Democracia Brasileira

Assim como Axl e seu Chinese Democracy, o Brasil tem artistas “demorados”

Por José Flávio Júnior Publicado em 17/08/2010, às 05h08

SEM PRESSA O Instituto trabalha em ritmo de entretenimento
Pedro Strelkow / Divulgação (instituto)

Desde o começo de 2009, o cantor e MC BNegão entra em comunidades do Orkut dedicadas a seu trabalho para atualizar os fãs sobre a data de lançamento do segundo CD de seu projeto principal, com a banda Os Seletores de Frequência. "Sai neste semestre." "A ideia é março de 2010." "Deste ano não passa..." Sem esperança de ver o último prazo cumprido, um admirador mais espirituoso mandou: "Diga-nos, Axl, o Slash estará no disco?"

Se fosse só pela vontade de BNegão, o sucessor de Enxugando o Gelo (2003) já teria chegado ao mercado. Mas esse verdadeiro " Chinese Democracy dos trópicos" vem sendo adiado mês após mês e o que motiva os atrasos passa longe dos caprichos do líder do Guns N' Roses. "Eu vinha gerenciando minha carreira s ozinho. Não tinha como parar e focar só no disco", explica. "Agora estou trabalhando com um escritório e finalmente vou conseguir colocar a voz nas cinco músicas que faltam. A previsão agora é que o disco esteja nas bancas em outubro".Sim, nas bancas. BNegão quer que o novoCD- ainda sem nome, mas chamado nas internas de A Lenda - seja vendido da mesma forma que sua estreia, que esgotou uma tiragem de 20 mil cópias. Escudado por guitarrista e baterista diferentes do primeiro álbum, ele promete um disco com mais tintas africanas.

Outro que entra ano e sai ano e nunca se materializa é o s e- gundo do coletivo Instituto. "A gente é u ma mistura de Guns com Michael Jackson", brinca o produtor Rica Amabis, que calcula já estar pensando na continuação de Coleção Nacional Instituto (2002) há sete anos. "A verdade é que gravar um álbum já virou um hobby. Não eu ma prioridade porque não vai gerar dinheiro", diz. E assim o próximo CD da turma paulistana vai sendo burilado entre uma trilha ara cinema e outra, entre um trabalho publicitário e outro. Apesar de não ter data prevista para ser lançado, o repertório já tem três faixas finalizadas: uma com participação do cantor e baterista Curumin, outra com o rimador japonês Lyrics Born e uma unindo o lendário guitarrista da tropicália Lanny Gordin e o baterista Tony Allen, que divide a invenção do afro beat com Fela Kuti.

Sete anos também é o tempo em que rolam conversas sobre um álbum póstumo do rapper Sabotage, morto em 2003. Responsável pela direção artística do projeto, intitulado Maestro do Canão, o produtor Tejo Damasceno garante que até o fim deste ano o CD vira realidade. Serão 12 faixas, construídas a partir de esboços gravados pelo rapper em seu último ano de vida e adornadas por participações de fãs e amigos como Rappin' Hood, Céu, Otto, Kassin e até uma cantora popular que Tejo prefere ainda não dizer o nome. "Isso vai dar muito o que falar. Mas é alguém que o Sabota admirava muito." O grande destaque talvez seja uma homenagem a Chico Science, que a Nação Zumbi fez questão de musicar. "Ele era um cara que estava muito à frente do seu tempo", afirma o produtor. "Mesmo com essa demora, quando o material sair não soará nem um pouco datado."