Dupla Face

No mundo da ficção, Deborah Secco está acostumada a interpretar mulheres marcantes, expansivas e vulgares – nada que combine com a postura reservada e a melancolia espontânea que impulsionam sua vida real

Por Pablo Miyazawa Publicado em 11/05/2011, às 16h15

Deborah Secco está na capa da Rolling Stone Brasil de fevereiro

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A primeira regra sobre Deborah Secco é: "você não pergunta sobre a vida pessoal de Deborah Secco". A não ser que não se importe em escutar alguns "nãos" como resposta.

Foi um processo descrito como "longo", "tortuoso" e "necessário": certo dia, contrariada com o desgaste provocado pela exposição sempre excessiva na mídia, ela resolveu que precisaria aprender a falar "não" com mais frequência (contrariando a filosofia positivista tão alardeada nos sachês de açúcar). Também decidiu que não leria e não mais se informaria sobre o que é escrito a seu respeito. E definiu que somente falaria com a imprensa quando se sentisse preparada para tanto, contando para isso com o apoio de assessoras que a acompanham em todas as entrevistas, mesmo as mais inofensivas. Tudo arquitetado para evitar que a atriz caia em armadilhas executadas por repórteres mal intencionados. Ou para fazer ecoar ainda mais longe sua filosofia de vida, baseada no mantra "me deixe viver em paz, sou uma pessoa comum".

"As pessoas têm uma imagem [que é] diferente da verdadeira", ela garante. "Eu levo uma vida completamente simples e distante dessa Deborah que elas criam."

Seu caso é o típico do "todo mundo acha que sabe, sem saber". Existe, de fato, uma percepção generalizada a respeito de Deborah Secco - sobre a pessoa pública, não a atriz famosa - que muito provavelmente se conflita com a maneira com que ela própria se reconhece no espelho ao acordar. Entretanto, ela jura não estar assim tão preocupada em esclarecer ao mundo as muitas diferenças entre sua imagem notória e sua personalidade privada. Manter o mistério, nesse caso, funciona como a alma do negócio.

Confira o making of da sessão de fotos com Deborah Secco:

"Ao mesmo tempo em que a gente quer mostrar que é uma pessoa bacana, também é legal que ninguém imagine que sou assim", ela diz. "Porque essa é a minha fonte de inspiração, meu lugar sagrado, minha caixinha de pandora. É daqui que sai tudo. Se descobrirem esse segredo, acho que não vou conseguir criar mais nada." "Então eu nem deveria estar aqui lhe entrevistando", eu digo. Ela sorri. "Não, mas você vai escrever e ninguém vai acreditar."

Uma conclusão justa pode ser tirada após um contato mais aprofundado: não deve ser tarefa simples ser Deborah Secco.

Exclusivo: o diretor Marcus Baldini, o produtor Rodrigo Letier e Deborah Secco falam sobre a trilha sonora do filme Bruna Surfistinha

Alavancada pela mídia como prodígio, acostumada à fama e ao assédio desde a idade escolar, a atriz também aprendeu a conviver e aceitar comentários e especulações públicas sobre o que faz ou deixa de fazer. Inevitavelmente, seus relacionamentos se tornam notícia, principalmente quando terminam ou sofrem abalos. E não raro, surgem relatos sobre fatos dos quais diz não ter participado ou não ter conhecimento. "O que me incomodou foi quando inventaram coisas que não fiz", ela reclama, seguindo um padrão de jamais citar nomes ou entrar em mais detalhes. "Era tão livre o acesso à minha vida que falaram: 'Vamos criar em cima dessa menina, que ela vende e a gente vai se dar bem'."

Parece natural que a figura reluzente, instigante e bem desenhada de Deborah, 31 anos completados em 26 de novembro, desperte o interesse dos seres humanos comuns, pelo simples fato de ela ser e se manter famosa - aparecer na TV diariamente é um mero detalhe que só aumenta o cultivo dedicado a sua vida. Quando encerrou o relacionamento de dois anos e nove meses com Marcelo Falcão, vocalista da banda O Rappa, ela não foi poupada dos questionamentos - até o destino da tatuagem que fez em homenagem ao ex se tornou tema de discussão. Recentemente, celeuma semelhante aconteceu durante suas idas e vindas com o marido, o jogador de futebol Roger Flores - com quem divide um apartamento no Rio e outro em Belo Horizonte.

