Turistas Acidentais

A saga errática e tragicômica de dois brasileiros confundidos com terroristas nos Estados Unidos

Por Christina Fuscaldo Publicado em 02/12/2010, às 12h43

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"Did you find my bomb?" A pergunta do brasileiro Mizael Mendonça Cabral foi endereçada ao funcionário da Administração de Segurança no Transporte (TSA) no Aeroporto Internacional de Miami, no momento em que se iniciava a revista de sua bagagem após a passagem pelo raio-x. Naquela noite de outubro de 2004, Mizael descobriu a duras penas que "bomb" era a palavra errada para se referir a uma bomba de sucção - o correto seria "pump". Ao seu lado, o amigo Daniel Augusto Grilo Corrêa também se desentendia com os oficiais. "Não abre a mala, não", ele pediu ao agente encarregado. "Porque está tão cheia que pode explodir."

A cena teve requintes de uma comédia de pastelão. Graças ao reforço de segurança imposto pelos Estados Unidos depois dos ataques terroristas de setembro de 2001, rapidamente Mizael e Daniel se viram cercados por membros da TSA, que não hesitaram em acionar o FBI. Algemados, os brasileiros não conseguiam explicar o mal-entendido. Nada ajudou o fato de ambos estarem ilegalmente no país. Acabaram detidos. Já encarcerados, enquanto tentavam entender o que acontecia, as manchetes pipocavam na imprensa de todo o mundo: "Brasileiros presos em Miami como terroristas".

Faltava menos de uma semana para as eleições que levariam George W. Bush à presidência dos Estados Unidos pela segunda vez. No seu primeiro mandato, principalmente depois do ataque que derrubou as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, a ordem geral era combater o terrorismo: toda ação nesse sentido poderia aumentar a popularidade de Bush entre o traumatizado povo norte-americano e, consequentemente, render-lhe votos. Enquanto Mizael e Daniel já acreditavam que serviriam de bodes expiatórios, os jornais locais os chamavam de "terroristas brasileiros" sem hesitação. "O engraçado é que, quando estávamos naquela salinha da imigração, um cara do FBI disse que íamos sair dali em breve", conta Daniel. "Eram dois agentes a favor e dois contra. O interrogatório foi até duas da manhã. Aí um cara chamado Malone falou: 'Vamos investigar esses caras'. Foi quem ferrou a gente. E fomos para a cadeia."

Daniel Corrêa tinha 27 anos na época, e havia passado os últimos cinco juntando dinheiro nos Estados Unidos, onde sua mãe morava legalmente. Moreno, de sobrancelhas grossas e nariz bem delineado, ele poderia passar facilmente por um "homem-bomba", não fosse pelo sorriso constante no rosto e pela dificuldade em focar sua atenção em um só assunto. Mizael, loiro, olhos azuis e jeito de surfista, então com 29 anos, estava na mesma situação de ilegalidade - com o agravante de a família estar concentrada na Paraíba.

Quando um funcionário dos correios bateu na porta da casa de Hilda Grilo Patton, mãe de Daniel Corrêa, e lhe entregou uma caixa com as roupas e sapatos dos rapazes, ela só conseguiu imaginar o pior. Ao identificar o remetente, ela correu para a prisão. Não teve acesso ao filho exatamente por ser cidadã norte-americana: ao adotar o nome de família do marido, Hilda passou a não ter mais o sobrenome igual ao do filho. E não adiantava dizer que os dois tinham o Grilo no nome. "Só pude ver meu filho no primeiro julgamento, que aconteceu uma semana depois", conta. "Tentei falar com o Daniel, mas o advogado de defesa pedia para que ele não ouvisse ninguém. Eu só queria dizer: 'Pede desculpas, meu filho'. Eu havia acompanhado um caso em que um traficante da Colômbia se safou após pedir desculpas. Em seu julgamento, ele disse que não sabia quem tinha colocado 5 quilos de cocaína na sua mala. O juiz sorriu e liberou o homem para voltar para seu país. 'Sorry' é uma palavra que tem muita força aqui nos Estados Unidos."

