Lampejos Sonoros

Ao som de um trip hop para ser ouvido ao sol, a cantora carioca Claudia Dorei remonta seu trabalho

Por José Julio do Espirito Santo Publicado em 08/04/2010, às 12h34

João Wainer / Beleza: Tayce Vale / Vestido: Sonia Ushiyama / Agradecimento: Galeria Vermelho

A carreira de Claudia Dorei é feita de estalos certeiros. Desde a primeira vez em que resolveu, em um ímpeto, subir no palco e empunhar o microfone em um festival que aliava shows musicais com desfiles de moda, em 1997, no Rio de Janeiro. "Era o Jam Fashion", a cantora relembra. "Quando cheguei lá para trilhar a passarela, estava rolando a maior sonzeira de Seu Jorge, O Rappa e um monte de gente." Ela resolveu não desfilar. Achou que seria mico. Ou que deveria estar lá para outra coisa. Quando o microfone da voz vagou, veio o impulso. "Subi e cantei um rap do Salt-n-Pepa. Imagina!", Claudia descreve como se não fosse ela lá em cima. "Na segunda parte me deu um branco. Acho que me liguei que estava lá em cima. Larguei o microfone e saí de cabeça baixa. Tipo: 'Cara, por que eu sou tão impulsiva?'"

A resposta talvez venha da infância e da vontade de fazer o que quer. "Sempre escrevi poesia desde pequena e sempre a amei como uma coisa contestadora da sociedade", Claudia conta, "mas vinha de uma família que acha que arte não é profissão". Com a mesma impulsividade e naturalidade, ela respondeu a um edital lançado por Denise Stoklos e foi chamada para trabalhar com a dramaturga. Foi quando a carioca Claudia Dorei encarou a troca de uma vida riponga na Chapada dos Veadeiros pela correria insana de São Paulo.

A figura inconfundível de Mafalda, protagonista das tiras do argentino Quino, aparece tatuada em seu braço, contrastando com um belo e exótico vestido negro. "Foi a primeira que fiz", ela revela, quase como uma homenagem à contestação da personagem adolescente, e logo mostra a mais nova. No mesmo braço, em azul-claro, lê-se: "Respire". É o título de seu primeiro álbum. "Esse disco aconteceu ao contrário", diz a cantora. "Fiz muitos shows antes. Já estava com um público acompanhando até eu resolver entrar em estúdio." Desta vez, o empurrãozinho foi dado pelo produtor Antonio Pinto em 2008. "Ele viu um show e falou: 'Seu disco está pronto. Eu quero produzir'", Claudia narra feliz. "Fomos lá e gravamos as bases em dois dias." Muita coisa, porém, foi feita no Studio Rosa, na casa dela, onde mantém o maquinário de sintetizadores e samplers com os quais produz trilhas sonoras. Respire também veio à luz em impulsos, via MySpace. Cada música que ficava pronta parava lá. Hoje, o álbum é disponível inteiramente via download, mas também existe uma versão em CD.

Na capa, Claudia Dorei dá pistas de seu som, aparecendo ao longe numa praia rochosa. Na lombada, vem a definição: "trip hop tropical". Em seu álbum de estreia, ela canta e toca trompete, acompanhada por baixo, guitarra e beatbox fazendo as vezes da bateria. Por vezes, timbres digitais falam mais alto, como em "Não Sei". Em outras, instrumentos acústicos enriquecem o trabalho, como no naipe de cordas em "Pérolas". Respire é uma evolução natural, mas distante de quando era uma "mina do rap" e assinava Claudia D. "Quando ouvi Tricky pela primeira vez, em 1992, surtei com o som. Fiquei com isso na cabeça. Falei: 'Nossa, quero fazer uma coisa assim'", confessa Dorei, mas adverte: "Isso não quer dizer que eu seja uma cantora de trip hop. Sou também." Respire é o primeiro volume de uma trilogia idealizada pela cantora. "Vai ter o Transpire, que é o próximo", ela revela, já imaginando as faixas, "e vai ter o terceiro, que eu estou na dúvida se vai ser o Inspire ou o Pire. Alguma brincadeira assim."