Coragem sob fogo

Por Ricardo Franca Cruz Publicado em 10/03/2011, às 12h05

Wagner Moura estama a capa da nossa edição de aniversário

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Do alto de seu jeito de garoto, ele é um dos grandes atores brasileiros de todos os tempos e o mais popular de sua geração. Com a farda preta do Capitão Nascimento, deu vida ao maior anti-herói do nosso cinema. Agora, Wagner Moura se prepara para mais uma vez, ser o alvo do público e da crítica em Tropa de Elite 2

Wagner Moura aperta o play. Na pequena tela do celular a imagem é escura. Mas dá para ver um astronauta abrindo o portão e entrando em uma casa. É noite. Ele deve estar rindo por dentro do capacete redondo que faz parte do traje prateado. Igual àqueles que a gente vê no cinema. A força gravitacional da Terra não apresenta empecilho, mas o astronauta caminha pelo jardim como se estivesse na Lua. "Bem, tem uma visita aqui para você, venha ver!", avisa a mãe. O garoto, um tanto desconfiado, aparece na cozinha, vai até a sala e dá de cara com o estranho. Não há susto nem choro, mas a reação é imediata: empunhando duas espadas de plástico, Bem, um pequeno príncipe de 4 anos, vira um gigante e vai para cima do suposto invasor. E dá-lhe espadadas. O garoto é corajoso. Provavelmente ele está somente brincando. Mas, talvez, na cabecinha em formação de Bem, ele esteja defendendo a casa, a mãe e o irmão de uma invasão extraterrestre - o pai não está, então ele é o homem da família naquele momento. Percebendo que seus golpes não têm resultado, se esquiva e recua, sendo perseguido pelo inimigo. Até que é agarrado. Com as mãos envoltas por grossas luvas, o astronauta leva o menino até o colo e levanta a viseira espelhada do capacete revelando sua identidade. O rosto de Wagner Maniçoba de Moura é mais do que familiar a Bem. Pai e filho sorriem e então se abraçam. A conversa que se segue entre os dois é difícil de ser ouvida no vídeo gravado pelo aparelho de Wagner na noite anterior, a última diária de filmagem de O Homem do Futuro "uma comédia doida, com ficção científica, do Claudio Torres". Com o N95 preto na mão, no estúdio onde em minutos aconteceria uma sessão de fotos, o ator se derrama em orgulho. "Ser pai é um barato muito grande, né, cara? Não dá nem pra explicar."

A culpa pode ser atribuída ao Capitão Roberto Nascimento, o personagem principal de Tropa de Elite, maior fenômeno pop do cinema nacional dos nossos tempos. Ou a Olavo Novaes, vilão global querido pela audiência que protagonizou, na novela Paraíso Tropical, cenas das mais tórridas com a prostituta vivida por Camila Pitanga no horário nobre. Ou simplesmente ao ator que os interpretou. Pode ser o jeito pacato e meio largado, a cara de bom moço e o sorriso agradável e sincero. Ou ainda o entusiasmo latente que parece transbordar junto com as palavras cada vez que ele fala do que fez, está fazendo ou fará - o mesmo entusiasmo que ele tanto preza e tem medo de perder: " Nunca tive medo de envelhecer, mas não quero perder um entusiasmo e uma inconsequência de garoto que são tão caros ao meu trabalho". Seja qual for a razão, não seria exagero afirmar que Wagner Moura é o mais interessante, senão o melhor ator masculino de sua geração. Ainda que sejamos bem servidos de jovens contundentes nos nossos palcos, televisores e cinemas, nenhum deles é tão popular e desperta tanta curiosidade quanto o soteropolitano de fala mansa, nascido há 34 anos, filho do sargento da aeronáutica Seu José Moura e da dona de casa Dona Alderiva, irmão da pediatra Lidiane, formado em jornalismo, perdidamente apaixonado pelo teatro e pela família, torcedor do Vitória da Bahia, simpatizante do governo Lula - pero no mucho -, eleitor de Marina Silva e que escolheu o Rio de Janeiro como morada desde 2000. Ao mesmo tempo que o ator (e não os personagens que incorpora) e o homem que ele é são "a mesma pessoa jurídica", em uma simbiose natural de quem parece ter nascido para fazer o que faz, é nítida a impressão de que Wagner é um ser desprovido da habitual máscara, do "sorriso para imprensa" que colegas da vida artística costumam apresentar aos desconhecidos interessados em seus segredos.