A verdade é que bastam segundos diante do Google para confirmar que Deborah permanece como uma das figuras mais exploradas pela indústria das celebridades, mesmo quando pensa não ter realizado nada que merecesse tamanha cobertura. Em 2010, no que poderia ser seu ano sabático, longe de novelas e se preparando para uma onipresença midiática em 2011, ela estampou seguidas manchetes sensacionalistas. Primeiro, voltou à tona o caso sobre o suposto desvio de dinheiro público envolvendo o pai, Ricardo Secco. Outra: a união com Roger, aparentemente, não ia bem. A imprensa divulgou a separação e, meses mais tarde, a reconciliação - tudo sem comentários das partes envolvidas. "A mídia especulou, mas ninguém sabe exatamente o que aconteceu, só nós", ela diz. "O que importa é nossa relação. Senão não conseguiríamos estar juntos." Finalmente, quando o imbróglio pareceu resolvido, a atriz deixou os holofotes principais, mas permaneceu sendo observada de longe pelos paparazzi - em atividades tediosas, como visitas ao restaurante, à praia ou à academia.

"Fico tentando entender porque é comigo e não com outra atriz", Deborah se lamenta, recostando na cadeira de seu quarto de dormir. "Sou tão normal. Não gosto de sair, não bebo, não fumo, não uso drogas, não vou a festas. Fico em casa, vejo filmes, leio livros, o que há de diferente pra trazer tanta curiosidade? Porque [se eu fosse] uma pessoa que se curou de um câncer, eu dividiria com os outros. Mas minha vida é comum e banal. É igual a sua ou de qualquer outra pessoa." Comento que a óbvia diferença é que, diariamente e sem pedir licença, Deborah entra nas residências dos mortais comuns por meio dos folhetins globais que estrela com frequência quase atlética.

"É que pra mim não sou eu que estou lá", ela se faz didática. "É alguém completamente diferente de mim."

Convidada a se descrever, Deborah soa quase autodepreciativa: diurna, caseira, tímida, propensa à solidão, que prefere ficar enclausurada no quarto e deitada a comparecer a festas e eventos sociais. Para quem só a conhece pelas figuras femininas marcantes e nada discretas que interpretou com até exagerada naturalidade - a Marina de Suave Veneno (1999), a Íris de Laços de Família (2000), a Lara de O Beijo do Vampiro (2002), a Darlene de Celebridade (2003) -, tais definições parecem contraditórias. Crítica, ela enumera "milhões de defeitos", ressaltando principalmente aqueles que o telespectador dificilmente enxergaria através de um televisor de alta definição. Superados os traumas físicos (quando adolescente, se enxergava feia e magra demais - "achava meu corpo o mais horroroso do planeta"), chama a atenção o modo pungente com que afirma não viver em constante estado de graça.

"Não adianta me enganar e achar 'olha como sou boazinha! Sou uma fofa, querida, minha família é linda!' Eu não vivo num conto de fadas, não sou feliz, tenho momentos de me trancar nesse quarto e chorar, querer morrer, me sentir a pior do mundo. E tenho momentos de pular nessa cama e falar: 'Minha vida é incrível!' - como qualquer ser humano."

"Tenho várias colegas atrizes que sei que interpretam personagens de boas moças, e acredito que isso funcione com elas", Deborah se esforça para evitar a maledicência. "A minha vida é uma só, pode acabar a qualquer momento e irei fazer o que tenho vontade. Interpretar é só o meu trabalho. Não é a minha vida."

