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Por Antônio Amaral Rocha Publicado em 09/09/2010, às 19h41

Djavan quer rodar o mundo
Christian Gual/ Divulgação

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, um dos maiores nomes da música brasileira fala sobre um desejo realizado: lançar um disco só como intérprete.

Com 34 anos de carreira, 19 discos solos e três compilações, Djavan ousou deixar de lado a obrigação de compor e assumiu um projeto por muito tempo acalentado - que era o de gravar canções alheias, de uma maneira que acrescentasse algo a esse repertório. É o que se pode ouvir no recente Ária.

O fato de você deixar de lado as suas composições e gravar um trabalho só como intérprete não é uma temeridade?

Esse um projeto que eu tenho faz muito tempo. Eu fui crooner de boate no início de minha carreira e cantava músicas de outros autores. Não saiu antes, exatamente porque compor tornou-se para mim uma auto-afirmação. Era uma coisa vital. Eu jamais tive chance de não compor para fazer um disco. Então, eu sempre acabava fazendo um disco autoral. Dessa vez eu resolvi realmente não fazer nenhuma canção. É um projeto que me deixou muito feliz. Foi um negócio que atendeu exatamente o meu desejo, o meu objetivo, eu queria um disco assim, com uma instrumentação bastante específica, até para deixar as coisas mais difíceis, porque é um desafio você fazer um disco com canções de outras pessoas, com uma instrumentação assim, usando baixo acústico, percussão e dois violões, sem bateria. É muito mais difícil fazer arranjo, porque os recursos são parcos.

Essa pergunta tem a ver com o que o seu público espera de você...

Não tenha dúvida, algumas pessoas poderão chiar, nenhuma canção nova, mas aí no ano que vem eu faço um disco só de músicas inéditas e pronto. [risos]

Qual a expectativa com relação à recepção deste trabalho?

Eu imagino que vá haver justamente esse tipo de questionamento, a questão faz o maior sentido, mas eu não estou muito preocupado com isso. Na minha vida tudo foi feito até hoje para atender especificamente o meu desejo. Nunca pensei em tendência, nunca pensei em mercado, para mim o que vale é a música. Eu não penso em outra coisa, então eu não estou interessado realmente em outro tipo de enfoque que não seja esse: trabalhar com a música e da música fazer o que eu quiser, o que eu desejar, o que vai me deixar feliz. O público que gosta de mim, que está acostumado com esse tipo de postura, vai entender assim e vai gostar ou não gostar do disco. É um risco que se corre. Abrir mão dessa munição que eu tenho para fazer um disco de outros autores, com a escolha de um repertório que não é um repertório fácil, óbvio, bastante instigante. Em 34 anos de carreira, o risco é a maior motivação, é o que me dá forças para continuar fazendo, tendo o zelo e o gosto pela música que eu tenho. Portanto, eu acho que está tudo certo. Eu fiz o que tinha que fazer e está na mão de Deus, digamos assim.

Você acha que é um disco para poucos?

Eu acho que não, acho que esse disco vai surpreender a muita gente. É um disco que vai abranger um número de pessoas muito maior do que se pensa. Esse é um tipo de visão que está muito ligado ao fato ainda de eu ter aberto mão de um repertório inédito, um disco autoral. As pessoas vão descobrir o disco e entender que se trata de um desafio mesmo. Ao contrário do que se possa imaginar, de que é um disco passivo, não, é um desafio, abrir mão de um repertório inédito.

No imaginário do público tem marcado a sua voz, as suas divisões, as suas metáforas, a sua batida específica.

Exatamente, mas ao mesmo tempo, esse disco acaba sendo um pouco autoral, porque eu transformei todas as canções. De uma maneira distante poderia até dizer que eu compus usando as canções. Os arranjos, a instrumentação, mostram que é um disco fresco, não é um disco de regravação, no meu ponto de vista.

Qual o sentido que você quis passar com esse título Ária?

