Um Síndico Faz Falta

Em meio a projetos que não deslancham, caixa de CDs ressuscita parte da discografia de Tim Maia

Por José Julio do Espirito Santo Publicado em 22/09/2010, às 18h46

NOVIDADES Caixa de CDs recolocará parte do catálogo de Tim Maia (na foto, em 1974) no mercado

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Das vastas discografias dos artistas da MPB desfalcadas ao longo do tempo e da mudança de formatos, a de Tim Maia é das mais procuradas por uma geração que a redescobre via covers de artistas mais novos. Ou até mesmo em shows completos, como os da banda Instituto, que, junto a vários convidados, interpreta músicas dos dois volumes de Tim Maia Racional em tributo ao lendário soulman carioca. O relançamento de seus discos, porém, enfrenta percalços. "Como tudo de Tim Maia, a administração [de seu acervo] e o relançamento de seus discos é um caos", comenta Nelson Motta. O jornalista e produtor fez uma enorme pesquisa para escrever a biografia Vale Tudo: Tim Maia. "Ele tem mais de 100 processos judiciais rolando, contra e a favor. Entre eles, diversos com gravadoras que lançaram originalmente seus discos. Como Maia morreu em 1998, todos os relançamentos têm que ser autorizados pelo herdeiro, Carmelo Maia, e pelo advogado, e cada um envolve uma longa negociação. Totalmente Maia." A Rolling Stone entrou em contato com Julio Figueiredo, advogado de Carmelo, mas não teve resposta quanto a um pedido de entrevista.

Exemplos não faltam. O primeiro vo- lume do álbum dedicado à doutrina da Cultura Racional inicialmente sairia pelo selo Biscoito Fino, com a Trama ficando responsável pelo segundo. Quando a negociação com a Biscoito Fino não andou, a Trama desembolsou mais de R$ 100 mil pela licença para lançar a obra lendária. Em outra ocasião, em uma visita ao produtor Júnior Mendes em um estúdio no Rio de Janeiro, João Marcello Bôscoli, da Trama, conheceu dezenas de faixas inacabadas do artista. "A grande maioria delas estava em um estado quase final de pré-produção, com alguns acompanha- mentos usados como guia para um trabalho posterior no estúdio", Bôscoli explica.

A ideia que propuseram ao empresário era que ele usasse a voz de Tim e produzisse o resto com novos músicos tocando as composições. Ele gostou de conhecer o acervo inédito, mas declinou o convite. "Não curto muito esse estilo de gravação em que o artista protagonista, na verdade, não participa do processo."

Em 2007, revistas e sites de música resenhavam Nobody Can Live Forever: The Existential Soul of Tim Maia, lançamento da norte-americana Luaka Bop, com faixas em português e inglês, gravadas na década de 1970. Problemas de licenciamento impediram que a coletânea mais importante do artista para o exterior chegasse às lojas. Yale Evelev, diretor de marketing da gravadora, prefere não falar sobre a malfadada empreitada, em especial porque ainda não desistiu. "Esperamos que algum dia possamos lançar um trabalho com essas faixas", ele resume sobre que seria o quarto volume da série World Psychedelic Classics, da Luaka Bop.

Outro não lançamento muito comentado entre fãs é o inacabado Racional Vol. 3. Entre os poucos que tiveram acesso às fitas master de gravação do trabalho, o músico e produtor carioca Kassin se entusiasmou em lançá-lo. No entanto, ele se mantém em silêncio sobre o projeto, com receio de que ele nunca seja posto em prática. Tudo depende da liberação por Carmelo Maia. "Sei que ele [Carmelo] é 'afinzão' de lançar esse disco, mas existem outros problemas a serem resolvidos antes", diz Kassin. Enquanto isso não ocorre, pelo menos cinco faixas do álbum chegaram à internet.

Todos estas questões tornam mais precioso o box set de Tim - com os seis primeiros álbuns - que a gravadora Universal deve colocar no mercado até o fim do ano. Alice Soares, do marketing estratégico da gravadora, explica a novidade: "Agora os álbuns virão remasterizados, com letras adicionadas ao material gráfico original, para que as pessoas os conheçam mais a fundo. Não são apenas mais uns discos de Tim Maia." As masters hoje pertencem à Universal, que herdou o catálogo da Polygram, e isso facilita o projeto. "Quando lançamos faixas dele em coletâneas, aí, sim, precisamos da autorização de Carmelo", ela explica. Ainda assim, nenhuma sobra de estúdio entrará como bônus na caixa, mas versões em vinil estão nos planos da Universal. Mas ainda há vários buracos na discografia do cantor, espalhada por mais quatro gravadoras. "Um dos melhores discos dele, Nuvens, de 1982, jamais foi relançado", Motta diz. E desabafa: "O pior é que, se os discos não são relançados, são os piratas que vendem".