Nazismo Tropical

Como o movimento liderado por Adolf Hitler ganhou força no Brasil e abrigou alguns dos maiores criminosos de todos os tempos

Por Alexandre Duarte Publicado em 13/01/2011, às 17h24

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Uma dica preciosa levou os policiais federais ao cemitério do Rosário, no dia 5 de junho de 1985, em Embu das Artes (SP). Em meio aos túmulos e estreitos corredores, estavam buscando por um nome: Wolfgang Gerhard. Logo localizaram o túmulo e começaram o trabalho de exumação do corpo. Gerhard real- mente acreditava nos preceitos nazistas e teria, sem dúvida, servido com afinco aos desejos do Führer, Adolf Hitler. Mas, na verdade, sua participação no Terceiro Reich foi como um mero soldado durante a guerra, sem desconfiar que o destino lhe reservava um papel mais importante do que ele imaginava.

A escavação encontrou um caixão sepultado em 8 de fevereiro de 1979. Nele estava a ossada de Gerhard. O problema é que o verdadeiro Wolfgang Gerhard havia morrido em 15 de dezembro de 1978, na cidade de Gratz, na Áustria. Outro túmulo, esse composto apenas de uma cruz de madeira talhada com uma suástica nazista acima do nome de Josef Greiner, nunca foi exumado. Está no mesmo lugar há 74 anos, e leva, além do nome do defunto, a inscrição "Morreu aqui em 2 de janeiro de 1936 de febre mortal, em serviço do trabalho alemão de pesquisa, na excursão alemã ao Rio Jari (1935-1937)". O rio Jari cobre uma região da Floresta Amazônica, dentro do Amapá. A cruz está próxima de uma deslumbrante paisagem, a Cachoeira de Santo Antônio, e hoje disputa a atenção dos turistas com a própria queda-d'água.

Simbolicamente, o intervalo de história entre os dois túmulos encerra uma fase em que o país conhecido por sua hospitalidade e sua tolerância racial conviveu, em menor ou maior grau, com uma das ideologias mais cruéis e intolerantes do século XX: o nacional-socialismo.

Oficialmente, é em 1928 que o Partido Nazista se instala no país. A chegada se deu de maneira natural, já que o Brasil era um importante foco de possíveis partidários devido à enorme colônia alemã existente aqui. Era parte dos planos do partido fazer uma política que englobasse os alemães que estavam no estrangeiro, conseguindo presença em 83 países. Mas um dado deixa o Brasil em posição de destaque entre eles: aqui foi o local com o maior número de partidários fora da Alemanha, com 2.900 inscritos em 17 estados. "Antes de Hitler, nenhum país havia feito uma política externa no sentido de cooptar seus conterrâneos como ele fez. Era um chamado para que os alemães participassem do regime", explica a pesquisadora Ana Maria Dietrich.

A existência do partido aqui tinha regras. Uma delas era que somente os alemães legítimos poderiam se associar, o que impedia que os filhos dos alemães nascidos no Brasil participassem do partido. Outra regra é que o partido deveria existir, mas jamais participar da política do país hospedeiro.

Isso ilustra a boa relação que existia entre o então presidente do Brasil, Getúlio Vargas, e Adolf Hitler, resultado de uma parceria comercial, já que a Alemanha era um dos principais compradores de matéria-prima brasileira. Ambos também tinham um inimigo comum, os comunistas. Tanto que alguns integrantes da polícia secreta de Vargas foram mandados para a Alemanha, onde treinaram para caçar comunistas com agentes da Gestapo.

As atividades dos primeiros anos do partido nazista no país, que duraram exatos dez anos, de 1928 a 1938, não iam muito longe das comemorações de datas especiais e a difusão de uma mensagem de encantamento com a Alemanha que crescia e se recuperava da humilhação que lhe havia sido imposta com a derrota na Primeira Guerra Mundial e o Tratado de Versalhes. Nas colônias alemãs brasileiras, as festas mais celebradas eram o 1º de maio (Dia do Trabalho) e o 20 de abril (aniversário de Hitler). Também se difundia, principalmente por meio de textos traduzidos de jornais alemães, o antissemitismo e a superioridade racial. Era uma norma que os alemães residentes por aqui não se misturassem com os nativos. Coisa que se perdeu, como explica Ana Maria Dietrich: "O nazismo passou por um processo de tropicalização. As diferenças raciais acabaram sendo mais teóricas do que práticas".

