De Repente, Candidata!

Dilma Rousseff nunca se candidatou a nada, mas foi a escolhida para substituir o presidente que jamais ficou de fora de uma eleição

Por Fernando Vieira e Rodrigo Barros Publicado em 11/05/2010, às 10h10

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Às vezes, não basta estar no lugar certo e no momento exato. É preciso também ter ao lado a pessoa ideal. À sombra do presidente da República mais popular do universo na atualidade, até onde se sabe a ex-ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, se vê diante de um acontecimento inusitado: passar a protagonista em uma história na qual sempre figurou como coadjuvante. Ilustre desconhecida no cenário nacional até pouco tempo atrás e totalmente estranha às urnas, nem que fosse para uma eleição do clube das "Lulazinhas" ou da "guerrilha cor-de-rosa", Dilma foi montada no cavalo selado que surgiu à sua frente.

Não se pode deixar de lado que, com maestria, ela vem mostrando-se boa amazona. Já reduziu seu desconhecimento a 40% da população, segundo pesquisas recentes. E, a despeito disso, vê seu nome decolar a reboque de Lula e tornar-se hoje verdadeiramente potencial ocupante do cargo máximo da nação. Não há como negar que os levantamentos que apontam sua subida são o resultado de uma estratégia emergencial para construção de uma notoriedade política artificial, que, diga-se de passagem, em nada depõe contra a capacidade técnica da ex-ministra, reconhecida por todos os lados.

Se quer dizer apenas que a transformação da Dilma de apêndice para tema central se trata de uma luta contra o tempo para tapar os buracos deixados pelos candidatos naturais à sucessão de Lula, políticos de carteirinha que se espatifaram pelo caminho nesta longa estrada traçada pelos oito anos de governo petista. Dilma, como consequência, foi elevada à condição de estrela de um filme que está em pré-estreia há dois anos. Uma intensa jornada que configura a campanha antecipada mais descarada da história deste país, nas barbas da Justiça e com a complacência dos interesses do Estado e da sociedade. E que, até agora, foi coibida apenas com uma condenação ao presidente Lula no valor de R$ 5 mil.

Mas nada disso importa. Para Dilma, é claro. Ela dança conforme a música, seguindo os passos que lhe são ensinados. Interpreta o papel que ganhou sendo empurrada para furar a fila de casting, com a simplicidade de quem nunca almejou os holofotes da fama. E, talvez, cative cada vez mais a curiosidade entre os eleitores justamente por esse motivo. Faz o contraponto de uma presidência marcada pelo ufanismo extremo.

A velha máxima do quesito sorte, utilizada no início deste texto - cuja composição envolve a conjunção de três circunstâncias: onde, quando e com quem -, é admitida, "sem dúvida", como uma "boa definição" para a candidatura Dilma pelo próprio presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), José Eduardo Dutra

De tão inusitada, de início, "muitos não acreditavam" que ela iria tão longe. Nem mesmo a oposição, que chegou a tecer elogios à ex-ministra quando esta veio a ocupar a Casa Civil.

Ex-presidente do partido, cargo ocupado quando do surgimento do nome Dilma como possível candidata, o deputado federal Ricardo Berzoini conta que ele mesmo brincava com a situação, antes de Lula mencioná-la como sucessora. "Minha presidente, você pode ser nossa candidata", lembra ele. "Só na brincadeira, né... Não em conversa séria", revela Berzoini. "Mas quando Lula me falou pela primeira vez isso [da candidatura Dilma], eu entendi como uma provocação ao partido, para o PT discutir esse nome e avaliar se o apoiaria ou não", completa.

Era o final de 2007, primeiro ano do segundo governo Lula. Berzoini tenta explicar que a provocação era "no bom sentido". Segundo ele, o presidente da República quis dizer: "Eu acho que é um bom nome. Discutam e avaliem".

Tanto Dutra quanto Berzoini são unânimes em reconhecer que Dilma não era a primeira opção para a sucessão, mas uma alternativa levada a cabo pelas conjunturas de momento. Uma mudança de rumo provocada pela derrocada dos dois cabeças que desempenharam papéis de ponta no primeiro governo Lula, quando de sua chegada ao poder: os ex-ministros da Casa Civil, José Dirceu, e da Fazenda, Antonio Palocci, ambos experientes e com históricos vitoriosos em eleições passadas.

