Um Nerd na Terra Prometida

Será que um cara estranho e inseguro como Michael Cera conseguirá sobreviver e crescer em Hollywood?

Por Erik Hedegaard Publicado em 02/12/2010, às 12h30

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Olhe para Michael Cera sob o sol da Califórnia. Veja como o sol o ilumina - seu cabelo tigelinha e grandes olhos castanhos, o sorriso doce, infantil e conquistador, sua calça de veludo puxada mais para cima do que deveria e a camisa polo abotoada até em cima. Simplesmente olhe para tudo nele - ele é o maior nerd bobão de todos os tempos, o sonho de toda mãe, mas de forma alguma a imagem de um astro de cinema em Hollywood. Agora, veja o carro de Michael Cera, estacionado no bairro de Silver Lake, em Los Angeles - um Toyota Corolla azul, empoeirado e amassado. Ele o comprou assim que saiu de Toronto, quando ainda interpretava George Michael no seriado maluco, incrível e de vida curta demais Arrested Development.

Desde então, o carro o acompanhou pelos sucessos que fizeram sua carreira em Juno (como o pai precoce, esquisito e sincero), Superbad - É Hoje (pretendente esquisito e sincero) e Nick e Norah: Uma Noite de Amor e Música (esquisito e sincero novamente), bem como as leves decepções de Rebelde com Causa, Paper Heart e Ano Um, até o grande momento atual, com Scott Pilgrim Contra o Mundo. Novamente, ele é um personagem esquisito e sincero, mas desta vez amplia suas marcas registradas para incluir egoísmo, solipsismo, sarcasmo e muitos movimentos de filme de ação. A performance intocável de Cera deve catapultá-lo para o mundo de Ferraris e Bentleys. Só que ele aparentemente não consegue abrir mão daquele Toyota. "É, ele é muito ruim", diz quase timidamente. "Mas se estou andando com meus amigos, e meu carro está estacionado na rua e eles não percebem, digo: 'Pessoal!' e o chuto, e eles se assustam. Quer dizer, posso chutá-lo!" Cera, de 22 anos, admira seu carro "chutável" por um momento, de braços cruzados, bloqueando qualquer visão de seu interior. Então, vai para o lado e de repente você consegue ver por que ele não quer que ninguém espie - está uma bagunça. Não uma bagunça, um desastre. Uma mala está aberta no banco do passageiro, com roupas socadas e transbordando. O banco traseiro é ainda pior - está lotado de roupas de inverno, livros, cobertores grandes, CDs, DVDs, retalhos de tecido, pedaços de papel amassados, um teclado, pilhas, vários estratos geológicos de detritos e crostas. Não dá nem para imaginar o que as garotas que ele conhece pensam. Parece que um mendigo está morando ali. "É, bom...", diz Cera. "Vim de Toronto até aqui de carro e ainda não desfiz as malas." Quando essa viagem aconteceu, exatamente? Ele coça a cabeça. "Ahn, tipo, há uns nove ou dez meses."

A coisa mais importante a se saber sobre Cera é que, entre todas as opções clássicas oferecidas a astros de Hollywood na efervescente noite de Los Angeles, ele escolheu nenhuma. Em vez disso, ficou em casa, assistiu a alguns filmes clássicos (Esse Obscuro Objeto do Desejo, de Luis Buñuel, e Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock), seguidos por um episódio de The Larry Sanders Show. Foi dormir relativamente cedo para ele (1h30 da madrugada), acordou relativamente cedo, jogou algumas partidas de tênis com o amigo Jake, foi massacrado (3-6, 2-6) e seguiu com seu dia, sem culpa nem ressaca. Isso é normal, ele sempre foi assim. "O Michael é muito centrado", conta Linda, mãe de Cera. "Até fazer 19 anos, eu estava com ele o tempo todo. Nunca foi de sair com o pessoal de Hollywood. Nunca quis ir às festas nem nada. É muito inteligente." Cera complementa: "Não sou de beber muito e não sei o que as pessoas fazem quando vão aos bares. Quer dizer, vão para conhecer garotas, mas não fico à vontade nesse ambiente. E tudo bem". Hoje, ele estacionou o Toyota sucateado na rua de trás de um de seus restaurantes preferidos e se sentou em uma mesa do lado de fora, tomando café com pouco açúcar, antes de pedir sopa de lentilha e salada de espinafre. Ele não pretende ser julgado por sua derrota recente na quadra de tênis: "Consigo ser bem melhor do que aquilo." Admite que, às vezes, toma uma taça de vinho no almoço, mas que "sempre me sinto estranho com isso". Impressionantemente simpático e divertido, começa a falar sobre como sua vida mudou depois de Juno e Superbad. Era 2007, ele tinha 19 anos e, da noite para o dia, virou um astro. As pessoas pediam seu autógrafo e ficavam olhando enquanto comia. Na rua, gritavam "McLovin!" embora, claro, aquele não fosse seu papel. Achou toda a atenção inquietante, como o que aconteceu uma noite do lado de fora de um cinema em Los Angeles. Uma mulher muito baixinha, gorducha e empolgada chegou perto dele. Ela fumava um cigarro. "Você é o cara do Superbad?" Ele disse que sim. "Você lembra meu noivo. Posso te dar um abraço?" Aí ela jogou os braços em volta dele e perguntou: "Posso chupar seu pau?"

