Buddy Guy

“Quando Leonard Chess ouviu o Cream, ele me disse: ‘Você está fazendo isso há anos e fui burro demais para escutar’”

Por Brian Hiatt Publicado em 12/04/2010, às 20h43

Vindo da cena blues de Chicago nos anos 50, quem você emulou?

B.B. King e Guitar Slim - foram esses dois. Quando vi Guitar Slim fazer um show, correndo com sua guitarra de cordas longas, disse: "Quero me apresentar como Slim, mas soar como B.B." B.B. era tão limpo e bonito. Tenho uma guitarra com dois "B" nela, e digo a B.B.: "Todo guitarrista no mundo deveria colocar dois 'B' em uma de suas guitarras." Eu escutava de tudo: tínhamos todas as estações AM, a música não era separada como hoje. Nos clubes de blues de Chicago, diziam que se você conseguisse tocar os discos do Top 10 da jukebox, faria shows ganhando um dólar ou um dólar e meio por noite. Você tinha de tocar Little Richard, Fats Domino, Guitar Slim, Muddy Waters e Lloyd Price, ou quem tivesse um disco de sucesso na época.

Então, você aprendia com quem estivesse tocando solos de guitarra na rádio.

Não só isso, você tinha que pegar o solo dos trompetes na sua guitarra. Se você não tivesse trompetes na banda, tinha de aprender como tocar aquilo com os metais. B.B., quando consigo encontrá-lo, já me disse que ele ouvia mais os trompetes do que a guitarra.

Antes de morrer, meu pai me dizia: "Rapaz, se você for tocar como B.B., não pode cometer erros". Raramente você o vê errar uma nota, e eu erro. E ele era tão lindo - ele e Eric Clapton. Em Chicago, todos esses guitarristas ficavam tocando em minha volta, e a única maneira na qual eu conseguiria subir ao palco era sendo louco e selvagem. Então, as pessoas começaram a dizer: "Escute aquele negrinho tal e tal, ele é demais!" Hoje, se subo no palco e simplesmente fico parado tocando como B.B. ou Eric, as pessoas começam a me perguntar se estou doente [risos].

Você é conhecido como possivelmente o primeiro guitarrista a utilizar feedback do amplificador. Como isso surgiu?

O que aconteceu foi que não havia palco no clube de blues, você simplesmente vai para o canto e liga o amplificador. Uma noite, durante o intervalo, esqueci de desligar a guitarra e a jukebox estava tocando. Uma mulher passou pela minha guitarra e a cauda do vestido tocou na nota sol, e o disco que estava tocando estava no tom sol. Descobri que a nota simplesmente se sustentava e ficava ali, então lá estou eu sentado dizendo "Ah-ha - vou aproveitar isso."

Você também foi um dos primeiros guitarristas a usar distorção. Como criou esse som?

Eu tinha um amplificador Fender Bassman, cara. Os botões de volume e tom ficavam em uma posição por tanto tempo que congelavam - tudo aberto, exceto o baixo. E ele tinha tudo o que você tem de comprar agora. As pessoas tentam dizer que você precisa de um screaming tube [pedal], disso, daquilo. Você não precisa de nada disso nesses amplificadores, cara.

Seu estilo chamativo não foi muito bem aceito de início, não é?

A Chess Records não me dava nem um 45 rotações, cara. Eles diziam "Ninguém vai ouvir este barulho, o volume é muito alto, ninguém quer escutar isso". Mas quando Leonard Chess ouviu o Cream fazer "Strange Brew", ele me disse: "Você está tentando fazer isso há anos e eu fui burro demais para escutar."

O que havia no som grande e distorcido que lhe fez gostar dele?

Era minha maneira de dizer "Estou aqui e você vai me escutar".

Sua apresentação com o Rolling Stones em Shine a Light foi intensa. Como foi assisti-la?

Não vi. Nunca me assisti, porque aprendo assistindo aos mais velhos, e não consigo aprender nada vendo Buddy Guy. Mas vou dar uma olhada, porque recebi uma carta especial do Keith [Richards], dizendo que eu havia me saído muito bem. Eles são meus amigos desde antes de ficarem famosos. Em 1964, eu estava no Chess Studios quando eles entraram. Perguntei: "Quem é aquilo?", porque nunca tinha visto brancos com cabelo tão comprido. Então, eles foram apresentados a mim, a Muddy, todos, e nunca se esqueceram das pessoas que realmente escutavam quando começaram.

Você não se contém com ninguém no palco, seja com o Stones ou B.B.

Bom, o B.B. tinha um agente há pouco tempo que não gostava da forma como eu tocava. Não tento superar B.B. King, mas tenho de ser o Buddy Guy. Não importa com quem eu esteja no palco, se você me chama para tocar, não posso simplesmente dizer "Bom, tenho que ficar no fundo agora porque é o B.B. King". Respeito o B.B. e qualquer outro guitarrista, mas vou tocar como um boxeador. Você podia admirar ao máximo o Muhammad Ali, mas se tivesse de lutar com ele, diria "Bom, se eu o derrotar, posso me tornar a pessoa mais famosa do mundo". E, no final, você não quer nocauteá-lo, mas tem de fazer isso. Quer dizer, agora é seu momento, sabe?