Visionário Americano

Há 55 anos, Chuck Berry inventou o rock and roll. Mas ele prefere falar sobre cortar a grama, matemática e poesia. Uma rara entrevista com uma lenda de 83 anos que diz estar apenas começando

Por Neil Strauss Publicado em 02/12/2010, às 12h16

RETRATO DO ROCK Chuck Berry em St. Louis, em março de 2010

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No decorrer de uma carreira que se estende por seis décadas, Chuck Berry, provavelmente a figura mais importante na evolução do rock and roll, estabeleceu algumas regras de vida bem rígidas. Entre elas: não haverá performance a menos que o pagamento seja recebido à vista, em dinheiro; nada de limusines ou motoristas: o Sr. Berry prefere ele mesmo dirigir quando está em turnê; a banda de abertura não pode mencionar o nome Chuck Berry durante seu set; e, finalmente, nunca confie em jornalistas. Por causa da quarta regra, Berry é conhecido não só por não dar entrevistas mas também por enxotar jornalistas do Berry Park, sua propriedade nas proximidades de St. Louis. Aos 83 anos, ele se tornou um dos pioneiros do rock mais mal compreendidos, descrito com frequência como azedo, teimoso e irascível. Como colocou Keith Richards certa vez: "Amo seu trabalho, mas não seria capaz de me afeiçoar a ele nem se fôssemos cremados juntos".

Por tudo isso, foi com um débil fio de esperança que visitei o Blueberry Hill, restaurante e clube em St. Louis onde Berry toca mensalmente. "Se ele não gostar de você ou se sentir desconfortável, a entrevista durará provavelmente uns cinco minutos", diz Joe Edwards, proprietário do lugar e amigo de longa data do músico, assim que chego. "E fale devagar. Ele fica frustrado quando não consegue ouvir e pode ir embora."

Berry está parado esperando no restaurante, longe o suficiente dos olhares dos frequentadores, perto de um pôster enquadrado que divulga seus primeiros shows como líder de banda no início dos anos 50. A primeira coisa que alguém nota em Berry são suas mãos: são grandes, com unhas compridas e dedos grossos. Parecem feitas não para o dedilhado sutil, mas para os altos, intensos e transbordantes riffs que fizeram a música dele parecer tão mais jovem, selvagem e perigosa que o rhythm & blues de seus predecessores.

E há o seu traje. Ideal para o tipo de homem que quer se destacar: uma camisa de botões rosa claro com um grande e brilhante broche, óculos escuros e um chapéu branco de capitão. E, por fim, há a atitude: humilde e amigável, ainda que firme e implacável. "Ah, ele conseguiu chegar", diz Berry como saudação, me cutucando por estar atrasado, embora eu esteja, na verdade, dois minutos adiantado.

Edward conduz Berry pelo restaurante, que é decorado com mais memorabilia, incluindo a guitarra Gibson que Berry usou para gravar seu sucesso de 1958, "Johnny B. Goode".

Enquanto entra na sala de jantar particular, Berry ameaça pegar o lugar na cabeceira da mesa, mas então reconsidera e modestamente senta-se em um dos outros lugares. É o primeiro sinal de que ou Berry é muito mais humilde do que a reputação que o precede ou então amoleceu com a idade. Um pouco. As primeiras palavras que saem de sua boca são: "Posso ver as perguntas?"

"Ele prefere entrevistas que são mais como conversas", diz Edward, entrando no meio para persuadir Berry a abrir mão do pré-requisito. Berry ameaça sair quando vê o gravador, mas hesita.

"Eu costumava trabalhar na Kroger's", diz Berry, finalmente voltando a se sentar e dando início a um sermão sobre a pontualidade. "Quando a loja abria, você tinha que estar lá. Quando trabalhei numa fábrica de automóveis, havia relógio de ponto. Mostrava se você chegava um minuto atrasado. Se você tem um trabalho remunerado, precisa comparecer."

Parecia que esta seria uma das temidas entrevistas de cinco minutos sobre as quais Edwards havia me advertido. Logo, Berry encontrou algo novo para reclamar: dicção, e como ele não conseguia ouvir as letras t e g nas perguntas. Ele começa a contar como aprendeu a corretamente escutando Nat "King" Cole e como passou a vida se esforçando para usar as palavras de maneira apropriada em vez de suas gírias equivalentes.

