Loucos e Imortais

Durante anos, os maus hábitos levaram o Aerosmith para o fundo do poço. Mas em 1990 a banda reencontrou o sucesso, se assumiu limpa de vícios e pronta para reconquistar o mundo

Por David Wild Publicado em 18/05/2010, às 05h43

Whitford, Hamilton, Kramer, Perry e Tyler (da esq. para a dir.): a grande banda norte-americana surgida nos anos 70 precisou reinventar a si mesma para sobreviver

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Steven Tyler entra no quarto de hotel e tira a roupa até ficar só de cueca preta, estilo "quase fio-dental". São 3h da manhã - quatro horas depois de o Aerosmith encerrar um show para 37 mil fãs em Toronto (Canadá) - e o hiperativo vocalista está pronto para mais algumas performances. Depois de se contorcer na cama por alguns minutos, ele finalmente chega à sua posição preferida: amarrado e amordaçado, com uma atraente amiga da banda cavalgando sobre suas costas nuas. Alguém liga a câmera de vídeo para registrar o momento para a posteridade. Os famosos lábios carnudos de Tyler - que rivalizam com os de Mick Jagger - se abrem em um largo sorriso, como o do gato de Alice. Então, subitamente, sua expressão se torna mais séria e ele começa a emitir uma série de gritinhos orgásmicos. Esta não é, nem de longe, a primeira vez em que Tyler, 42 anos, se encontra nesse tipo de situação.

Pelo que conta o vocalista e os outros membros da banda, não há um único feito decadente de rockstar - sexual, químico, financeiro ou de qualquer outro gênero - que eles não tenham praticado em algum ponto de suas carreiras.

Mas desta vez é diferente. Este é, afinal, o novo, melhorado, limpo, sóbrio e bem casado Aerosmith. Por isso, o ato de decadência das primeiras horas da manhã está sendo simulado pela melhor das razões: um vídeo de aniversário que o pessoal de uma estação de rádio está fazendo para Mark Parenteau, radialista da casa, amigo de longa data e eterno parceiro do Aerosmith.

Tyler geme mais um pouco para causar o efeito certo, arranca a mordaça e olha para a câmera. "Pode acreditar em mim, Mark", diz ele, o sorriso no rosto, "a vida não termina aos 40".

O Aerosmith é das criaturas mais raras - uma banda de rock alcançando o auge criativo e comercial aos 20 anos de carreira. Por um bom tempo, parecia improvável que os integrantes estariam vivos, quanto mais prosperando, quando chegassem aos 40.

O quinteto - formado por Tyler (vocal), Joe Perry (guitarra), Tom Hamilton (baixo), Joey Kramer (bateria) e Brad Whitford (guitarra) - talvez tenha sido a banda norte-americana de maior sucesso no meio dos anos 70. Embora geralmente desprezados pela imprensa como clones malfeitos dos Rolling Stones, os incansáveis guerreiros conquistaram uma nação, dando suporte a discos clássicos do hard rock, como Toys in the Attic e Rocks, e turnês incessantes pelos Estados Unidos. "Éramos os caras que você podia ver", diz Perry. "Não era como se o Led Zeppelin fizesse shows pela América o tempo todo. Os Stones não vinham sempre para a sua cidade. Éramos a banda de garagem que deu mais que certo."

No fim dos anos 70, entretanto, a festa acabou. A banda caiu direto para o buraco quase fatal das drogas pesadas e do karma ruim. A coisa ficou tão parecida com a história da banda fictícia Spinal Tap (retratada em uma comédia lançada em 1984, Isto É Spinal Tap), que quando Tyler finalmente viu o filme, quase não conseguiu assisti-lo. "Eu estava muito louco na hora", conta Tyler, "e o Aerosmith estava afundando. E aquele filme era muito parecido, muito real. Nosso último álbum era Rock in a Hard Place, que vendeu, tipo, umas dez cópias; o Spinal Tap tinha gravado Stonehenge, e nosso álbum tinha uma capa exatamente igual. Pirei. Levei Spinal Tap para o lado bem pessoal."