Como eu disse, eu fui crooner de boate, no início da década de 70, e agora eu volto a esse tempo. Ária é exatamente o auge da ópera, o momento do solista, é o momento sublime da ópera, onde o tenor ou a soprano se destaca. Eu achei um nome adequado por tratar-se de um disco de intérprete, além de ser um nome sofisticado, bonito e adequado.

Entre as 12 músicas deste disco, qual delas você espera que possa se transformar numa coisa como "Sorria", que tem a marca do Djavan?

É muito difícil pensar dessa maneira. Eu não tenho ideia. Por exemplo, tem uma música que está na novela Passione, a "Sabes Mentir", que é uma música que foi sucesso na voz de Ângela Maria na década de 50 e eu conheci ainda garotinho, através de minha mãe que era fã da Ângela Maria. E essa música está tocando em rádio. Ao mesmo tempo, eu fiz um clipe com a música "Palco" do Gilberto Gil, com uma transformação muito radical e achei que ficou uma coisa muito diferente. Mas é muito difícil prever. Sobretudo, hoje, que você não manda mais um disco single para as rádios, como se fazia antes. Isso já não funciona mais depois da Internet. Agora, se disponibiliza um disco inteiro. As pessoas têm ali acesso a tudo, então uma música para ser massificada pela rádio tem que ser pela escolha da própria rádio. São os moldes dos novos tempos, portanto eu não saberia dizer.

Como se deu a escolha do repertório?

São reminiscências do passado... a do Tom Jobim, "Brigas Nunca Mais", por exemplo, é uma das que eu cantava em boates. "Sabes Mentir" também. E tem uma chamada "Nada a nos Separar" que vem também da época da minha adolescência. Eu estava numa época difícil porque minha família queria que eu fosse militar e cursasse a Academia Militar das Agulhas Negras. Então, eu fugi de casa e fui morar em Recife, na casa de um primo. E exatamente quando eu estava em Recife, sozinho, essa música fazia um sucesso estrondoso com o Trio Esperança na voz da Evinha, então foi por isso que a escolhi. O critério foi muito variado. Eu estou sempre buscando desafios, por isso incluí "Palco". Trata-se de uma música extremamente conhecida do Gilberto Gil e achei uma temeridade mexer nisso e isso me motivou. Assim, como quando eu pensei em gravar um standard americano, eu queria o standard mais batido que existisse e escolhi "Fly me to the Moon". E as músicas do Caetano, do Gil, do Chico, é difícil gravar músicas dessas pessoas, considero-as intocáveis, das quais eu não quero ouvir outras versões. Acabei resolvendo por "Valsa Brasileira" do Chico e Edu e "Oração ao Tempo", de Caetano, por tratar-se de duas músicas difíceis. Foi um disco onde eu busquei desafios.

Os arranjos tendem bastante para um samba-bossa, quando à batida do violão e são econômicos e minimalistas.

Esse disco foi gravado de maneira bem distinta de outros discos. De modo geral, primeiro grava-se a base, que é o baixo, bateria, teclado, piano, violão guitarra, depois grava-se o arranjo com metais , cordas, a instrumentação primordial, depois grava-se a voz, mixa-se e está pronto o disco. Neste caso fizemos da seguinte maneira: eu gravei voz e violão de maneira definitiva e daí pusemos todo o resto das coisas sobre essa gravação definitiva, a guitarra ou outro violão tocado pelo Torcuato e a percussão. Bem minimalista, até porque tem uma instrumentação bem restrita e bem distinta, visando uma nova sonoridade, visando um resultado convincente.

Porque você incluiu essa faixa instrumental, "13 de Dezembro", do Gonzagão?

Eu acho essa música uma preciosidade. Imagine, dois grandes compositores e letristas, como foram Luiz Gonzaga e Zé Dantas, fazerem uma música instrumental! Para mim isso é a mãe de todas as novidades. Quando ouvi essa música pela primeira vez eu fiquei emocionado. Eu percebi nela algum perfume jazzístico. Acho que lá pela década de 30, 40 quando o jazz começou a abraçar o mundo deve ter respingado naquele jovenzinho Luiz Gonzaga lá em Pernambuco. Quando eu ouvi, logo pensei em transformar essa música em jazz, é um forro maravilhoso, mas se eu tirar a base do jazz e botar a base do forró, a minha interpretação não vai mudar em nada. Existe uma ligação possível entre uma coisa e outra, mesmo que possa ser considerada improvável por muita gente.