Os minutos passam tensos, mas lentamente Berry começa a relaxar. O ponto em que tudo muda começa durante a discussão sobre um de seus passatempos favoritos: o jogo. "Eu jogo em caça-níqueis, e anteontem consegui quatro jackpots", diz ele. "Estava lá sentado vendo se conseguia cinco. Agora, se isso é ser ganancioso, então sou ganancioso. Assim, eu imagino se há algo mais do que levantar a plateia em um show. Será que há? Se a resposta é sim, quero tentar! Se isso é ganância, então sim, sou um pouco ganancioso."

Quando todo mundo explode em risadas, Berry repentinamente tira seus óculos escuros, coloca um aparelho de audição e abre um sorriso largo. "Já posso sentir que você é um entrevistador muito bom, e esse tipo de entrevista pode demorar", ele finalmente diz. "Vamos falar coisas que quero dizer há anos!"

E assim uma entrevista de cinco minutos se transformou em duas sessões totalizando mais de quatro horas, durante as quais Chuck Berry passou muito mais tempo rindo e discutindo o futuro do que sendo irascível e reclamando do passado. Berry não tem intenção de tentar abrir sua alma ou parecer legal ou cumprir exemplarmente uma obrigação de trabalho. Em vez disso, ele aborda a conversa como se fosse um evento teatral, buscando iluminação ou risadas como resposta a cada mudança de tópico. Cada riso que recebe por uma de suas piadas, trocadilhos ou gestos o deixa mais entusiasmado, a ponto de proclamar que a conversa devia virar um espetáculo em Las Vegas.

"Também sou comediante", diz Berry em certo momento. "Queria ser comediante. E fiz tanto essas coisas na escola que não conseguia arrumar namorada."

É uma revelação atípica, mas que talvez explique por que Berry ainda considera "My Ding-A-Ling" - seu sucesso de 1972 que falava sobre masturbação - uma música tão boa quanto qualquer outra de seu repertório, para a vergonha de seus fãs mais devotos. Também explica por que, quando você fala sobre suas aparições no programa de Johnny Carson décadas atrás, ele conta as piadas e respostas que devia ter dado, mesmo levando em conta que, para qualquer um que tenha assistido uma de suas participações, Berry tenha se saído como um convidado perfeitamente comportado, ainda que excêntrico. E por que as entrevistas com ele são recheadas de tiradas sarcásticas e piadas rápidas. Ele ainda quer ser comediante? "Toda vez que puder", responde. "Ainda estou tentando!"

"Meu pai ainda é, em suas raízes, um homem humilde criado por pais tementes a Deus, fazendeiros, frequentadores da igreja", conta sua filha Ingrid, 59, para quem Berry liga no meio da entrevista. "O campo e a humildade nunca o deixaram. Como também não o deixou a dedicação ao trabalho duro." De fato, por mais ocupado que esteja no momento, Berry normalmente não tem noção ou nega seu lugar na história - apesar da citação famosa de John Lennon, que dizia que o termo "rock and roll" era sinônimo de "Chuck Berry". Quando questionado se sente que é um dos inventores do rock, ele responde, "Não. Há Louis Jordan. Há Count Basie. Nat Cole com certeza. Aquele cara, Joe Turner. Há Muddy Waters, Blue Eyes [Frank Sinatra], Tommy Dorsey".

Enquanto esses artistas podem ter inspirado Berry, todos eles tocavam no idioma do blues, jazz ou pop vocal. Berry estava entre os primeiro a fundir blues e country sobre uma batida de rhythm & blues e transformar em algo que a cultura jovem poderia chamar de seu. "Apenas sinto que tirei minha inspiração, educação e tudo o mais de todos os outros que vieram antes de mim", diz ele. "E acrescentei algo meu... Nem sei se acrescentei alguma coisa. Eu toquei o que toquei, e soou diferente, acho."

"Significa algo para muita gente", conclui, "mas não sei o que significa".