Um bom exemplo dessa tropicalização é um dos maiores craques da história do futebol brasileiro. O clube Germânia (hoje Pinheiros) era ponto de encontro da comunidade alemã em São Paulo. Ali era sem previsto, jogando bola, um jovem mulato de cabelo alisado, filho de um comerciante alemão com uma lavadeira negra. Nascido em 1892, o jovem Arthur Friedenreich começou a frequentar o clube aos 17 anos e logo entrou para a juventude hitlerista que se encontrava no local. Mais tarde, o jogador fez fama como artilheiro do recém-fundado São Paulo Futebol Clube e da seleção brasileira.

Mas isso não impediu que a ideologia da superioridade e pureza racial não preocupasse os altos escalões do governo alemão. O estado do Espírito Santo tinha uma significativa colônia alemã, que contava com cerca de 30 a 40 mil pessoas entre teuto-brasileiros e alemães. Filiadas ao partido nazista, apenas 41 pessoas. Mesmo assim, por ser considerado o cenário tropical por excelência para os cientistas da Alemanha, foi o palco da maior experiência no sentido racial que os nazistas fizeram na América do Sul. O objetivo era verificar a possibilidade do povo alemão viver no clima tropical sem perder suas características de pureza ariana.

Para demonstrar isso, a Sociedade de Medicina Tropical Alemã de Hamburgo realizou um intenso estudo com os moradores da colônia alemã no Espírito Santo, em 1938. Os experimentos verificaram a adaptabilidade da raça nórdica em clima quente, a questão do povoamento e o surgimento de doenças, as condições de higiene e salubridade, as características estéticas, psíquicas e a preservação de aspectos culturais e de índole.

Os resultados dos exames, realizados em 40 pessoas, mostraram que os nazistas não tinham o que temer, já que o convívio com o clima tropical não apresentou "degeneração" de raça nas pessoas examinadas. No entanto, as crianças já apresentavam algumas "falhas" comparadas aos alemães de uma geração anterior, mas nada que pudesse impedir a prevalência racial a qual os nazistas acreditavam pertencer. Outro ponto que a pesquisa representava era a certeza de que o Brasil estaria apto para uma suposta expansão territorial, em um conceito que era famoso nas teorias nacional-socialistas, o chamado lebensraum (ou "espaço vital").

Outros interesses dos nazistas estavam na região da Floresta Amazônica. A expedição que rendeu o túmulo do intérprete Josef Greiner durou dois anos (de 1935 a 1937) e foi comandada por Otto Schulz- Kampfhenkel. Tudo foi documentado em um livro, chamado Rätsel der Uwaldhölle (Enigma do Inferno da Mata), de 1938, e em um filme feito pela UFA (Universum Film Aktien Gesellschaft), estúdio fundado em 1917, e que na década de 30 foi um importante veículo de propaganda nazista.

A missão tinha como objetivos pesquisar os animais, a etnologia e as tribos que havia ao longo do rio e seus afluentes e o estudo geográfico e cartográfico da região. O grupo, formado por 21 pessoas entre alemães, descendentes e caboclos, levou 11 toneladas de suprimentos e munição para cinco mil tiros na viagem. Eles navegaram rio abaixo até chegar a seu objetivo, e nesse caminho colheram uma grande quantidade de espécimes da fauna e flora para estudo. A expedição saiu da Amazônia com carcaças de animais, répteis e anfíbios, cerca de 2.500 fotografias e 2.700 metros de filme. Imagens que, infelizmente, foram perdidas durante a guerra.

A excursão terminou um pouco antes de o Brasil proibir o partido nazista em 1938. Isso não acabou com a ideologia nacional-socialista, mas levou o chefe do partido no Brasil, Hans Renning von Cossell, a dirigir uma entidade clandestina até 1942, ano em que Vargas colocou o país na Segunda Guerra Mundial. Cossell foi chefe do partido entre 1934 e 1942, e era tido como uma figura importante dentro do Reich no que se referia à política externa. Tinha boas relações com Getúlio Vargas e chegou a se encontrar pessoalmente com Hitler na Alemanha. Hitler sabia da importância do Brasil por causa de sua numerosa colônia, e disse em um discurso em 1933: "Precisamos de dois movimentos no exterior. Não faremos como Guilherme, o Conquistador, desembarcar tropas e conquistar o Brasil com armas. As armas que temos não se veem". Dentro dessa estratégia, Von Cossell era fundamental para a Alemanha nazista.

