, Omar passou a admirar os veteranos da guerra contra os soviéticos. "Amava os velhos, os que haviam lutado contra os russos", conta. "Eles eram calmos e amigáveis. Tinham acabado de lutar e não podiam voltar para casa porque seu país antigo não os aceitava. Estavam presos." Mas esse mesmo respeito não se estendia aos recrutas da Al Qaeda que iam para as montanhas do Afeganistão, ávidos para começar uma guerra contra os Estados Unidos. Para Omar, essas peregrinações afegãs eram conhecidas como "férias da jihad", e o grande esquema de seu pai não passava de um acampamento suicida para muçulmanos rebeldes.

"A maioria dos novatos que ia até meu pai era de soldados idiotas", conta. "Alguns estavam fugindo dos problemas da vida, outros não conseguiam viver uma vida normal. Não passei pelo treinamento como os outros, não sou bom nisso. Todas aquelas corridas e saltos eram uma besteira." No relato de Omar, pinos de granadas eram puxados acidentalmente, explosivos eram mal manuseados e os jihadistas frequentemente se matavam em incidentes de fogo amigo.

Um dos itens recuperados no esconderijo de Bin Laden após a invasão pelos Estados Unidos em 2001 era uma série de fitas de vídeo mostrando filhotes de cães sofrendo uma morte lenta e dolorosa para testar armas químicas. Para o mundo, as fitas provavam as ambições diabólicas de Bin Laden e seus seguidores. Para Omar, era só mais um exemplo de um pai cruel e sem consideração. Os filhotes eram crias do cão preferido de Omar, e ele esperava ficar com a prole toda, mas os homens de Osama sempre levavam os cachorros para seus experimentos.

Em seu livro, Omar disse que chorou quando soube que os cães haviam morrido, mas, quando lhe pergunto sobre o incidente, ele hesita pouco antes de culpar o pai. A escritura árabe sobre falar mal dos próprios pais é difícil demais de desafiar. "Até hoje não sabemos quem deu a ordem", insiste. "É melhor que tivessem sido os meus cães do que os de outra pessoa."

No Afeganistão, Omar aprendeu a disparar um fuzil Kalashnikov e a dirigir um tanque russo, mas, na maior parte do tempo, achava a vida nas montanhas insuportavelmente tediosa. Por dias seguidos, ficava na mesquita do acampamento ouvindo discurso após discurso. "Depois que eles começam a falar, não se pode sair", conta. "Você não pode deixar quem está falando com raiva ou envergonhado por causa disso. Eles falam sobre o Islã, sobre o que o Profeta disse, coisas religiosas básicas. Ouvi isso umas 100 vezes, estava cheio". Omar decidiu armar um protesto ao pregar um bilhete na frente da mesquita - tomando o cuidado de disfarçar sua identidade ao mudar sua letra: "Os crentes não devem ser colocados em uma posição de tédio total", escreveu, "pois isso os desencorajará de participar de muitos eventos interessantes na mesquita". Só que a nota não incitou revolta. "Depois que as pessoas leram isso, algumas sorriram", relembra, "mas a maioria não disse nada. Um rapaz disse que só podia ter sido eu. Veio até mim e me falou isso. Eu disse que não sabia de nada."

A noite, ouvindo os aviões que passavam sobre sua cabeça, Omar começou a sonhar em fugir. Só três de seus dez irmãos não haviam se juntado ao pai no Afeganistão, mas a companhia deles fez pouco para aliviar o tédio. "Estávamos tão cheios", conta. "Não havia nada para fazer. Eu e meus irmãos saíamos a cavalo para caçar, viajávamos de vila a vila. Planejávamos sair e conhecer o mundo juntos."

Mas o dia da prestação de contas com a visão violenta do pai era inevitável. Para se tornar líder da Al Qaeda, Omar teria de provar ser um guerreiro. Em 1999, depois que o filho completou 17 anos, Osama fez com que ele fosse para as linhas de frente por 40 dias e 40 noites. "Ele estava me dando um teste", diz Omar. "Há um hadith - ditado de Maomé - que diz que, se você vive com as pessoas por 40 dias, torna-se uma delas. Enfrentei essa batalha dentro de mim por toda a minha vida. Era uma luta. Queria ver a guerra de verdade, essa era minha chance."

