Na Barriga do Monstro

Quinze trocas de roupa, 28 caminhões e sangue jorrando: toda a extravagância da atual turnê de Lady Gaga

Por David Browne Publicado em 20/10/2010, às 13h56

EM CHAMAS Lady Gaga ao piano, em um dos momentos de seu show atual

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Nas semanas anteriores ao início da turnê Monster Ball nos Estados Unidos, Lady Gaga e sua equipe ajustavam detalhes enlouquecidamente, desde a coreografia até a iluminação. Mas quando a turnê estreou em Montreal (Canadá), em 28 de junho, Gaga jogou o roteiro fora: sentada diante do piano, ela chocou sua equipe ao incluir uma música nova, a estridente balada "You and I", que está planejada para seu próximo disco. "Ela simplesmente pega e faz, e a gente tem que reagir", diz Mo Morrison, o gerente da turnê, sobre a artista.

No show ,Monster Ball (até o fechamento desta edição, sem previsão de passagem pelo Brasil), Gaga mistura a essência de um show de rock com elementos dignos de um musical da Broadway. Com mais de quatro "atos", o espetáculo de duas horas recria uma noite na vida de Lady Gaga. Começa em seu antigo bairro, o Lower East Side, em Nova York (o luminoso de néon "176" no palco representa o número do prédio em que ela viveu na Stanton Street), passa para um Central Park fantasmagórico e acaba no tal "bailemonstro" que dá o título à turnê. Acompanhada de uma dúzia de dançarinos, a cantora troca de roupa 15 vezes, toca um piano do qual saem labaredas, dança em um vagão de metrô e se empapa de sangue falso em "Alejandro".

O auge é quando Gaga luta contra um monstro - um boneco gigante em forma de peixe com dentes arreganhados, que a envolve com seus tentáculos enquanto ela canta "Paparazzi". "A maneira como ela se apresenta é tão exagerada e cafona. Mas, pensando bem, é do caralho", diz Justin Tranter, vocalista da banda de abertura, a Semi Precious Weapons. " É como se fosse Elton John, Bette Midler e Marilyn Manson, acompanhados por música pop." Gaga e seu diretor criativo, Matthew Williams, começaram a mapear o Monster Ball antes mesmo de a turnê de 2009 ter terminado. Sabendo que tocariam em lugares grandes, conceberam um espetáculo em maior escala que combinava ideias dos primeiros shows da cantora (a varinha iluminada que ela chama de "Disco Stick") com outras novas e audaciosas (o piano em chamas). "Nós sempre falamos sobre fazer isso, mas desta vez pensamos: 'Vamos implementar todas as ideias de uma vez'", diz Williams. "Eu queria que fosse como uma rave, em que as pessoas esbarram umas nas outras e você está o tempo todo envolvido em alguma coisa."

A equipe de produção só teve um mês para planejar e construir o elaborado cenário e apenas uma semana para ensaiar antes da estreia. "Evoluiu para um espetáculo muito maior que qualquer um tivesse previsto", diz Arthur Fogel, da produtora Live Nation, a promotora do espetáculo (que prevê que a turnê de Gaga irá arrecadar entre US$ 150 e US$ 200 milhões quando terminar. De acordo com a revista Forbes, Gaga arrecadou US$ 62 milhões nos últimos 12 meses). No início de fevereiro, a turnê estava pronta para cair nas estradas norte-americanas. O cenário é tão enorme que se exigem 28 caminhões - quase o dobro de uma turnê normal. Só o guarda-roupa de Gaga ocupa mais do que um caminhão inteiro, o que a obriga a usar quatro ônibus independentes, entre eles, um equipado com uma cama tamanho king e outro com um estúdio de gravação completo para ela criar faixas novas na estrada. O espetáculo foi evoluindo durante os últimos ensaios. Em um deles, Gaga caminhou até a "fonte de sangue" em "Alejandro" e pulou para dentro dela. Mo Morrison, que já foi gerente de turnê de Michael Jackson e Britney Spears, achou que Gaga só ficaria dançando em volta do aparato, então teve que reconstruir a fonte para aguentar o peso da artista. "Foi um desafio, mas ela tem uma visão", ele diz.

E, ao mesmo tempo que a maior parte das ideias de Gaga entrou no show, algumas simplesmente eram muito perigosas. Um dia, Gaga apresentou uma ideia. "Ela estava de férias no Havaí", conta Williams. "E disse: 'Quero que saia fogo dos meus mamilos'." No final, Williams a convenceu a colocar no sutiã dispositivos que soltam faíscas, em vez de chamas. "Eu a coloco em perigo o tempo todo", ela completa, rindo. "Mas, desta vez, tive de dizer que era perigoso demais."