Ele foi criado perto do lago em Brampton, Ontário, próximo a Toronto, no Canadá. Sua mãe comandava uma creche, o pai era técnico de reparos de máquinas da Xerox. Tinha uma boa família, bons amigos e nada de ruim aconteceu a ele. Relembrando esses dias, Cera afirma: "Minha infância foi muito divertida e tive uma vida praticamente sem traumas, o que me apavora às vezes. Não fui preparado adequadamente para nenhuma dor." Aos 3 anos, ficou de cama com catapora e assistiu a Os Caça-Fantasmas tantas vezes que logo decorou o filme inteiro, fala por fala (seu personagem preferido é o de Bill Murray, a quem nunca encontrou e não sabe se quer encontrar. "Parece que ele conhece as pessoas e decide que não gosta delas, e não quero ser uma dessas, então ficaria mais à vontade se nunca o conhecesse."). Cerca de um ano depois, entrou para uma aula de atuação e improvisação para crianças. Quando tinha 10 anos, havia estrelado um comercial do biscoito Pillsbury Doughboy (primeira grande fala: "Ei, vamos fazer um biscoito enorme!") e havia entrado para o elenco de um programa de TV canadense chamado I Was a Sixth Grade Alien. A coisa mais louca que fez quando era mais novo foi bater na porta de estranhos com um amigo, depois da aula, e pedir carona para voltar para casa. Eles achavam que isso era algo que o comediante Tom Green faria. "Foi uma fase muito estúpida", diz Cera. Seu maior problema foi criado mentalmente. "Eu estava com um amigo que roubou uma loja - e eu sabia. Era uma carteira de US$ 75. É roubo. Se meu amigo fosse flagrado, eu iria preso junto com ele. Fiquei apavorado." Quando fez 14 anos, enviou uma fita de teste para um programa chamado Arrested Development, conseguiu o papel e passou a dividir-se entre Los Angeles e Toronto. Começou a aprimorar sua atuação como o tal jovem esquisito e sincero, o que logo o levaria para Juno e Superbad. Enquanto isso, explorava seu lado artístico fazendo curtas engraçados no YouTube com um amigo, o ator Clark Duke. Nessa época, havia boatos de que Cera estava namorando a comediante Charlyne Yi e, juntos, eles embarcaram na ideia de fazer uma semificção de sua relação, transformando-a em um filme. O resultado, Paper Heart, de 2009, dividiu opiniões e, como consequência, ambos começaram a negar que haviam mesmo namorado. Isso levou à única fofoca escandalosa associada a Cera, quando se disse que ele dispensou Yi porque estava "doido para namorar outras pessoas" agora que era "superfamoso" - o que parece improvável ou, se verdadeiro, sugere um lado negro em Cera que nunca foi visto, e tudo bem. Um cara como ele, com aquela aparência, provavelmente teve problemas com garotas quando mais jovem. Talvez elas caçoassem dele por ser nerd. Ele nega, dizendo que sempre foi um conquistador bem-sucedido, desde a tenra idade. "Tive minha primeira namorada aos 10 anos, mas não foi nada", conta. "Só que a que namorei aos 11, ficamos juntos, tipo, dois meses. Ficávamos de mãos dadas e dávamos amassos." Ele só perdeu a virgindade aos 17 anos. E, como todo o resto em sua vida, foi assim: livre e facilmente.