Essas armas a que Hitler se referia eram as festas que o partido proporcionava, a integração cultural com as comunidades germânicas e a propaganda política maciça. Para um regime que era baseado na celebração e no terror, pelo menos os alemães que viviam aqui só ficavam com a parte boa da dualidade da máquina nacional-socialista.

O jogo se reverteu completamente em 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Se os nazistas eram tolerados e até aceitos pela sociedade e pelo governo, a coisa mudou de figura quando a comunidade alemã passou a ser perseguida. A polícia secreta que a Gestapo havia ajudado a treinar estava à caça de espiões nazistas. Hans von Cossell, o chefe do partido nazista por aqui, já tinha voltado para seu país de origem junto com os diplomatas alemães quando as relações entre Brasil e Alemanha foram rompidas. Ali, mesmo clandestinamente, o partido deixava de existir em terras brasileiras. Havia ido embora com o homem que era considerado uma espécie de Führer brasileiro.

A guerra chegou ao fim em 1945, e só então o mundo pôde começar a perceber o que realmente havia acontecido. Foi aí que se deu início ao conhecimento do Holocausto. Junto a isso também apareceram os grandes criminosos de guerra.

Alguns foram presos e julgados em Nuremberg. Outros tiveram proteção norte-americana e soviética, que agregaram alguns cientistas do Terceiro Reich a seus quadros, principalmente no desenvolvimento da corrida espacial. E ainda há aqueles que conseguiram escapar das autoridades entre 1945 e o início dos anos 50. Descobriram uma rota importante de fuga: a América do Sul.

O maior país do continente tinha um governo que parecia não se importar muito com a convivência com esses criminosos. Isso permitiu que no Brasil vivessem, e em alguns casos trabalhassem e criassem suas famílias, quatro homens que juntos são acusados da morte de mais de 1,5 milhão de seres humanos. O Cristo Redentor havia recebido de braços abertos Herbert Cukurs, Gustav Franz Wagner, Franz Stangl e, o mais procurado deles, Josef Mengele.

O Rio de Janeiro, no domingo de Carnaval de 1946, vestia azul e branco. A escola de samba Portela comemorava a vitória com o enredo Alvorada do Novo Mundo. Nesse cenário, desembarcava no Rio uma família que veio de navio da França.

A família Cukurs foi conduzida ao Brasil por seu patriarca, um talentoso aviador da Letônia. Nascido em 17 de maio de 1900, Herbert Cukurs chegou a conquistar fama mundial graças a seus destemidos vôos para locais distantes e exóticos. Quando os nazistas ocuparam a Letônia, teria participado do Comando Arajs, uma unidade de apoio ao exército alemão que tinha como um dos principais objetivos exterminar os judeus locais. Os acusadores dizem que ele é responsável pela morte de 30 mil judeus. Cukurs era um homem de ação, e não um burocrata ou cientista. No Brasil, onde ele entrou e viveu com seu nome verdadeiro, passou seus primeiros anos no Rio, e explorou seu talento como aviador. Os negócios dele estavam indo bem, e a certa altura ele inaugurou um restaurante flutuante e reformou um hidroavião para oferecer passeios turísticos na Lagoa Rodrigo de Freitas.

A paz do homem que ficou conhecido como o "Enforcador de Riga" estava para acabar depois de ser reconhecido por sobreviventes. Jornais cariocas publicaram que o suposto criminoso nazista era dono de um negócio e vivia no Rio de Janeiro. Testemunhas apontavam para Cukurs, que, apesar de perder parte de seus negócios com a acusação, continuou se dedicando aos aviões.

Poucos anos depois, ele transferiu seus voos turísticos para Santos e, mais tarde, para a represa de Guarapiranga em São Paulo, local onde, em 1964, ele receberia uma proposta de negócio que o levaria à morte em Montevidéu, em 23 de fevereiro de 1965, pelas mãos do serviço secreto israelense, o Mossad.