"Os nomes deles, no início, eram ditos como naturais à sucessão de Lula. Só que a realidade não se impõe. A política não é a arte do ideal. E 'circunstâncias' acabaram inviabilizando as candidaturas de Dirceu e Palocci", afirma Dutra. "E foi a partir da ida de Dilma para a Casa Civil, onde se tem mais proximidade com o presidente da República, com um número de informações muito maior sobre o governo, uma atuação muito maior no conjunto do governo, que ela passou a se credenciar como candidata."

A opinião é semelhante à de Berzoini, praticamente idêntica até mesmo nas palavras escolhidas para relatar a involução das "candidaturas naturais" e a consequente evolução da ex-ministra. "Ambos os nomes eram lembrados. Não só pelo PT, mas pela imprensa. Em uma eventual sucessão, seria Dirceu ou Palocci. Mas, como as 'circunstâncias' os levaram a sair do governo, a Dilma ocupou o espaço e se credenciou", diz o deputado.

Berzoini rechaça a ideia de o PT ter se visto diante de uma candidatura meramente casuística. Prefere uma definição diplomática. "Não diria que é fruto do acaso, mas do processo. Na verdade, na política não tem acaso. Existe, sim, processo político."

"Como ambos [Dirceu e Palocci] saíram do governo e foram obrigados a responder processos que de alguma maneira limitavam a ação política imediata deles, a Dilma surgiu por dentro do governo, representando o projeto do governo Lula", afirma Berzoini.

Os processos mencionados estão relacionados aos escândalos do Mensalão e da quebra do sigilo bancário

do caseiro Francenildo, respectivamente envolvendo Dirceu e Palocci. Procurados pela Rolling Stone, ambos preferiram não falar sobre o surgimento do nome Dilma para a disputa presidencial.

Já Berzoini segue na explicação da candidatura, até então, inesperada. "Ela se potencializou sem fazer o esforço pessoal para isso, porque nunca desejou ser candidata. Surgiu como candidata a partir de um processo político dentro do governo."

E é fato: Dilma jamais figurou na linha de frente no que se refere às urnas. Fez de sua carreira uma coleção de posições secundárias do ponto de vista estritamente político, em que o principal capital é representado pelo voto. Uma consagração que geralmente só encorpa quando vem das mãos do eleitor. Embora, vale dizer, essa condição pessoal não apague uma história sempre marcada por uma participação ativa politicamente, até mesmo antes da retomada da democracia.

Natural de minas gerais, Dilma é de uma família tradicional de classe média alta, que mistura as origens búlgara (pai) e brasileira (mãe). Seu interesse pela política começou ainda na juventude, após o Golpe Militar de 1964.

Aos 17 anos, prestou concurso e entrou para a Escola Estadual Central, colégio público e renomado. Logo depois, passou a se engajar nos movimentos que fervilhavam no campo estudantil. E foi mais fundo, passando a militar por volta de 1967 na organização chamada Política Operária, conhecida como Polop, fundada em 1961, que teve origem no Partido Socialista Brasileiro.

Foi quando conheceu Cláudio Galeno Linhares, seu primeiro marido e cinco anos mais velho. Nessa época, a Polop debatia internamente qual método seguir, ou se pautariam pela convocação de uma assembléia constituinte ou pela luta armada. O grupo se dividiu e Galeno e Dilma ficaram com o segundo, que deu origem ao Comando de Libertação Nacional (Colina). Os dois casaram-se em 1968.

Embora fosse um universo predominantemente masculino, Dilma encontrou seu espaço, assumindo responsabilidade pelo jornalzinho O Piquete, pela preparação de aulas sobre marxismo e por contatos com sindicatos. Além disso, participou de aulas de armamentos e de enfrentamento com a polícia. Galeno estava na linha de frente.

