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Rod Stewart, um clássico do rock

Ele virou o crooner mais famoso do mundo. Quer ouví-lo soltar a voz? Bastam algumas taças de vinho

Austin Scaggs Publicado em 22/09/2008, às 18h09

"Tudo que quero da vida é a minha mulher, meus filhos e a carreira pela qual agradeço sempre. Tem muito mais coisa no meu mundo, mas é para isso que eu vivo."
Julian Broad

Do lado de fora da janela do apartamento de rod Stewart, em Londres, o sol dá início a sua lenta descida, tingindo com tons românticos a Tower Bridge, que cruza o rio Tâmisa ao sul. Estamos em uma tarde fria - o vento castiga as árvores lá embaixo, mas, sete andares acima, a calmaria é total. O cantor anda de um lado para o outro bebendo um chá preparado por seu assistente pessoal e lamentando-se sobre a noite anterior, quando embarcou, junto com um amigo, em um jatinho particular para ir até Lisboa, onde seu time de futebol preferido, o Celtic, foi estraçalhado por 3 X 0.

"Fui até a porra de Portugal para ver essa derrota", indigna-se. "Tudo estava maravilhoso até o jogo começar. Sou o torcedor mais famoso do Celtic, então, quando eles tomaram o primeiro gol, o estádio todo olhou para mim como se eu fosse responsável. Horrível." Como alguém que já se autocensurou um milhão de vezes antes disso, completa: "Coloco energia demais no futebol". E deve ser mesmo verdade: com toda a certeza, ele está cansado, de mau humor e com uma leve ressaca. Mas o músico não fica na fossa por muito tempo. Um minuto depois, veste um casaco marrom pesado e vai para a sacada. Senta-se, tira um lenço de seda do pescoço e exibe as clavículas avermelhadas e sardentas, respira fundo, fecha os olhos e inclina a cabeça para trás. Está tentando absorver o máximo possível do que resta da luz do sol. "Ah, vai ficar tudo bem", argumenta. "Uma taça de vinho vai me animar." E não precisa mais do que isso. Logo que Stewart dá seu primeiro gole de vinho, volta a ser ele mesmo. Pouco tempo depois, terá bebido três taças, duas de vinho branco e uma de tinto, número que classifica como sua média diária.

E dias como este são poucos e raros: o inglês continua vivendo uma fase notável de reinvenção de sua carreira, que começou com It Had to Be You... The Great American Songbook (de 2002) - apesar de, para ele, isso ser menos importante do que o futebol. Aquela coleção de clássicos, que inclui "The Way You Look Tonight" e "You Go to My Head", deu lugar a três seqüências com o passar dos três anos seguintes - As Time Goes By, Stardust e Thanks for the Memory. Juntos, esses quatro CDs venderam 16 milhões de cópias no mundo todo, garantiram a Stewart o primeiro Grammy de sua vida (por Stardust) e trouxeram de volta os fãs a seus shows que misturam antigos hits como "Tonight's The Night", "Hot Legs" e "Da Ya Think I'm Sexy" com sucessos ainda mais velhos de seu repertório de clássicos. Sua turnê por estádios e arenas do mundo todo (a "From Maggie May to The American Songbook") teve lotação máxima. Em 2005, ele ultrapassou Dave Matthews Band, Eagles, Jimmy Buffett, Green Day e Bruce Springsteen com vendas de ingressos na casa dos US$ 49 milhões.

Em outubro de 2006, stewart lançou Still the Same... Great Rock Classics Of Our Time em que interpreta faixas de Van Morrison, Bob Seger, Pretenders e Creedence Clearwater Revival. O álbum entrou direto na primeira posição dos mais vendidos, o que separou o astro inglês de contemporâneos como Paul Simon, Elton John, Paul McCartney e os Rolling Stones: essas lendas continuam fazendo shows com ingressos esgotados, mas Stewart é o único que ainda vende muitos e muitos discos. "Eles deixaram de ser novos", completa. "É simples assim: quando a gente já está bem rodado, é difícil apresentar alguma coisa diferente. O Elton - que colocou tanto amor naquele álbum [The Captain & the Kid] - me disse: 'Este é O disco'. E eu sinto muito por ele." Stewart sorri, porque Elton John, a quem às vezes chama de Sharon, é seu adversário amigável há anos. "Mas é claro que não sinto tanto assim."

Ser crooner de rock & roll é apenas a mais nova faceta de Stewart. Sua montanha russa de gostos musicais começou exatamente embaixo do piano da família na casa onde morava quando criança, na zona norte de Londres. "Costumávamos dar festas, na época do Natal e para comemorar aniversários, e eu tinha o hábito de me esconder embaixo do piano de meia cauda que tínhamos na sala", lembra. "Ficava vendo todo mundo dançar e se embebedar. Isso fez com que eu desenvolvesse um amor precoce pela música." Depois que o irmão mais velho o levou para assistir a uma apresentação de Bill Haley and His Comets, Rod tomou gosto pelo rock. Logo, veria o cantor e compositor de soul Otis Redding. A partir daí, começou seu caso de amor eterno com outro cantor de soul, Sam Cooke.