Ele não deve, não teme e mantém, preservadas na superfície, as respostas que se mostrariam mais reveladoras sobre sua vida pessoal. Não é raro ouvi-lo responder: "Não poderia te dar uma resposta sincera sem entrar demais na minha privacidade ou na de minha família". No caso de Wagner Moura, o que mais interessa é o que se vê e ouve. E também o que se intui. Se ele está fazendo o gente fina, o desencanado, o verdadeiro, coisa que minha intuição duvida, restaria concluir apenas que ele é muito bom nisso.

Assista abaixo ao making of das fotos com Wagner Moura:

Enquanto o carro que nos conduz até a casa do ator cruza o Rio de Janeiro em direção à Zona Sul, em uma tarde de quarta-feira de setembro, debaixo de sol, Wagner fala sobre seu projeto pessoal da vez. "É um filme de memórias, um fluxo de imagens que vão reproduzindo a memória desse cara que sou eu sobre a cidade dos meus pais, Rodelas, que foi inundada em 1988 por causa da construção de uma barragem. Eu tinha 11 pra 12 anos." Convidado pelo mais brasileiro dos estilistas, o mineiro Ronaldo Fraga, a participar de uma exposição sobre o rio São Francisco, o ator está revisitando memórias em forma de velhas imagens, fotos, documentos e qualquer material daquela época para montar o filme de cinco minutos que será exibido ininterruptamente no local do evento. "Lembro-me pouco do que fiz dias atrás, mas me lembro muito da minha infância. E me lembro bem de Rodelas, porque a gente sempre passava as férias lá e depois morou lá. E eu estava lá no momento da mudança, quando construíram uma cidade chamada Nova Rodelas e mudaram todo mundo pra lá. Foi uma experiência antropológica extraordinária. Todas as relações culturais e sociais com o lugar se perderam com a água. Teve muita gente que morreu deprimida, alcoólatra."

Para Wagner, o mergulho no passado inundado vale como exercício de memória, como tentativa de estabelecer uma conexão ainda maior entre seu pai e seus filhos. Mas não há disposição para reviver fisicamente tais lembranças ou promover o reencontro com o sertão que, com a devida licença poética, virou mar. "Tem muito mais de dez anos que eu não volto à cidade, talvez porque pra mim o melhor seja ficar com a lembrança. Muitos amigos da minha geração vazaram para outros lugares. E, mesmo que a cidade não tivesse sido inundada, a vida lá seria outra hoje. O artista que eu me tornei tem muito a ver com aquela infância que eu tive. Legal a oportunidade que Ronaldo me deu de bulir com isso."

O ano de 2007 foi o "ano Wagner Moura", com o ator surfando a maior e mais popular onda de sua vida até então ao lado de dois memoráveis personagens - o Capitão Nascimento e o vilão Olavo. Mas ele não vê dessa maneira. "Apesar de ter sido o ano em que me tornei um ator popular de fato, muito conhecido por causa de dois trabalhos muito populares que aconteceram meio que em paralelo, não consigo ver aquele ano dessa forma tão determinante", diz. "Eu ouvia muito essa pergunta na época: 'Este é o seu ano?' e tal. Tinha consciência disso, mas não conseguia mesmo enxergar dessa maneira. Como artista, o processo de fazer Hamlet em 2008, dizer aquelas palavras, juntar aquelas pessoas todas no teatro e fazer Shakespeare no Brasil, foi uma coisa que me impactou mais."