As atividades ilícitas fizeram com que o casal passasse a ser vigiado. Uma ação da polícia, que culminou com a prisão de alguns militantes da organização após um assalto a banco, colocou em xeque a segurança de ambos. Eles buscaram esconderijo inicialmente dormindo cada noite em um endereço diferente, em Belo Horizonte.

Mas o cerco começou a se fechar. Galeno foi exposto com a publicação de um retrato falado. E Dilma, que aos 21 anos tinha terminado o 20 ano na Faculdade de Ciências Econômicas na Universidade Federal de Minas Gerais em dezembro de 1968, foi obrigada a parar os estudos.

A saída encontrada foi procurar abrigo fora dali. O casal seguiu então para o estado vizinho, Rio de Janeiro, onde se hospedou na casa de uma tia de Dilma, depois em um hotel e um apartamento. Enquanto o marido foi mandado pela Colina para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ela permaneceu no Rio, onde ajudava a direção da organização, participando de reuniões e transportando armas e dinheiro.

Numa das reuniões, foi apresentada ao advogado gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo, que havia hospedado Galeno em Porto Alegre. Ela se apaixonou e foi correspondida de imediato. A separação do primeiro companheiro se deu sem traumas, culminando com o início do novo namoro.

Araújo tinha 31 anos, era chefe da dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB, também conhecido como o "Partidão") e já havia sido preso por alguns meses em 1964. Após a edição do AI-5, havia ingressado na luta armada. No início de 1969, ele tratou da fusão de seu grupo com o Colina e a Vanguarda Popular Revolucionária - VPR, liderada por Carlos Lamarca.

Acompanhando o namorado que viria a ser seu companheiro por cerca de 30 anos, Dilma participou de algumas reuniões sobre essa fusão, inclusive daquela que acabou formalizada em duas conferências em Mongaguá, dando origem à Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR Palmares).

Araújo foi escolhido como um dos seis dirigentes, enquanto a ex-ministra se mantinha no background da nova organização, que se autointitulava "político- militar de caráter partidário, marxista-leninista, que se propõe a cumprir todas as tarefas da guerra revolucionária e da construção do Partido da Classe Operária, com o objetivo de tomar o poder e construir o socialismo".

A ação mais famosa da organização foi o assalto no Rio de Janeiro ao cofre da amante do ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros, que rendeu US$ 2,5 milhões. É controverso o grau de envolvimento de Dilma nas ações da VAR Palmares, sendo que alguns a apontam como uma das cabeças e outros como uma participante sem destaque.

Uma questão interna das organizações também voltou à tona: trabalho de bases ou luta armada? Dessa vez, ela ficou com a primeira. Com a divisão do grupo, repartiram-se dinheiro e armamentos. Dilma foi enviada a São Paulo, onde ficou responsável pelas armas. Dividia o quarto com uma amiga em uma pensão, na Zona Leste, e escondia o arsenal sob a cama.

Em 1970, Dilma acabou presa e torturada. Araújo foi pego meses depois. Ela cumpriu sua pena e saiu do Presídio Tiradentes em 1973. Depois de um tempo com a família em recuperação, passou por São Paulo e mudou-se para Porto Alegre para aguardar a saída de Araújo da cadeia.

Com os dois em liberdade, Dilma retomou os estudos. Prestou vestibular para ciências econômicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, curso que concluiu em 1977, mesmo ano de nascimento de sua única filha. Nessa época começou seu envolvimento político - dentro da legalidade -, ingressando no Instituto de Estudos Políticos e Sociais (Iepes), ligado ao único partido legalizado de oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

A carreira também dava os primeiros passos. Estagiou na Fundação de Economia e Estatística (FEE), vinculada ao governo do Rio Grande do Sul, até ser exonerada após a divulgação no jornal O Estado de São Paulo de uma lista com os nomes de 97 pessoas consideradas subversivas, que estavam infiltradas na máquina pública.

Após o fim do bipartidarismo, Dilma participou da fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT) ao lado de Araújo. E foi ele quem se elegeu pela sigla deputado estadual em 1982, 1986 e 1990.

Araújo e Dilma dedicaram-se com afinco à campanha de Alceu Collares à prefeitura de Porto Alegre, em 1985. Eleito prefeito, ele a nomeou titular da Secretaria Municipal da Fazenda, seu primeiro cargo executivo, em reconhecimento à influência de Araújo e à competência de Dilma.