O perdão não veio tão facilmente, e os brasileiros ficaram à mercê dos advogados de acusação, que faltavam às datas marcadas para o julgamento, fazendo com que o mesmo fosse adiado pelo menos cinco vezes. Na cadeia, Daniel e Mizael eram acordados às 5h, algemados com correntes que ligavam as mãos e as canelas à cintura e aguardavam até o fim da tarde. Como estavam sendo acusados de ameaça de bomba (com o subtexto "colocando a vida dos norte-americanos em risco"), não sabiam se pegariam a pena máxima de cinco anos. "Quando o advogado nos falou que houve um caso parecido com o nosso em que o cara pegou cinco anos, aquilo me matou", conta Mizael. "Era só negativismo e pressão. Eu dividia a cela com um chinês falsificador de documentos e Daniel com um traficante colombiano chamado Carlo Ponce, que abastecia Miami com ecstasy. Ele meio que apadrinhou a gente. Tentamos nos divertir, Daniel jogando pingue-pongue, e eu basquete."

Ao serem presos em miami, daniel e mizael carregavam cerca de R$ 50 mil, quantia gasta quase que integralmente durante o tempo que passaram atrás das grades. Cada dia de detenção custava US$ 480 cada um, e tudo era cobrado, do rádio solicitado por Mizael às refeições especiais necessitadas por Daniel, que é diabético e passou por maus momentos durante uma crise de hipoglicemia nesse período. "O Daniel quase morreu. Não o deixavam comer o que precisava, e as doses diárias de insulina não estavam sendo aplicadas como deveriam", acusa o amigo. "Quando vi, da minha cela, que o cara estava em coma, comecei a gritar. Aí, prestaram socorro e o levaram para fazer exames. Foi aí que ele passou a encomendar uma comida especial, que custava cerca de US$ 300 por semana."

Um verdadeiro batalhão tentou provar a inocência dos brasileiros: advogados, familiares, o cônsul-geral do Brasil em Miami e até o pastor da igreja que Daniel frequentou. Na época, parte da imprensa brasileira tratou o caso como um ato de molecagem dos dois, mas eles se defendem, alegando que tudo não passou de um ruído na comunicação. Para tentar aplacar o drama, resolveram seguir o conselho da mãe de Daniel e, no último julgamento, enfim declararam: "We are sorry". Funcionou.

Se o processo fosse levado adiante na forma como se esboçou, eles poderiam ter pegado mais de cinco anos de cadeia. Tudo o que precisávamos era convencer os juízes de que o crime era muito leve", conta o cônsul João Almino. "No final do processo, foi considerado uma contravenção. Eles acabaram tendo uma pena, mas, quando se chegou a uma decisão final, a mesma já havia sido cumprida. Demandou muita paciência. Eu mesmo fui aos julgamentos, dei meu depoimento, mandei cartas aos juízes."

O empenho deu resultado. Quando a parte burocrática e legal foi resolvida, a dupla respirou aliviada ao ter a certeza de que não precisaria mais dormir na cadeia. Dona Hilda compareceu à prisão às 5 da manhã para aguardar a saída do filho. Após horas de espera, às 11h ela conseguiu acesso ao prédio - mas Daniel e Mizael já estavam longe dali. Levados pela porta de trás, foram colocados em uma viatura da polícia de imigração. Algemados, foram conduzidos ao Centro de Imigração de Miami. Mais uma vez com a ajuda do cônsul, o pior foi evitado. "Evitamos que eles fossem deportados em razão do que tinham feito", explica Almino. "E conseguimos. Eles foram embora do país em uma saída voluntária. Formalmente, não foi caracterizado como deportação. Mas tiveram que assinar [um documento afirmando] que não voltariam ao país nos próximos dez anos."