Agora, este resto de 2010, ano em que ele já lançou o primeiro e talvez único disco 100% independente de sua banda bissexta de brit brega, Sua Mãe (The Very Best of the Greatest Hits), tem tudo para repetir o feito. Desta vez com foco centrado apenas no cinema e em um único filme, a sequência mais esperada da cinematografia nacional. Comandante-Geral do Batalhão de Operações Policiais Especiais e depois Subsecretário de Inteligência, dez anos mais velho, o narrador Nascimento volta em Tropa de Elite 2 para preencher as lacunas que o primeiro filme deixou em branco: a quem o BOPE e as máquinas de intervenção e repressão servem verdadeiramente quando sobem nos morros e deixam corpos de bandidos no chão? O que é o verdadeiro crime organizado? Como se dá a relação imunda entre corrupção policial e política? Qual a verdadeira influência do Estado na configuração das políticas de segurança pública de uma cidade como o Rio de Janeiro? E, principalmente, o que acontece com um guerreiro urbano da mais brutal força da lei no país conforme ele vai envelhecendo e passando a entender sua verdadeira posição em um jogo que envolve, mais que boas intenções, interesses escusos? Enquanto esta edição é finalizada, o site oficial da produção indica na contagem regressiva que faltam sete dias, 22 horas e alguns minutos para o lançamento do filme. Mas Wagner entrega pouco: "Na secretaria de segurança, Nascimento começa a entender de fato que talvez ele tenha dedicado a vida inteira a uma causa diferente da qual ele achava que defendia. O cara acha que está servindo ao povo, mas está servindo ao Estado, que são coisas bem diferentes, porque, historicamente no Brasil, o Estado, de um modo geral, serve aos interesses escrotos de quem está ali [no poder]." E completa: "Nascimento é o clássico personagem da tragédia grega, ele caminha inexoravelmente para um final trágico".

Aplaudido pela direita mais retrógrada, odiado pela esquerda mais embolorada, discutido e analisado à exaustão - ainda que, raramente, como produto de entretimento com forte inclinação político-social. Mais do que tudo isso, adorado por quem gosta de cinema no Brasil e ainda tem esperança de ver nossa cinematografia inserida entre as mais importantes do mundo. Já se vão quatro anos desde que uma cópia de Tropa de Elite, o filme mais importante de Wagner Moura e do diretor José Padilha até o presente momento, foi furtada de um estúdio de legendagem e chegou às ruas de todo o país em versão pirata, antecipando o lançamento oficial nos cinemas. Assistido por 2,6 milhões de pessoas nas salas de exibição, a produção do filme calcula que mais de 11 milhões o viram na informalidade, um jeito eufemista de dizer que a pirataria, mesmo que tenha divulgado massivamente a obra, quebrou suas pernas com requintes de crueldade, lesando-a em alguns milhões de pagantes a menos nas bilheterias nacionais. Consequentemente, transformou em areia alguns milhões de reais, que passaram ao largo dos bolsos de quem era de direito. Incluindo, provavelmente, o protagonista, espécie de marido traído, um dos últimos envolvidos a saber do ocorrido. "Foi um camareiro da Globo que me falou que o filme estava sendo vendido na rua", conta Wagner, que na época interpretava Olavo da novela Paraíso Tropical. "Ele me disse: 'Porra, vi aquele teu filme da polícia!' E eu: 'Que filme, cara, tá de sacanagem?' Ele respondeu: 'Tá vendendo direto aí na rua, vou trazer pra você ver'. Ele trouxe uma cópia pra mim no dia seguinte e quando cheguei em casa vi que era o Tropa. Fiquei perplexo. Liguei pro Zé e ele estava transtornado, puto, logo ele que é um cara que controla tudo. E ainda mais neguinho dizendo na época que ele que tinha vazado o filme." A despeito do enorme potencial de bilheteria, pode ser que realmente Tropa de Elite tenha se tornado fenômeno de massa por causa do comércio ilegal de DVDs, mas a certeza é uma só: "Nunca saberemos o que teria acontecido com o Tropa se não tivesse rolado aquela parada da pirataria", dispara Wagner, certeiro, como se parafraseasse um dos bordões disseminados pelo filme - "Nunca serão!"