Existe um fato nisso tudo que demonstra a relação de tolerância do governo brasileiro com os nazistas. Cukurs por mais de uma vez procurou o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) alegando inocência, e chegou a receber proteção policial. Em 15 de fevereiro de 1965, pouco antes de embarcar para o Uruguai onde seria vítima da emboscada do Mossad, ele chegou a ir ao DOPS para avisar que iria viajar, e os próprios policiais o alertaram que podia se tratar de uma armadilha.

Cukurs não se importou, mas filmou o homem que o convidou para a viagem. Seu nome era "Anton Kuenzle", mas na realidade ninguém sabe quem realmente era. A morte também revelou que nos anos 60 a presença nazista ainda era realidade no Brasil, quando sinagogas foram atacadas e o carro de um casal de origem judaica foi pichado com uma suástica e os dizeres "Viva Cukurs!".

A família de Cukurs mantém um blog para defender sua memória. Foi por intermédio dele que procurei um de seus descendentes para comentar as acusações que pesam sobre seu patrono. Eles apenas responderam que ele jamais foi nazista, e que só dariam entrevista se o assunto fosse aviação. Porém, no mesmo blog aparecem posts que colocam em dúvida a existência do Holocausto.

Quem não deixa dúvidas sobre a existência da máquina de extermínio nazista durante a Segunda Guerra é um outro criminoso que chegou ao Brasil no início dos anos 50. Gustav Franz Wagner, assim como Cukurs, era um homem de ação, e entrou no país com o próprio nome e teve a permanência definitiva cedida pelo então chefe da polícia de Vargas, Filinto Muller, conforme afirmou o "caçador de nazistas" Simon Wisenthal ao jornalista Mario Chimanovitch nos anos 70, num encontro que levaria à descoberta do criminoso no Brasil.

Sua figura alta e sombria transmitia terror aos prisioneiros do campo de concentração de Sobibor (Polônia). Homens, mulheres e crianças temiam um homem capaz de jogos cruéis: ele se gabava da habilidade de matar pai e filho com apenas uma bala, juntando a cabeça das vítimas. Outra "brincadeira" de seu gosto era atirar crianças o mais longe possível, e em algumas ocasiões jogá-las para o alto e espetá-las com a baioneta. Ainda, antes de Sobibor, Wagner foi figura importante no programa de eutanásia realizado na clínica de Hartheim, um castelo na Áustria usado para acabar com a vida de deficientes físicos e mentais.

Acusado da morte de 200 mil pessoas, Gustav Wagner nasceu em Viena, Áustria, em 1911. Depois da guerra, conseguiu escapar dos tribunais e sair da Europa em fuga para a América do Sul graças às rotas sustentadas por setores da igreja católica. Chegou ao Brasil e morou a vida inteira em São Paulo, onde se casou com uma mulher que já tinha uma filha.

Mas até 1978, quando se apresentou numa delegacia de polícia de Atibaia justamente para dizer quem era, seu paradeiro era desconhecido. A maneira como ele foi descoberto une a força do colaboracionismo dos caçadores de nazistas com a malandragem brasileira.

Mario Chimanovitch era correspondente internacional do Jornal do Brasil nos anos 70. Chego a seu apartamento e encontro um jornalista calejado em coberturas de fatos importantes. Começamos a conversar e ele me pede um segundo, vai até o quarto e traz o cartão de visitas de Simon Wisenthal, para começar a contar como os dois chegaram a Gustav Wagner depois de uma reunião.

Chimanovitch relembra que eram 7h da manhã quando o telefone de tocou. "Era um número de Viena, Simon me falou que tinha um furo de reportagem e queria que eu fosse até lá pra falar com ele", conta. Depois de consultar seu editor, ele viajou para se encontrar com Wisenthal. O furo era que estava escondido no Brasil um dos grandes criminosos de guerra, Gustav Wagner. Mas havia um problema: ninguém tinha foto do procurado. "Eu disse que sem uma foto a pauta iria sair, mas nada aconteceria, foi então que me lembrei de que uns dias antes o jornal havia dado uma matéria sobre um encontro de nazistas no Rio de Janeiro", conta Mario.

O encontro era uma comemoração do aniversário de Hitler no Hotel Tyll, em Itatiaia. Ao saber disso, Chimanovitch e Wisenthal chegaram à conclusão de que uma forma de fazer com que Wagner saísse da toca era publicar a matéria usando uma das fotos, dizendo que um criminoso de guerra havia sido descoberto em uma foto publicada pelo Jornal do Brasil. "A matéria foi feita e não deu outra, ele caiu direitinho", diz Mario.