Sob a proteção dos guerreiros do pai, Omar foi levado às montanhas ao norte de Cabul, onde Ahmad Shah Massoud estava realizando uma guerra civil contra o Talibã. Um general brilhante conhecido como "Leão de Panjshir", Massoud havia sido crucial na derrota dos soviéticos na década de 1980. Em um momento, brincando com um walkie-talkie, Omar de repente se viu falando com os homens de Massoud. Os soldados eram amigáveis, mas falaram: "Você é um árabe e deve ir embora. Esta é uma guerra entre tribos - nada a ver com religião". Quando Omar lhes perguntou o que pensavam de Osama bin Laden, os afegãos disseram que o respeitavam, mas achavam que ele estava sendo usado pelo Talibã.


O que Omar viu nas linhas de frente o fez ficar contra a guerra que seu pai apoiava. "Muçulmanos lutando contra muçulmanos? Era uma loucura", lembra. "A luta com os russos havia acabado. Senti pena das vítimas. Fazendeiros civis inocentes eram atacados por soldados, mulheres e crianças morriam por nada. Vi pessoas traumatizadas, feridas, o atendimento nos hospitais era ruim. Foi o início do meu desejo de deixar tudo aquilo. Isso me mudou. Acho que podemos resolver nossos problemas sem brigar."

Depois de 35 dias, Omar deixou as linhas de frente e retornou para a base do pai. "Já vi o que precisava ver", conta. "Não podia ficar, não suportava mais. Odiava aquilo."

O rompimento entre Omar e o pai aumentou logo depois, quando Osama tentou lhe recrutar para se tornar um homem-bomba. Não diretamente - Osama era evasivo demais para isso. O apelo de Bin Laden para seus seguidores vinha em grande parte da maneira como ele jamais dava ordens - fazia perguntas, dava sugestões. "Ele nunca força ninguém a fazer nada", diz Omar. "Jamais. Ele pede para você fazer algo, mas se você não quer, não precisa fazer. Ele só dá ordens em caso de guerra muito imediata. Mesmo assim é gentil, diz 'por favor'."

Um dia, mais ou menos na época em que Bin Laden estava tramando os ataques de 11 de setembro, ele pregou um pedaço de papel na parede da mesquita alistando recrutas que quisessem ser homens-bomba. Uma onda de empolgação varreu o acampamento enquanto os homens se inscreviam - provavelmente alguns deles perpetraram os ataques de setembro de 2001. No mesmo dia, Bin Laden reuniu os filhos e disse que deveriam considerar se juntar aos outros voluntários. "Se algum de vocês, meus filhos, quiser ir, deve dar o nome", disse o pai. Era uma distorção retórica astuta das palavras, equivalente a incitar seus filhos à autoaniquilação.

Lembro a Omar de que, da maneira como ele conta a história no livro, este foi o momento em que ele confronta o pai. "Como você pode pedir isso?", lembra-se de ter questionado. É apresentado como um gesto heroico: Omar protegendo os irmãos e falando convictamente contra o culto do pai à morte.

Omar se mostra confuso. "Isso está no livro?", me pergunta.

Está, respondo - bem na página 263. Zaina pega o livro para procurar a passagem. No entanto, quando ela lê as linhas em voz alta, Omar balança a cabeça. "Não foi assim", ele insiste. "É verdade que meu pai pregou o papel na mesquita e queria que todo mundo colocasse o nome lá. Ele não disse que eu deveria ir, mas sim que qualquer pessoa que quisesse ir poderia colocar o nome no papel na mesquita. Eu não ia fazer isso, mas um dos meus irmãos menores quis dar seu nome. Gritei para ele não fazer isso. Meu irmão mais velho e eu somos os líderes, então ninguém ousou fazer isso."

"Você nunca disse nada a seu pai?" "

Muitas vezes falei coisas desse tipo para ele, mas não nessa hora. Ele se afastou de nós. Estava sorrindo, como se a questão fosse só entre ele e Deus." No mundo de Omar bin Laden, parece que é possível ser citado erroneamente em sua própria autobiografia.

A viagem de damasco a Beirute percorre as montanhas do Anti-Líbano. O carro que reservei é um BMW Série 7, com janelas escurecidas para a segurança de Omar. Nada impressionado, ele cheira o interior de couro falso. Os sauditas, diz, só dirigem os melhores Mercedes. Ele pede para o motorista colocar música country e ocidental ou Madonna - que ouviu pela primeira vez quando era um garoto nas montanhas do Afeganistão, procurando no rádio transistor sons do mundo lá fora.