Se não está claro para Berry o que sua música significa para seus fãs, ele sempre soube o que seus fãs queriam ouvir. Diferentemente de muitos dos cantores pioneiros do blues e do country, ele não escrevia sobre sua própria realidade: na época era um cara de 30 anos que tinha desistido da escola, cantando sobre rachas, amores adolescentes e dramas colegiais. Quando explodiu na cena musical nos anos 50, não foi porque era um inventor e inovador como Bo Diddley, mas simplesmente porque havia descoberto uma fusão de estilos a que o público respondia. No Cosmopolitan Club, em East St. Louis, onde tocou em um trio originalmente liderado por seu pianista, Johnnie Johnson, começou a modificar os sucessos do momento e a adicionar o country de Hank William e Bob Wills à mistura, no intuito de manter a predominante plateia afro-americana em pé, atenta e entretida. Enquanto sua popularidade crescia, ele ganhava o desafio extra de tocar para públicos racialmente mistos. Com frequência era contratado para tocar em casas de espetáculo que aderiam à segregação, com garotos brancos de um lado e negros do outro. Como Berry relembra, os brancos respondiam à música negra (o blues) enquanto os negros respondiam à música branca (country ou "caipira"). Assim, em partes, a contribuição de Berry ao rock and roll veio por causa de sua tentativa de agradar aos dois públicos simultaneamente o mantiveram onde ele está.

"Dê às pessoas o que elas querem - é verdade", diz Berry, falando de sua linha de raciocínio quando está no palco. "Procuro quem está prestando atenção na plateia. Posso olhar em volta enquanto canto 'My Ding-A-Ling' e emendar em 'The Lord's Prayer' porque vi pessoas sentadas lá que parecem ser da igreja. A propósito, há certas canções e pensamentos que quase levam as pessoas às lágrimas. Daria isso a eles se fosse o que quisessem."

Berry é interrompido pelo toque de seu iPhone. Dick Alen, seu agente de shows por mais de cinco décadas, liga para falar de um possível concerto com Jerry Lee Lewis. "Você me ligou no meio de uma entrevista", diz Berry. "Sabe, aquilo que Chuck Berry não faz."

"Ele foi o primeiro a me mandar para a Rússia", diz Berry depois de passar o telefone pela sala toda para que todo mundo falasse com Alen. "Ainda não me mandou para a África. Não estou interessado em aceitar enquanto lá não ficar mais amigável. Você sabe, porque se perder o passaporte por lá, já era. Woo!"

Mas ele é lembrado que sempre pode ir até uma embaixada norte-americana e conseguir um novo passaporte. Eles provavelmente o reconheceriam por lá. "É disso que tenho medo", ele brinca, rindo.

Berry não gosta de desenterrar o passado, mas há umas poucas coisas a que ele sempre volta - a maioria a ver com a família. "Minha mãe era professora", ele começa. "Era religiosa e fez de tudo para que meu pai se tornasse pastor. Mas ele só chegou a diácono. Eles ficaram juntos por 66 anos, e então minha mãe se foi, e logo depois meu pai se foi. Mas eles eram um casal perfeito, e criaram seis filhos. Só sobraram dois de nós."

De dia, seu pai era carpinteiro, e Berry foi originalmente talhado para ser seu aprendiz. Mas Berry acabou se envolvendo com um pessoal barra-pesada quando era adolescente e passou três anos em um reformatório por contravenções que incluíam o roubo de camisas em uma loja de roupas e roubo de carros.

Quando questionado sobre qual conselho daria a si próprio, Berry pensa e ri. "Não pegar o carro daquele cara - e deixar por lá a camisa que eu peguei de cima do balcão daquela loja. Qualquer coisa envolvida com crime, eu não faria. E terminaria o ensino médio, porque levei três vezes mais tempo para terminar depois."

Depois de sair do reformatório aos 21, Berry casou-se com sua namorada, Themetta (com quem é casado há 61 anos), e foi trabalhar em uma fábrica da Chevrolet. Mais tarde, foi com a irmã para a escola de cosmetologia enquanto continuava trabalhando com o pai. Completava seu orçamento tocando na banda do pianista Johnnie Johnson - que logo, graças ao carisma de Berry no palco, se tornou sua banda. O grupo foi descoberto quando Berry viu Muddy Waters tocando em Chicago. Waters sugeriu que ele visitasse Leonard Chess da Chess Records, que pediu a Berry que voltasse com gravações de músicas próprias. Disse que preferia ouvir canções originais em vez de covers. Assim, retornou a St. Louis. "Não havia ninguém compondo para mim, então tive que escrever", relembra. Quanto à música, Berry diz que por não saber ler cifras (e afixar letras às notas não fazia o menor sentido para ele), acabou desenvolvendo seu próprio sistema de notação. Em vez de usar letras como A ou C, ele determinava um número para cada nota, o que permitia que ele compusesse o que quisesse. "Foi assim que aprendi a fazer música", ele conta, "por meio da matemática".