No trajeto de carro, Wagner Moura conta que agora se prepara para uma maratona escorchante de entrevistas, debates e mesas de discussão sobre Tropa de Elite 2. Em um mundo cujo pensamento e a intenção dos criadores servem de muletas para uma imprensa preguiçosa, e plateias pouco dadas à autorreflexão preferem o pão mastigado a ter de mastigá-lo, obras de arte e/ou entretenimento não falam por si próprias. Explicá-las, desmistificá-las, torná-las mais digeríveis faz parte do jogo, da venda do produto.

Defender um filme como Tropa de Elite exige mais do que noções cinematográficas ou conhecimento dos meandros pelos quais se constrói um bom roteiro ou grandes cenas. É preciso ter consciência sociopolítica e firmeza nas posições assumidas. Assim é com José Padilha que, segundo Wagner, "é um cara sagaz que mudou a relação das pessoas com o filme no festival de Berlim durante as entrevistas". E é assim também com o protagonista, um ser político desde que se entende por gente. A poucos dias das eleições, e sem a capacidade de prever o futuro em uma disputa de escândalos, mudanças e brigas de galo entre o atual presidente e a grande mídia, o ator declara o voto na senadora Marina Silva. "Vejo nela um discurso muito lúcido, muito honesto, e uma disponibilidade de caráter para conversar com PT, PSDB ou quem quer que seja para buscar as soluções e o consenso. É a única que pensa em desenvolvimento sustentável como algo fundamental."

E, apesar de votar em Fernando Gabeira para governador do Rio de Janeiro e ter feito campanha para ele nas eleições para a prefeitura da cidade, diz ser difícil de engolir a chamada "coligação da esperança" formada por PV, PSDB, DEM e PPS. "Continuo achando que Gabeira é um puta cara, mas fiquei bastante decepcionado com aquela história das passagens aéreas, de a filha viajar pro Havaí com passagens do governo."

Para deputado federal, acredita que o professor baiano, ex-colega de faculdade, que carrega o carimbo de anex- BBB, Jean Willys, candidato pelo PSOL, é o melhor nome. "Porque tá faltando na política seres humanos legais que representem uma geração e um modo de pensar. Quanto mais gente legal se interessar por política, pior vai ficar para os políticos escrotos."

Mesmo com Lula "beijando a mão de Jader Barbalho, José Sarney" e Fernando Collor, e "não priorizando a defesa e o respeito aos direitos humanos como cerne do desenvolvimento" e elegendo a "governabilidade, essa palavra maldita, como sustentáculo", ele ainda se declara um entusiasta deste governo Luiz Inácio. "Simplesmente porque vejo nele um governo que combateu o óbvio: a desigualdade social. Diminuiu a diferença entre quem tem muito e quem tem pouco. Mas é evidente que o PT tem um projeto de poder e não de governo. Isso fica claro pela forma como o partido aparelhou o Estado e distribuiu cargos importantes por merecimento político e não técnico."