E por que não? O Aerosmith havia se tornado uma paródia de si mesmo. A história da banda era repleta de excessos, com todos os ingredientes absurdos: esposas que não se bicavam, integrantes que caíam do palco, contas de serviço de quarto no valor de US$ 100 mil, membros da equipe que pegavam mais groupies que seus chefes drogados e dinheiro que ia sabe-se lá para onde.

Tyler e Perry - os Gêmeos Tóxicos, como ficaram não tão afetuosamente conhecidos - brigavam infantilmente e se afundaram por anos, arriscando a vida com o abuso de heroína até que Perry finalmente saiu do grupo em 1979, seguido por Whitford, um ano mais tarde. "As coisas estavam mais para Sid e Nancy do que para Spinal Tap", conta Whitford. "Não era mais divertido."

"Lembro-me de ter visto um especial de TV sobre gorilas", diz Perry. "Quando dois gorilas se juntam, eles se provocam, mas não se atacam. Só fazem muito barulho. É o que eu e Steve fazíamos. Entrávamos no camarim e destruíamos tudo, mas nunca encostávamos um no outro. Mas havia muita raiva. Se estivéssemos em um ambiente diferente, teríamos nos matado."

Antes de melhorarem, as coisas pioraram. Perry formou o Joe Perry Project e, depois de três álbuns, se viu falido, morando no sofá de seu empresário e, em certo ponto, em uma pensão. Quando 1980 chegou, o guitarrista estava tão fora de si que não fazia sequer ideia de que a gravadora Columbia havia lançado uma coletânea do Aerosmith, até que um fã o abordou em um supermercado e pediu um autógrafo em sua cópia do LP.

Tyler, Hamilton, Kramer e dois novos integrantes - o guitarrista Jimmy Crespo e o baixista Rick Dufay - tentaram manter o nome do Aerosmith vivo. Mas Tyler também se afundou. Por um longo período, viveu em condições degradantes no Gorham Hotel de Nova York. Tyler escolheu o lugar pelo seu acesso à Oitava Avenida, onde ia comprar um par de trouxinhas de US$ 20 de droga, esperando que os traficantes o reconhecessem. "Assim", ele conta, "talvez eu conseguisse um pouquinho a mais".

"Nossa história é basicamente que tínhamos tudo", Perry diz, "e jogamos tudo fora".

"Esse fusilli está do caralho." Steven Tyler fala intensamente com o chef que comanda o bar de massas que os promotores montaram no camarim, nos bastidores do show no Canadá. Logo antes, o Aerosmith havia tocado ferozmente por duas horas, um espírito distante dos horríveis shows que a banda - chapada - dava para garotos chapados no fim dos anos 70. "Chegamos a um ponto em que desde que tocássemos os hits, não importava se estava ruim", diz Perry. O mesmo quinteto que um dia tocou com a mesma energia de um vaso de plantas agora coloca fogo no palco. O Aerosmith consegue injetar vida nova em velhos clássicos das FMs, ao mesmo tempo que se supera nas músicas de seus dois trabalhos pós-reabilitação, Permanent Vacation (1987), e o atual, Pump (1990). Quando a plateia sai do estádio, a banda já está sentada nos bastidores, comendo seus pratos de massa. Eles dão bicadas em seus drinques de frutas não alcoólicos e conversam sobre as oferendas culinárias da noite. Um membro da comitiva liga uma TV e coloca um filme pornô pesado, mas todo mundo - inclusive Tyler - prefere prestar mais atenção à comida.

"Mesmo nos velhos tempos, até fazíamos um esforço", diz Tyler. "Quando eu ia comprar droga, comprava também um donut de chocolate. Mas também pegava um daqueles sanduíches naturais. Sabe, algo que fosse realmente bom para mim."

"É", diz Perry. "Nós sempre acreditamos em fazer algo bom para nosso corpo enquanto o matávamos."