Chess acabou gostando das músicas de Berry e marcou uma sessão com ele e sua banda em maio de 1955. Mais tarde, quando recebeu seu primeiro relatório de royalties, Berry descobriu que uma das quatro músicas que havia gravado - "Maybellene", uma versão retrabalhada da canção folk "Ida Red", turbinada por uma batida energética e uma história sobre uma corrida de carros e uma garota traidora - teve o acréscimo de dois nomes aleatórios nos créditos de composição. Um era do discjockey Alan Freed como pagamento de jabá e o outro era de Russ Fratto, senhorio de Chess.

Hoje, Berry tem sentimentos conflitantes a respeito dos créditos de suas músicas, que por fim foram rever tidos a ele. "Com o jabá, ganhei mais dinheiro porque a música fez mais dinheiro", diz. "Mas quem imaginaria que 'Maybellene' viraria um sucesso?"

E graças a isso - e à ajuda de Freed - o single estava em todas as rádios e subindo nas paradas de rhythm & blues, e logo chegou ao primeiro lugar (e ao quinto na listagem pop). A música mudou a vida de Berry e, no fim, toda a música popular.

Suas canções de enunciado claro, contando histórias sobre automóveis, a vida no colégio e dançar rock and roll, começaram a moldar a forma da música que viria a surgir. Sucessos como "Rock and Roll Music", "Johnny B. Goode" e "Roll Over Beethoven" uniam uma ponderosa batida, piano de boogie-woogie, a guitarra base do country e uma combinação única de riffs curtos, pegajosos e dedilhados de blues acelerados.

Os altos de Berry foram seguidos por várias fases baixas. Próspero e disposto a arriscar depois de anos sacrificando-se por sua mulher e filhos, ele investiu o que havia ganho em tudo o que podia: imóveis, um cinema e até uma casa noturna. Isto provou ser seu grande erro.

Em 1959, conheceu uma prostituta apache no Texas e a trouxe para St. Louis para trabalhar na chapelaria de sua casa noturna. Depois de ser demitida, ela foi até a polícia e Berry pegou quatro anos de prisão por violar o Mann Act, que proibia o transporte de mulheres de um estado para outro para fi ns imorais (embora a lei fosse frequentemente usada para perseguir homens negros que dormiam com mulheres de outras raças). Enquanto Berry estava preso, seu renome cresceu: bandas da Invasão Britânica, como Beatles e Rolling Stones, faziam covers de suas músicas, transformando-as em seus próprios hits, e exaltando seu nome nas entrevistas, enquanto nos Estados Unidos os Beach Boys utilizavam a melodia de "Sweet Little Sixteen" em seu single de sucesso "Surfin' U.S.A.". Assim, quando foi solto em 1963, era uma estrela ainda maior do que antes da prisão. Embora tenha vindo a gravar mais algumas canções clássicas, Berry nunca mais encontrou sua verdadeira veia criativa. Ele deixou a Chess por um tempo, durante os anos 60, para gravar álbuns pouco dignos de nota pela Mercury Records. Depois voltou para a Chess nos anos 70 e ressuscitou sua carreira com "My Ding-A-Ling", que chegou ao primeiro lugar por acidente.

"Recebo e-mails de garotos de, tipo, 18 anos, dizendo: 'Obrigado por me fazer gostar de Chuck Berry porque a única coisa que eu tinha ouvido dele era 'My Ding-ALing'", diz Tom Petty falando de Buried Treasure, seu programa de rádio via satélite, em que toca as músicas de Chuck Berry que o influenciaram. "E isso me faz sentir bem, sabe? Completar o círculo e dar em troca."

Berry não vê "My Ding-A-Ling" como uma aberração em sua carreira. Pelo contrário, para ele é um ponto alto. Ele diz que originalmente era para ser sobre um anel, e sobre colocar o dedo através dele como metáfora para o intercurso sexual. Mas ele decidiu que era muito pesado.

Então gravou como "my tambourine", mas resolveu que não encaixava bem. "'Ding-A-Ling' era limpo", ele conclui. "Fiz muito dinheiro: um cheque de 200 mil dólares. Nunca vou esquecer esse cheque. E era tudo sujeira. Sujeira legal e liiiiimpa!" Então, pela terceira vez a vida de Chuck Berry deu uma virada repentina. Logo depois de tocar na Casa Branca em 1979, foi mandado de volta à cadeia por três meses por evasão de impostos.

