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Os 19 amigos da Orquestra Imperial

Marcus Preto Publicado em 22/09/2008, às 18h09

Marcos Hermes
A formação é de orquestra, o repertório passa pelo samba e a atitude é tropicalista - são 19 amigos unidos para celebrar a vida e a música. Essa festa, que surgiu como uma mentira e agora está registrada no disco Carnaval Só no Ano que Vem, virou uma das bandas mais criativas da música brasileira, a Orquestra Imperial

"Enlouqueceu ao tentar satisfazer a todo mundo / endoideceu ao pregar o perdão a cada segundo / Ensandeceu e ficou com o olhar tão furibundo / Adormeceu e acordou cada vez mais iracundo / Se convenceu a não tomar banho e ficou todo imundo / Estremeceu ao ver o terror, ficou nauseabundo / Não estava nada bem / Estava muito mal / Mas, de repente, levantou o seu astral / Ficou com o seu coração em festa tropical / Ao som da Orquestra Imperial" ("Ao Som da Orquestra Imperial", de Nelson Jacobina e Jorge Mautner, lançada em Revirão, o mais recente álbum de Mautner)

"Essa minha homenagem descreve os efeitos medicinais da Orquestra Imperial. Na primeira parte da música, temos alguém acometido de profunda melancolia. Na segunda parte, essa mesma pessoa está mais saudável e atinge a euforia com o som da Orquestra", explica Jorge Mautner, considerado pelos integrantes do grupo como membro honorário, guru e mestre espiritual.

Formada por nada menos do que 19 músicos, a Orquestra é um desses casos de projeto que estaria fadado a não dar certo, mas que, por algum mistério do acaso, faz um grande sucesso. Em março lançam, aqui e na França, o disco de estréia, Carnaval Só no Ano que Vem. Enquanto isso, passam as segundas-feiras fazendo uma série de shows pré-carnavalescos, sempre com casa cheia. "Não sei o que aconteceu de tão errado para ter dado tão certo", brinca Berna Ceppas [sintetizadores e percussão] que, junto com Kassin [baixo], começou toda a história que eles mesmos contam a seguir.

"A gente fazia uma noite semanal no OO[casa noturna carioca]. Era uma espécie de jam session de música eletrônica. De tão experimental, achamos até que não ia rolar. Só que o negócio foi crescendo", conta Kassin. "A gente chamava amigos para tocar: Arto Lindsay, Otto, Fernanda Abreu... Não podia nem sair na imprensa porque aí seria um show e os artistas não iam mais querer participar", emenda Berna, "até que, na época da Copa do Mundo de 2002, o Geraldinho Magalhães e o Marcinho Barros, que trabalha com a Marisa [Monte], ficaram com umas datas no Ballroom, aquela casa de shows [no bairro carioca do Humaitá] que acabou." Kassin vai adiante: "Só que o Ballroom era muito maior e não tinha nada a ver com o conceito de jam. Não fazia sentido alguém ir ver uma improvisação em uma casa de shows para mil pessoas. Paralelamente a isso, eu e Domenico [bateria] costumávamos ouvir muitos discos de gafieira e ficávamos tocando aquelas músicas nas passagens de som do +2, nosso projeto com Moreno Veloso [voz e percussão]. Mas a gente nunca achou que essa fosse uma parada com a qual íamos nos envolver, ainda que ficássemos viajando nela". Domenico assume: "Era um tipo de música que a gente gostava e não tinha onde tocar, tipo Miltinho, Elza Soares... Eu adoro bateristas de gafieira, fico imitando mesmo".