Algumas jovens atraentes, incluindo a groupie mais importante da cidade, conseguiram acesso ao camarim, mas tudo o que ganharam foi uma conversa amigável com dois integrantes da banda. "Podemos olhar", diz Tyler, "mas é melhor não tocar". A existência de um Aerosmith mais doce, mais gentil, é parcialmente resultado de recém- conquistada sobriedade. Pode ter algo a ver também com o fato de que graças aos singles de sucesso dos últimos dois álbuns - "Dude (Looks Like a Lady)", "Angel", "Rag Doll", "Love in an Elevator", "Janie's Got a Gun" - e toda a exposição na MTV, o público do Aerosmith passou espontaneamente por uma espantosa transformação. Como Tyler explica com característica franqueza, "antes, as únicas garotas nos shows do Aerosmith costumavam ser as que vinham nos chupar no ônibus".

Hoje em dia, "milhões de garotas de 16 anos estão lá para nos ver", diz Tyler. "Agora você sabe a verdadeira razão pela qual o Aerosmith ainda está junto."

O Aerosmith foi formado em Sunapee, New Hampshire, durante o final dos anos 60. O jovem Steven Tyler passava seus verões em Trow-Rico, um resorte do qual sua família era proprietária. "Eu era um esquisito, o nerd máximo", diz Tyler, que fala pensativo de quando enchia o lago de trutas, pulava em montes de feno e cortava a grama. Anos mais tarde, na época em que Tyler conheceu o adolescente Joe

Perry - que tinha um emprego de férias em uma sorveteria -, Tyler parecia mais com um roqueiro. "Steven vinha com todas as suas bandas, usando o cabelo comprido", conta Perry. "Eles eram barulhentos e inconvenientes, se comportando como rockstars - especialmente quando estavam em uma cidade pequena, onde ninguém sabia que eles não eram tão grandes. Eles iam à sorveteria, jogavam comida no chão e sobrava para mim. Eu tinha que limpar tudo." Perry tocava na Jam Band, junto com Tom Hamilton, que também se lembra de ter ficado impressionado com Tyler. "Steven era de Nova York e tinha essas bandas realmente profissionais", diz Hamilton. "Com Steven, o negócio era para valer." Perry convidou Tyler para um show da Jam Band. "Eu fui, sem esperar muita coisa", relembra Tyler. "Eles entraram e tocaram 'Rattlesnake Shake', e eu disse para mim mesmo, 'Esses caras são uma merda - não conseguem nem afinar a guitarra -, mas tem uma vibração rolando que é melhor do que qualquer banda em que já estive'. Sabia que, se pudesse mostrar a eles um pouco do que eu conhecia, teríamos realmente alguma coisa."

Eventualmente, a banda adquiriu mais dois membros: Brad Whitford, servindo de base para a guitarra de Perry (substituindo Ray Tabano) e Joey Kramer, que assumiu a bateria, já que Tyler, que também era baterista, havia decidido que queria se concentrar nos vocais.

Em 1970, os cinco se mudaram para um apartamento infestado de baratas em Boston. O quarto de Hamilton também funcionava como sala de estar; os futuros Gêmeos Tóxicos dividiam um quartinho com beliche. Na maioria das noites, Perry e Tyler cozinhavam arroz marrom e verduras para o jantar. Então ficavam chapados, ouviam os discos Rough and Ready (Jeff Beck) e Machine Head (Deep Purple), assistiam a Os Três Patetas e planejavam sua chegada ao topo do mundo.

Desde o começo, o Aerosmith evitava tocar em casas noturnas. "Sempre quisemos ser um grupo de shows grandes", diz Kramer. "Não queríamos ser mais uma banda que fica só tocando em bares. Éramos muito ambiciosos." Isso significava trabalhar meio período para sustentar o rock & roll: Perry era zelador de uma sinagoga em Boston, enquanto Tyler trabalhava em uma padaria. O primeiro show foi em uma escola local, por algumas centenas de dólares, e as influências da banda em seu início de carreira ficam bem óbvias pelas músicas tocadas naquela noite: "Shapes of Things", dos Yardbirds, "Live with Me", dos Stones, e "Cold Turkey", de John Lennon. E já naquela época havia tensão. "Steven e Joe discutiram feio na primeira noite, sobre Joe tocar muito alto", diz Hamilton. "E assim começou a tradição do Aerosmith."

