Mais James Cameron

O diretor de Avatar fala sobre a nova versão do filme, as mensagens contidas em sua obra e seus hábitos de homem comum

Por Pablo Miyazawa Publicado em 25/10/2010, às 18h07

James Cameron: incansável
AP

James Cameron falou à Rolling Stone Brasil: em nossa edição 49, você confere um P&R (leia um trecho aqui) com o cineasta; abaixo, mais da entrevista, com exclusividade neste site.

Do que se trata essa nova versão de Avatar?

Incluímos quase 9 minutos. São 8 minutos e 50 segundos de cenas. É um monte de coisas que adorávamos, mas que jamais conseguimos finalizar. Como você sabe, Avatar foi feito em sua maioria com captura de movimentos e computação gráfica, e todas as novas cenas que incluímos são computadorizadas. Havia um "limite" do que conseguiríamos finalizar e, ainda assim, lançar o filme na data prevista. Então, tirei fora algumas cenas, para permitir que conseguíssemos finalizá-lo no prazo. E já que Avatar foi um sucesso, fui falar com o estúdio e pedi: "Ei, que tal vocês me darem mais alguns milhões de dólares para eu terminar aquelas cenas? A gente pode incluí-las no filme e daí relançá-lo no verão". E eu estava pensando no fim do verão, que é quando as coisas estão mais tranquilas e os grandes blockbusters já foram lançados. E aí, faríamos apenas em 3D, para assim, todo mundo poder ver, inclusive aqueles que queriam vê-lo no cinema, mas não conseguiram porque havia outros filmes em 3D ocupando as salas disponíveis. E como você sabe, estávamos vendendo ingressos feito loucos, e acabamos ficando sem salas de cinemas 3D para atender a Avatar e Alice no País das Maravilhas ao mesmo tempo. Perdemos praticamente metade de nossas telas da noite para o dia. Havia muita gente que queria ver o filme nos cinemas, mas não teve a chance. Então foi o isso o que tínhamos em mente quando pensamos sobre o relançamento.

Você acha que Avatar é um filme que consegue conservar a mesma vibração quando assistido em tela pequena?

Bem, não há duvidas de que a melhor maneira de ver o filme é em 3D, na tela grande. Não há duvidas quanto a isso. Mas, aparentemente, porque a conversão para home vídeo foi tão bem feita, há algo na vibração e nas cores que foi transportado perfeitamente para a tela da TV. Você tem que se lembrar de que todos os filmes acabam indo para a telinha. Então, não é preciso ser melhor do que é Avatar na telona - só precisávamos ser melhor do que todos os outros filmes em tela pequena. Entendeu? E temos que lembrar que as TVs com 3D embutido estão chegando, e em breve as pessoas poderão assistir a Avatar em casa. Mas isso é algo que não acontecerá até o ano que vem.

Mesmo sendo o filme mais rentável de todos os tempos, há também quem diga que não há nada de arte em Avatar, que ele é apenas e somente um produto de entretenimento. O que você acha disso? Seria ele um filme à frente de seu tempo?

Eu acho que o filme foi lançado no momento certo de seu tempo. Ele pode ter usado a melhor tecnologia disponível, mas acho que a mensagem transmitida é do tipo que interessa às pessoas. Claro, é um filme de ação e aventura, e se é disso que você gosta, então ficará satisfeito. Mas se você quer mais do filme, se você quer uma conexão emocional, ou ainda, ouso dizer, espiritual, então o filme corresponde nesses níveis também. Eu acho que as pessoas sentem, coletivamente ao redor do mundo, que nossa civilização tecnológica está nos afastando de um estilo de vida "natural", além de estar prejudicando a natureza que necessitamos para sobreviver. Existe, portanto, o senso de que o filme conecta nesse nível também, como "mensagem". E é preciso ter mensagem em um filme de ação? Não, mas se o filme proporciona isso também, então acho que é algo positivo. Pois, dessa forma, ele se torna um trabalho artístico, afinal apresenta opiniões, statements, em sua narrativa.

Você acha que um filme pode mudar o mundo ou a maneira como as pessoas pensam? E como cineasta, isso já foi seu objetivo?