Apesar desses escândalos terem somente ampliado a lenda, eles ainda o atormentam. "Quero tentar corrigir essas coisas negativas que estão ali, esperando que eu faça algo", diz ele. "Digo fazer algo porque, se houve uma volta por cima, deve haver algo que eu possa dar em troca... como fazer caridade. E então isso faria parecer que o que era negativo desapareceu."

Esse Chuck Berry é diferente de sua imagem recalcitrante. É quase aberto demais, confiável demais. Questionado sobre o que gostaria de falar, das coisas que nunca foram ditas antes, ele batuca seus grandes polegares na mesa e pensa por um segundo. "Acho que talvez eu não tenha mais tanto tempo por aqui quanto sinto que terei. E quero fazer algo que eu saiba que vá ficar depois que eu partir."

Praticamente qualquer pessoa diria que Berry já deixou uma marca que viverá por muito mais tempo do que ele. Mas ele é um jogador, do tipo que gosta de se arriscar. "Quero outra 'Johnny B. Goode', ou algo tão poderoso quanto 'Ding-A-Ling'". Berry também diz que tem se apressado a escrever o máximo de ideias e pensamentos a respeito de seus assuntos favoritos - vida, matemática, filosofia e sexualidade - possível. "Ninguém vai saber o que eu penso depois que me for", diz ele. "Por isso, se eu colocar meus pensamentos em um computador, alguém vai cuidar disso."

Berry diz que quer tocar algumas das novas músicas em que vem trabalhando. Primeiro, entretanto, ele sugere um intervalo e pede comida, que Edwards normalmente serve de graça. "Quero duas porções de asas de frango", ele diz a Edwards.

"Uma para agora e outra para viagem?", pergunta Edwards.

"Sim. Negócios são negócios", diz Berry sorrindo.

O jeito informal e atípico de Berry fazer negócio é há muito parte de seu legado. Em turnês, é conhecido por dar trabalho. Geralmente pede que o promotor contrate músicos locais para usar como banda de apoio, chega minutos antes do show, toca sem set list e normalmente vai embora com a pontualidade de um trabalhador de fábrica, batendo o cartão no horário exato em que o show está previsto para terminar.

Os hábitos de Berry na estrada foram talhados pela experiência. Nos anos 50, quando os membros de sua banda começaram a beber e a chegar atrasados para os shows, ou a simplesmente faltar, ele os largou, porque tinha uma família para sustentar e precisava do dinheiro. Quando os promotores pararam de pagar pelos shows, passou a exigir a quantia em dinheiro antes de entrar no palco. Quando foi roubado depois de um show no Texas, passou a pedir que o dinheiro fosse mandado a ele antes mesmo de viajar. Quando os motoristas de limosine o deixaram preso no trânsito, insistiu em passar a dirigir ele mesmo do aeroporto até os shows. Quando transformou seu Berry Park em um palco de festivais e camping e os frequentadores começaram a destruí-lo, fechou tudo e proibiu o público na área.

Por isso, aos 80 e poucos anos, acumulou uma lista de regras rígidas que passa aos outros a impressão de que ele é uma pessoa difícil. "Algumas das coisas que os promotores de shows fizeram com que ele passasse na época em que não sabia de nada o fizeram chegar a um ponto em que passou a não confiar em mais ninguém", conta Billy Peek, que tocou guitarra com Berry no fim dos 60 e começo dos 70. "Por causa disso, quando ele faz um contrato, todas as suas exigências estão lá. Por exemplo, ele gosta de um certo tipo de amplificador - um Fender Dual Showman Reverb. Então, coloca uma cláusula dizendo que, se o promotor não conseguir um desses para ele, terá que pagar tanto a mais em dinheiro por show. E aí Chuck vem e diz: 'Se você não tem, me pague o dinheiro extra'. Eles ficam ofendidos e bravos e saem por aí dizendo para todo mundo como Chuck Berry foi difícil, e tudo só aconteceu porque eles não fizeram as coisas como foram combinadas."

"Você ouve muito sobre a crueldade de Chuck, mas o Chuck Berry que eu conheço é umas das pessoas mais gentis do mundo", diz Bob Lohr, o pianista da banda de Berry. "As pessoas interpretam mal sua hesitação em se envolver com outras pessoas: É porque ele tem receio. Ele se deu mal tantas vezes que acabou criando uma espécie de casca dura. Mas qualquer um que tenha passado um bom tempo com ele dirá a você que ele é um cara legal e divertido."