Você tem fôlego para temporadas e turnês?

Eu vou fazer uma turnê mundial com esse disco. Começo agora em setembro de 2010 e provavelmente vá até o final de 2011 com ele. Vou rodar o mundo inteiro. América Latina, Estados Unidos, Europa e também Japão, além do Brasil todo. Já tenho shows confirmados: 24 e 25 de setembro no Credicard Hall em São Paulo, 1 e 2 de outubro no Citibank Hall, no Rio de Janeiro, 28 de outubro em Santo Domingo, 29 de outubro em Miami, 31 de outubro em Boston, 2 de novembro em Nova York, 4 de novembro em Houston, 6 de novembro em Los Angeles, 7 de novembro em São Francisco, 24 de novembro em Buenos Aires, 26 de novembro em Santiago e 28 de novembro em Montevidéu.

E qual é a recepção dos seus shows nesses lugares?

Eu faço shows internacionais de 1981 e a receptividade sempre foi muito boa. Os shows estão sempre muito lotados. É sempre assim por mais de 15 anos.

O que você esteve fazendo desde o lançamento de Matizes, em 2007?

Esse disco agora foi o que mais me demorei em lançar. Eu lanço sempre de dois em dois anos. Eu me casei de novo faz 10 anos e tenho dois filhos pequenos, Sofia com 8 anos e Inácio com 3 anos e meio. O Inácio estava muito novinho e eu queria ajudar, pela primeira vez... eu tenho cinco filhos. Eu queria me dedicar mais a isso, depois tem outras coisas que eu faço, que eu gosto, eu mexo um pouco com arquitetura, mexo com botânica, eu trabalho muito nessas coisas quando não estou fazendo música. E esses anos todos, dois anos na verdade, eu fiquei com a turné de Matizes até o final de 2008. E fiquei praticamente 1 ano trabalhando em Ária, escolhendo repertório, ouvindo o cancioneiro brasileiro. Hoje conheço muito mais do que conhecia, pois me debrucei sobre ele. Então, não fiquei parado, eu não paro um instante.

É porque não se vê você na TV...

TV é uma coisa que eu não faço faz muito tempo. Eu descobri que a televisão é que produz o assédio imediato. A vida sem a televisão é mais fácil. Você vive muito mais tranquilo sem o imediatismo da televisão. É claro que a televisão é importante para uma pessoa pública, para o artista, mas eu resolvi fazer cada vez menos e vou fazer sempre que for necessário.

Você é um dos artistas que mais se ouve em rádio. "Flor de Liz" é uma das músicas mais executadas em bares. Ouve-se Djavan até em de magazines e supermercados... Você gosta de se ouvir?

Eu não costumo ouvir meus discos. Como eu estou sempre voltado para o futuro, para o que vem aí, eu estou sempre produzindo, e como estou sempre produzindo, eu não escuto os meus discos, porque ali eu já não vou descobrir nada, já sei de cor e salteado, a não ser quando preciso para o trabalho, mas por lazer eu prefiro ouvir outros, e eu não tenho ouvido muita gente ultimamente porque eu tenho trabalhado muito. Mas, de um modo geral, eu escolheria ouvir um outro autor do que a mim mesmo, se for apenas por lazer.

No último Bridgestone Festival, em São Paulo, a cantora Melissa Walker inseriu "Flor de Liz", no repertório. Você sabia que cantoras internacionais interpretam as suas músicas?

Essa eu não conheço, mas eu sei disso. Essa música inclusive foi gravada inicialmente pela Carmen McRae, com o nome "Upside Down" e foi ela quem gravou primeiro. É muito executada nos Estados Unidos e na Europa e também no Japão. Diversas músicas minhas foram gravadas por artistas americanos, entre elas, "Sina", "Oceano".