VIDAPOP - A Charada

Por Miguel Sokol Publicado em 13/01/2011, às 15h57

Dylan o "pai" das músicas perdidas
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Você sabe o que o disco póstumo do Michael Jackson e o Papai Noel têm em comum? Não? Então senta que lá vem história: era uma vez, em 1967, um músico que se retirou do showbiz para criar os filhos em uma casa de campo onde ele pintava, pescava e tocava com os amigos. Acontece que os amigos eram a The Band e esse músico o Bob Dylan. Portanto, as fitas com tudo o que eles gravaram despretensiosamente no porão de uma casa em Woodstock correram o mundo de mão em mão. Quem escutava as tais "fitas do porão" afirmava que era a melhor coisa que o Dylan já produzira e, assim, criou-se um mito, o mito das Basement Tapes, pois o público desconhecia as fitas que convenceram Eric Clapton a deixar o Cream.

Só dez anos depois aquelas músicas foram compiladas em um disco. O sucesso do álbum fez os executivos da indústria fonográfica perceberem que canções perdidas, gravações descartadas e discos inacabados fascinavam o público, então, transformando o acaso em regra só para ganhar mais dinheiro, esses sujeitos engravatados começaram a "encontrar" material inédito de tudo quanto é artista morto. Jimi Hendrix já lançou mais discos morto do que vivo. Como?

Hoje parece ser mais fácil encontrar uma "nova" música do Elvis Presley do que o seu próprio guarda-chuva no departamento de achados e perdidos do metrô. É para desconfiar - e eu desconfio. Michael Jackson passou os últimos oito anos da vida dele sem lançar coisa alguma e aí, só 17 meses após a sua morte, lançam um disco inédito dele? Esquisito. Tão esquisito que há um vídeo na internet com a La Toya Jackson afirmando que a voz no primeiro single, "Breaking News", não soa como a do seu irmão. Suspeito. E, dizendo o máximo, não faltam motivo$ para forjarem um disco do Michael. Nem tecnologia. Basta contratar um imitador para completar os rascunhos musicais deixados pelo cantor. E ainda dá para "emprestar" de músicas antigas uns "ais" e "uis" originais. Impossível?

Por que profissionais mal intencionados não forjariam um disco do Michael se amantes bem intencionados já forjaram uma música inédita dos Beatles? Acesse o YouTube e digite "Beatles Now and Then": você ouvirá uma demo do John Lennon finalizada por fãs argentinos. E o pior é que não soa muito diferente de "Free as a Bird", outra demo do ex-beatle, mas finalizada por Paul, George e Ringo para o projeto Anthology.

É isso mesmo, Papai Noel e o novo disco do Michael Jackson têm em comum o fato de simplesmente não existirem. Mas você pode argumentar que ouviu a música e viu o disco. E daí? A Bulgária continua no mapa e, no entanto, há quase meio século o escritor Campos de Carvalho provou magistralmente a sua absoluta inexistência com O Púcaro Búlgaro.