Geddy Lee

O baixista e vocalista do Rush fala da crítica, da volta ao Brasil e do amigo Neil Peart

Por Paulo Cavalcanti Publicado em 02/12/2010, às 11h38

LONGE DA BADALAÇÃO Geddy Lee valoriza a independência do Rush
DIVULGAÇÃO

Neste mês, o Rush desembarca no Brasil para apresentar a Time Machine Tour 2010. Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart tocam em São Paulo e no Rio de Janeiro. Este está sendo um ano bom para o Rush. Boa parte da reavaliação e redescoberta da banda vem acontecendo por causa do documentário Rush: Beyond the Lighted Stage, uma radiografia da chamada "maior banda cult do mundo". É que, apesar de vender milhões e lotar estádios, o Rush nunca foi afeito a badalações. Sem contar a pecha de "banda nerd". Geddy Lee, o cantor, baixista e porta-voz do trio, em uma conversa por telefone, distila a elegância e o humor sardônico de sempre, falando de tudo um pouco.

Como vai ser o retorno?

Como já dissemos outras vezes, aquela primeira visita ao Brasil em 2002 foi uma revelação. Acho que somente com a chegada da internet é que tivemos noção do número de fãs e da mobilização que o pessoal seria capaz. As apresentações foram épicas, foi o nosso maior público, tivemos uma recepção inacreditável. Agora voltamos com tudo novo, um show bem diferente daquele de oitos anos atrás. Temos uma nova iluminação e também criamos alguns filmes divertidos para serem projetados de fundo. Ali pudemos dar vazão ao nosso lado teatral. Mas não dá para falar aqui tudo o que vai ter, não vamos também entregar o jogo. Mas, como todos sabem, estamos tocando o álbum Moving Pictures na íntegra. Temos a sorte de possuir um catálogo grande, mas percebemos que o Moving Pictures ainda é um dos nossos trabalhos mais populares e duradouros. Também vamos fazer uma prévia de Clockwork Angels, o disco que lançaremos no ano que vem.

O documentário está sendo elogiado até por quem não é fã do Rush. Como ele surgiu?

Quando os diretores Sam Dunn e Scot McFadyen se aproximaram para fazer o documentário, nós simplesmente respondemos: "Obrigado, não estamos interessados, não queremos nos ocupar com isso, não temos tempo". Mas eles conseguiram nos convencer, falaram que poderiam deixar tudo nas mãos deles, que não precisaríamos nos preocupar, seriam muito respeitosos com a nossa história. Não tivemos nenhuma decisão sobre o resultado final. O surpreendente é que o documentário acabou ficando muito melhor do que poderíamos desejar. Ficou bom porque os diretores perceberam que tinham uma boa história para contar.

O documentário está sendo elogiado até por quem não é f ã do Rush. Como ele surgiu?

Quando os diretores Sam Dunn e Scot McFadyen se aproximaram para fazer o documentário, nós simplesmente respondemos: "Obrigado, não estamos interessados, não queremos nos ocupar com isso, não temos tempo". Mas eles conseguiram nos convencer, falaram que poderiam deixar tudo nas mãos deles, que não precisaríamos nos preocupar, seriam muito respeitosos com a nossa história. Não tivemos nenhuma decisão sobre o resultado final. O surpreendente é que o documentário acabou ficando muito melhor do que poderíamos desejar. Ficou bom porque os diretores perceberam que tinham uma boa história para contar.

E qual seria essa história?

Uma história de amizade. Nós somos aquilo que você vê lá, três amigos que se uniram contra o mundo pela paixão a música. Em nossa história não tem um lado negro, não tem escândalo, nada parecido com isso. Talvez possam achar que somos três caras aborrecidos, mas somos assim. E também somos uns caras bem-humorados. O documentário tem humor. Acho que muita gente nunca pensou no Rush dessa forma.

O documentário mostra também que a banda foi alvo da crítica. Vocês eram chamados de pomposos e pretensiosos.

Nós sempre vivemos e trabalhamos à margem da imprensa e principalmente da crítica. Talvez receber críticas pesadas incomode quem se acostume a sair regularmente nas revistas. No mundo do Rush nunca foi assim. Nós nunca aparecemos em revistas badaladas, em colunas sociais ou em páginas de fofocas. Só viramos assunto ou ganhamos capas de revista técnicas. Sempre fomos muito independentes, talvez isso incomode um pouco parte da mídia.

Bem, hoje isso mudou.

Principalmente por causa dos fãs. Estamos aí há quase 40 anos e nossos fãs são maravilhosos, nos deram apoio nos momentos mais difíceis, especialmente depois de Caress of Steel (1975), quando pensamos seriamente em desistir. Eu acredito que hoje parte da imprensa pense: "Bem, se existe gente tão devotada por causa desses três, então eles não devem ser tão ruins assim [risos]".

O documentário também dá voz ao recluso Neil Peart. Foi difícil convencêlo a "se abrir"?

Existe crime em ser tímido? [risos]. Bem, é notório que o Neil não gosta de estranhos ao seu redor. Não é frescura, ele sofre de fobia. Por isso existe uma fama injusta, mas até certo ponto compreensível, de ele ser um cara antipático e antissocial. Mas quem assistir ao documentário vai entender as razões de o Neil ser do jeito que é. Eu e o Alex não nos importamos em socializar e dar entrevistas. Já o Neil sempre foi uma pessoa extremamente reservada, mais do que o normal. Sempre foi assim e depois que ele passou por problemas pessoais ficou um pouco pior [Em 1997, Selena, filha de Peart, morreu em um acidente automobilístico; no ano seguinte, sua esposa, Jacqueline Taylor, morreu de câncer]. Foi preciso muita força para que ele prosseguisse. Neil é um cara incrível, um músico como poucos, com um senso de humor impecável. Mas é uma questão de respeitar os limites. Ele não gosta de aparecer e ninguém pode forçá-lo a isso. Mas ele próprio sentiu que precisava mostrar sua versão da história. Neil tinha que fazer isso, nem que fosse uma vez na vida.