Um homem alto, de feições rígidas e olhos de um azul intenso parecia assustado quando entrou em uma delegacia de Atibaia para resolver o mal-entendido. Ele, como outros de sua "raça", estavam apavorados com a perseguição do Mossad, e sua decisão foi aparecer e desmentir tudo para as autoridades antes que a coisa se complicasse.

Ainda pairava a dúvida quando, pela televisão, um homem chamado Stanislav Sznajner, sobrevivente do campo de Sobibor que morava no Brasil, reconheceu o carrasco. Aí não houve escapatória para Wagner, que foi preso em 30 de maio de 1978, e entrou em um mal resolvido processo de extradição pedido pela Áustria, Polônia e Israel. Até ser solto em 22 de junho de 1979 e ter sua extradição estranhamente negada, ele tentou o suicídio várias vezes.

De volta ao sítio em Atibaia, os fantasmas não demoraram a aparecer e tomar forma em uma manhã em que ele discutiu com os caseiros. Gustav entrou dentro da casa em que vivia e se trancou no banheiro. Fez questão de construir uma barricada para que não fosse interrompido enquanto desferia em si mesmo golpes de faca de cortar porcos que perfuraram seu pulmão. O nazista levou de 15 a 20 minutos para morrer, tempo maior do que a maioria de suas 200 mil vítimas nos campos de concentração. Seu corpo está no cemitério no bairro de Alvinópolis, em Atibaia. As condições de sua morte geraram muitas dúvidas, e há quem defenda até hoje a hipótese de assassinato. Duas pessoas comparecerem ao enterro, dois alemães nunca identificados que negaram ser parentes.

Na mesma época em que Gustav Wagner colocou seus pés no Brasil, outro notório assassino também chegou aqui. Por coincidência, Franz Paul Stangl foi chefe de Wagner na clínica de Hartheim e no campo de Sobibor. Depois foi transferido para Treblinka e em sua balança pesam nada mais nada menos do que a acusação da morte de 900 mil pessoas.

Desembarcou no Brasil em 1951 e sempre usou o nome verdadeiro. Depois de passar por alguns empregos, conquistou uma vaga na Volkswagen, em São Bernardo do Campo (SP). Na fábrica, o homem corpulento era descrito como um pouco impaciente, e ocupava um cargo de chefe na ala de produção de número quatro. As autoridades brasileiras tinham livre acesso ao nazista, que nunca procurou se esconder. Trabalhava, andava livremente e comemorava a data de aniversário de Adolf Hitler.

Em 1964, o caçador de nazistas Simon Wisenthal recebeu a dica de um misterioso visitante de que Stangl estava bem, e vivia no Brasil. Até hoje não foi esclarecido quem era o informante, mas muitos acreditam que era o genro do nazista, que se vingou depois de uma briga.

Com a informação em mãos, Wisenthal procurou as autoridades brasileiras, que prometeram prender o criminoso caso a Alemanha pedisse a extradição. O pedido chegou em 1967 sem que o acusado suspeitasse de nada, e logo ele foi preso. Stangl foi extraditado, coisa que não aconteceu com os outros homens caçados por crimes de guerra. Coisa que ninguém, nem quem tem interesse especial pelo caso, sabe explicar.

Em seu escritório, entre ruas de comércio movimentado que disputam a atenção com a Pinacoteca, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, o colaborador de Wisenthal e presidente da Sherit Hapleitá (Associação dos Sobreviventes do Nazismo no Brasil) Ben Abraham me recebe. Seu escritório é composto por duas salas, uma para a secretária e outra onde ele trabalha. Sentado atrás de uma mesa e cercado por livros e objetos que fazem referência à sua origem judaica, o sobrevivente polonês que passou por Auschwitz e chegou lúcido e bem aos 86 anos fala sem se levantar da cadeira em nenhum momento. Trata-se de um dos poucos homens ainda vivos que viu de perto Josef Mengele, mas ele conversa com naturalidade, como se aceitasse resignado o seu passado, sem deixar transparecer o tanto de horror que seus olhos, já cansados, presenciaram. "Isso foi uma coisa que não dá pra entender, só posso dizer que é algo que só acontece no Brasil. O Gustav Wagner teve a extradição negada, mas antes disso o Stangl foi extraditado e preso", conclui ele. Em 28 de junho de 1971, o "Açougueiro de Treblinka", como ficou conhecido, estava morto devido a um ataque cardíaco.