O calor vulcânico daquela noite de segunda em poucas horas se transformaria na tempestade causadora de estragos irreparáveis no Rio de Janeiro e seus arredores. Ainda não chovia às 22h quando Deborah entrou em seu amplo e reformado apartamento na praia do Recreio, no primeiro andar de um edifício de três andares igual a tantos outros na região - enfileirados lado a lado, interrompidos apenas por terrenos baldios que aguardam para ser ocupados por mais prédios. Quando chega, atrasada por causa de um congestionamento, já a aguardo em seu sofá, branco como todo o restante do apartamento. Em cinco minutos, já está sentada no tapete de couro, descalça, mas ainda usando a roupa e a maquiagem de uma sessão de fotos de horas antes. O ar condicionado da sala era insuficiente para seu gosto, levando a conversa a ser transferida para o quarto - na verdade, quatro quartos transformados em um, divididos em escritório, closet, quarto de dormir e sala, com o banheiro à mostra, sem paredes de separação. Na cama tamanho king, pilhas de grandes travesseiros; na parede, estantes compridas com livros e porta-retratos (em um deles, uma foto da atriz de rosto colado ao de Roger); encostadas à parede, intactas, dezenas de caixas embaladas em papel prateado. "São os presentes que ainda não conseguimos abrir do casamento", explica, se referindo ao evento com requintes de segurança máxima que ocorreu em junho de 2009. "Mas acho que não preciso da maioria dessas coisas."

Deborah mostra um maço de papéis amarelados cuidadosamente dobrados como um livro, onde se lê o título O Arco-Íris Sem Cor. Trata-se da versão ilustrada de uma peça que escreveu aos seis anos. Ela aponta seu nome escrito com letra de criança, folheia as páginas finais e lê uma mensagem escrita por uma tia: "Deborah era muito sabida, nasceu em dezembro de 1979 e desde pequena gosta de histórias, livros, desenhos e teatro e diz que quando crescer vai ser atriz. Ela promete". Ao terminar, ela parece emocionada. "É louco, né? Era um sonho que virou realidade. Isso foi em 1986. Realmente a gente vê que era uma coisa muito precoce, mesmo!"

Parece fácil se distrair com o fato de estar no ambiente mais íntimo de um dos maiores sex symbols já produzidos pela mídia brasileira nos últimos dez anos. Mas ao contrário de tantas estrelas globais cujas carreiras só aconteceram na vida adulta, Deborah literalmente cresceu e se desenvolveu às vistas do público. Com 11, apareceu em sua primeira novela das sete (Mico Preto). Aos 13, ganhou fama com a Carol do seriado Confissões de Adolescente, quando foi dirigida por Daniel Filho, que lhe "ensinou tudo o que sabe".

Deborah se empolga ao enumerar as diferenças drásticas entre ela própria e a fictícia e hiperativa Carol. "Meu episódio preferido foi o que ela fica menstruada, porque finalmente pude me maquiar. Eu era a menina 'fru-fru' e fui fazer uma personagem extremamente oposta. Fazia balé, só pensava em maquiagem, cabelo." A criatura venceu a criadora, e após um mês de gravações, as personalidades de ambas já haviam se misturado. "Foi a primeira metamorfose pela qual passei. No final do Confissões, eu só sentava de perna aberta. Muito do que sou hoje aprendi ali."

Mais curioso do que o fato de Deborah não ser a menina-moleca que mostrava na TV é essa contradição pouco ter sido alardeada pela imprensa na época - muito provavelmente por causa da curiosidade diferenciada então dedicada à privacidade de uma atriz mirim. "Não sei se é porque fui ficando mais famosa, mas antigamente pouco perguntavam sobre como você era. Era mais sobre o trabalho, como era trabalhar com fulano, como tinha sido a experiência."

"A imprensa é mal intencionada?", pergunto, ignorando um possível meia culpa.

"Muito, muito!", ela enfatiza. "Respeito o trabalho dos fotógrafos, porque acredito que ninguém escolha para a vida o trabalho de ficar me seguindo. E acredito também que ninguém que se forme em jornalismo queira falar sobre a minha vida. Tento respeitar ao máximo, saber que as pessoas estão ali porque precisam desse trabalho."