Mal sabiam eles que essa viagem começaria, de fato, a partir de uma contraproposta ao convite do Ballroom. "Meio achando que o cara não ia topar, joguei: 'Faria essa parada se fosse a orquestra de gafieira que tenho em mente'. E menti na lata: 'Já tenho um repertório preparado, uma banda ótima, tá tudo certo'. Na real, não tinha nada", confessa Kassin. Numa quinta-feira, ele recebeu o telefonema com a resposta: "Segunda a parada tá de pé. É só chegar e tocar. Qual é o nome da orquestra mesmo?". À beira do desespero, o músico olhou para a cara de Berna procurando uma solução. "Ele, na época, estava tentando fazer uma parada chamada Camisaria Imperial. Olhou para o lado e viu uma série de estampas que pretendia usar nesse projeto e respondeu: 'Orquestra Imperial'", lembra Kassin, rindo. "A gente tinha três dias para ensaiar uma banda que não existia! Começamos a fazer as contas: da galera do +2, todo mundo ia: eu, Berna, Pedro Sá [guitarra], Domenico, Moreno... Aí, chamei o Rodrigo [Amarante, voz], do Los Hermanos. E a gente foi avisando a galera que tinha a ver: a Thalma [de Freitas, voz], o Seu Jorge [voz], uns outros amigos: Bartolo [guitarra], Bodão [percussão], Leo Monteiro [percussão eletrônica]. Berna continua a escalação: "Em 15 minutos já tinha a base toda. Na mesma noite, cruzei com o Bidu [Cordeiro, trombone], que toca nos Paralamas, e ele arregimentou um naipe de metais [Felipe Pinaud, na flauta, Max Sette, no trompete e flugelhorn e Mauro Zacharias, no trombone].

Moreno Veloso complementa: "Meu telefone tocou nessa mesma tarde. Eu aceitei. Logo no primeiro encontro, teve um acordo de que cada um ia realizar seu próprio sonho em relação às músicas do passado. A idéia era trazer o que a gente tinha vontade de cantar ou tocar". E todo mundo chegou com um CD, um LP, um cassete, um iPod debaixo do braço, e as harmonias foram tiradas na hora, do jeito que dava. "Levei uns boleros mexicanos e porto-riquenhos que conheço desde a infância. Depois, uns sambas clássicos e algumas outras coisinhas", enumera Moreno. De todos os recrutados, só Seu Jorge não apareceu nos ensaios. "A gente achou que ele era daqueles que combinam as coisas na noite e depois nem se lembram no outro dia", dispara Kassin. "Mas, no dia do show, foi o primeiro a chegar. Assim que entrei no camarim, Seu Jorge mandou: 'Aí, família! O que eu canto?'. Mostramos o repertório e ele escolheu. Assim que pisamos no palco, o cara soltou: 'Maravilha! Orquestra Imperial na área!'. Nessa hora, todo mundo entendeu que o negócio ia rolar."

"Nesse primeiro show do Ballroom tinha pouca gente", lembra Domenico. "No segundo dia também - mas com o dobro de público do primeiro. No terceiro, foi um jornalista de O Globo que gostou e botou na primeira página. No quarto dia, a casa lotou - com fila na porta e o cacete. Com isso, a temporada, que era de um mês, durou quatro - e depois foi indo e voltando." Entre os gatos pingados na platéia do primeiro show da Orquestra estava Nina Becker [voz], que tinha ido para ver os amigos que mantém desde o tempo do colégio. "Fui por causa do Kassin, do Domenico, do Moreno... Mas fiquei mesmo impressionada quando vi a Thalma, aquela cantora linda. Os shows ainda eram supervazios. Na semana seguinte, fui de novo para dar aquela força. Mas Thalma não estava mais, tinha ido para a Espanha", conta Nina. "Os meninos estavam reclamando porque iam ter que continuar sem cantora. Acabado o show, peguei um táxi e, quase chegando em casa, me deu um insight: 'Caramba, vou cantar com eles!' Então, fiz a proposta. Passei no ensaio toda bonitinha, na hora marcada, e a galera só chegou duas horas depois. Mas eles me ouviram, gostaram e fui ficando."

Nina não foi a única a "pedir emprego" na Orquestra, como conta Berna: "O Rubinho [Jacobina, teclados] também ligou para entrar: 'Pô, cara, tocar samba é o negócio da minha vida. Toco qualquer coisa, baixo, violão, flauta'. Mas a gente ainda não tinha o piano, que nem é o instrumento dele, mas que ele criou um jeito de tocar ali que é muito legal". Pedro Sá também veio depois: "O Kassin sempre me falava dessa vontade de reunir todos os nossos amigos em uma orquestra de gafieira, e seria muito natural eu fazer parte disso. Estava viajando com o Caetano em uma turnê e não participei dos primeiros shows. Quando cheguei, fui ver o baile. Vi umas duas vezes, na terceira, entrei. Quando cheguei, já era um sucesso", conta.