Na adolescência, Rod perambulou pelas ruas de Paris (França) e de cidades da Espanha interpretando canções de folk e blues. "Foram meus anos de beatnik", recorda com nostalgia. "Eu era muito fedido." (Rod conta que, quando visitou um café parisiense onde costumava trabalhar, ele e a noiva, Penny Lancaster, foram brindados com "Tonight's The Night" e deram uma gorjeta de cem francos ao intérprete). Quando voltou para casa, os pais tocaram fogo nas roupas dele, que estavam imundas. "Depois disso, virei mod", acrescenta.

Daí veio o primeiro do que Stewart hoje chama de "os três pontos fundamentais do sucesso". Em certa noite de 1964, quando estava meio bêbado tocando gaita em uma plataforma de trem, caiu nas graças do bluesman britânico Long John Baldry, com quem se apresentaria durante anos a fio, e que emprestaria a Stewart álbuns para estudar, como Live at Newport, de Muddy Waters, que ele posteriormente mostraria a Mick Jagger. Depois que o guitarrista Jeff Beck o levou aos Estados Unidos em 1968, a terceira ação fundamental de Stewart foi se juntar ao Faces - sobraram poucas memórias dessa fase, entre 1969 e 1975, devido à propensão que a banda tinha de encher a cara antes dos shows. O Faces foi o melhor grupo de rock festeiro que já existiu.

Still the same... great rock Classics of Our Time é o 13º álbum solo de Rod Stewart. Assim como seus discos de clássicos, foi co-produzido por Clive Davis, fundador do selo J Records, com quem Stewart se dá bem, pessoal e profissionalmente, desde 2002. "Nossa relação é boa", explica. "Trata-se de dar e receber." Davis está envolvido nos projetos mais recentes de Stewart de maneira extraordinária. A idéia do músico era dar prosseguimento à série Songbook com um álbum de covers de soul, mas a proposta foi vetada por Davis, por enquanto. "Clive disse: 'Não. Está na hora de fazermos um álbum de rock'", conta Stewart. Mas é verdade que ele deu risada de algumas sugestões do produtor, como "Don't Go Breaking My Heart" e até mesmo "Dancing in the Dark". "Eu falava: 'Você está louco? Às vezes, não tem a menor noção!'. Existem algumas canções que simplesmente precisam ser deixadas em paz de qualquer jeito."

Quando sugiro que regravações de faixas como "Crazy Love", de Van Morrison, ou "I'll Stand By You", do Pretenders, poderiam entrar na lista de intocáveis, Stewart faz um resumo de como é sua abordagem: "O limite é tênue. Quando o álbum ficou pronto, comentei: 'Graças a Deus que não cometemos nenhum erro crasso'. É difícil explicar por que escolhemos essas músicas. 'Still the Same', de Bob Seger, é muito boa, e 'It's a Heartache', de Bonnie Tyler, continua soando bem mesmo no rádio. E é verdade que mexemos no andamento para ver se eu agregava alguma coisa extra com o vocal, e consegui atualizá-las um pouco. Essa velha garganta deu uma leve revigorada nos clássicos!" Mas piso no calo de Stewart quando menciono que, apesar de o disco trazer a palavra "rock" no título, na verdade não é assim tão agitado, no sentido do classic rock - "Realmente, não chega a ficar agitado, não", analisa. "Mas tem um bom balanço, funciona bem." Posteriormente, sem ser provocado, ele retoma: "Não aceleramos muito. Estou bem ciente disso. Vou colocar a questão à diretoria na próxima reunião!" Disse que, no próximo trabalho, que provavelmente vai seguir o mesmo modelo - o aproveitamento do material infinito do classic rock -, ele gostaria de fugir um pouco dessa fórmula. "Clive!", berra Stewart para o meu gravador. "Vê se me arruma algumas músicas aceleradas para eu cantar!"

"Tentei encontrar clássicos que se encaixassem naturalmente em Rod", diz Davis de seu escritório em Manhattan. "Quão brilhante um ator ou atriz é, não importa, eles interpretam alguns papéis melhor do que outros." E Davis não perdeu tempo em perceber as possibilidades lucrativas do que chama de "prestar homenagem ao direito autoral" com os últimos cinco álbuns de Stewart. "Eles fizeram com que a música de Rod, independentemente de ele ter escrito as canções ou não, chegasse a seu maior público", afirma. A gravadora também deu oportunidades de promover o produto na TV, em vez de usar apenas o rádio. Além de uma participação memorável em American Idol (quando mediu de cima a baixo a participante Kellie Pickler), Rod apareceu em todos os principais programas de entrevistas norte-americanos, dos mais conceituados, exibidos tarde da noite, até os vespertinos, para o público feminino. E ele é seu melhor garoto-propaganda: tão cativante na TV quanto na vida real - humilde, com entusiasmo quase infantil e respostas na ponta da língua. (A certa altura chegou a peidar do meu lado e tentou colocar a culpa em mim.) Quando saiu a notícia de que Still The Same entrara direto no número um dos mais vendidos nos Estados Unidos, ele mandou uma banda de gaitas de fole, devidamente paramentada com kilts, e champanhe para 60 funcionários na hora da reunião semanal da J Records.