"Intenso" é o predicado que melhor define o comportamento de Deborah Secco em relação às atividades que diz adorar fazer - dormir, ler e comer, não necessariamente nessa ordem. Também é uma boa palavra para definir a superexposição a que irá se submeter em 2011. Em janeiro, retornou ao horário nobre como a pseudocelebridade Natalie L'Amour, da novela Insensato Coração. No final de fevereiro é a vez de Bruna Surfistinha, sua estréia como protagonista de cinema. "Sou verdadeiramente intensa em tudo: quando sofro, sofro. Quando sou feliz, sou feliz. E quando não sou nada, não sou nada. Às vezes tem esse momento intenso de não fazer nada e faz muito bem também", ela concorda, definindo sua estranha matemática pessoal.

O currículo de Deborah entrega que impor limite jamais foi uma grande preocupação - pelo menos nos primeiros anos de traballho. Desde 1990, foram 15 participações em novelas (muitas delas seguidas, emendadas umas nas outras), um punhado de filmes e participações em séries, peças de teatro e aparições em comerciais. Em mais de 20 anos utilizando a imagem como cartão de visitas e ganha-pão, passou por transformações físicas naturais, outras nem tanto. Atraves-sou a metamorfose de menina magrela com espinhas a bombshell de corpo escultural diante dos olhos atentos e curiosos do público. Ao vivo, Deborah chama ainda mais a atenção do que pela TV. A postura curvilínea e elegante faz par com o tom de voz grave, de frases longas e bem pronunciadas. O sorriso é constante, mesmo quando o interpelador resvala nos seus assuntos proibidos. Há quem diga que ela nem sempre foi do jeito que se apresenta hoje, e que sua figura pública se redefiniu quando passou a se dedicar a papéis em que a quantidade de pele mostrada era mais percebida do que a qualidade da interpretação. Mas Deborah faz de conta que isso não a preocupa tanto.

"As pessoas devem esperar uma Deborah grande, sexy", ela fala, "e eu ando de chinelo, de sapato rasteiro, cabelo preso. Sempre penso que não vão me reconhecer."

No que diz respeito à personalidade, ela reconhece que é enxergada como um amálgama de todas as mulheres que já incorporou na ficção, com pitadas do que é relatado pela imprensa. Nesse exato momento, ela se prepara para ser confundida com a personalidade expansiva e quase vulgar de Natalie, uma exparticipante de reality show que não se conforma com a inconsistência da fama. "Acho que quando tem um personagem no ar, ele meio que toma o lugar de todos. As pessoas acreditam naquilo que elas estão vendo. E ninguém pensa muito na Deborah." Sob certo ponto de vista, essa eterna confusão do público provavelmente só poderia denotar que a atriz é bem-sucedida em sua função de criadora de papéis.

A carreira profissional da carioca Deborah Fialho Secco só teve início porque ela assim o quis - a idéia jamais passara perto da cabeça dos pais. Aos três, quatro anos, ela brincava sozinha de interpretar, fingir que as intenções da filha dariam em alguma coisa ("Só quando eu protagonizei América que ele seu deu conta de que eu não ia mudar de profissão"). Já Sílvia reagiu diferente, provavelmente inspirada pela morte de Ana, sua outra filha, em decorrência de um choque anafilático, quando Deborah tinha um ano e meio. "Por causa disso, ela tinha essa coisa de dar muito suporte aos nossos sonhos, por mais diferentes ou impossíveis que fossem." A história de Deborah possui algumas semelhanças com as de outras atrizes conduzidas pelas mães na busca por uma realidade mais glamorosa e financeiramente bem-sucedida, mas suas motivações naquele tempo, ela garante, eram outras. Morando em uma região humilde do bairro do Jacarepaguá, sem apadrinhamentos ou maiores orientações, chegou a ir sozinha a testes em emissoras, sem a mãe saber e sem ser convidada. "Muita gente hoje quer ser celebridade, ser popular. Acho que na época que eu comecei não havia esse foco."

