Canalha Solitário

Rafael Castro realiza missiva a um rock que considera jeca, neurótico e imperfeito

Por Flávia Gasi Publicado em 20/10/2010, às 13h39

PERSONAGEM Rafael Castro diz "se vestir de canalha" para agradar a si próprio
Otávio Castro

"Minha música é uma falta de caráter." O paulistano Rafael Castro, 24 anos, faz crônicas e versos populares, dedilha todos os instrumentos, masteriza, mixa e paga de patife em seus oito á lbuns lançados na internet. As canções são daquele rock simples, que aderem às sinapses cerebrais e teimam em sair. Não há pretensões, arrogâncias, látex, tachas ou paetês. "Não quero ser blasé, nem poser. Sou tosco, caipirão. Eu faço as coisas sem barreira social. Faço o que está fácil, sem custo, e o que é divertido. Não me preocupa o belo", escancara.

Assim como as epígrafes das suas letras, Rafael assume facetas e cria avatares: "Eu escrevo sobre pessoas reais, não sobre um tipo ou um grupo. Minhas músicas têm nome e sobrenome". Porém, basta perambular por elas para perceber que o malandro é u m dos protagonistas apadrinhados de Castro - tanto em sua versão desavergonhada e meliante como em sua porção cínica e melancólica. O palco consagra a iluminação perfeita para o nascimento do canalha, afinal "o canalha é o super-homem da vida a dois, o senhor de si. Banco o canalha para mim mesmo. Tem gente que se veste de mulher, de Bruce Dickinson, eu me visto de canalha", define.

Na outra polaridade fica o moço aflito, que se mudou para o interior de Paulo aos 10 anos. " Sou muito ansioso, e lá em Lençóis Paulista me senti deslocado, fiquei depressivo e desenvolvi síndrome do pânico", conta. O transtorno fez surgir uma nova máscara: do trovador que faz fanfarra da vida, somente para mostrar sua depressão: "Tenho canções de um alter ego alcoólatra e deprimido, cheio de manias e com TOC."

Para Rafael Castro, a música é um processo solitário - ele se encontra com a banda Os Monumentais para tocar, mas nem sempre para criar. " Compus com um povo, mas o processo é meio problemático, insuportável; no final sempre tem aquele que dá uma solada. Hoje, eu escrevo com a Tulipa Ruiz, mas ainda não sei se lançaremos algo juntos. Eu escrevo compulsivamente. É como se fosse o meu videogame.