Sucesso mesmo. "Volta que tá muito bom, a Orquestra tá bombando!", alguém gritou pelo telefone para Thalma, que estava do outro lado do mundo. "Uma orquestra de gafieira, em 2002, ia na contramão do que estava acontecendo. Enquanto todo mundo enxugava as bandas, a gente enchia o palco de gente. Mas como ia durar só um mês, nenhum de nós se preocupou muito com isso", conta Nelson Jacobina [guitarra e violão]. Thalma voltou com fila dando a volta no quarteirão e encontrou outra pessoa ocupando seu posto de voz feminina da Orquestra. "Mas já tinha colocado um monte de músicas no repertório, não fazia sentido sair. E, de cara, a gente [ela e a Nina] se identificou por causa das roupas. 'Ai, o cabelo fica melhor assim? Será que uso esse vestido?' Essa coisa de camarim que é tão boa quando você tem uma companheira por perto...", conta Nina. "Larguei a publicidade por causa da Orquestra. Queria executar minhas idéias, meus projetos", diz ela, que até então era diretora de arte da Conspiração Filmes. Thalma assina embaixo: "Sou do teatro, então meu negócio é turma. E é verdade que esse negócio de estética ajudou a gente a se dar bem logo de cara. Somos muito ligadas a isso: ela pela via da direção de arte e eu pela via do musical, a coisa do palco". Tudo resolvido: teríamos duas vocalistas na Orquestra Imperial. Quem também já estava escalado para a banda era o francês Stephane San Juan [percussão], namorado de Thalma. "Foi o Kassin que o levou para a Orquestra. A gente é uma turma, as histórias se misturam", ela diz.

E a agenda no Ballrom foi esticando. "Quando o lugar fechou, a gente ficou meio homeless. As casas médias aqui do Rio não têm palcos que comportem a Orquestra", explica Berna. Mas logo viriam os shows em São Paulo e nos Estados Unidos - "A gente se apresentou primeiro em Chicago e depois em Nova York, em um megafestival chamado Sudoeste, para 50 mil pessoas" - até eles chegarem a Londres... Mas calma, vamos por partes. "No primeiro show da Orquestra em São Paulo, o Kassin não pôde ir, então tive que tocar o baixo. Fui do Rio a São Paulo ouvindo um MD para tentar entender as 50 músicas. No palco, foi Kardec total. Mas rolou, essa é a mágica da coisa. O próprio formato do grupo tem espaço para esses deslizes", conta Pedro Sá. Essa é uma das características de uma banda na qual todos os seus integrantes são prioritariamente ligados a outros projetos. "A primeira vez que teve problema de gente não poder fazer o show, uns começaram a ficar chateados com os outros. Daí lembrei a todo mundo que a Orquestra é bundalelê, então não tem que se estressar. Se alguém não puder ir, beleza. Vai rolar do mesmo jeito e a gente vai se divertir", diz o guitarrista.

É só por essa maleabilidade que o grupo se torna possível. O mais veterano entre os músicos envolvidos no projeto, o mestre Wilson das Neves [percussão e voz], aprova o esquema: "Sempre que posso, vou ao show. Só quando tem Chico [Buarque, com quem Wilson está em temporada] que não compareço, mas eles sempre me perdoam. Porque não é privilégio meu, não". Verdadeiro ícone entre os músicos brasileiros, Wilson entrou para ocupar o lugar deixado por outro integrante. "Peguei a vaga do Seu Jorge porque ele saiu para ser ator e viver nos Estados Unidos. Enquanto os meninos me aturarem, continuo por lá. A primeira coisa que gostei foi do nome: ela é Imperial e eu sou Império Serrano, então estou no meu ambiente. Mas o melhor é a convivência. Eu estou com 70 anos e ali a maioria é filho de amigo meu", conta. Além de tocar, Wilson compõe com "a garotada", e parcerias suas com Kassin e Domenico já fazem parte dos shows. "A gente tem uma relação de amizade que não passa nem pela idade nem pelo estilo", resume Kassin.