Saindo de uma tradicional e movimentada avenida na capital carioca, chegamos a um bairro residencial silencioso, de belas casas antigas, sem aparente ostentação e com muitas árvores. Óculos escuros, camiseta do Lou Reed - "Foi a San quem me deu" -, calça jeans, tênis Osklen e mochila nas costas, Wagner entra em casa, ampla, agradabilíssima, toda aberta e sem paredes, cercada por portas de vidro. E sem quaisquer grades, como deveriam ser todas as residências no mundo saudosista que ele tem na cabeça. Pede que eu o acompanhe até o andar de cima, onde encontra a esposa, Sandra, a San, no quarto do filho mais novo, Salvador, de apenas 2 meses. O bebê está acordado e os olhos que estão descobrindo o mundo até parecem atentos à chegada do pai. "Você lavou as mãos, Wag?", Sandra pergunta com a voz serena quando ele pega o pequeno no colo e lhe dá um beijo seco na testa. "Lavei não, mas é rapidinho", e o coloca de volta ao berço, saindo do quarto. No closet do casal, ao lado, ele abre o armário branco de onde retira uma haste de madeira com um gancho na ponta e puxa com ela uma pequena porta no teto. Uma escada articulada se forma e ele sobe ao sótão. "Meu cafofo", diz, pedindo que eu o siga novamente. "Esse é um canto meu na casa. É necessário. Para manter a sanidade."

Localizado confortavelmente entre o teto do andar de cima e o telhado da casa, está um escritório de iluminação natural, composto por um futon azul, um violão, um banco de alvenaria e madeira, e uma mesa de vidro com cadeira e livros de artes. O sótão é um forno. Ele aciona o ar-condicionado em 22 graus Celsius. "Vem dar uma espiada aqui fora", e abre uma porta que dá na laje. Visto de cima, o bairro é ainda mais calmo. É fácil entender por que ele prefere não sair de casa. O ar é puro, há verde por todos os lados e a avenida movimentada parece estar a quilômetros de distância. Nem um homem martelando algo no telhado à frente atrapalha o clima de cidade do interior ou o canto dos passarinhos e das cigarras. "Aqui é uma rua em que se exercita muito a coisa da vizinhança. Naquela casa ali mora o Angelo Paes Leme. A gente se vê toda hora. O pessoal da rua faz festa junina, as crianças brincam aí na boa. É muito astral", ele diz. É tanta tranquilidade que parece até um cenário de novela das 6 no Projac em dia de folga ou a materialização de uma poesia bucólica. "O Rio tem essa porra, né, cara, que você olha pra ali" - aponta para a frente - "e tem o Pão de Açúcar. E tem aquele cara ali" - aponta para trás e vejo o Cristo Redentor no alto - "de braços abertos lá em cima, e essa coisa verde toda" - completa olhando ao redor. "Eu queria botar aqui umas lacas de energia solar, porque consegui fazer um reaproveitamento de água de chuva muito legal e queria que a casa meio que funcionasse numa batida ecológica Mas não deu, porque o telhado aqui não tá numa posição boa para receber sol", lamenta. "O martelo tá te incomodando? Vamos sair daqui e conversar lá dentro."

O ar-condicionado ecológico deixa ameno o clima do sótão. Wagner me oferece a única cadeira do seu canto particular e se senta no banco. "Fiz isso aqui para os momentos em que quero ficar na minha, só", diz. E se justifica quando falamos sobre drogas: "Existe na humanidade uma vontade atávica de sair do centro, de sair dos eixos. Uns caem na balada, na loucura; outros têm um quartinho em cima de casa. Faz parte da caminhada de cada um. Tem uma coisa fundamental que é o livre arbítrio de as pessoas disporem de seus corpos e mentes da maneira que acharem melhor, que se sentirem mais à vontade."

Se há algum lugar neste mundo em que Wagner Moura se sente completamente à vontade, além de sua própria casa e seu quartinho no telhado, esse lugar é o palco de um teatro. Qualquer teatro. Suas raízes como ator estão profundamente fincadas num tablado, nas viagens mais intensas, nos sonhos mais alucinados e nos voos mais altos que, para ele, somente o teatro pode abraçar. "Minha formação como ator começa no teatro. Eu não conseguia conceber que um ator se iniciasse na profissão de alguma outra maneira que não no teatro." A predileção óbvia pelo palco às câmeras se justifica no exercício da atuação. "Teatro sem ator não existe. Deu o terceiro sinal e é você com aquela plateia ali, não tem mais diretor, não tem ninguém. O ator é o protagonista. É uma arte bastante complexa e difícil de dominar. Sem diminuir, mas no cinema é mais fácil. Na televisão é outra parada. Mas também acho muito bonito ver o ator fluindo por aquele estúdio todo do Projac, jogando de uma forma harmônica com aquela equipe toda de uma novela ou de um filme."