Parece não restar dúvidas de que Deborah Secco conseguiria cumprir seus objetivos de qualquer maneira, seja lá quais fossem, não importando os esforços necessários. E se por acaso suas vontades de infância não tivessem surtido o resultado desejado, é bastante provável que ainda hoje, adulta, estaria tentando vencer na profissão. "Eu virei atriz para ser a mocinha da novela das oito", confessa. "E pensava em ganhar o Oscar em Hollywood."

Em 25 de fevereiro, Bruna Surfistinha será lançado em circuito nacional, e parece improvável que seja avaliado com antecedência pelo cruel crivo da crítica especializada. Deborah, na condição de papel-título, foi apenas um pouco mais privilegiada: assistiu ao filme no final de dezembro, ainda assim, em versão não-finalizada. Com curta experiência em cinema (seu papel mais memorável, em Meu Tio Matou um Cara, é de 2004), ela agarrou com ímpeto a chance de interpretar a menina de classe média que se transforma em garota de programa, com a condição de que pudesse tomar liberdades criativas. Deborah não leu os livros que inspiraram o roteiro e nem mesmo se encontrou previamente com a autora, a agora ex-prostituta Raquel Pacheco. "Se o filme fosse um documentário, era ideal que ela mesma o fizesse", diz Deborah, sobre a Bruna "de verdade". "Se é para eu fazer, então vou criar uma personagem sem o menor comprometimento com a realidade. É 'baseado em', e não 'a história de'. Meu barato é inventar pessoas. Se eu a conhecesse pessoalmente, talvez perdesse a vontade de criá-la."

O papel de prostituta não era exatamente uma novidade - ela interpretou uma, Maria do Céu, na novela A Favorita (2008). Tabus existiam, mas foram superados. Para descobrir a Bruna dentro de si, cumpriu o laboratório padrão: conversou com profissionais reais, visitou seus locais de trabalho (no caso, bordéis conhecidos como "vintão", referência ao valor cobrado dos clientes e ao tempo que é gasto com cada um - R$ 20 por 20 minutos) e andou pelas ruas paramentada como Bruna, sem ser reconhecida pelos passantes. "A maioria das meninas que conheci faz isso por absoluta necessidade e é uma forma fácil de ganhar dinheiro", ela diz. "Depois que começam, é muito difícil largar e ir para um emprego com horário fixo, onde vão ganhar um décimo do que ganham. Todas diziam que queriam largar, mas eu via nos olhos que elas não iriam."

A produção de Bruna Surfistinha foi dispendiosa (estima-se que o orçamento ultrapassou os R$ 6 milhões), exaustiva (levou quatro anos inteiros) e gera ansiedade nos envolvidos: as filmagens comandadas por Marcus Baldini, publicitário estreante em longas-metragens, se encerraram oficialmente em 10 de dezembro de 2009, exatamente um ano antes de Deborah se apresentar para a sessão de fotos da Rolling Stone. Nas semanas que precediam o lançamento, resistia ainda o impasse sobre a classificação etária que o filme receberia do Ministério da Justiça, muito graças às cenas de consumo de drogas e nem tanto por conta das sequências de sexo e nudez. "Eu não bebi, não usei drogas, o cigarro que eu fumava era sem tabaco e nicotina. Eu mantive todos os meus princípios", avisa Deborah. "As cenas foram feitas com um cuidado grande para que não incomodassem. Mas sei que vai ter quem fale que o filme é pesado, e quem ache o filme incrível." Uma delas, no caso, é a própria mãe da protagonista. "Ela disse que queria assistir de novo, porque não conseguiu ver se eu fiquei nua ou não, de tão envolvida com a história. Foi o maior elogio que eu podia ouvir", diz a filha.

É óbvio que a possibilidade rara de presenciar Deborah Secco (parcialmente) nua, fazendo sexo (sugerido) e usando drogas (cenográficas) parece irresistível demais para um típico adolescente no pico da explosão hormonal. Essa faixa do público provavelmente será responsável pelo grosso da bilheteria de Surfistinha, mas pouco ajudará nesse sentido o fato de o contrato da atriz prever que ela participasse do processo de pós-produção, com poderes de barrar ou suavizar cenas incômodas. "Isso me dava uma tranqüilidade maior, de ficar à vontade para fazer as cenas de verdade, sem pensar."