Domenico explica por que esse esquema de poucos ensaios não chega a prejudicar o desempenho no palco. "A gente tira mais ou menos a forma e ela vai se ajeitando nas apresentações. Quando o Wilson [das Neves] entrou na história, ele contou que era exatamente assim que funcionavam as orquestras de antigamente. Os músicos chegavam para tocar antes de a casa encher, depois repetiam o mesmo set... E o negócio musical ia se construindo na hora", diz.

Por isso são tão naturais as participações especiais que acontecem nos shows da Orquestra, várias delas memoráveis. Berna considera essa uma característica "muito importante para manter a banda sempre viva. Algumas participações foram muito significativas nesse sentido. Há quatro anos, o Roberto Silva, o Príncipe do Samba, com 82 anos, cantou tudo nos tons originais e a gente assistia de joelho. A Elza Soares, o Caetano, o Luís Melodia, o Erasmo, a Alcione... todos esses momentos contribuíram para deixar nosso som muito mais rico". Domenico aponta mais um: "A Bebel [Gilberto] também foi emblemática. Ela é a pessoa mais parecida com esse espírito da Orquestra". Thalma se lembra do dia em que a filha de João Gilberto participou: "Ela cantou os números dela e ficava me dizendo: 'Ai, Thalma, acho que quero voltar'. E voltava. Cantava, dançava mais um tempo e perguntava: 'Será que não é melhor eu sair? Eu dava corda: 'Relaxa, Bebel! Fica aí'. E ela ficava. No final, me disse: 'Ai, amanhã vou trazer minha mãe, pode?' No dia seguinte, estavam lá Bebel e Miúcha. Foi maravilhoso! Tem gente que chega, faz suas três músicas e vai embora. Mas é muito raro. Normalmente, as pessoas saem do vocal e vão para a percussão, depois tocam um chocalho, dançam...".

Em maio do ano passado, a Orquestra partiu para Londres, onde aconteceu o Tropicália: A Revolution in Brazilian Culture, no Barbican Center - o mesmo festival que promoveu a volta dos Mutantes. "A gente se apresentou na mesma noite em que haveria uma homenagem ao disco Tropicália. Eles refizeram os arranjos do álbum e nos chamaram para também cantar e comemorar aquilo no palco", conta Moreno. A apresentação fez, mais uma vez, grande sucesso. Mas o que uma orquestra de gafieira teria a ver com a Tropicália? "Lá fora as pessoas ouvem a música brasileira como um bloco, então elas acham normal o tropicalismo inserido ali. Nossa geração não é conceitual. As idéias tropicalistas eram baseadas em pensamentos, atitudes políticas bem estruturadas. No nosso caso, isso é espontâneo, vem do caos de ser de uma época em que você consegue ter acesso a tudo, escutar tudo e gostar de qualquer estilo de música. É comum, hoje, a galera do rock gostar disso e daquilo porque tem uma atitude rock - apesar de não ser do estilo rock. Somos mais caóticos. Nesse sentido, o movimento do mangue beat é uma influência até mais relevante na Orquestra do que a própria Tropicália", teoriza Domenico. Amarante tenta contextualizar: "O tropicalismo foi menos um movimento estético e mais um conceito. Se você olhar o que o Rogério Duprat fez no disco Tropicália, por exemplo - e eu considero o Tropicália um disco do Duprat -, vai ver que ele tem uma forma própria de ver o tropicalismo, imprimiu um acento muito diferente daquele que Caetano deu para o disco tropicalista dele [Caetano Veloso, 1968 - o que tem 'Alegria, Alegria']. Tropicalismo é uma forma de ver as coisas: sem hierarquia - tudo pode ser misturado até que se prove o contrário. Nesse sentido, a gente é tropicalista, porque tocar 'Stairway to Heaven' em pagode... Não temos compromisso com humor, fazemos o que dá vontade. Tem músicas superenvolventes, com letras importantes. Outras são simples piadas. Mas nada é explicado. Isso é tropicalista também: não fazer uma distinção clara entre o que é engraçado, o que não é, o que é provocação. São muitas cabeças: enquanto uma está achando engraçado, outra está ajoelhada rezando. E assim vai".

