"Não me permito sentir pressão", diz Dean DeLeo

Livre de preocupações, o guitarrista do Stone Temple Pilots fala sobre o retorno da banda à ativa

Por Pablo Miyazawa Publicado em 10/05/2010, às 20h48

Os anos 1990 voltaram - e o Stone Temple Pilots também. Em entrevista exclusiva para a Rolling Stone Brasil, o guitarrista Dean DeLeo falou sobre o retorno da banda aos palcos (em março, no festival South by Southwest) e do lançamento do novo álbum, homônimo, previsto para 25 de maio - o sexto do grupo, o primeiro desde 2001. Solícito e falante - apesar de hesitante em alguns momentos -, o músico de 49 anos aproveitou para apimentar a possibilidade de shows no Brasil ainda em 2010. "A gente vai descer provavelmente perto de novembro, quando estiver quase começando o verão de vocês aí", disse.

Assisti ao show de retorno de vocês em Austin, durante o South by Southwest, e parecia que vocês estavam bastante à vontade tocando as músicas antigas. Era isso mesmo ou só impressão?

Acho que a gente se divertiu tocando música de um modo geral. Não sei se Scott [Weiland, vocalista do STP] mencionou isso naquela noite, mas a festa era de vocês, não nossa. A gente estava lá trabalhando pra vocês, cara. Quando a energia está sendo transmitida de lá para cá, isso se torna algo bastante evidente. Porque foi bastante óbvio para nós - você estava lá e viu - que todo mundo estava se divertindo muito. Porque, no fim das contas, é só energia, não é? Estávamos cercados por energia. Estar num lugar fechado como aquele, cheio de gente, sabe... Havia tanta vida naquele lugar! Foi realmente lindo.

Você se lembra de qual era o sentimento de vocês antes do show?

A gente não estava nervoso antes do show. Eu me lembro que estava indo encontrar o Scott e ele me falou "Bobby está na cidade" - você sabe, o Robbie Krieger [guitarrista do The Doors]. E foi algo bem incrível tocar "Roadhouse Blues" com ele. Isso trouxe todo um novo elemento de emoção à coisa. Eu tinha acabado de chegar a Austin, fui direto do aeroporto direto para a 6th Street, e aquela cidade é elétrica, cara! Dava para sentir a eletricidade passando pelas ruas. Então, antes do show senti diversas emoções diferentes. Pela primeira vez estávamos tocando músicas de um novo disco, e isso era algo que não fazíamos havia muito tempo. Foi realmente maravilhoso. Ainda vou tentar chegar a alguma conclusão sobre isso daqui uns anos. Eu sou um tipo de cara que gosta de conservar cada pequeno momento. Quando estou no palco, eu fico meio que guardando tudo o que acontece à minha volta - tudo o que estou sentindo, o que estou absorvendo, o que estou irradiando.

Como lidar com a pressão de lançar um novo disco? Apesar de que você, [o baixista] Robert DeLeo e [o baterista] Eric Kretz jamais pararam de tocar juntos, certo?

Bom, deixa eu deixar uma coisa bem clara, cara: eu não me permito sentir muita pressão na minha vida. Não é algo em que fico pensando a respeito. Acho que faço parte da banda a bastante tempo para saber o que podemos esperar uns dos outros. Se houvesse alguma pressão, seria a pressão que nós mesmos colocamos uns nos outros, tá ligado? Quando se está fazendo um disco, há muitas avenidas e muitas paradas pelo caminho. Você irá trabalhar diversas canções, e algumas vão funcionar, outras não. E nesse processo, eu estou enfrentando o Robert DeLeo. Para mim, meu irmão é um dos melhores compositores de todos os tempos. Ponto final. Quando eu vou apresentar as minhas "musiquinhas" para o disco, eu tenho um padrão muito alto de qualidade para alcançar. Com isso dito, por tudo o que passamos dentro do estúdio, acho que a pressão vinda de fora é algo irrelevante, praticamente inexistente. É como se eu não desse a mínima para o que as pessoas irão pensar. Acima de tudo, se a gente estiver feliz e confortável com o disco, é isso o que importa. E quando colocamos os ultimos toques no disco, percebemos que não apenas coletivamente, mas também individualmente, ele nos expressa musicalmente de um modo que nos deixou muito satisfeitos.