"Graças a Deus", ela percebe (aparentemente pela primeira vez), "o filme está saindo no momento exato. É o momento em que estou mais preparada para dar a atenção que ele merece, para vê-lo de uma forma diferenciada. O que tem que ser, é". Mesmo se esforçando para transmitir a mesma disposição do início da conversa, Deborah parece exausta. Com a maquiagem já borrada e os olhos semicaídos, as respostas começam a encurtar. Ela comenta sobre a intenção de divulgar trabalhos de ajuda a dependentes químicos ou de prevenção ao HPV, mas que procura "não sair divulgando um monte de coisas que na verdade eu não sei o que são". Se revela reticente quanto ao desempenho de Dilma Rousseff , mas apoia o avanço agressivo do governo do Rio na guerra ao tráfico de drogas ("a gente tem que ir pra cima, não dá para aceitar e falar que 'é isso mesmo'"). Como funcionária da Globo, se considera neutra, sem inimigos, e tenta se relacionar bem com todo mundo ("mas talvez não falem bem de mim também"). Acha que um dia vai engravidar, mas quer viajar bastante antes ("ainda não bateu aquela vontade desesperada, pode ser daqui uma semana ou dez anos"). Não enxerga necessidade em posar nua como já fez duas vezes ("hoje eu não precisaria desse dinheiro e não faria"). Afirma ficar triste quando encerra o trabalho de um personagem ("você perde uma companheira que está 24 horas ao seu lado. Eu choro quando elas vão"). E pretende continuar o ofício de atriz, não importando em qual mídia estiver: "Eu gosto de criar pessoas. É o meu barato, independente de onde eu vou colocá-las".

"Digamos que você se importasse com isso", eu pergunto, já fazendo menção de deixar o apartamento. "O que gostaria que tivessem escrito sobre você que ainda não escreveram?"

Deborah talvez nem se desse ao trabalho de ler a hipotética matéria. Mas ela já tem a resposta elaborada. "O quão dedicada sou ao meu trabalho. O quão profissional sou com os meus horários e objetivos. Talvez ninguém tenha ideia do que significa ficar com o corpo que eu estou pra fazer essa novela. Não é prazeroso. Vou para a academia todos os dias. Passo horas dentro deste quarto estudando, decupando cena..."

"A essa dedicação", ela lamenta, "talvez as pessoas não tenham dado importância."

No final daquela mesma semana, no escritório de sua assessoria, em São Paulo, Deborah finaliza mais uma entrevista seguida de fotos para uma revista semanal. A quantidade de requisições é grande e exige a vinda da atriz para a cidade somente para dar conta da demanda da divulgação de Bruna Surfistinha. "Vira algo comum", ela fala, sobre as viagens repetidas. "Sempre peguei tanto avião. Empresária [Lucia Colucci] e assessora [Piny Montoro] moram aqui. Adoro São Paulo." Aproveitando, garantiu presença no dia seguinte no Summer Soul Festival, para assistir à Amy Winehouse, de quem se diz admiradora. "Que voz que essa mulher tem!", ela exclama em meio aos famosos da área VIP, acompanhada de Roger e cercada por seguranças da Fonseca's Gang.

Esses sucessivos encontros, ocasionais ou não, não modificam a maneira com que presencio o comportamento de Deborah: ela parece sempre estar satisfeita, polida (em mais de uma dezena de horas, não soltou um único palavrão), afável e disposta a ser fotografada ou (não) falar sobre a vida. Não que evite as indagações indesejadas - pelo contrário: encara perguntas sobre qualquer tema, mesmo quando lhe soa inadequado. Quando menciono o nome do ex-namorado Falcão, ela surpreende pela delicadeza com que rejeita o assunto. "Sempre evito falar dessas coisas passadas porque é deselegante com o presente", diz, sem se revelar irritada. Se ficou, não saberei.