Enquanto os rapazes lidavam com os problemas que criaram involuntariamente, suas famílias também passavam por um inferno particular. Os pais de Mizael, Ângela de Lourdes Mendonça Cabral e Francisco Cabral Sobrinho, aguardavam o retorno do filho ao Brasil. "A gente foi ao aeroporto enquanto todos os amigos esperavam aqui em casa, com a festa pronta", lembra a mãe. "Nada de ele sair e nenhum funcionário da companhia aérea sabia dizer o que tinha acontecido. Depois, confirmaram que eles não haviam entrado no avião." O sofrimento se prolongou por mais dois dias, até que o rapaz conseguiu telefonar e explicar a situação. O impulso da família foi acionar conhecidos, tentar informações com a Embaixada dos Estados Unidos e apelar para a imprensa. Foi uma jornalista quem fez a ponte entre a família Cabral e Edísio Simões Souto, na época presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil. "Achei que teríamos o apoio do Itamaraty, mas não tivemos", explica o advogado. "Lembrava das experiências que tinha com diplomatas frios como pedras de gelo sempre dizendo 'isso não é da minha alçada' e ficava pensando no que fazer."

Depois de muitos contatos políticos - um deles foi com o senador Eduardo Suplicy, que chegou a fazer um pronunciamento no Senado -, Souto chegou ao cônsul brasileiro em Miami, João Almino. "Ele não tinha como resolver, mas acompanhou o caso", diz Souto. "Comparecia aos julgamentos, ligava para dar notícia. E ainda designou um advogado para defender os meninos." Enquanto isso, Ângela viu sua vida virar de cabeça para baixo. Sua casa, em João Pessoa (PB), amanhecia rodeada de carros de jornalistas e curiosos. Como o marido havia sofrido um ataque cardíaco um ano antes, ela precisava ser extremamente controlada ao lhe repassar notícias sobre o caso. "Eu ficava tentando não me apavorar, apesar de às vezes a gente achar que, claro, podia acontecer o pior", revela Francisco Cabral. "Nosso maior medo era que eles fossem mandados para alguma prisão como aquela de Cuba [Guantánamo]. Depois que passou essa fase, ficamos mais aliviados."

Morando nos Estados Unidos, a mãe de Daniel, Hilda, sentiu o impacto da situação de várias formas: além de plantar ali a semente que resultou na sua separação, ela perdeu US$ 20 mil para conseguir levar Daniel e Mizael para aguardar um segundo julgamento, o que envolvia uma possível deportação da dupla, em prisão domiciliar. Para isso, ela teve de empenhar a casa em que morava. "Assinei um papel que dizia que, se eles saíssem do país, eu teria que pagar US$ 236 mil por cada um e ainda poderia ser presa", diz. "Hoje estou separada, porque meu marido não agüentava de ciúmes do Daniel. Os americanos são mesmo muito frios, não entendem essa relação de amor que a mãe brasileira tem com o filho." Ela ainda deu entrada em uma solicitação de cidadania para Daniel e, assim, conseguiu liberar o filho do Centro de Imigração.

Detido em outro pavilhão, Mizael Cabral entrou em depressão quando se viu sozinho por mais 15 dias, até que Hilda pagasse US$ 15 mil para que ele também pudesse se beneficiar da prisão domiciliar. Longe da cadeia - onde dividiam celas com mais de uma centena de outros presos - eram monitorados por chips presos por tornozeleiras de ferro. "Se eles ultrapassassem 20 metros de distância, aquilo apitava e a polícia ligava ao telefone que estava conectado ao chip. Se os meninos não atendessem, ela vinha", explica Hilda. "Fiquei morrendo de medo de fazerem alguma besteira, sair correndo, fugir."

Eles não fugiram. Mas, mesmo depois do tormento, eles resolveram testar o equipamento de vigilância. Ambos se jogaram na piscina do condomínio, localizada a 50 metros da casa onde viviam. Dessa vez, a confusão foi facilmente resolvida: o telefone tocou, eles atenderam e explicaram o ocorrido.

Cinco anos já se passaram desde que o carioca Daniel Augusto Grilo Corrêa, 33 anos, e o paraibano Mizael Mendonça Cabral, 34, desembarcaram no aeroporto de João Pessoa, com a certeza de que não pisariam nos Estados Unidos pelos próximos dez anos. A capital da Paraíba é conhecida também como Porta do Sol por ter, na Ponta do Seixas, o Farol do Cabo Branco, o ponto mais oriental das Américas. Nesse local me encontro com os responsáveis por um dos maiores conflitos não intencionais da relação diplomática Brasil-Estados Unidos. Hoje, estão acompanhados do jornalista paraibano André Cananéa, que pretende recontar a trajetória dos dois em um livro intitulado (ainda não definitivamente) Bomb É Bomb, Pump É Pump. "Essa é uma história tragicômica, humana, com medo, angústia e alegria", diz o autor. "É a história de dois garotos bons que foram obrigados a conviver com gente ruim. O curioso é que são dois personagens prontos. A personalidade deles se completa."

