Coração brasileiro

Eugene Hütz, vocalista do Gogol Bordello, fala sobre sua paixão pelo Brasil

Por José Flávio Júnior Publicado em 17/01/2011, às 13h01

Eugene Hütz: amor declarado pelo Brasil
AP

Quem repara o violão de Eugene Hütz, adornado com adesivos do Fluminense, do Vasco da Gama e do Flamengo, tem dificuldade de cravar para qual time afinal torce esse ucraniano boa praça. Em entrevista por telefone, o vocalista do Gogol Bordello confirma que é rubro-negro, porém sem birra de outras equipes. "Fiquei muito tempo distante do futebol nos anos em que morei em Nova York. Mas, quando eu era criança, ainda na União Soviética, era doido pelo esporte. No Brasil, meu interesse voltou", conta.

Só não espere mais ver as dançarinas e backing vocals da banda vestidas com camisetas e shorts do Santos Futebol Clube, como registrado nas últimas turnês e encartes de discos. Elas acabam de aposentar os trajes. Nada a ver com paixão clubística, no entanto. É que Eugene descolou roupas antigas das escolas de samba Imperatriz Leopoldinense, Grande Rio (ele fala "Rio Grande") e Portela para as garotas usarem nos shows a partir de agora.

Tanta intimidade com o futebol e o carnaval brasileiros tem explicação. Já faz quase três anos que Eugene flana pelo país. Ele chegou como acompanhante da namorada pesquisadora e hoje se diz um morador do Rio de Janeiro. "Quando as pesquisas da minha namorada terminaram, ela foi embora e eu decidi ficar. Agora tenho um lugar no Rio e ela tem um em Nova York. E é assim que vamos levando nossa vida", revela.

Trans-Continental Hustle, disco mais recente do grupo, explicita esse fascínio de Eugene pelo Brasil, principalmente em músicas como "Uma Menina" e "In The Meantime in Pernambuco". "Eu me apaixonei por toda a paisagem cultural do país. Isso mexeu com a minha criatividade. Escrevi muitas coisas no Brasil e algumas já entraram nesse disco", afirma. Segundo ele, o CD ganhará uma nova prensagem por aqui incluindo as faixas-bônus "Endless Rio Boogie" e "Cinic", duas "bossas-punk".

Em 2011, são grandes as chances de o Gogol Bordello voltar a se apresentar por aqui. Como a performance do grupo é reconhecida por ser muito energética e interativa, pergunto se já houve alguma ocasião em que a plateia se portou timidamente e a resposta foi fraca. "Não vou mentir para você: isso nunca aconteceu. Nosso show é divertido demais. Gogol Bordello não é só um lance político, mas também algo intenso, extravagante e, o mais importante, incrivelmente divertido. Isso a gente nunca deixa mudar. Se estamos ficando incomodados com alguma coisa no setlist, simplesmente trocamos o programa. Temos cem canções, dá para variar bastante."

E, já que as questões políticas também fazem parte da equação artística do grupo, qual seria a primeira medida que Eugene tomaria para fazer do mundo um lugar melhor? "Leve em conta que eu não sou um especialista. Como artista, faço as coisas mais na base da intuição. Não tenho a pretensão de ter soluções práticas. Mas sei que fazer os outros se sentirem bem é legal e fazer os outros se sentirem mal não é. Minha missão é inspirar as pessoas com energia positiva, dar a elas algo que possa ser levado para casa e ser usado para resolver seus problemas. Se eu assisto a algo que amo, como Iggy Pop ou Manu Chao, fico amando aquela experiência por vários meses a fio. Tenho bastante consciência do que as pessoas levam de um show do Gogol Bordello porque sinto a mesma coisa quando vejo algo que adoro. Sou igualzinho ao meu público."