O último dos criminosos nazistas que chegou ao Brasil também era o mais procurado. O nome de Josef Mengele chegou a ser o segundo da lista dos caçadores de nazistas, atrás apenas de Adolf Eichmann. Até hoje, seu caso é cercado de mistérios e polêmicas.

O médico do campo de concentração de Auschwitz (Polônia), era um bon vivant. Os prisioneiros que chegavam ao campo logo percebiam a figura impecavelmente bem vestida, sem um fio de cabelo fora do lugar e uma separação entre os dentes da frente. Filho de uma família rica de Gunzburg, na Alemanha, com cerca de 1,70 m de altura e pouco mais de 70 kg, era no movimento de seu polegar que estava o poder que lhe rendeu o apelido de Anjo da Morte. Além das experiências médicas pseudocientíficas, ele também era o mais dedicado dos selecionadores de Auschwitz. Era ele quem decidia quem deveria morrer rápido ou morrer aos poucos, realizando trabalhos forçados. "Ele usava o dedo, apontava para um lado para morrer e outro para viver. Perdi minha mãe no campo, e eu sobrevivi. Passávamos o dia trabalhando e com uma mísera porção de comida", lembra Ben Abraham.

Um certo Wolfgang Gerhard chegou ao Brasil em 1949, e era um nazista convicto. Organizava reuniões entre simpatizantes e imprimia folhetos que despa chava para diversos lugares. Foi ele também, graças ao contato de um amigo de Mengele, o homem designado para arrumar um esconderijo para o médico. Ele propôs que Mengele ficasse num sítio com um casal de húngaros, Geza e Gitta Stammer, em Nova Europa, a 300 km de São Paulo.

Mengele foi apresentado ao casal como Pedro Hochbichlet. Tinha mania de mandar nos empregados do sítio, mas conquistou a simpatia dos donos depois de propor que procurassem um lugar melhor para morar. O novo local foi Serra Negra, a 150 km de São Paulo.

Hochbichlet, sempre que saía de casa, usava paletó e chapéu, colocado de uma maneira que cobria seu rosto. Ele também entrava constantemente em atrito com o casal Stammer, que a pedido do amigo não colocava o hóspede para fora. Certo dia, Gitta encontrou uma revista com uma foto do doutor Mengele, e perguntou ao hóspede, que admitiu ser o procurado nazista.

Em 1969, os Stammer e Mengele se mudaram novamente, dessa vez para um sítio na cidade paulista de Caieiras, próximo à capital. O nazista foi apresentado a um casal de austríacos que moravam em São Paulo, Wofram e Liselotte Bossart, donos da casa em que ele moraria nos seus últimos anos de vida, na rua Portugal, no bairro do Brooklin. Antes disso, Mengele também encontrou refúgio em uma casinha na estrada do Alvarenga, no bairro Eldorado, em Diadema. Era comum vê-lo conversando com um amigo espanhol e tomando cerveja em um dos bares da região.

A dentista Maria Helena Bueno atualmente mora na Itália. Através de uma associação que ela fundou, dou sorte e consigo conversar com ela, em passagem rápida pelo Brasil, logo no primeiro telefonema. Ela diz ter atendido "Pedro Müller" - o nome com que Mengele se apresentou a ela - cerca de quatro vezes. "Eu nunca poderia me esquecer. Em todos os meus anos, jamais alguém pediu para ver meu diploma, só esse", lembra a doutora. Ela ficou muito tempo sem tocar no assunto, mas logo que ouve do que se trata se dispõe a falar, já que em sua opinião, algumas injustiças foram cometidas em um caso no mínimo estranho.

"Ele entendia muito de genética, fez o mapa genético da minha filha que estava para nascer e acertou tudo. Também sabia bastante sobre radiação. Ele era uma pessoa fria e, na segunda consulta, notei que era nazista pelos comentários que fazia, mas me tratava bem, era gentil. Também sempre pagava em dinheiro", conta. Esse dinheiro, diversas fontes afirmam, vinha da família de Mengele que tinha no advogado Hans Sedlmeier, da fábrica Mengele, um importante mantenedor da clandestinidade do assassino.