Acho que podemos ajudá-los." Foi isso o que Clive Davis, então presidente da Columbia Records, disse ao Aerosmith nos bastidores do Max's Kansas City dois anos mais tarde. Em poucos anos, a banda estaria vendendo mais que Barbra Streisand, Bob Dylan e todos os outros artistas do selo.

Os membros da banda saíram de seus empregos normais e mantiveram-se ocupados tocando em colégios e festas de fraternidade na área de Boston; também começaram a escrever músicas próprias. Financeiramente, a situação era apertada, e o Aerosmith não tinha lugar para ensaiar. Quando tudo parecia perdido, Frank Connelly, um promotor local, se interessou pela banda. Ele então colocou o Aerosmith em contato com os empresários Dave Krebs e Steve Leber, que por sua vez conseguiram que Clive Davis fosse ao Max's para assisti-los.

Assim, a banda assinou com Leber-Krebs, que então fecharam contrato com a Columbia - uma situação que se mostraria bastante lucrativa para os empresários. O primeiro álbum, Aerosmith (1973), incluía "Mamma Kin" e "Dream On", que depois virou hit, quando foi relançada em 1976. Quando o álbum não decolou, a banda resolveu pegar a estrada. Em uma combinação totalmente incoerente, o Aerosmith foi colocado para abrir para a Mahavishnu Orchestra. "John McLaughlin e a banda iam meditar antes de tocar", conta Hamilton. "E como você deve imaginar, não éramos muito ligados em meditação. Já havíamos encontrado nosso próprio meio de meditar, quimicamente."

Em 1973, o Aerosmith lançou Get Your Wings e continuou na estrada. "Se manter na estrada foi o que fez o Aerosmith estourar", diz o empresário David Krebs. "Não foram as rádios. E com toda certeza não foi a imprensa." Todas as resenhas desqualificando o Aerosmith, taxandoos como uma versão de segunda categoria dos Stones, afetaram a banda. "Eu odiava", diz Tyler. "Me incomodava. Sabe por quê? Porque era verdade!" Ele ri e bate palmas. "Eu amava os Rolling Stones, eles eram tudo."

Mas, Perry afirma, as comparações eram mais justificadas fisicamente do que musicalmente. "Não íamos mudar nosso visual por causa da imprensa", diz ele. "Acontece que os Stones estavam fazendo a mesma coisa. Nós éramos como os Stones em um nível óbvio e superficial. Mas musicalmente sempre nos vi muito mais como os Yardbirds."

"Acho que o que queríamos fazer era sermos o equivalente americano de todas as grandes bandas britânicas", diz Hamilton. "Cream, Yardbirds, Led Zeppelin. Não conseguíamos imaginar nenhuma banda americana que fosse assim. Queríamos ser os primeiros."

Todo o trabalho foi recompensado com o sucesso de Toys in the Attic (1975) e Rocks (1976). Tudo se encaixou - os sórdidos vocais de Tyler, a saborosa e destruidora guitarra de Perry, as sutis rajadas rítmicas de Whitford, o surpreendentemente baixo funk de Hamilton e a bateria sólida de Kramer. Infelizmente, em 1976, quando começaram a gravar Draw the Line, o uso de drogas que havia servido de combustível para os primeiros discos começava a cobrar um tributo muito mais sério.

"Chegamos àquele perigoso ponto onde podíamos pagar por todos os nossos vícios", diz Hamilton. "Tínhamos nossas mansões, nossas Ferraris, nossos estoques infinitos."

"O caro não é a droga", diz Perry, "mesmo nas quantidades fenomenais em que usávamos. São as decisões que você toma - ou não toma - enquanto está chapado. Você consegue dizer o que aconteceu com a gente só escutando os discos. De dentro, eu não achava que havia algo errado. Mas de fora dava para ver tudo. Dá para ouvir a música ficando enevoada. Se eu tivesse mantido um diário, não seria tão preciso em mostrar o momento em que tudo começou a ir por água abaixo. Especialmente porque eu estava chapado demais para manter um diário".