E foi o próprio Amarante quem "discursou" no show tropicalista da Orquestra na Inglaterra. Moreno se lembra: "Ele disse, em excelente inglês, que o que estávamos fazendo ali era comer o coração deles, dos ingleses. Que éramos antropófagos. Não existe nada mais tropicalista do que isso. E essa sensação antropófaga é muito presente nas entranhas da Orquestra Imperial. Quando tocamos Yes e juntamos isso a sambas brasileiros bem típicos, estamos mostrando nossa maneira de fazer antropofagia. Quando o Rodrigo disse isso em Londres, quis dizer que estava comendo o coração deles, ingleses. E é realmente isso que todo mundo faz no mundo todo: a gente come o coração dos ingleses porque eles tiveram uma presença marcante na música do final do século 20. Mas, ao mesmo tempo, esse discurso serve no Brasil: estamos comendo os corações dos brasileiros e, por redundância, os nossos próprios".

Mautner volta para ampliar o espectro conceitual da Orquestra Imperial. "Eles são tropicalistas, são Kaos, são surrealistas brasileiros. É um coquetel caótico de sentimentos e sensações", filosofa. E vai aprofundando as camadas: "Eles representam uma geração incrível que já cresceu sob a democracia e absorveu tudo o que as décadas de 50, 60 e 70 prepararam. Então, ter uma identificação com a filosofia do Kaos é natural. Estar em três lugares simultaneamente, pensar uma coisa e pensar logo outra ou então duas contraditórias ao mesmo tempo. Essa capacidade vem do excesso de informação e até da própria postura da liberdade, que instiga a curiosidade sempre respeitando o próximo. E a música leva para isso, pois você tem a melodia e tem o contraponto, que é como se fosse o contrário dela, mas, se unir os dois, cria-se uma situação diferente. Você pode ter uma harmonia dissonante. É meio paradoxal, né? Mas ali é concreto. E, sendo uma vibração concreta, essa informação entra pelo sistema nervoso e já começa a pensar a partir dali. A informação musical entra pelos ouvidos, penetra as duras amálgamas lógicas e vai direto para o cérebro".

Para quem não está habituado com as idéias de Mautner, A Filosofia do Kaos ("É caos com K!", ele lembra) foi desenvolvida em uma das obras mais conhecidas dele: o livro Kaos, editado em 1964. Ela proclama a modificação da humanidade por meio de um movimento revolucionário, anarquista, pacifista, democrático, cultural. "Kaos é uma visão. É antes, depois, abaixo, acima e durante a política. Qualquer política ziguezague. É o vis-à-vis artístico da física-química-matemática relativistas. Maracatu atômico?" Não por acaso, Mautner vê na Orquestra Imperial uma materialização atualíssima de suas idéias. E ele não economiza teorias: "A Orquestra tem uma chama poética que une a todos como uma missão. Como no jazz, eles conseguem uma medida entre o planejado, o exercitado, o ensaiadíssimo com o improvisado, o inesperado, a novidade. A música é uma deusa e o show da Orquestra Imperial é um ritual. As pessoas vão lá para celebrar a vida. A profundidade com que eles pegam músicas dos 30, 40, 50 e reinterpretam, mas nunca distorcem a coisa importante da composição".

