O Fim dos Botões?

O Playstation Move, da Sony, e o Kinect, da Microsoft, tornaram os games mais físicos do que nunca. Mas será que a onda vai pegar?

Por Chris Suellentrop Publicado em 20/12/2010, às 18h16

O Kinect, da Microsoft, está à venda no Brasil por R$ 599

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Quando o Nintendo Wii chegou às salas de estar de todo o mundo, em 2006, parecia ser o arauto de uma nova era dos games: por umas poucas centenas de dólares (ou muitas tantas centenas de reais), teríamos algo próximo de uma máquina de realidade virtual caseira, dependendo apenas do crescimento das ambições das produtoras em relação a esse novo estilo de entretenimento - meio virtual, meio físico. Não foi o que aconteceu. Quase meia década mais tarde, o Wii é um sistema para festas, algo para uma jogatina rápida e sem compromisso quando amigos ou família vêm fazer uma visita. Mas se você é do tipo interessado nos games como uma forma de arte interativa e emergente, ele talvez não tenham muito a oferecer. Não se pode jogar Grand Theft Auto IV ou Bioshock em um Wii, por exemplo.

Por conta disso, é preciso perdoar os jogadores se eles encararem a nova oferta de controles desse tipo que estão sendo lançados neste fim de ano com um pequeno grau de desconfiança dos jogadores tradicionais. O Playstation Move, da Sony (para o PlayStation 3) pode ser interpretado um Wii turbinado com esteróides de alta definição: um controle de movimento que, por estar ligado a uma câmera, o Playstation Eye, é capaz de detectar não só os movimentos dos controles em suas mãos, mas também suas localizações no espaço. O Kinect, da Microsoft (para o Xbox 360), é ainda mais ambicioso. Combina uma câmera, um sensor de profundidade e um microfone para rastrear os movimentos do corpo inteiro - sem a necessidade de empunhar nenhum controle.

O Move traz um novo nível de precisão aos jogos com movimento, enquanto o Kinect cria uma sensação de imersão corporal completa dentro do videogame. O acessório da Microsoft parece ser o "Wii da vez" - tecnologia que faz com que os não-jogadores se empolguem com videogames novamente. Assim como o Wii, tanto o Move quanto o Kinect empacotaram seus melhores lançamentos com o sistema. Por R$ 799 (US$ 100 nos Estados Unidos), um kit inicial do Move vem com o Eye, um Move e Sports Champions, uma coletânea de jogos de esporte - golfe, duelo de gladiadores, arco e flecha, vôlei de praia, bocha, tênis de mesa - que demonstra bem o potencial do equipamento. O tênis de mesa acaba se parecendo com um esporte de verdade - você tem de se esticar para acertar a bola, em vez de só balançar o controle no tempo certo, como no concorrente Wii Sports.

Por R$ 599 (US$ 150 nos Estados Unidos), o Kinect vem com o próprio sensor e o game Kinect Adventures, um conjunto de minijogos que exige que você pule pela sala e fique todo suado no processo. É possível usar a cabeça, braços e pernas para bloquear um enxame de bolas em Rallyball, ou se esquivar de obstáculos em Reflex Ridge, dando passos laterais, desviando e pulando. Depois de cada partida, o sistema mostra uma série de fotos - salvas na galeria interna do Kinect - dos jogadores em ação, congelados em uma vasta variedade de poses constrangedoras. Outros jogos, vendidos separadamente a R$ 150 em média, têm apelo instantâneo para os não-jogadores: Kinect Sports tem um excelente modo cooperativo de vôlei de praia, que faz os jogadores pularem na direção da rede para cortar a bola, e Dance Central - dos mesmos criadores de Rock Band - simula um futuro alternativo em que todos dançam enfileirados e executam os mesmos passos em músicas como "Poker Face", de Lady Gaga.

Por mais impressionantes que o Kinect e o Move sejam, é inevitável perceber que por enquanto a forma ainda se sobrepõe ao conteúdo - ou seja, os novos jogos remetem mais a uma brincadeira de curta duração do que a uma experiência realmente aprofundada. Mas ambos os sistemas também têm potencial para oferecer um novo modo de jogar aos jogadores mais dedicados, homens na faixa de 18 a 35 anos que formam a maior parte do mercado mundial de games. "Os games deverão se tornar muito, muito melhores, e com muito mais imersão", diz o engenheiro brasileiro Alex Kipman, considerado a mente por trás da criação do Kinect. "Você ainda pode fazer experiências de jogabilidade não tão profundas, mais casuais", acrescenta Richard Marks, pesquisador da equipe de pesquisa e desenvolvimento do PlayStation. "Mas queríamos ter certeza de que não estávamos criando um controle que se limitasse a isso." Marks argumenta que uma vez que a magia do Kinect se esvaia - e ele admite que se trata do tipo de magia que realmente impressiona - os jogadores vão querer um joystick tradicional de volta às mãos, ao menos para certos tipos de experiências. "Para um jogo de tiro, não há discussão", diz ele. "Nada substitui o botão."

Tradução J.M. Trevisan

REPORTAGEM ADICIONAL POR PABLO MIYAZAWA