Sozinho, Enfim

Por Jann S. Wenner Publicado em 15/12/2010, às 16h24

RETA FINAL Paul McCartney nas gravações do projeto Get Back, em 1969. O disco dos Beatles só seria lançado em 1970, com o nome Let It Be

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Em abril de 1970, Paul McCartney concedia uma de suas primeiras entrevistas como artista solo. O anúncio do fim dos Beatles seria feito ao mesmo tempo em que a Rolling Stone chegava às bancas. Apesar de não falar sobre o tema, ele não escondia a insatisfação com a situação da banda

Paul McCartney está de volta, tem um álbum novo saindo e algumas ideias sobre como levar uma vida feliz. O novo disco, McCartney, com lançamento previsto nos Estados Unidos e na Inglaterra para o dia 17 de abril, é um trabalho que Paul gravou sozinho ao longo dos últimos meses. Ele descreve as origens dessas músicas como algo que "começou em pedacinhos, incluindo letras e melodias de cinco anos atrás". A maior parte das gravações foi feita em casa. "Eu mesmo toco todos os instrumentos. Desde o início [ainda nos Beatles], quando o nosso baixista [Stuart Sutcliffe] morreu, eu fui encarregado do baixo. Mas, o tempo todo, eu só queria tocar guitarra e ser o solista, então foi isso que fiz no novo LP. E toquei todas as coisas que sempre quis tocar. Toquei baixo, bateria, guitarra, violão, piano, órgão, bongô e percussão e essas coisas - não existem mais muitos instrumentos além desses. Se você perguntar se eu toco violino e balalaica, a resposta é não."

"O único outro barulho no disco é a minha mulher ajudando nas harmonias. Nós nos divertimos muito juntos. Resolvemos que não queríamos contar para ninguém o que estávamos fazendo nem procurar qualquer gravadora. Fomos para o estúdio sem contar para ninguém, e isso é que é se sentir em casa no estúdio. Ninguém sabe a respeito disso e não tem ninguém no estúdio nem dando uma passadinha para pular para cima de nós com suas exigências." "E foi simplesmente bacana voltar a trabalhar com a minha mulher!"

A seguir, a conversa completa com Paul, cobrindo os pontos citados acima e muito mais.

"O novo álbum eu gravei em casa, há alguns meses. Eu arrumei um gravador de fita para fazer as masters e fiz a maior parte em casa. A música começou em pedacinhos, incluindo letras e melodias de cinco anos atrás. É melhor fazer os vocais em casa porque não tem nenhum técnico olhando para você através do vidro. Algumas das músicas foram feitas em casa. Algumas das fitas foram feitas no estúdio. É um bom álbum e demorou dois meses para ficar pronto. Não quero dizer quais são os títulos [das músicas] nem o que está no LP. Uma coisa que eu percebi é que seria ótimo surpreender todo mundo. Falam tanto antes que, quando finalmente acontece, quando o álbum finalmente sai, todo mundo já sabe tudo sobre ele. Acho que vai ser mais legal receber o álbum sem saber o que ele vai ser. É mais legal se for surpresa."

Qual é a diferença entre tocar sozinho e tocar com outras pessoas?

Basta dizer que são duas coisas completamente diferentes. Quando você toca sozinho, acaba se envolvendo como eu imagino que um pintor deve se envolver com fazer uma coisa e apenas aquilo. Quando outras pessoas estão envolvidas, isso obviamente significa que você vai ter de ouvir muitas outras decisões, pesá-las e então chegar à sua própria decisão, a menos que você seja simplesmente capaz de concordar com tudo que todo mundo diz, coisa que eu não sou. Então, essa é a principal diferença - você se aborrece menos tocando sozinho do que tocando com qualquer outra pessoa, na verdade. Mas também obviamente fica faltando a atividade do outro - não é tão rápido quanto o outro [modo de se fazer música]. Tocar sozinho meio que é uma coisa mais lenta, mais metódica. É o oposto de tocar com outras pessoas - é assim que é.

A que tipo de coisas diferentes isso leva?

É só um método de trabalho. Acho que os resultados musicais parecem iguais para mim, porque o meu objetivo é o mesmo. Eu ainda gosto do mesmo tipo de música, eu ainda tento realizar o mesmo tipo de música que tentaria se estivesse tocando com os Beatles. A mesma coisa exatamente na minha cabeça. Eu ainda escuto a mesma melodia com o mesmo arranjo, e essa melodia e esse arranjo eu tento e realizo. É assim que funciona.

Você pode contar alguma história interessante a respeito de como algumas músicas ganham forma?

Posso. O que estamos fazendo a esse respeito é que pegamos algumas pessoas no escritório [Apple] para fazer algumas perguntas só no papel, sabe como é, e elas mandaram para a nossa casa e eu só as preenchi como se fosse uma prova, como uma coisa de escola, então é um tipo de entrevista.

Onde isso vai parar?