Ao falar do seu Hamlet, dirigido por Aderbal Freire Filho, sucesso de público e de relação conturbada com parte da crítica dita especializada e a mega-chatice erudita, Wagner deixa escapar uma centelha de ex-citação de garoto. "Eu queria fazer uma peça popular, como era em 1600 quando Shakespeare fazia. Era pra galera, não era essa parada careta dos intelectuais e críticos de teatro e literatura, que ficam dizendo que 'Hamlet tem de ser assim, tal cena tem de ser assado'. Não tenho paciência nenhuma pra isso. Essa porra, meu irmão, é popular!"

Antes que ele se inflame mais, Sandra aparece na entrada do sótão. "Olhe aqui", ela diz, "chegou o seu celular novo!", e lhe entrega um iPhone 4. "Porra, que legal!", ele se alegra, para no segundo seguinte demonstrar preocupação: "Eu sou um analfabeto tecnológico, comprei um iPad e mal sei usar. Será que eu vou aprender a mexer nesse negócio?" A esposa avisa que vai com a babá e Salvador para uma reunião de pais na escola de Bem, ali ao lado. "Então vamos descer, cara. Quer um café?"

Nem todo ator quer ser diretor, mas Wagner Moura quer. Ele acredita que sua experiência na área, principalmente agora que também atuou como produtor em Tropa de Elite 2, o capacita para a missão. "Eu tive no processo todo do filme uma presença que eu não tinha antes e curti muito. Fico a fim de caminhar nesse trilho aí." Apesar de ter na cabeça um argumento para uma ficção em que pretende atuar e dirigir, prefere não falar sobre "por ser ainda muito embrionário". "No final do ano agora eu quero ir pro meu apartamento na Bahia, ficar escrevendo, e sair de lá em março com um argumento bastante encaminhado ou até o primeiro tratamento desse roteiro. Eu não teria por que fazê-lo se não fosse algo muito pessoal. Existe uma vontade muito grande de dizer algo que eu não tenho mais como dizer enquanto ator." Depois de Hamlet, Wagner foi se agendando e agora tem compromissos até o meio de 2011. "Filmo com o Luciano Moura um drama familiar muito legal. Depois tem um projeto sobre Serra Pelada com o Heitor Dhalia e a Tatiana Quintella."

Apesar dos quase 15 anos de carreira e quase 20 filmes, Wagner não tem uma cópia em DVD - oficial, claro - de Tropa de Elite, nem de vários dos filmes em que trabalhou. "Não tenho quase nenhum. Eu vejo na loja, mas tenho vergonha de comprar. Vão dizer: 'Olha lá, o cara comprando os próprios filmes!' Parece triste. Outro dia passou Deus É Brasileiro na televisão e eu gostei muito de rever, não via desde que foi lançado. Acabei indo dormir às 4h da manhã porque não conseguia parar de assistir."

E Deus é realmente brasileiro? O filho de pais espíritas, que foi coroinha de igreja quando garoto, teve passagens pelo candomblé e admira os rituais de todas as religiões que conhece, acredita que Deus somos nós no domínio pleno de nosso potencial cerebral. "Não compro todo o papo do Deus cristão, e onda toda dos testamentos não faz sentido pra mim. Mas não tem como não acreditar em Jesus, que um cara fodão que andou ali pela Galileia e descobriu uma coisa genial. Naquela época, o cara fodão era o da espada e Jesus foi La e disse: 'Brither, a parada é o amor, é o papo, é a gente se gostar'. E botou pra foder! Mas ai aquele papo de cruz, ressurreição e tal... é muito difícil pra mim."