Eu acho que a pergunta na verdade é: "quanto um filme pode mudar o mundo?". E eu não sei a resposta pra isso. Eu acho que todo filme muda o mundo, nem que seja de uma maneira mínima, talvez como um grão de areia na praia. A pergunta é: "quanto efeito ele terá sobre o mundo?". Assistir a Avatar proporciona uma sensação de perda e de destruição que, ao chegar em casa, você envia US$ 10 ao Greenpeace? Ou será que o filme faz você pensar diferente a respeito de quem iria votar? Eu não sei, e não acho que exista uma maneira de medir isso. Só sei que, como artista, eu fico mais satisfeito de fazer um filme que traga uma mensagem que acredito do que fazer uma peça de entretenimento que não tenha mensagem ou opinião nenhuma. Você pode achar que O Exterminador do Futuro era apenas um filme de ação, certo? Mas era também sobre guerra nuclear, o papel da tecnologia e a desumanização psicológica da humanidade. O Segredo do Abismo possui um tema. Todos os meus filmes possuem temas que considero importantes e que refletem minhas visões, e isso faz parte de meu discurso como artista. Honestamente, acho que no fundo as pessoas desejam isso. Elas não querem um filme-pipoca que sirva puramente como entretenimento. Mas, por outro lado, eu não acho que eles queiram que a mensagem temática de um filme substitua a diversão em um cinema. É um belo equilíbrio que é preciso sempre se buscar.

Como você se define profissionalmente? Li diversas matérias onde pessoas que gostam de você descrevem a experiência de trabalhar com você especial, interessante, única e diversos outros adjetivos. Como você se define?

Bem, eu gosto de me desafiar artisticamente e tecnicamente, no sentido de "até onde pessoalmente consigo chegar nessa mídia que é o cinema?". E as pessoas com quem trabalhei e gostaram da experiência são o tipo de gente que está em busca do mesmo tipo de desafios em suas vidas. Os atores, por exemplo: o Sam Worthington é o tipo de ator que adora desafios, ele não gosta de fazer em filmes em que não se sinta pressionado. E a Sigourney Weaver é a mesma coisa, ela adora o fato de ter feito parte de algo pioneiro e que a levou muito além do que ela já havia feito em sua carreira. Acho que é isso que faz o cinema emocionante, quando você vai além do que já foi feito antes.

Pessoalmente, você se considera um cara comum? Quais são os hábitos que tem que considera normais, e quais são as coisas que você curte que não são para qualquer um?

Bem... Sabe, eu tenho minha vida em família, que é bastante privada. Tenho cinco filhos, adoro ser pai e fazer coisas que qualquer outro homem de família adora fazer. Fazer jantar para as crianças, preparar o café da manhã, essas coisas. As pessoas não pensam em mim sob esse ponto de vista, mas é porque essa é minha existência particular, e eu meio que a protejo do resto do mundo. E no que diz respeito ao trabalho, gosto de pensar em mim como o líder de uma equipe, e o meu trabalho diariamente é... Bem, se eu não souber o que fazer, ou meu moral estiver baixo, isso irá afetar toda a equipe, então acho que a energia de um projeto vem diretamente da liderança. E é um desafio da equipe, tentar se divertir fazendo o trabalho, e isso acaba tornando a experiência melhor para todo mundo. Eu sinto que preciso passar a seguinte mensagem: parte dela é ser um cara normal, que sai, faz piadas, dá risada; e parte disso é dizer "ok, pessoal, agora temos que conseguir, temos que nos esforçar".

Você passou quatro anos fazendo o filme e escreveu o roteiro há 16 anos. Agora, você voltou a falar sobre ele. Você não se cansa?

[Risos] Foi bem bacana reunir a equipe novamente para fazer esses nove minutos a mais. Todo mundo curtiu bastante porque o prazo era melhor, não aquele prazo maluco que nós enfrentamos antes para finalizar o filme. Foi ótimo reunir todo mundo e estavam todos muito felizes porque conseguiram realizar algo novo a partir do sucesso do filme. Então, foi divertido. Mas eu não acho que estou cansado de seres azuis. E é melhor eu não estar, se eu ainda quiser fazer mais dois Avatar.