Quando a comida chega, Berry fuça em seu iPhone e se oferece para colocar um "som ambiente" para o jantar - as novas músicas em que está trabalhando. Algumas são derivados claros de suas músicas mais antigas, como "Lady B. Goode" (uma sequência de Johnny B. Goode") e "Jamaica Moon" (uma nova roupagem para a canção com tons de calypso "Havana Moon").

Misturadas a essas pitadas retrô, entretanto, há músicas em um estilo inteiramente novo - não rocks rasgados, mas histórias altamente poéticas como "The Dutchman" e "Eyes of Man", na forma de música gentil e atmosférica, mais adequada para a trilha de um filme.

Ao meditar sobre uma possível diminuição de ritmo na parte final de sua carreira, Berry diz que investiria em imóveis, daria alguma coisa ao Haiti e para a reforma das prisões e possivelmente devotaria uma parte à reconstrução de uma máquina inventada por seu pai, capaz de permanecer em movimento perpétuo. Ela fez sua estreia em frente ao escritório do prefeito, onde funcionou por 80 dias antes de finalmente parar. Talvez por ter largado a escola, Berry tem um impulso insaciável por demonstrar sua inteligência e aprender coisas novas. Quando fala, procura persistentemente pela palavra mais correta, pergunta a definição de cada uma que não entende e não permite mais perguntas até que tenha entendido completamente seu significado e uso. Foi essa a qualidade que tornou as músicas de Berry tão diferentes daquelas dos artistas de country e blues que o precederam. Ele se preocupa com o modo como seus versos se encaixam, sua capacidade de manter o significado quando vistos individualmente, como literatura separada da música, e com a precisão e clareza com que ela será levada ao público.

Depois de horas discutindo quanto tempo gasta trabalhando para que cada sílaba, palavra e frase de uma canção fi que correta, Berry diz que precisa se reunir com um advogado para tratar de um processo aberto contra ele por causa de um show que ele não fez. Mas, em vez de terminar a entrevista, Berry disse que gostaria de continuar conversando. Ele sugere que nos encontremos no clube às 9 da noite, antes do show.

Às 7h30 naquela noite, uma hora e meia antes do combinado, Edwards liga e diz que Berry já voltou e está esperando para a entrevista. Encontro Berry nos bastidores com a banda. Uma coisa que sempre deixou os integrantes do grupo estupefatos é que, apesar de sua insistência em receber sempre o que lhe é devido, Berry nunca vendeu camisetas, CDs ou qualquer outro merchandise em seus shows. "Já toquei no assunto várias vezes", diz Jim Marsala, seu baixista. "Disse a ele que há uma fortuna em merchandise; há bandas que vivem disso. Mas não sei por que ele não faz. Acho que ele não quer se envolver e ter que fi car carregando todos os produtos junto e lidar com isso."

Berry sugere que voltemos à sala em que estávamos conversando antes. Quando entramos, ele entra na frente, senta-se em um lugar na mesa oposto ao que havia se sentado da outra vez, dá um sorriso malicioso e diz: "Para variar as coisas".

A hora de conversa que se segue é tão cândida que, às vezes, parece que Berry não está sequer consciente de que está dando uma entrevista.

Boa parte do resto do papo gira em torno de seu assunto favorito, e talvez outro elemento de sua personalidade que o fez se tornar um dos pioneiros do rock: sua obsessão por sexo. Nos anos 90, Berry foi processado por um grupo de mulheres com a alegação de que ele havia instalado câmeras nos banheiros de um restaurante que possuía a fim de espiar, embora ele negue; o caso foi concluído com um acordo no tribunal. É um fascínio provavelmente proveniente do fato de seu pai tê-lo proibido de olhar para as mulheres quando criança.

Antes você disse que começou com garotas quando tinha 15?

Você sabe o que é a BYPU?

Não.

É a Baptist Young People's Union (União da Juventude Batista). Foi quando eu conheci - não conheci, tive contato com, porque não fui até o fim. Agora, preciso ser sincero. Não consegui...

Estava muito nervoso?