Ela, no entanto, se afastou do governo em 1988 para se dedicar à campanha de Araújo, dessa vez, a prefeito. A conseqüência da derrota foi a manutenção do afastamento do PDT da administração municipal. Em 1989, contudo, Dilma encontrou retaguarda assessorando o Legislativo pedetista.

Em 1990, Alceu Collares foi eleito governador e indicou Dilma para presidente da Fundação de Economia e Estatística (FEE), na qual ela estagiara. Permaneceu no cargo até 1993, quando foi nomeada Secretária de Energia, Minas e Comunicações. Saiu no final de 1994, quando também rompeu o relacionamento com Araújo.

Dilma retornou à FEE em 1995, na qual foi editora da revista Indicadores Econômicos. Já em 1998, o petista Olívio Dutra ganhou as eleições para o governo gaúcho com o apoio do PDT no segundo turno. E Dilma retornou à Secretaria de Minas, Energia e Comunicações, como parte dos cargos a que seu partido teria direito.

"Conheci a Dilma antes de sermos qualquer coisa. Eu era militante do sindicato e ela esposa do advogado Carlos Araújo. Nos encontramos em muitas oportunidades e sempre tivemos uma relação de cumplicidade no campo democrático-popular. Ela demonstrou competência quando secretária. Mapeou e planejou um projeto energético para o estado", afirma o ex-governador gaúcho.

As divergências internas no PDT se acirraram em 2000, nas eleições municipais. Alguns dos pedetistas argumentavam pela manutenção da aliança com o PT, que lançaria a prefeito Tarso Genro, no lugar de candidatura própria. A situação provocou um racha, culminando em um movimento de saída "em manada" em direção ao partido petista no segundo turno.

Segundo Dutra, a ex-ministra estava entre esses novos filiados, mas o principal nome de peso àquela época era o de Sereno Chaise, último prefeito de Porto Alegre antes do golpe de 64 e figura histórica dentro do PDT (que teve origem no antigo PTB getulista).

Dilma permaneceu à frente da secretaria estadual até 2002, quando participou da coordenação da equipe de transição do Governo Federal. Logo depois, assumiu o Ministério de Minas e Energia, no primeiro governo Lula, cargo exercido até 2005. Para a surpresa de muitos, foi ela quem também sucedeu Dirceu na pasta de comando mais importante do país.

E, em pouco tempo, a sequência de acontecimentos escandalosos na alta cúpula do partido e o destaque concedido pelo último cargo assumido, definitivamente, mudaram a trajetória da ex-chefe da Casa Civil, que trazia no currículo uma vasta experiência no poder público, mas puramente tecnicista. No curso do processo, Dilma ainda teve que se submeter a um tratamento contra o câncer no sistema linfático, que chegou a colocar em questão a viabilidade de sua candidatura.

De supetão, a então ministra se viu em um destaque de palanque, fora do ambiente fechado de um escritório. Teve de abrir mão da técnica pelo lado da arte política no estado puro, pesando ainda sobre ela o fato de ser uma novata entre antigos "companheiros". E é justamente neste contexto histórico recente que se encontra o cerne das críticas à escolha da ex-ministra como candidata à sucessão de Lula. "A Dilma veio pelo fiasco do PT. Sem os escândalos, ela não constaria de qualquer lista de candidatos. Ela não tinha relevância dentro do partido, tem uma história muito curta. Lula não tinha a quem apelar", afirma o cientista político Chico de Oliveira, sociólogo e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP).

"Lula inventou uma candidata. E isso é um mau sinal a partir do momento em que o partido não consegue tirar dos seus quadros um candidato à presidência, o posto mais importante da nação", analisa Oliveira, que também foi um dos fundadores do PT, do qual saiu há sete anos.

Para o sociólogo, o partido "teve de engolir" a candidatura Dilma, porque hoje é "menor do que o Lula". "Os quadros principais são todos suspeitos de envolvimento em algo não muito republicano", diz. "As bases não influem muito, e isso é uma característica da transformação que ocorreu no PT. Não é mais um partido de militância. Profissionalizou-se e parece hoje uma empresa privada", conclui Oliveira.