O tempo antes do próximo compromisso é curto, o que a obriga a devorar o almoço em uma pequena mesa enquanto fala - um prato de salmão cozido com salada verde que depois pede para repetir. A circunstância só permite o debate de temas amenos, como as tais atividades favoritas. Leitora compulsiva, nomeia Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda, Guimarães Rosa e Clarice Lispector como principais referências e diz já ter lido de tudo, "de O Pequeno Príncipe a O Príncipe", citando Saint-Exupéry e Maquiavel em uma só tacada. No cinema, se considera abrangente, preferindo "comédias românticas, para chorar e rir", mas conta que adorou A Rede Social. Após o tour de force de Bruna Surfistinha, aliás, dificilmente qualquer personagem irá satisfazer a fome cênica de Deborah. "É mais fácil haver papéis para homens do que para mulheres", ela opina. "Queria fazer algo como o Monster, da Charlize Theron, ou Menina de Ouro, alguém totalmente diferente de mim. Meu nível subiu. Por mais que faça outros filmes, só vou me saciar se pegar personagens que exijam esse mergulho de alma." Na música, é fã de MPB, e confessa só rejeitar canções em outros idiomas por pura falta de identificação.

Foi na preferência musical, aliás, o primeiro ponto de intersecção entre seus gostos e os de Roger. "Temos muito em comum. Hoje sou da teoria que os opostos se atraem, mas se atritam futuramente", brinca, provavelmente se referindo a algum de seus relacionamentos passados, mas sem especificar. "Eu achava que nunca iria me casar com um jogador de futebol. Foi bom ter acontecido, para eu aprender a não julgar e saber que nenhuma regra não terá sua exceção." Deborah se apressa a ressaltar as qualidades que diferenciam o companheiro dos jogadores comuns. "Ele é extremamente culto, uma das pessoas mais inteligentes que conheço. Viajou o mundo, lê muito, gosta de boa música. A gente é muito parecido."

Exceto pelas loucuras juvenis relacionadas ao seu ofício, Deborah garante ter sido uma criança exemplar, do tipo que só tirava notas acima de 9, não fugia de casa nem causava conflitos. Para os colegas, "eu era a louca que um dia achava que ia ser atriz". Hoje, com quem não a conhece, expõe uma superficialidade cordial que protege as camadas que só divide com os mais próximos. Também adora repetir que não abre mão do direito de sofrer quando achar conveniente. "Sou uma pessoa muito feliz, mesmo quando estou triste", ela afirma, sem se importar em parecer contraditória. "Acho sensacional ficar dois dias no quarto chorando, faz bem para a alma. Tem momentos em que me basto muito, e tem momentos em que preciso muito das pessoas."

Deborah Secco afirma não ter pressa de que a verdade sobre seu eu seja divulgada. Ela tem consciência, porém, de que enquanto for quem for e fizer o que faz, permanecerá sob eterno julgamento de quem a observa apenas à distância, pelas luzes artificiais das novelas, através das lentes dos fotógrafos e por palavras escritas nem sempre bem intencionadas. Só mesmo ela própria poderia considerar sua vida comum, "com medos, angústias, sonhos, desejos, inseguranças e expectativas" iguais a de qualquer outro indivíduo. Parece difícil crer que seja possível, em se tratando de uma pessoa que passou a habitar o mundo imaginário da televisão quando ainda nem havia deixado o ensino fundamental, e assim o permaneceu fazendo por todos os anos de sua vida. A montanha-russa de emoções pilotada por Deborah Secco a conduziu a esse momento todo particular de sua carreira, em que tudo poderá mudar e nada mais será como antes.

"Foi uma convergência de amadurecimento e preparação. Eu venho emocionalmente tentando evoluir. Estou num momento bom", ela garante. "Excesso de felicidade ou de tristeza não são meus estados preferidos. Meu estado preferido é essa linha do meio, esse nada. Estou bem, né? Bem."