Pulemos para 1985. Foi justamente em uma busca na casa de Sedlmeier, na Alemanha, depois de uma dica dada à polícia, que foi encontrada uma correspondência que liga o advogado aos Bossart, e, por tabela, a Mengele. O departamento da Polícia Federal em São Paulo foi avisado. Imediatamente, o então delegado Romeu Tuma e sua equipe se dirigiram para o endereço de Wofram e Liselotte em São Paulo.

Uma busca fez com que os policiais dessem de cara com um maço de cartas e documentos que não deixam dúvida sobre o caso. Então eles confessam que, em 7 de fevereiro de 1979, Mengele morreu afogado em Bertioga, no litoral de São Paulo.

Seu corpo foi levado para Embu, onde ele foi enterrado com o nome e os documentos de Wolfgang Gerhard, no túmulo que o amigo austríaco tinha no local. Gerhard já estava morto também, mas na Áustria, para onde havia voltado no início dos anos 70, com direito a uma rápida passagem pelo Brasil em 1976 a serviço de Hans Sedlmeier.

De volta a 1985, no cemitério de Embu foi encontrada uma ossada. Durante dias, comissões de especialistas em diversas áreas analisam o material para determinar se os ossos eram mesmo do nazista mais procurado do mundo. Depois de alguns exames e testes, em uma época em que o exame de DNA ainda não era possível, as autoridades confirmaram que se trata mesmo de Josef Mengele. Enquanto isso, muitas dúvidas ficavam no ar.

"Mengele não morreu em 1979, ele morreu bem depois, e já não vivia mais no Brasil", defende Bem Abraham. Para ele, Mengele recebeu inclusive defesa do governo norte-americano, e precisava dar um jeito de "sumir" quando a recompensa por sua cabeça atingiu o valor de US$ 3,5 milhões. "A circunferência do crânio da ficha dele na SS, de 1938, era de 57 cm, enquanto a encontrada em Embu media 50,5 cm. Como isso é possível?", questiona o ex-prisioneiro de Auschwitz.

A dentista que o atendeu também levanta outra dúvida. Ela diz que na última vez que "Pedro Müller" foi a seu consultório, ele pediu as chapas que ela havia feito e disse que iria continuar o tratamento na Argentina. "Isso foi, tenho certeza porque tenho a ficha até hoje, no dia 2 de abril de 1979", diz ela, ou seja, quase dois meses depois de sua suposta morte.

As autoridades brasileiras descartaram os depoimentos de Maria Helena e a consideraram "perturbada". Ela foi a única a colocar em dúvida o resultado do reconhecimento e também indicou três testemunhas que poderiam comprovar o que dizia.

As tais três testemunhas morreram em circunstâncias estranhas em 1988. Maria da Conceição foi atropelada, aos 27 anos. João Vitor foi vitimado por uma bala perdida, aos 24 anos. E Cícero Menezes foi assassinado, também com 27 anos. Ninguém foi preso. "Isso é uma coisa que me atormenta, porque fui eu que indiquei essas pessoas. Outra coisa é que a ossada encontrada tinha quatro dentes na parte de cima da boca, e meu paciente não tinha nenhum", recorda Maria Helena, que se mudou para Portugal, onde morou por um ano, depois que as testemunhas foram assassinadas. O motivo, segundo ela, foi o medo das ameaças que recebeu.

Mas a quem interessaria manter tal farsa é uma pergunta que ainda precisa ser respondida. Para Abraham, muita coisa estava em jogo. "Ele precisava sumir, se fosse levado a julgamento poderia revelar a cobertura pelos Estados Unidos desde que foi solto, em 1946", conta ele, e ainda completa: "o verdadeiro Mengele morreu em 1992, e foi quando os governos de Israel, Estados Unidos e Alemanha fecharam suas atas sobre o caso".

Mas também é bom lembrar que foi em 1992 que um exame de DNA provou que os restos mortais encontrados em Embu eram de Mengele. E ainda que um exame possa ser forjado, seja como for, um dos grandes carrascos nazistas morreu de maneira que muitos consideram vergonhosa para um homem tão poderoso.