Quando diz que não acredita em Deus, e que o que chama de "busca que resulta na minha inquietação metafísica" o levou à ciência, Wagner não quer dizer que sua existência esteja desprovida do sagrado. "Acredito no metafísico, nas coisas que a gente não enxerga com nossa visão limitada. No teatro, tem às vezes uma hora em que uma fagulha te faz sentir em comunicação com algo que você não sabe o que é direito. É algo inexplicável. O palco é um templo. Acho que o ritual das religiões tem muito a ver com o rito do teatro. Aquela repetição toda me parece uma tentativa de entender alguma coisa que, talvez, em última instancia, seja esse Deus".

Mas, se você quiser mesmo falar sobre religião com Wagner Moura, invoque o exu branco e torto Thom Yorke. "Eu sou da religião do Radiohead, de uma forma bastante praticante. No show aqui no Rio eu estava fazendo Hamlet e cheguei a tempo de pegar as quatro últimas músicas. Mesmo assim foi o melhor show da minha vida. No mundo da arte hoje em dia nada me encanta mais que o Radiohead. Gosto muito do rock inglês. Para mim, a maior banda de todos os tempos foi The Smiths." Na sala da casa, ele procura nas bagunçadas gavetas de CDs uma caixa com todos os singles da carreira solo do cantor Morrissey, recém-adquirida na Amoeba Music de Los Angeles, uma das lojas de discos mais legais do mundo. "Aquilo ali é a perdição total!" No amontoado de CDs, consigo distinguir um PlayStation 2 jogado, dois OK Computer - "Pra você ver como eu gosto de Radiohead!"-, Tim, Jorge, Plant & Krauss, Cartola, Suba, Velvet, o solo de Yorke. Alguns ainda lacrados. "Ah, aqui está! Olha, cara, que caixinha mais linda essa do Morrissey. Eu ainda compro CDs, não baixo música, não baixo filme, sou um cara antigo."

A casa ganha novas cores quando Bem chega da escola, causando. O garoto tímido mal fala com o pai na frente do desconhecido. Salvador, no colo de Sandra, dorme o sono dos inocentes. "Quando ele deixar de mamar eu quero viajar com a San, deixar os meninos com a vovó na Bahia por uns dez, 15 dias e ir com ela para a Europa, namorar", diz o pai, para o qual o casamento é uma instituição moderna. "Hoje, nada obriga duas pessoas a estarem juntas como era antigamente. Não existe outra razão para você morar com uma pessoa que não seja o amor. Isso é moderníssimo cara!"

É segunda-feira, dia de Cosme e damião, uma e pouco da tarde. Nos estúdios da TV Cultura, em São Paulo, é gravado um Roda Viva, agora em novo formato comandado por Marília Gabriela. O entrevistado é Wagner Moura. A noite anterior, a primeira exibição de VIPs no Festival Internacional de Cinema do Rio, foi intensa para o ator. O filme, dirigido por Toniko Melo, e com estréia prevista para março de 2011, é baseado no livro VIPs - Histórias Reais de um Mentiroso, de Mariana Caltabiano, sobre um farsante que, entre outras peripécias que poderiam ser consideradas geniais se não fossem nocivas, se fez passar por dono de uma companhia aérea.

Wagner foi à frente da platéia para falar do filme. "Cara, essa parte foi muito chata. Subiu todo mundo no palco, Toniko falou e me deu o microfone: 'Agora Wagner vai falar'. Fiquei sem graça pra caralho, me sentindo meio bobo. Mas foi bom ter visto o filme com o público. Só que eu queria ouvir mais opiniões, porque nas estréias as pessoas tendem a ser mais educadas." Depois de reencontrar os companheiros de elenco e "tomar uma cerveja com a galera, quando eu vi eram 4h da manhã", Wagner foi para casa. Encontrou-a sem energia elétrica. Tirou os sapatos finos, o paletó e a calça pretos, a camisa branca e se jogou na cama - não sem antes acertar o despertador do iPhone para tocar na hora de levantar, vestir exatamente a mesma roupa do domingo, ir para o Santos Dumont, pegar a ponte aérea para São Paulo.