Exato. E foi um ano antes de acontecer. Havia essas irmãs: uma tinha 17, a outra tinha 15 e eu tinha 15. Encontrei a de 17 e ela me levou até a porta dos fundos. E os vizinhos estavam olhando direto para nós. Nem pensei nisso porque estava muito excitado [risos]! Está vendo? Este é o tipo de coisa que sou capaz de colocar em um livro ou música sem usar um palavrão sequer. Há ferramentas suficientes na nossa língua para que se possa dizer "m-e-r-d-a" juntando várias palavras diferentes.

Gosto disso em suas composições: tudo é sugerido, sem ser explícito.

Quero entrar nesse assunto porque quero saber - mais alguém pensa como eu a respeito de sexo?

Muita gente pensa, mas não fala disso, porque sexo ainda é um grande tabu. Deve ter sido ainda pior quando você era mais novo.

Meu pai costumava fazer serviços de carpintaria por todo o sul de St. Louis. E lá boa parte dos homens trabalhalonge e as mulheres cuidam da casa. E essa é a parte engraçada: quando eu era jovem, era bem agradável.

Não como é agora.

Digo em aparência! Enfim, eu ia ajudar meu pai a arrumar uma fechadura, e as mulheres traziam laranjas ou qualquer coisa. Não todas, mas algumas mulheres avançavam. Primeiro, meu pai as ignorava. Eu me perguntava por que ele não ria quando elas riam. Elas flertavam com o meu pai e faziam comentários sobre mim, e tentavam encorajá-lo a dizer algo por mim. E ele nos ensinou a nunca dizer nada e nunca sorrir de volta. Se você não obedecesse, ele te quebraria o pescoço. Ele queria nos manter vivos.

Imagine como era quando seu pai nasceu.

Ah, na época dele não havia nem chance de dar uma resposta. Eles te enforcariam na hora. Sabe, não sabia que você era educado. Digo, sofisticado. Sua sofisticação elucidou-se para mim, por assim dizer.

Obrigado.

Rolling Stone, essa é uma revista sofisticada. Não tem tanto sexo quanto a Playboy, mas tem mais disso do que no Discovery.

Verdade.

Sabe, o que é aquele dicionário amarelo?

National Geographic?

"É! Mas dá para ver algo lá! Eu costumava folhear [bate na mesa e ri]! Eles mostram um pouco, porque me lembro de folhear várias vezes. E, claro, Playboy. Todos os garotos já viram uma Playboy. Mostrava tudo! Exatamente o que você quer ver. Quem pensaria em colocar um mamilo ocupando uma página inteira? Nunca cheguei nem perto disso [ri]. Ah, cara, a gente podia escrever um livro."

Berry diz que vem compilando histórias de suas escapadas sexuais para um possível livro. "Tenho um computador cheio delas", admite. "Venho falando com o meu filho sobre isso para que ele não fi que chocado."

Também juntou vários milhares de fotos. Muitas delas, ele diz, não seria capaz de colocar em um livro porque são, como ele diz, "muito pessoais".

Conforme a hora do show se aproxima, Berry me convida para ir ao Berry Park, nos arredores de Wentzville, Missouri, onde vive parte da semana quando não está na cidade com sua esposa.

Em seus 150 acres, o Berry Park é composto de um agrupamento de casas sendo demolidas, além dos destroços chamuscados que restaram da sede do local, que queimou em 2003 juntamente com algumas das fitas das últimas gravações de estúdio de Berry com Johnnie Johnson, que morreu em 2005. Ali perto há uma velha picape Ford azul com as palavras WH Berry. 4410 Holly na porta - o velho veículo de carpintaria de seu pai. Além disso, há três cortadores de grama Kubota, que Berry usa para manter a propriedade aparada.

"Sou milionário, mas corto a grama", diz . "E, cada vez que corto, é a minha grama. E isso é recompensador. Ele ri e bate o pé, jovial e empolgado.

Cada folha de grama, ele continua, conta uma história. "É como uma pessoa", diz ele. "Uma folha é uma folha: quando é cortada pela metade, morre, com certeza. Mas a metade que fica renasce para a vida."

E essa é a história da vida de Chuck Berry. Aos 83, não olha para trás, para os escândalos que muitos dizem tê-lo marcado psicologicamente, mas sim tem trabalhado duro para fazer algo novo e relevante.

Enquanto muitas pessoas esperam ver toda a memória de sua vida passar como um flash por suas mentes quando morrerem, Berry diz que esse não é seu caso. "Eu não teria minha vida passando", diz ele abrindo um sorriso lago. "Eu iria querer saber o que vem depois."