Esse aspecto, o das releituras de clássicos da música brasileira, também gera excelentes discussões teóricas. Para Moreno, "ninguém está fazendo uma tentativa de resgate. Estamos tocando as músicas que a gente gosta, é não é para 'não deixar elas morrerem'. Pelo contrário, elas fazem parte das nossas vidas e estamos colocando essa parte viva no palco. É cantar e tocar para se divertir, ser feliz". Pedro Sá faz coro com o amigo, mas acrescenta um dado: o fato de quase todos os integrantes da Orquestra estarem diretamente envolvidos com o rock é agente estético essencial nessas versões. "É muito dionisíaco. E é muito rock, no sentido de que aquilo ali é que está valendo. A gente não canta nenhuma daquelas músicas para fazer um estilinho do tipo 'olha que incrível, estou cantando um Assis Valente'. E esse negócio da formação roqueira aproxima o público, sem dúvida. A cultura de banda de rock está em todo mundo, não há quem não ouça Beatles ou tenha uma banda preferida. E a gente faz parte desse universo. Então, isso nos contextualiza de alguma maneira", esclarece. A caretice que esse tipo de resgate revela sai da toca na denúncia de Berna: "A gente se irrita um pouco com esse negócio meio branquelo burguês de se apropriar de uma cultura mais simples e transformá-la em um museu fechado muito louco, como se nada pudesse invadir aquilo porque senão ia corromper. Noel Rosa, se estivesse vivo, ia estar falando sobre foguete. Então, acho natural que, na hora de fazer essas releituras, a gente suba com o computador para o palco". Kassin completa: "É para ser uma festa. Muita gente via na Orquestra um trabalho de resgate, mas não tem isso. A gente gosta daquela parada porque parece viva, não porque parece morta". Por esses motivos todos, nenhum dos integrantes cogitou um trabalho de regravações quando começaram a cobrar um disco da Orquestra Imperial. "Seria estranho, e até oportunista, gravar coisas que já foram muito melhor gravadas. Ao mesmo tempo, como todo mundo compõe, a convivência desse grupo de pessoas em shows e viagens gerou uma série de canções novas. À medida que o repertório foi crescendo, a gente achou que só faria sentido fazer um disco se fosse para registrar essas músicas". Berna tem mais a dizer: "O melhor seria fazer um disco de inéditas, para que a Orquestra andasse para frente, dissesse a que veio. Senão, a gente ia passar a vida fazendo show de empresa e não é essa a nossa parada".

Veio da França, em meados do ano passado, a proposta real do primeiro álbum. "Ele foi bancado metade pela gente, metade por um selo francês e gravado todo ao vivo, como se fazia antigamente. Isso mudou completamente minha concepção de estúdio. A coisa de não ter opção dá um aspecto geral muito mais quente. É um negócio de ter que saber lidar com os erros dos outros. É a sensação de realmente ter tocado junto. Tem coisas que nem são os melhores takes de um músico específico, mas que, no conjunto, dão um resultado muito mais vivo", entusiasma-se Kassin. Com a experiência de quatro discos gravados com sua banda "oficial", o Los Hermanos, Amarante concorda: "A gente está tão acostumado a aperfeiçoar tudo ao máximo e essa gravação era exatamente o registro do que a gente tocou. Isso termina por ser muito melhor que uma suposta polidez, uma limpeza, melhores momentos". Berna lembra que não foi fácil juntar todo o elenco da Orquestra para que o disco acontecesse. "Com meses de antecedência, conseguimos marcar o estúdio. Três semanas antes, ainda nem tínhamos as músicas nem os arranjos. Dividimos as canções, entramos no estúdio com o [Mário] Caldato, que dividiu a produção comigo e com Kassin, e, em 15 dias, gravamos e mixamos 15 músicas, com 19 pessoas na banda. Só os metais foram feitos depois", diz. Para a versão francesa, foram encomendadas quatro regravações de sambas antigos que entram no disco como faixas-bônus. Aqui, as quatro músicas estão disponíveis em um EP, vendido nos bailes da Orquestra por R$ 5.

Tudo bem que a orquestra nasceu para ser um plano B de quem já tem a vida ocupada por outras bandas ou, na definição de Kassin, "nasceu como aquele futebolzinho com os amigos da época do colégio - você vai meio de chinelo e depois sai para um chope". Mas agora que a coisa "se descontrolou" e virou sucesso de público e crítica (internacional, inclusive) não corre o risco de virar "o emprego"? A resposta é unânime: "não". Amarante começa: "O clima do show continua a mesma putaria de sempre. É isso: diversão, todo mundo tira sarro um do outro. Cada um resolve o que tem que resolver e é tudo mais relaxado". Para Domenico, "é muito surpreendente até para a gente: fizemos alguns shows de responsa, como o na sala sinfônica do Barbican. Então, imaginávamos que a Orquestra poderia ficar mais organizada, mas continuamos na mesma, com a mesma espontaneidade, as brincadeiras, o diálogo musical - esse é o charme".