"Paramos de conduzir nossa banda", Perry completa. "Paramos de dar a mínima."

Se havia alguma voz da razão por perto da banda, eles não se lembram de ter escutado. "Estávamos isolados de nossa família e de qualquer um que fosse são", diz Perry. "As pessoas a nossa volta alimentaram esse isolamento. Éramos paranoicos. Achávamos que éramos foras da lei porque estávamos sempre carregando drogas. Tínhamos certeza de que algum de nós seria preso. E ninguém tinha horários como os nossos - acordados a noite toda, dormindo o dia todo. As pessoas que se aproximavam o

suficiente para serem admitidas com a gente estavam no mesmo tipo de viagem que nós estávamos."

Tyler admite, arrependido, que as drogas chegaram até a estragar suas prioridades quanto aos momentos de prazer. "Ainda fico na bronca por não ter transado tanto quanto poderia nos anos 70", diz. "A ironia é que eu provavelmente transei mais do que me lembro, porque eu tinha uns brancos de memória. Mas a gente nunca focava em algo do tipo 'Uau, vamos conseguir uns boquetes no ônibus'. Isso era mais com os roadies. A gente estava mais interessado nas mais finas categorias de cocaína de um carregamento que vinha nas costas de algum camelo com a estampa de uma meia-lua e a estrela do Líbano, que por sinal era feita de ópio. Éramos verdadeiros especialistas. Isso era mais importante para mim que qualquer garota com peitões."

O estado lastimável da banda pode ser ouvido em Live! Bootleg e Night in the Ruts (ambos de 1979). O último, como Draw the Line, custou mais de US$ 1 milhão. A banda tinha uma quantidade insana de horários de estúdio agendada, mas estava sempre esperando até que Tyler conseguisse se sentir coerente para escrever as letras. "Eu estava fodido além de qualquer salvação", ele diz. Finalmente, as contas ficaram tão altas que os empresários enviaram a exausta banda para a estrada, a fim de fazer dinheiro. "Foi a gota d'água", conta Perry, que deixou a banda durante a turnê (ele retornou definitivamente em 1984).

"Eu queria que alguém nos tivesse dado uma dura", diz Kramer, ecoando um sentimento que se espalha por todos na banda. "Mas, se qualquer um tentasse nos dar uma bronca, tomaria um tiro", ele diz. "Éramos uma das maiores bandas do planeta. Ninguém mandava na gente."

Os cinco expressam espanto por ninguém do círculo deles ter morrido na época, mas admitem que algumas baixas ocorreram. "A imagem que eu tenho em mente é de que o Aerosmith daquele tempo era um foguete que subiu, subiu e então explodiu", diz Perry. "De algum modo não fomos destruídos, mas todas essas pessoas que tentaram voar com a gente não tiveram tanta sorte. Acredite, há pessoas por aí que até hoje não se recuperaram, só porque resolveram andar com a gente. Penso muito nisso."

Mas Perry também coloca os excessos do Aerosmith em um contexto histórico. "O lance é que as pessoas precisam saber que todas as bandas eram piradas naquela época", diz. "Todo mundo cheirava e ficava louco. Jack Daniel's era a bebida nacional do rock and roll. Não era uma coisa só nossa. Éramos só os caras que faziam em excesso. Fomos até o fim. Se estivéssemos em 1976 fazendo esta entrevista, nós dois estaríamos cheirando agora. E se você não quisesse cheirar comigo, você é quem tinha um problema."

Hoje, o Aerosmith só fica alto quando voa no antigo jatinho do ditador filipino Ferdinand Marcos, que a banda rebatizou de Aeroforce 1.

Mesmo no avião, Tyler e Perry são os líderes. Perry, que é piloto amador, se inclina sobre os ombros do piloto para dar uma olhada na vista. Tyler, sentado atrás dele, deixa claro que está sempre em contato com sua criança interior. Durante a viagem, mantém sua atenção focada em uma mala de brinquedos que traz consigo.

"Eu cheguei a ter um avião", Tyler diz. "Mas cheirei. Cheirei meu avião. Cheirei meu Porsche. Cheirei minha casa. Foi tudo para o espaço. Então Tim começou a nos ajudar a conseguir algumas de nossas coisas de volta."