Só é necessária uma taça de vinho para Stewart soltar a voz. E sua competência vocal resulta em visitas breves ao estúdio. Com John Shanks, seu guitarrista de longa data, no comando de músicos de estúdio afiados, Stewart diz que cinco das 13 faixas do último disco foram gravadas em uma única sessão de seis horas. "É instinto. A coisa vem instantaneamente. Mudo a melodia um pouquinho - essa é a minha contribuição." E, nesse ritmo, não demorou muito para gravar um álbum campeão de vendas internacionais - ele explica que tem coisas mais emocionantes para fazer do que ficar gravando. "No estúdio, meu nível de concentração é o mesmo de uma pulga."

Apesar de stewart dizer que nenhuma das músicas de Still The Same têm algum significado especial para ele, foi idéia de sua mulher Penny Lancaster incluir "Crazy Love". Neste ano, Stewart vai se casar com ela, que classifica como "um belíssimo espécime feminino". No último dia 27 de novembro, Alastair, filho dos dois, comemorou seu primeiro ano de vida, e a mãe relata com orgulho que, mesmo antes de completar 12 meses, ele já era capaz de dar 11 passos seguidos (Lancaster, que faz jus à descrição de Stewart, também me disse que eles enterraram a placenta perto de uma nogueira). Alastair é o sexto membro da prole de Rod. Liam, 12 anos, e Reneé, 14, freqüentam a escola em Los Angeles e são elogiados pelo pai pelos bons modos. Ruby, 19, é aspirante a cantora, grande fã do Faces, e fez o pai se ligar nas canções folk de Ray LaMontagne. "Ela tem talento genuíno", diz Rod. "Estamos tentando montar uma banda para Ruby, que quer que todos os integrantes tenham a cara do Brad Pitt." Sean, de 26 anos, em breve participará de um reality show chamado Sons of Hollywood [Filhos de Hollywood]. E Kimberly, 27 anos, há muito tempo é freqüentadora das páginas dos tablóides por suas peripécias. "Ela anda me atormentando para ganhar um carro novo", dispara Stewart. "Acabou de descobrir que tem uma doença séria no fígado por beber muito. Então, faz três meses que não bebe nem fuma e está se sentindo ótima. Esses dias, ela me disse: 'Papai, sou meio escocesa. Achei que tinha o direito de beber muito'. Respondi: 'Não, querida, não é assim que as coisas funcionam'."

A família compartilha cinco endereços espalhados pelo mundo: o apartamento de Londres, casas no sul da França, em West Palm Beach e em Los Angeles (nos Estados Unidos), e na cidade inglesa de Epping, a 30 quilômetros ao norte de Londres. Ele quer que cada um dos filhos siga seu próprio rumo (e já avisou a Sean que não vai aparecer no reality show), mas confessa que está sendo difícil largar mão. "Acabamos de construir uma casa de 650 metros quadrados na propriedade [em Los Angeles] para os meus filhos. Na medida em que as paredes iam subindo, eu pensava: 'Ah, seu canalha idiota. O que você tem na cabeça?'. Tenho a sensação de que os meus filhos vão continuar morando na minha casa quando estiverem com 30 anos e até depois disso."

No dia seguinte, vou de carro até a propriedade em Epping, atravesso os portões e sigo pela entrada ladeada de lâmpadas; uma Enzo Ferrari e um carrinho de bebê vazio estão largados no pátio. No fundo, vê-se um campo de futebol de tamanho oficial, onde jogam times da Europa toda, convidados por Stewart para enfrentar sua equipe, o Vagabonds Football Club. Isto o deixa arrasado, mas depois de voltar a machucar o joelho em uma partida beneficente, restou a esse senhor de 62 anos o papel de torcedor. Um chofer nos leva a bordo do Maybach preto de Stewart a seu pub local, Theydon Oak, onde torcedores de times rivais enxugam copos e mais copos depois dos jogos. "Não pago por uma bebida aqui desde 1986", Stewart diz enquanto me conduz até uma mesa.

Um dos melhores amigos de Stewart é dono do lugar e trabalha atrás do balcão. Trata-se de um sujeito despretensioso chamado John Padget, que Stewart carrega pelo mundo todo para assistir a seus shows, e que foi até Lisboa com ele para ver a derrocada do Celtic. Ele serve uma taça de vinho tão denso a Rod que é fácil notar por que três delas farão com que ele relaxe e, logo, já esteja no balcão falando sobre futebol, discutindo o desempenho do Celtic no próximo jogo. Com mais um copo de vinho, e depois mais um, Stewart finalmente consegue esquecer a derrota do seu time do coração e se mostra ansioso pela turnê de 2007. Ele me explica que o tempo passado no estúdio e o tempo gasto com entrevistas e outras aparições culminam no show. "Tudo que quero da vida é a minha mulher, meus filhos e a carreira pela qual agradeço sempre. Tem muito mais coisa no meu mundo, mas é para isso que eu vivo."

"É simples assim: quando a gente já está bem rodado é difícil apresentar alguma coisa diferente"