Durante o percurso, enquanto Omar reflete sobre sua infância e discute suas opiniões sobre questões mundiais, Zaina repetidamente interrompe para falar em seu nome. Quando finalmente pergunto se ela poderia deixar Omar falar por si mesmo, ela se recolhe em um silêncio mal-humorado.


Pergunto a Omar o que acha de Barack Obama. Ele responde que o presidente norte-americano parece ser um homem muito refinado - inteligente, culto, capaz, mas tem certeza de que Obama está à beira de cometer um erro grave enviando mais tropas para o Afeganistão. "Obama deve pedir meu conselho sobre o Afeganistão", afirma. "Eu poderia ajudar, mas tenho de vê-lo pessoalmente. Diria que não dá para resolver os problemas do Afeganistão com mais soldados. É como adicionar água à areia, como dizemos no mundo árabe - isso só a deixa mais pesada e suja. Se estivesse no seu lugar, a primeira coisa que faria era uma trégua. De seis meses a um ano, nada de luta, nada de soldados. O Afeganistão nunca será derrotado. Não tem nada a ver com meu pai - é o povo afegão."

Já está escuro quando chegamos às estradas sinuosas que levam a Beirute. Esta é a famosa cidade árabe de que Omar ouviu durante toda a sua vida, a pérola do Mediterrâneo, a Las Vegas dos árabes que querem fugir da hipocrisia sufocante de suas próprias nações. Na imaginação de Omar, Beirute é a epítome da classe e da sofisticação. Seu tio, diz, é dono do Hard Rock Cafe perto de nosso hotel.

Como bom muçulmano, Omar é abstêmio, mas isso não significa que não esteja interessado no que a cidade tem a oferecer. Naquela noite, depois do jantar, pegamos um táxi até o Music Hall, uma boate em estilo cabaré em um cinema reformado no centro de Beirute. Na lotada sala principal, um cantor vestido como um sheik árabe está no palco. O ar está repleto do que torna Beirute legendária: pessoas incrivelmente bonitas, diversidade cultural, o abandono de uma zona de guerra perpétua. É a primeira vez de Omar em uma boate de verdade, não o mercado sombrio de sexo de um bar de striptease sírio. Ele fica encostado na parede, olhando maravilhado enquanto pessoas de sua idade bebem, dançam e se paqueram. Nesta noite, com todo o barulho, o suor e a alegria, o Music Hall pode muito bem ser a melhor boate do mundo.

"Gostou?", pergunto a Omar.

"Sim", responde, sério. "Mas quero rock and roll. Rock and roll é o melhor."

Como se essa tivesse sido uma deixa, uma banda cover do Twisted Sister sobe ao palco. Os músicos estão com figurino totalmente heavy metal glam: perucas grandes, maquiagem chamativa, roupas justinhas, saltos plataforma. A multidão enlouquece quando a banda toca uma versão incrivelmente alta de "We're Not Gonna Take It".

"Isso é o melhor!", diz Omar com um sorriso enorme, mostrando todos os dentes.

No entanto, na manhã seguinte, Omar havia mudado de ideia. Quando nos encontramos para um café da manhã tardio, diz que não gostou nada do Music Hall. "Aquele era um iraquiano vestido como um sheik poderoso, como um príncipe ou um Bin Laden", alega Omar. "Não foi respeitoso. Um saudita não dança na frente de jovens bobos no Líbano, é o contrário. Eu proibiria esse lugar se mandasse no Líbano."

"Não gosto de gente moderna", continua, suas palavras cada vez mais enfáticas. "Gosto de gente original. Se você voltar mil anos, encontrará as mesmas pessoas. Sou assim, na minha aparência, mas há algumas pessoas que parecem muito estranhas, não são brancas, pretas, chinesas ou árabes. Odeio isso, fico confuso. Não gosto da vida moderna, é um erro. Gosto de rostos puros. Falei sobre isso com meu pai, ele é igual a mim, não gosta da mistura."


Omar olha diretamente para mim. "Como você", diz. "Você não é original, é uma mistura." Ele parece não perceber a ofensa de suas palavras, como se não achasse que suas ideias sobre superioridade racial possam ter um efeito sobre a pessoa com quem está falando.

Por todas as visões da patologia de seu pai, Omar também pode dar a impressão de um apologista de Osama. Embora os ocidentais possam achar que ele repudia o pai, Omar é cuidadoso ao indicar para os árabes que ainda é um filho convencionalmente respeitoso. Refere-se ao pai como "gentil" - e com isso quer dizer que Osama, diferentemente de outros jihadistas, segue um código moral e religioso, embora perverso. Até tenta minimizar a tentativa de seu pai recrutá-lo como homem-bomba. "Ele acha que está fazendo isso por justiça, pelo povo muçulmano", alega.