Foram três horas de sono, mas as câmeras públicas mostram um cara disposto, de pensamento articulado e respostas prontamente engatilhadas. A simpatia dos entrevistadores ajuda. O cansaço bate forte somente quando ele põe os óculos escuros e, já no táxi de volta para o Aeroporto de Congonhas, deixa a cabeça encostar-se ao vidro da janela. O táxi flui pela avenida 23 de Maio. O telefone toca e ele demora a atender, demonstrando ainda zero grau de intimidade com o iPhone. "Acho que nunca vou ficar íntimo disto aqui."

Diferentemente Wagner Moura se enxerga como um operário a serviço dos personagens que aceita interpretar, dos diretores com quem trabalha e das histórias que escolhe viver. Ele sabe que essa profissão, apesar da fama, que ele pouco aprecia, e das oportunidades de ganhos astronômicos geralmente com a publicidade, que ele aprecia bastante - "Não acho inteligente não gostar de dinheiro, mas não vivo por ele" - não o fazem diferente de outros seres humanos. Aqueles que defendem o seu salário honestamente todos os dias. Mesmo que atores possam viver situações, reais ou fictícias, que dificilmente nós, pessoas ditas normais, viveríamos em nossas vidas ditas ordinárias. Como, por exemplo, voltar para casa depois de um expediente árduo de trabalho vestido como um astronauta. filmagem de O Homem do Futuro, fazer uma surpresa para o filho Pediu emprestado ao figurino o que usara durante o filme e foi assim para casa. Avisou a esposa que estava chegando e que surpreenderia o garoto.

A coragem do filho ao enfrentar o intruso espacial é motivo de orgulho. O medo é um negócio que te paralisa e deixa você... Porra, tanta coisa pra viver... Então, fico tentando me policiar muito pra não ter medo. E tento ensinar o Bem a ser corajoso. Eu adorei quando entrei em casa vestido de astronauta e ele pegou as espadas para bater no astronauta. Achei maneiríssimo, cara." A infância ideal, segundo ele, saudosista, é a que ele teve, entre Rodelas e Salvador, brincando na lama, nas águas do São Francisco, na rua. "Queria proporcionar a meus filhos, de certa forma, essa infância de interior, sem grades, criar os dois soltos, sem medo. Como foi a minha infância, livre. O medo que a gente tinha era do Nego D'Água, uma assombração do rio que puxava as pessoas para baixo d'água. Eu vejo as crianças hoje muito estigmatizadas com os medos urbanos. Meus filhos têm uns amiguinhos que se assustam e choram por qualquer coisa. Tenho um pouco de dó do que podem vir a ser essas pessoas que vivem sob o regime do medo." E emenda: "Não quero morar numa porra de um condomínio fechado, rodeado de grade. Não quero andar de carro blindado, não vou entrar nessa parada! Porque eu não quero ter medo na minha vida nem no meu trabalho".

Emendo uma pergunta qualquer, em outra direção, mas Wagner está distante por trás dos óculos escuros. "Minha vida tem sido uma constante luta contra o medo" - pausa dramática - "e a calvície". Caímos na gargalhada. Digo que, pela crença popular e pelas fotos que vi de Seu Zé Moura, há alguma chance de que ele perca a batalha contra a queda de cabelos. Com o olhar perdido no cinza paulistano, ele ajeita as volumosas madeixas pretas com as mãos, como se conferisse se elas ainda lhe pertencem. "Não me diga isso, não, cara. Por favor, calvície, não."