Experiente, Kassin coloca na mesa as diferenças desta e de outras combinações musicais: "Em uma parada de banda, você começa com seus amigos e, depois de um tempo, os caras já não são mais seus amigos. O dia-a-dia da música acaba virando um negócio e é muito comum as pessoas acabarem até se odiando. Na Orquestra, não. As pessoas vão ali para se encontrar, tocar, bater um papo. O negócio é a música e a amizade, ninguém ganha dinheiro". Amarante vai além: "A Orquestra é muito relaxada, todo mundo improvisa, inventa. O baile é tipo um jardim da infância, um hospício do bem. E eu aprendi a cantar músicas que já foram interpretadas e encontrar uma nova forma de cantá-las. Isso tudo me ajudou a achar a minha própria voz". Moreno complementa o raciocínio: "A gente cresceu muito como crooner por ter justamente a oportunidade de cantar coisas que não são nossas. E a gente só vira intérprete quando canta músicas dos outros. Hoje em dia me sinto melhor com o fato de ser considerado cantor por conta da Orquestra Imperial."

No momento em que esta matéria foi escrita, a Orquestra estava a todo vapor, com os integrantes devidamente fantasiados, animando as segundas-feiras do Circo Voador, no Rio, com os bailes pré-carnavalescos. Ali, tanto podemos ouvir Nina Becker cantando "Nasci para Bailar", de João Donato, quanto Thalma de Freitas levando um "She-Ha", do repertório da Xuxa. Esse tipo de baile já virou tradição na agenda do grupo. "A gente fez o primeiro no Canecão, no Carnaval de 2003. Mas lá o clima era muito formal: a pessoa senta, come um salgadinho ruim, paga caro por uma cerveja, assiste ao show e rala peito. E nosso público é mais galerinha que quer comprar chope barato, dar uma circulada, azarar. O programa inclui mais coisas do que só ver o show. Daí a preocupação de ir para um lugar que socializasse mais", avalia Berna. Kassin, que não consegue tocar fantasiado, ri dos amigos: "Tem uma coisa que não entendo: uns caras que são completamente tímidos, de repente, aparecem no palco com uma fralda geriátrica...". Assim como os shows "de meio de ano" da Orquestra, os bailes pré-carnavalescos são divididos em dois blocos, que, somados, chegam a durar quatro horas. Nesse meio tempo, entra em cena o DJ. "Marlboro faz há anos os intervalos da Orquestra. A gente até ajudou, sem querer falar pretensiosamente, ele a chegar à zona sul no momento em que o funk foi absorvido ali também. Só depois ele foi pra Barra e aconteceu o que aconteceu", recorda Berna.

Ainda que os shows atravessem as madrugadas, todos os 19 integrantes não abandonam o barco. "Fico toda animada", alegra-se Thalma. Mas essa animação dura até o final da última música - não além dela. Quando recebeu o telefonema da reportagem da Rolling Stone, quatro dias depois de ter se apresentado com a Orquestra, Domenico atendeu com aquela voz rouca típica dos gripados: "Fiquei doente por causa do show de segunda-feira. Também, depois de tocar as mais de 50 músicas... Só agora estou começando a sarar. Mas segunda que vem tem outro show, e pronto: fico doente de novo". Como assim, Domenico? Onde estão os efeitos medicinais da Orquestra Imperial que Jorge Mautner disse serem infalíveis? Bem, santo de casa não faz milagre...

O repórter Marcus Preto escreveu o tributo à Elis Regina na edição 4 da revista (jan. 2007) e assinou a matéria Um Homem Chamado Caetano, em nossa 11ª edição (ago. 2007)