5 PERGUNTAS

Pai da Invenção Tom Zé revê sua carreira - de maneira diferente - em novo projeto ao vivo

Por Antônio do Amaral Rocha Publicado em 18/05/2010, às 15h21

DE OLHO EM TUDO - Tom Zé continua animado e tenso com os shows
DIVULGAÇÃO

Aos 73 anos, Tom Zé continua um moleque travesso e mais inventivo do que nunca. Em seus shows, uma verdadeira tour de force, ele deixa qualquer um cansado só de presenciar as traquinagens que pratica em cena. É o que mostra o DVD e a turnê que está fazendo para divulgar o mais recente trabalho, nomeado O Pirulito da Ciência.

Com canções rearranjadas, O Pirulito da Ciência é uma revisão da carreira?

Quem sugeriu foi o Charles Gavin, que lutou, trabalhou tanto na área artística, quanto na área de provocar interesse da gravadora Biscoito Fino e do Canal Brasil para levantar recursos. Eu fiz os arranjos e tentei dar um pouco de alegria aos meninos de tocar. Na gravação do DVD eu achava que cantar 25 canções para uma plateia era uma coisa terrível, verdadeiro périplo ulissiano. Então eu procurei criar algum interesse...

O pirulito da ciência é um manifesto? Uma referência à invenção que está sempre presente no seu trabalho?

O próprio Gavin pescou esse título na letra da música "Fliperama", que é uma música bem moleca, que usa recursos do aparelho fônico humano que não são comuns, como aquele "trrrrrrrrrrr" [faz ruído], como se fosse o som de instrumentos de sopro. Na canção eu digo que sempre em tempo de guerra algum ramo da ciência recebe incentivos e proventos muito grandes, determinando um tipo de invenção.

Os seus shows têm um conceito de happening, de carnavalização. Você deixa o seu público em estado de atenção, porque ele não sabe o que vai acontecer...

No meu livro, Tropicalista Lenta luta, eu escrevi que a minha luta inicial era manter a atenção da plateia, por isso eu me tornei um especialista em convidar o cognitivo das plateias.

E a sua carreira internacional?

Está muito animada. Os pessoal do Southbank Festival de Londres [11 de junho a 18 de julho] me fez uma proposta que não gostei, quase desisti, mas insistiram. Acabaram mudando o conceito e me ofereceram uma ideia que achei interessante. O produtor propôs um set list escolhido por pessoas que tiveram contato comigo: Sean Lennon, Amon Tobin, David Byrne, Arto Lindsay. E no show vou dizer de quem foi o pedido.

O Ministério dos Direitos Humanos está pagando indenizações às pessoas que foram presas na época da ditadura. Você já pensou em pedir uma indenização?

Eu já sou indenizado. A primeira indenização que eu recebi foi poder ter cursado música com o dinheiro de um país pobre. Minha universidade não foi paga e era uma universidade muito sofisticada. Na ditadura eu ganhava do Partido Comunista para ser diretor de música do CPC. Em abril de 1964, é claro que o CPC caiu. Daí eu comentei na escola que eu ia ter que largar os estudos e voltar pra Irará. O diretor me ofereceu a bolsa. Tive direito a uma escola pública maravilhosa. Fui preso em 1978, mas não é o caso de me indenizar, porque eu ainda estou devendo. Na conta corrente da ética que eu pratico não tenho saldo credor, eu tenho é saldo devedor.