Você mencionou seu irmão Robert. Como é tocar com ele após tanto tempo, uma vez que...

[Interrompe] ...e eu não tenho dúvidas, cara. Ele é um dos mais extraordinários baixistas do planeta. Eu quero dizer, o baixo do Robert é o melhor. O melhor, cara.

E como a conexão musical de vocês evoluiu através dos tempos?

É praticamente a mesma. Não é algo em que penso muito a respeito, mas quando estamos falando a língua da música, quando a música é o idioma entre nós, nós conseguimos facilmente um finalizar a frase do outro.

O novo disco dá uma sensação de ser mais "na cara": não há baladas, as musicas tem menos de três minutos... O que esses elementos unidos querem dizer, musicalmente falando? Por que essa nova música é tão urgente?

Eu acho que é mais ou menos assim: "Qual é a melhor coisa para esta música"? Sua pergunta é muito abrangente. A gente nem colocou muito pensamento nisso, é simples assim: o que é melhor para a música? A canção precisa de mais um verso, ou uma ponte, ou um solo de guitarra? Devemos repetir o início? Ou seja, o que vai soar melhor? É assim que funciona pra gente. A gente tenta ficar de fora e deixar a canção mandar. A gente só escuta a música, e ela nos diz o que fazer.

Sobre Scott Weiland, como é trabalhar com ele de novo? Musicalmente, ele dá a impressão de estar na melhor forma. Está?

Sim, eu acho isso também, cara. Eu só posso falar em meu nome, mas acho que os outros caras também pensam a mesma coisa. Mas, cara, sair por tanto tempo como a gente fez... Ficamos fora do ar por sete anos! Voltar com um novo disco e sentir algo semelhante ao que passamos com nosso primeiro disco... Foi muita emoção, e as pessoas ao redor também estavam sentindo a mesma coisa. Honestamente, eu só consigo falar com o fundo do coração: eu tenho uma imensa gratidão de ter o luxo de poder dividir minha música com as pessoas.

É difícil e cansativo explicar pra todo mundo essas indas e vindas do Stone Temple Pilots ao longo dos anos?

[Risos] É fácil: a gente precisa de um tempo separado uns dos outros. Chegamos a um ponto em que precisávamos desse tempo. Nós convivemos direto durante dez anos, ombro a ombro, sabe? Estávamos juntos nos shows, nas viagens, nos camarins... E existe um aspecto interessante na banda: são dois irmãos no grupo, sabe? Robert e eu dividimos outros aspectos na vida. Por exemplo, temos nossa mãe, que está chegando aos 85 anos. Robert e eu falamos com ela diariamente, às vezes até três vezes por dia. Então há uma nova dinâmica na banda hoje. Sabe, eu não quero que isso soe [hesita] ... Isso pode soar hipócrita. Eu não posso ser mais grato com o fato de ter voltado no tempo e retomado a banda. Mas a banda é apenas uma pequena parte de minha vida. E acho que isso serve para todos nós. Scott, Robert, Eric e eu temos filhos, esposas, namoradas, pais e mães que estão envelhecendo. Há tanto mais do que apenas essa pequena banda da qual fazemos parte! E a gente não desvaloriza nada disso, cara! Mas diferente do que as pessoas devem pensar, a gente não fica apenas vivendo em função do Stone Temple Pilots. Tem um monte de outras coisas rolando. É um ótimo motivo para voltar minha cabeça, fincar bandeira, se divertir fazendo música e viajar o mundo... mas tem também muito mais. Tem a vida.

Para fechar: qual foi a maior contribuição do STP para a música dos anos 1990?

Nós ajudamos Richard Peterson a comprar um apartamento [risos]. Sabe quem é ele? Sabe a música escondida no final de Purple [disco do STP lançado em 1995]? Aquela "The Second Álbum..." [canta]. Ela foi escrita por um cavalheiro chamado Richard Peterson, basicamente um sem-teto que mora em Seattle. Em resumo, ele é um músico independente que vivia nas ruas. Por causa dos royalties que ele recebeu por ter permitido que usássemos a música dele no disco, ele pode comprar seu primeiro apartamento e saiu das ruas. Sempre que eu posso, gosto de pensar que esse foi um dos grandes momentos de minha carreira - poder ter ajudado um cara como esse.