Se não fosse por Tim Collins - empresário da banda desde 1984 -, o próprio Tyler poderia ter ido para o espaço. Quando os cinco integrantes originais voltaram a se reunir naquele ano, já com Collins no comando, ensaiaram brevemente e saíram, sem álbum novo, para a Back in the Saddle Tour. Promotores com quem o Aerosmith havia ficado queimado por conta de shows cancelados estavam céticos. E eles tinham razão para pensar assim. Embora os membros do Aerosmith tivessem decidido se endireitar para a turnê, a volta aos velhos hábitos foi quase instantânea. No palco, a banda tinha momentos que evocavam o velho poder, mas a maior parte era de pontos baixos.

A estreia em outra gravadora, a Geffen, com Done with Mirrors (1985), não foi a grande volta que a banda esperava. O álbum não vendeu bem, e a turnê viu o grupo, particularmente Tyler, afundar ainda mais em maus hábitos. Um lampejo durante esse período veio quando os rappers do Run-D.M.C. convidaram Tyler e Perry para se unirem a eles em sua versão de "Walk This Way". "Fez a gente parecer mais moderno, para variar", diz Whitford. O momento de "ficar limpo" começou com o próprio empresário. No final de 1984, ele decidiu que iria se desintoxicar. Então, a banda teve "uma intervenção", confrontando Tyler sobre seu problema porque eles temiam que o vocalista fosse morrer. "Ainda estou magoado com isso", diz Tyler, "porque havia caras ali que tinham seus próprios problemas e estavam me dizendo o quão fodido eu estava". Eventualmente, todos pararam com as drogas e bebida.

Assim, foi um Aerosmith bem diferente quem seguiu para o Canadá em 1987 para trabalhar em Permanent Vacation. Era o fim, também, dos orçamentos de milhões de dólares - o disco foi feito com um quarto disso. As rádios responderam ao disco imediatamente. Eles foram para a estrada com o Guns N' Roses - de uma geração de músicos que cresceu nos anos 70, influenciados pelo Aerosmith - como banda de abertura. Para manter o Aerosmith na linha, Collins deixou os grupos separados. Os bares dentro dos quartos, por exemplo, eram privados de álcool antes de eles chegarem. Já o lançamento de Pump rendeu resultados brilhantes: cheio de sexualidade e com guitarras impressionantes, o disco gerou dois singles de sucesso, "Love in an Elevator" e "Janie's Got a Gun". E agora, é claro, a banda estava de volta à estrada. Recentemente, Tyler teve até a chance de exorcizar velhos demônios quando conversou com Mick Jagger nos bastidores de um show dos Stones, em Boston. "Encontrei com ele há alguns anos, mas na época eu andava enfiado até as orelhas em cocaína", diz, com tom triste. "Mal conseguia bater na porta. Mas desta vez foi lindo. Eu disse a ele: 'Você não tem ideia do que é estar aqui após tanto tempo. É incrível, porque hoje recebi o relatório do escritório, e ao lado do Aerosmith, em segundo lugar em execuções no rádio, está o álbum dos Stones, em primeiro'."

Tyler parece se sentir culpado. "E lógico, lá no fundo eu estava pensando 'E fique esperto, porque vamos arrancálo do topo das paradas, filho da puta'." Ele gargalha. O Aerosmith ganhou o direito de ser assim, insolente. Eles evoluíram dentro de sua música e conseguiram executar o raro truque de envelhecer graciosamente. "Lembro que quando Joe Perry saiu, deu uma entrevista que me doeu de verdade", diz Tom Hamilton. "Ele disse 'O Aerosmith não está pronto para os anos 80'. Isso machuca. E machuca porque ele estava certo. Pensei nisso na véspera de Ano-Novo, quando estávamos tocando nesse grande show em Boston. Era meu aniversário e eu comecei a pensar que o Aerosmith estava pronto para os anos 90. Agora temos um futuro. Por um tempo, não tivemos. E é uma coisa incrivelmente boa de se ter".