É engraçado como as conversas com ele fluem. Você pode começar em uma direção completamente frívola e, de repente, se ver em um lugar totalmente mais obscuro. Alguma vez deixa de escovar os dentes? Toma um gole de café antes de responder. "É, às vezes vou dormir sem escovar." E de manhã? "Se você não escova os dentes de manhã você, é estranho." Troca de cueca diariamente? "Sim, a não ser que eu vá ficar em casa o dia inteiro." Usa desodorante masculino em spray, como o Axe? Ele pensa cuidadosamente na questão. Depois, responde: "Tive um incidente ruim no ensino médio quando fui tocaiado por um cara malvado chamado JD, que me encurralou junto com meu amigo Paul e espirrou, tipo, uns três frascos de Axe na gente. As pessoas ficaram com nojo de nós, as meninas falavam: 'Credo, pega leve no desodorante'. No dia seguinte, peguei um desodorante azul em bastão e passei na camiseta do JD. Ele se virou e riu, porque sabia ser legal comigo. Só que o Paul fez isso também, e o JD bateu nele. Não socou apenas, descarregou a raiva nele. É um dos meus maiores arrependimentos, na verdade, não ter interferido e apanhado junto. Era um massacre garantido e fiquei com medo. Devia ter feito aquilo, porque o Paul estava totalmente sozinho. Eu me arrependo mesmo disso, foi traumático. Quer dizer, se estivesse lá agora, eu teria interferido". Como ele sabe que faria isso agora? "Porque logo depois que aconteceu eu queria ter feito isso e agora, se acontecesse, eu teria a experiência e não ficaria com medo." Já apanhou? "Acho que não." Como Scott Pilgrim, já fez algo heroico pelo afeto de uma garota? "Acho que já fiz algo heroico", ele diz, finalmente. "Quer dizer, tenho essa imagem minha sendo um namorado heroico."

Só que, atualmente, ele só é verdadeiramente heroi co se você pensa em um herói nerd murmurante e hesitante que tenta se tornar um homem. Por exemplo, veja o verão passado, quando ele jogou futebol pela primeira vez depois de uma humilhação na infância: "Era um jogo de escola e eu entrei, acertei a bola com o joelho, ela passou por cima do nosso goleiro e balançou a rede. Fiz um gol contra. Meu time me odiou, sou um traidor, e só joguei depois de enfrentar o medo". No outono passado, participou de um retiro de dez dias onde falar não era permitido e se meditava dez horas por dia. "Você fica ciente do seu corpo", conta. "É muito intenso, muito doloroso fisicamente. Não dá nem para se mexer por uma hora, nem abrir os olhos. Você fica muito ciente do que está em sua cabeça e, em vez de se prender a isso, deixa passar. Quer dizer, penso demais, talvez, e me preocupo demais. Talvez seja culpa. Talvez ache estranho ter mais dinheiro do que preciso na minha idade, mas não há nada que precise de excesso de preocupação ou pensamento. É só algo que você demonstra por algum motivo doido, que talvez não te deixe aproveitar as coisas."

Mais tarde, com a xícara vazia, Cera cataloga suas inocências, e ele tem muitas delas. Nunca fumou cigarro ou maconha (o que seria contraindicado, porque sofre de uma síndrome cardíaca chamada Wolff-Parkinson-White, que pode causar falta de ar). Na verdade, seu único vício é estalar os dedos ("Existe algo calmante nisso. Não conseguiria parar se precisasse!"). Tinha 18 anos quando começou a se barbear, mas não consegue deixar a barba crescer ("Fica fininha e horrível"). Não tem um palavrão preferido e alega: "Na verdade, não acho muita graça em palavrões". Nunca traiu uma garota (embora já tenha sido traído, no colégio), nunca paquerou uma garota, nunca fez sexo a três, diz que, no mundo ideal, transaria "oito vezes por quinzena", nem consegue citar um orgasmo como seu momento mais memorável porque "bloqueei a maioria deles da minha mente" e alega procurar, em uma garota, "uma pele muito boa". Tem muita roupa de veludo, mas só uma calça jeans. Não tem assistente e nunca usou seu nome para cortar fila ("Isso exigiria uns macetes que não me interessam"). A verdade é que ele parece o tipo de ingênuo que desce de um ônibus em Hollywood e é devorado e cuspido pela indústria. Só que Cera encontrou seu lugar ali e diz que é muito mais feliz nele do que em público, onde as diabas que mostram os peitos e querem chupar pau estão à espreita. "Amo estar no set", diz. "É o único emprego que já tive. É tudo o que conheço, mas acontece essa coisa estranha de o trabalho te impulsionar para um novo lugar de conscientização entre as pessoas. É esquisito ter de se acostumar com isso, ainda é." Agora, ele está do lado de fora, andando pela calçada em direção ao estacionamento, a seu carro. "Não sinto a idade que tenho", conta. "Não me sinto suficientemente maduro para me sentir mais velho, mas, por algum motivo, não me sinto jovem. Estou em uma coisa intermediária estranha, em uma transição, em um processo de me tornar." Então, entra no carro e o liga. Ainda está cheio de lixo, roupas, CDs, livros, coisas - o banco da frente também, mas a bagunça não parece tão estranha ou fora de lugar. Talvez ele a limpe amanhã, mesmo. Talvez não.