Estamos fazendo um kit com o álbum, que é um negócio de informação. Deve ser legal receber, do jeito que estamos planejando. Todas as respostas dessa coisa que estamos fazendo na verdade devem estar no disco e no que está em torno dele. Essa é a ideia, por isso que é divertido. É só meio que jogar uma coisa em cima de você. Mas eu não vou contar nada para você até estar pronto, porque eu não vou ser capaz de explicar.

Tem alguma balada no disco que seja tão forte quanto "Let It Be" ou "Hey Jude"?

É, acho que tem, sim. Nunca dá para saber. Eu estava morto de preocupação quando "Hey Jude" saiu, porque podia não ser boa. Eu não tinha certeza se era boa ou não. Eu nunca sei. Mas eu sei que neste disco tem algumas faixas ótimas.

Como você se sente a respeito da Apple agora?

A Apple é o escritório e, no momento, eu não vejo muita graça em escritórios. Nunca achei. Eu só gostava quando era novidade. Eu acordei um dia ao telefone e eu estava falando e não queria dizer nada do que estava dizendo. Ouvi a mim mesmo fazendo negócios. Mas eu não queria aquilo. A Apple é uma boa empresa, e vai bem, mas simplesmente não me interessa. Assim como a EMI e a Capitol não me interessam. Estou ficando de saco cheio de negócios e de homens de negócios. Para mim, o interessante agora é a vida caseira. Tenho duas filhas, uma mulher há um ano e tudo [do que preciso] em casa. Eu adoro ficar em casa e eu adoro a música. Isso é o que mais me interessa, e não estou em busca de mais nada para me interessar.

O que você pensa agora a respeito da coisa toda de "Paul is dead" [Paul está morto]?

Eu não consegui entender. Primeiro, alguém disse: "Tem um boato circulando de que você está morto". A minha primeira reação, de verdade, foi pensar: "Maravilha". De verdade, igual ao James Dean. Eu imediatamente retornei ao subúrbio de quando eu tinha 15 anos e vi a coisa de James Dean se desdobrar na minha frente. Eu simplesmente fiquei contente, sabe, porque eu sabia que não estava morto. Então eu só fiquei observando a peça teatral se desenrolar. O único momento que foi infeliz foi quando chegamos à Escócia.

Foi na Escócia que você chegou ao ponto de deixar de enxergar o humor naquilo?

Ah, não, na verdade eu nunca enxerguei. A primeira vez [a notícia] veio do escritório, e alguém disse: "Você está morto". Então eu pensei: "Bom, isto é engraçado, isto é James Dean, blablablá". E esqueci. Daí eu vi em um jornal e pensei: "Hum, bom, continua sendo interessante". Cheguei à Escócia e as pessoas começaram a interferir, porque na Escócia as pessoas são enxeridas mesmo, e se são homens da imprensa [repórteres], eles enfiam o bedelho ainda mais. Falando de modo geral, passou a não ser engraçado. Mas eu sou capaz de rir disso agora, pessoal.

Vai haver outro álbum dos Beatles?

Ninguém falou nada a respeito de fazer outro álbum dos Beatles. Não gosto do fato de segurarem Get Back [que depois virou Let It Be] tanto tempo. Essa é uma das razões por que eu não quero [Allen] Klein [o empresário que assinou com os outros três integrantes e, eventualmente, o que fez McCartney sair do grupo]. É uma bobagem culpá-lo, mas o fato de segurar o álbum Get Back agora virou piada. O LP vai acabar se transformando em piada, porque há uma expectativa. Eu gostaria de ter visto o lançamento há três meses, e agora eu já nem me lembro de ter feito o trabalho. Já o filme de Get Back é bom. E é um filme de verdade. Os problemas estão nele, assim como os momentos felizes. Bem no comecinho dos Beatles, nós meio que nos considerávamos uma democracia. Mas nada era levado a voto - a química entre nós quatro fazia com que as decisões fossem naturais. John dominava o grupo nas tomadas de decisão, e John e eu dominávamos o grupo do ponto de vista musical. O que aconteceu agora é que nós quatro nos tornamos indivíduos muito fortes, independentemente. Agora tem de ser uma decisão do quarteto. Tem de haver votação e ser uma coisa mais democrática.

E a sua relação com John? Ele me disse que faz dois meses que vocês não se falam.

Na verdade, eu não sei. Normalmente, eu ligaria para ele ou iria até Weybridge [onde Lennon morava] e faria uma visita, como já fiz muito no passado. Eu era esse tipo de pessoa. Mas agora eu nunca mais saio e não me dou mais ao trabalho de procurar. Eu prefiro estar na cama a ir para casas noturnas. Ele não me ligou e eu não liguei para ele, mas isso não quer dizer nada. Nós não brigamos. No momento, nenhum de nós está com vontade de falar com o outro, na verdade. Se nós nos esbarrarmos na Apple ou se estivermos fazendo um disco, eu vou falar com ele, mas, de outro modo, eu realmente não ligo para ele. Eu realmente não penso sobre o assunto. A gente vai se encontrar quando a gente se encontrar. E eu o amo do mesmo jeito.