A crítica ecoa na oposição na visão de que a candidatura da ex-ministra foi empurrada goela abaixo pelo presidente da República. "Quem escolheu foi o Lula. 'A candidata é essa aqui. Eu acho isso e acabou a conversa'", diz o deputado federal José Aníbal, ex-presidente nacional do PSDB. "Acho que, sempre que se puder apurar uma candidatura que não seja apenas a vontade de um presidente em exercício, é melhor. A verdade é que o PT hoje está completamente à mercê de Lula. O PT é uma linha auxiliar e faz o que ele quer. Em tudo", afirma o tucano.

Aníbal conhece Dilma desde os bancos de escola. Estudaram juntos na universidade mineira e participaram de movimentos contra a ditadura. Depois, seguiram rumos diferentes. Para ele, a ex-ministra "tem iniciativa e boa capacidade de trabalho". Mas os elogios param por aí. "Ela contaminou-se pelo petismo". Segundo ele, "Dilma tinha uma visão mais aberta. Agora, é uma candidata sob patrocínio direto do presidente, então acaba envolvida".

Na defesa da transformação da ex-ministra em candidata, advoga o cientista político André Singer, professor da FFLCH-USP e ex-porta-voz do primeiro governo Lula: "Acredito que a candidatura aconteça em função do papel central que ela ocupa no próprio governo. Por isso, ela surge como uma candidata de quem se permite esperar uma continuidade de políticas que já estão sendo postas em execução".

Estudos apontam ainda que o fato de nunca ter disputado uma eleição não seria um problema para a campanha da ex-ministra. "Há uma curva ascendente firme que acompanha o grau de disseminação de que ela é candidata. Ainda existe quase 40% do eleitorado, pelo menos do de menor renda, que não

sabe que ela é candidata. É um efeito de informação extremamente importante quando se trata de candidatos novos", afirma Singer.

Segundo ele, apesar da inexperiência eleitoral, Dilma nos últimos anos pôde se familiarizar das preferências políticas do eleitorado. "Tudo indica que o processo de transformação em candidatura favorita, em condições normais, parece bastante provável", argumenta.

E, a exemplo de outras lideranças políticas internacionais, o Brasil já estaria preparado para uma governante mulher, como nos casos da primeira ministra alemã, Angela Merkel, e das "presidentas" do Chile, Michelle Bachelet, e da Argentina, Cristina Kirschner. "Não há nenhum indício de que isso possa causar qualquer problema. Elas vêm assumindo papéis de destaque em vários campos da sociedade e me parece que seria visto como algo natural", finaliza Singer.

Até mesmo o senador Eduardo Suplicy, que chegou a disputar com Lula a indicação do PT para a candidatura à Presidência da República em 2002, desta vez se esquivou do pleito interno, reconhecendo a fortaleza de Dilma a despeito de sua inexperiência eleitoral. "Sabia que a escolha já estava claramente definida e com um apoio muito grande. E eu mesmo reconheci os méritos dela. Para mim e para o partido, portanto, neste momento, poderia representar um desgaste muito grande um enfrentamento, diferentemente do debate de ideias proposto em 2002."

Enfim, é certo que, hoje, Dilma já avançou da posição de segundo plano no cenário político nacional, que marcou a maior parte de sua vida. Mas também não restam dúvidas de que, até o momento, ela está mais para liderada do que para líder. Toda a amarração política da précandidatura vem sendo conduzida exclusivamente por Lula, baseada em seu prestígio pessoal.

Agora, caso seja eleita, conseguirá Dilma ir além da técnica, ter habilidade para entrar em um campo desconhecido e se apresentar com o jogo de cintura político necessário para a administração da máquina pública? Mais do que uma enorme capacidade de gestão, a Presidência da República exige para o controle do país, fundamentalmente, delegar funções, transitar e articular entre os mais diversos âmbitos de poder e conciliar interesses partidários. Ou seja, praticamente a inversão de papéis em relação a tudo o que ela fez até agora.