Tal ambivalência levou alguns especialistas em contraterrorismo a questionar se Omar está, na verdade, operando como agente duplo, enviado pelo pai para utilizar uma retórica pacifista como uma arma enganosa e sofisticada. Michael Scheuer, ex-chefe da seção de Bin Laden na CIA, até escreveu um artigo sobre Omar chamado "Osama's Flower-Child Son or Al Qaeda Disinformation Agent?" (Filho Pacifista de Osama ou Agente de Desinformação da Al Qaeda?) Quando entro em contato com Scheuer, ele diz que acabou de ler o livro de Omar, e que o considera uma peça de inteligência importante. O livro confirma muito do que a CIA acredita há bastante tempo sobre Osama bin Laden, mas Scheuer acha que Omar também está tentando buscar uma pauta não divulgada, que serve a seu pai.

"Quando o livro for publicado em árabe, fará com que Osama pareça um herói no mundo muçulmano", observa Scheuer. "As pessoas dizem que o Osama não lutou de verdade nem abriu mão do estilo de vida luxuoso, mas Omar conta em detalhes a história sobre como seu pai era um homem duro e como desistiu de tudo por Deus. O livro retrata Bin Laden como eloquente, devoto, pio, com qualidades extraordinárias de liderança no contexto muçulmano. É o Robin Hood comendo comida ruim nas montanhas com seus homens. Este é um inimigo muito mais poderoso do que um mero louco."

O mar rompeu definitivamente com o pai em abril de 2001, quando um dos soldados mais velhos o puxou de lado e advertiu que "um grande plano" estava sendo elaborado. "Você precisa ir para muito, muito longe", o soldado advertiu. "Acredito que muitos de nós morrerão." Osama relutantemente deixou Omar partir. "Não concordo com você me deixar", disse ao filho, "mas não posso te impedir".

"Meu pai é um homem rico", relembra Omar. "Ele me deu US$ 10 mil em dinheiro, falou para pegar um carro e sair." Os olhos de Omar se enchem de lágrimas. "Se ele quisesse me manter, teria de ser do meu jeito. Se eu quisesse ficar com ele, teria de ser do jeito dele. Fiquei de coração partido quando fui embora, não demonstramos nossos sentimentos. Beijei sua mão e disse adeus. Foi a última vez em que o vi."

Ele se lembra da última olhada em seu pai. Enquanto Osama bin Laden se afastava, tinha o mesmo sorriso discreto e misterioso de quando sugeriu aos filhos que se tornassem homens-bomba.

Sozinho pela primeira vez na vida, Omar viajou até a fronteira com o Paquistão. Poucos meses depois, Osama destruiu o World Trade Center, matando milhares de pessoas. "Nunca pensei que o ataque seria a prédios civis", diz Omar. "Achava que seria a um navio, como o USS Cole. O sonho de meu pai era levar os norte-americanos ao Afeganistão. Ele faria o mesmo que fez com os russos. Fiquei surpreso pelos Estados Unidos terem mordido a isca. Respeitava tanto a mentalidade do [ex-presidente Bill] Clinton, ele sim era inteligente. Quando meu pai atacou seus lugares, ele enviou alguns mísseis cruzadores até o campo de treinamento do meu pai. Não o atingiu, mas depois de toda a guerra no Afeganistão, ainda não o capturaram e gastaram centenas de bilhões de dólares. Seria melhor se os Estados Unidos guardassem dinheiro para sua economia. Na época do Clinton, os Estados Unidos eram muito, muito inteligentes, não como um touro que fica correndo atrás do pano vermelho."


"Eu ainda estava no Afeganistão quando [George W.] Bush foi eleito", continua. "Meu pai ficou tão feliz. É o tipo de presidente de que ele precisa - que atacará, gastará dinheiro e quebrará o país. Até a mãe do Bush falou que ele é o maior idiota da família. Tenho certeza de que meu pai queria [John] Mc- Cain mais do que o Obama, o McCain tem a mesma mentalidade do Bush. Meu pai deve ter ficado decepcionado com a eleição do Obama."

"Você acha que o Obama pode vencer no Afeganistão?"

"Pelo que você vê", Omar pergunta, "o que acha?"