"Eu era um moleque, mas aprendi muitas coisas", analisa Daniel. "Entre elas, a lidar com dinheiro. Tive muito na mão e, de repente, perdi tudo." Já Mizael vê a prisão como o complemento de uma experiência que ele viveu no país estrangeiro. "Amadureci bastante", diz. "Costumo dizer que conheci os Estados Unidos de cabo a rabo e aprendi a dar mais valor a tudo e a pensar muito antes de falar."

Quando tinha 23, Daniel Corrêa se mudou para os Estados Unidos após a insistência de sua mãe, Hilda, que se tornou cidadã norte-americana em 1991 ao se casar com um local. "O nome dele é George Patton Junior. É sobrinho-neto do General George Patton", conta Hilda, referindo-se ao famoso e polêmico militar norteamericano que atuou na Segunda Guerra Mundial.

Quando já estava cursando telecomunicação na Universidade Estácio de Sá (RJ), Daniel decidiu seguir os passos da mãe. Em janeiro de 2000, foi para Fort Lauderdale, na Flórida, a cerca de 50 quilômetros de Miami. Ao chegar, a mãe o aconselhou a frequentar a igreja. Ele, apreciador de funk e carros tunados, jamais havia entrado em um templo de oração. Na adventista, fez amizades e logo achou uma ocupação - na área de construção civil, ganhando US$ 7 por hora trabalhada. Diariamente, ficava doze horas no batente, sempre rodeado por outros brasileiros. "Aprendi o inglês rápido, em casa, porque meu stepfather [padrasto] odiava quando a gente conversava em português, porque ele não entedia nada", lembra.

Filho único, Daniel ganhou um "irmão" quando conheceu Mizael Mendonça Cabral, paraibano que não falava uma palavra de inglês, mas compartilhava da mesma empolgação pelos Estados Unidos. Aos 26 anos, informou aos pais que queria tentar a vida nos Estados Unidos. "Ele sempre se identificou com o que era de lá, a música, o skate", lembra o pai, Francisco. "Quando rapazinho, tinha o hábito de ir para a casa dos mórmons, uma família de americanos que morava aqui perto. Ele cresceu querendo aprender a falar inglês."

Mesmo depois de cinco anos no exterior, Cabral não conseguiu dominar perfeitamente o inglês. Saiu dos Estados Unidos ainda tropeçando nas palavras e cometendo gafes. Miza, como é chamado por seus familiares e amigos, nasceu em Campina Grande, a pouco mais de 120 quilômetros de João Pessoa. Pensou em estudar turismo, mas começou a fabricar pranchas de sandboard de forma artesanal. Com o sucesso das vendas do artefato pela internet - usado para ajudar o desportista a descer ou escorregar nas dunas -, ele decidiu aprimorar seus conhecimentos fora do país. "Comecei a pesquisar e vi que podia fabricar pranchas como as de snowboard. Decidi ir para os Estados Unidos aprender", diz Cabral. "Comprando os equipamentos necessários lá, eu poderia voltar ao Brasil e montar a fábrica. Além de vender as pranchas de sandboard, ainda enviaria umas de snowboard baratas, porque a matéria-prima aqui é muito mais barata."

Um amigo que já morava na Flórida ajudou na logística da mudança. O pai, responsável pela área técnica de suporte de computação da Universidade Federal da Paraíba, ajudou Mizael a tirar o visto de entrada no país. Desacompanhado, o rapaz embarcou em janeiro de 2001, para a mesma cidade onde, um ano depois, encontraria seu maior parceiro. Mas, para Mizael, as coisas foram mais difíceis ainda. "Passei 30 dias procurando trabalho", conta. "Aí, fui para a construção: US$ 5 a hora. Meu objetivo era juntar grana para comprar o equipamento e voltar, porque não tinha ninguém lá, todos os meus amigos e parentes estavam aqui. Então, além das obras, também limpei supermercado e entreguei jornal. Tinha dias em que trabalhava 24 horas."

