Entrevista: Celso Amorim

O atual Ministro das Relações Exteriores faz um balanço do governo Lula

Por Rodrigo Barros e Ulisses Neto Publicado em 02/12/2010, às 14h05

ESTABILIDADE Em oito anos de poder, Amorim imprimiu seu estilo na politica externa brasileira
ANTONIO CRUZ/ABR

Imagine ser convocado para um trabalho em que você terá de viajar semana sim, semana não para discutir questões que podem mudar o curso do planeta. E ainda defender o interesse de mais de 190 milhões de brasileiros. Essa tem sido a rotina de Celso Amorim, 68, nos últimos oito anos. O Ministro das Relações Exteriores embarcou 167 vezes, perfazendo 259 visitas oficiais a 117 países diferentes. Não é à toa que, em novembro de 2010, o diplomata vai ultrapassar o Barão de Rio Branco, como o homem que por mais tempo exerceu a função de chanceler brasileiro. Nascido em Santos (SP) e formado pelo Instituto Rio Branco, Amorim ajudou a construir a nova política externa do país. Alvo de críticas e de elogios em iguais proporções, ele se mantém na pasta desde o primeiro dia de mandato do presidente. Somente o general Jorge Armando Félix, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, repete o feito de Amorim, ocupando o cargo de ministro desde o começo do governo. Em meio a uma semana considerada surreal por seus assessores, incluindo 36 reuniões com líderes de todo o planeta e o discurso de abertura da Assembleia-Geral da ONU, onde representou Lula, o ministro das Relações Exteriores falou de Nova York com exclusividade à Rolling Stone Brasil sobre a sua gestão no Itamaraty. E confessa: é hora de dar mais atenção à família.

O senhor acredita que há uma "partidarização" das críticas a respeito das posições adotadas pelo Itamaraty?

Os objetivos da política externa brasileira baseiam-se na Constituição. Há, no entanto, entre os vários governos, diferenças de visão sobre a capacidade do Brasil de influir em questões internacionais. Muita gente ainda subestima a capacidade do país de contribuir positivamente para a agenda internacional. O Brasil tem posições coerentes em todas as áreas, tanto que se tornou uma força nas grandes discussões mundiais, das finanças à mudança do clima, passando por comércio e questões de segurança. Entendemos que a política externa deve ter um certo grau de ousadia. Curiosamente, a imprensa estrangeira valoriza a política externa brasileira, mesmo quando discorda de algum aspecto específico, o que é normal. As críticas mais contundentes vêm da imprensa brasileira, que parece não gostar do novo papel do Brasil.

Qual foi o momento mais tenso para o senhor durante estes oito anos?

Eu só senti tensão mesmo em situações que envolveram outras vidas humanas de uma forma muito concreta, quando tivemos que organizar a retirada urgente de brasileiros que viviam no Líbano durante a ofensiva israelense; ou quando o engenheiro brasileiro João José Vasconcellos Júnior foi sequestrado e morto no Iraque; ou com a perda de militares e civis no terrível terremoto no Haiti. Evidentemente, eu gostaria de ter testemunhado a conclusão da chamada "Rodada do Desenvolvimento" da OMC e a tão necessária reforma das Nações Unidas. Mas essas são construções complexas e coletivas, que virão com o tempo. Orgulho-me de ter feito o que fiz. Muitas vezes os frutos só são colhidos mais tarde.

Quanto as posições do presidente Lula o influenciaram na tomada de decisões e quanto o senhor o influenciou nos momentos de crise externa?

No nosso sistema, o presidente é quem define as linhas da política externa e o Itamaraty executa. O presidente não "influencia", ele decide. Mas é evidente que cabe ao ministro apresentar os detalhes das questões e dar a sua opinião, que pode ou não ser acatada. Eu diria que sempre houve muita convergência.

Sem Lula, será possível para o próximo governo manter o país como um "player" de destaque nas negociações globais, dando continuidade, inclusive, às posições divergentes dos interesses de grandes potências?

Além do carisma pessoal do presidente Lula, a política externa se beneficia das realizações no campo econômico, político e social. Embora impulsionadas inicialmente pelo presidente, tais realizações são conquistas da sociedade brasileira que continuarão a dar sentido a nossa política externa. Divergências com grandes potências ocorrerão e devem ser encaradas com naturalidade. Só países subservientes não discordam de ninguém.

O senhor se arrepende de algum movimento adotado neste governo?

Foi justamente por não temer ações ousadas que colhemos inúmeros resultados: integração sul-americana, consolidação do Mercosul, criação do G-20 comercial na OMC - que mudou a maneira de se negociar naquela Organização -, maior presença na África, missão de paz no Haiti e um crescimento expressivo da presença diplomática brasileira no mundo. O Brasil não pleiteia sozinho a reforma da ONU - Japão, Alemanha, Índia, África do Sul, Nigéria e vários outros países trabalham pela reforma. Mas esse processo envolve a concordância de muitos países, e é natural que leve tempo. Ninguém em sã consciência pode acreditar que um órgão que reflete a distribuição de poder militar de 1945 faça sentido hoje. Quanto à questão nuclear iraniana, Brasil e Turquia buscaram criar um ambiente de confiança e de promoção da paz, com base nas propostas feitas por países que, depois, por motivos internos ou outros, apoiaram as sanções contra o Irã. Estou confiante de que a Declaração de Teerã, assinada pelo Brasil, pela Turquia e pelo Irã, continuará a ser, ainda que com outro nome, uma referência nas negociações sobre o tema.

Ainda existem acertos a serem feitos para que o Brasil acompanhe o desenvolvimento visto em países do BRIC. De que forma a falta das reformas política e tributária atrapalhou o desenvolvimento da nação no plano internacional?

Não me parece que o Brasil esteja em ritmo de desenvolvimento inferior ao dos demais países do BRIC. Em uma série de aspectos, por sinal, temos indicadores mais consistentes. Quanto às reformas política e tributária, são temas que dizem respeito à dinâmica institucional doméstica do país. O maior espaço que o Brasil tem ocupado no cenário internacional decorre da percepção objetiva de uma série de fatores: a pujança e o potencial de crescimento da nossa economia, nosso comprometimento firme com o multilateralismo, nossas posições construtivas nas negociações sobre mudança do clima e em outros temas, nossas inovações na área de biocombustíveis, o vigor da nossa democracia e o caráter plural de nossa sociedade.

Após oito anos intensos, quais são os planos do senhor a partir do dia 1º de janeiro de 2011?

Tenho um convite para dar aulas na UFRJ. E espero ter um convite dos meus filhos para dar palpites nos roteiros dos seus filmes, e de meus netos, para passar mais tempo com eles.