De acordo com Omar, os norte-americanos na verdade têm sorte de Osama não ter sido capturado ou morto. "Vai ser pior quando meu pai morrer", afirma. "O mundo estará muito, muito ruim então, será um desastre."

"O Omar sempre fala que, sem a cabeça, os braços e as pernas correm para qualquer lado", diz Zaina.

"Eu sei disso", afirma Omar. "As pessoas sempre pediam para meu pai atacar mais. Falavam 'Sheik, devemos fazer mais'. Coisas loucas. Meu pai tem uma meta religiosa, é controlado pelas regras da jihad. Ele só mata se acha que há necessidade."

"Haverá mais ataques?", pergunto.

"Acredito que não", responde Omar. "Ele não precisa disso. Assim que os Estados Unidos foram para o Afeganistão, seu plano deu certo. Ele já ganhou."

Em nosso último dia em Beirute, Omar parece agitado. Dá a impressão de ter se arrependido da entrevista, do livro, de toda a ideia de ter se aberto aos olhares examinadores de pessoas como eu. Mas também é impulsionado a seguir, tentando achar um jeito de fazer sua própria fama e fortuna. Pergunta o que acho que seu futuro será. Poderia ser um homem de negócios bem-sucedido? Uma pessoa importante? Poderia ajudar a conseguir a paz mundial? A ONU desejaria sua ajuda? Obama ou Hillary Clinton iriam querer se encontrar com ele?

Omar pode ter rejeitado a violência do pai, mas tem a mesma sensação de Osama - de ser destinado à grandeza. Em vez de citar o Alcorão para dar sentido às suas circunstâncias, ele segue uma escritura um tanto diferente. "Sou como o personagem William Wallace, do filme Coração Valente", diz. "Às vezes, as pessoas dizem que me pareço muito com o Mel Gibson. É uma coisa estranha. William Wallace queria viver sua vida normal, mas o pressionam a se tornar um guerreiro. É a mesma coisa comigo. Fui forçado a ser político. Não recebi uma vida boa, nem bons negócios. É impossível para mim ter uma vida normal, tentei muito durante anos. No Islã, o que está acontecendo comigo não é permitido - os pecados do pai passarem para o filho. Sou como o Tom Cruise no filme O Último Samurai. Ele mudou de lado e lutou contra seu próprio povo. É como eu."

Omar pede um café turco. Enquanto fuma uma shisha - um cachimbo parecido com um narguilé -, pergunta em voz alta o que o futuro lhe reserva. Acredita-se que seu irmão mais velho, Sa'ad, tenha sido morto por um míssil no Paquistão no ano passado, e seis outros irmãos estejam retidos contra a vontade em Teerã pelo governo iraniano. Retornar a Jeddah e à vida de comerciante de ferro-velho não é interessante para ele. "Preciso ganhar US$ 100 milhões", diz. "Preciso ganhar um bilhão. Sabe como posso ganhar essa quantia?" Confesso que não sei.

Omar faz a pergunta mais profunda que define sua existência: como lidar com o legado do pai. Osama rejeitou dinheiro e poder para ir às montanhas do Afeganistão e lutar pelo que acreditava. Da mesma forma, diz Omar, ele mesmo rejeitou a jihad para voltar ao mundo "real" e viver de acordo com suas crenças.

Do jeito que Omar vê as coisas, o pai destruiu o império soviético. Agora, quase uma década depois do 11 de setembro, a visão de seu pai do Estados Unidos em ruína econômica e de uma guerra desumana no Afeganistão se tornou real. Em sua opinião, Osama arruinou dois impérios. O que o filho de um homem assim faz para competir com isso?

"Se tivesse ficado com meu pai, teria a ambição de ser um Alexandre, o Grande moderno", afirma Omar. "Sou mais ambicioso do que meu pai. Acho que esta vida que levo é muito pequena, esperava que fosse maior do que isto. Acho este mundo pequeno. Ele poderia estar nas mãos de um só homem. Se eu estiver no caminho de meu pai, desejaria ser esse homem. Se estivesse nessa posição, ia querer dominar o mundo. Quero ser o maior."

Omar dá uma baforada na shisha.

"O filho sempre tenta ser melhor do que o pai", diz."Tento ao máximo ser melhor - de uma maneira boa. Acho que muitas pessoas devem agradecer a Deus por eu ter escolhido a paz. Se tivesse escolhido a guerra, seria incrível nisso. Muita gente deve rezar a seu Deus e agradecer por eu não ter feito isso."