O encontro com Daniel foi em Fort Lauderdale, em um canteiro de obras onde trabalharam juntos manipulando concreto. O carioca era o chefe, e o paraibano passou a ganhar US$ 8 pela hora. "Quando cheguei, o Daniel estava ouvindo Bonde do Tigrão", recorda Mizael. Nessa época, Daniel estava casado com uma brasileira e esperava o trauma do 11 de setembro passar para que pudesse dar prosseguimento ao processo de legalização de sua moradia nos Estados Unidos, estagnado após os atentados ao World Trade Center. O objetivo era comprar um apartamento nos Estados Unidos para depois revendê-lo. Com o lucro, pretendia montar uma loja de informática no Brasil.

O ataque terrorista aos Estados Unidos fez com que a imigração no país passasse a ser ainda mais controlada. A pressão da polícia aumentou bastante. "O 'xerife' podia chegar e questionar se você era ilegal, pedir o documento, te colocar dentro de um carro e levar para a imigração", diz Corrêa. Quando já tinham decidido voltar ao Brasil, tiveram contato com essa nova política norte-americana. Voltando de um bar onde costumavam ir às quartas-feiras, foram parados por causa do néon azul e vermelho que enfeitava o carro do carioca. Sem documento de habilitação apropriado, o paraibano foi algemado. O policial, que falava português por ser casado com uma brasileira, fez questão de dizer que adorava "sacanear" brasileiros. "Vou te deportar", afirmou. "Você vai sair daqui com a roupa do corpo." Com os papéis da imigração nas mãos, Daniel conseguiu convencer o oficial de que os dois já estavam de malas prontas para voltar a seu país de origem. Ambos foram fotografados e tiveram de deixar um registro de digitais e endereço residencial. "Suei frio. A pior coisa para o imigrante é passar por esse processo traumático", suspira Mizael. "Esse episódio fortaleceu mais ainda a vontade de ir embora e ali ficou decidido que montaríamos a fábrica de pranchas no nosso país. Passamos um mês na pressão: se um brasileiro via uma blitz, avisava aos outros. Uma agonia!"

A mudança de país foi agilizada: Daniel vendeu por US$ 120 mil um apartamento que havia comprado pela metade desse valor. De malas prontas - bem cheias por causa do maquinário para a construção das pranchas -, os amigos seguiram para o aeroporto de Miami, onde a conclusão de uma aventura se tornou o início do pesadelo. Foi somente três meses após serem presos pela primeira vez que os dois amigos pousaram em João Pessoa, em janeiro de 2005. Duas mil pessoas os esperavam, com faixas e até um tapete vermelho. "Eu mal consegui beijar meu filho", lembra Ângela. "Meu marido chegou a passar mal. Era muita gente."

Após cinco anos, o sonho de daniel e mizael não foi esquecido, só adiado. O equipamento para construir pranchas de sandboard - inclusive a infame bomba a vácuo - continua embalado, aguardando o momento de ser usado. "Esse foi o sonho que me motivou a ir para os Estados Unidos e não vou desistir", afirma Mizael. "Serão as primeiras pranchas profissionais para sandboard da América Latina."

As ações atuais por enquanto estão concentradas no Brasil, mas o futuro pode estar mesmo na terra das más lembranças. "A gente fica meio dividido. Mesmo tendo acontecido isso tudo, tem muita gente bacana nos Estados Unidos e muito mais oportunidade do que aqui", continua Mizael. "O Daniel daqui a pouco vai conseguir o greencard e eu, daqui a cinco anos, já posso pensar se vale a pena ir. Tenho vontade de voltar para fazer negócios. E gostaria de passar pelo Colorado para praticar um pouco de snowboard."

Daniel, por sua vez, não demonstra arrependimentos: "Minha vontade de voltar para os Estados Unidos é porque quero ficar perto da minha mãe. A saúde dela ficou debilitada. Quero dar essa força."

"E também gostaria de fazer negócios lá", ele diz, com a expressão tanto esperançosa quanto apreensiva. "E, se pudesse, continuar estudando."