O Renascimento de Keith Richards

Por Kurt Loder Publicado em 11/05/2011, às 16h16

Edição 356 da RS EUA (novembro de 1981)

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No final de 1981, o guitarrista dos Rolling Stones tinha como missão ajudar a colocar a sua banda novamente na estrada, na turnê que promovia o recém-lançado disco Tattoo You. Nesta entrevista, Richards fala francamente sobre seus eternos problemas com as drogas, o relacionamento com Mick Jagger e declara seu amor à nova companheira, a modelo Patti Hansen

"Acabei de me juntar a Napoleão", disse Keith Richards, levantando a taça de vinho em um brinde sarcástico. "Mick está doente. Gripe, acho." Era exatamente uma semana antes do início da primeira turnê dos Rolling Stones em três anos, mas Richards parecia despreocupado em perder uma noite de ensaio crucial. Vestido como um adolescente rebelde, de jaqueta de aviador negra, camiseta preta e jeans preto, com botas de camurça azul amarrotadas nos tornozelos e uma echarpe verde-escura amarrada na cintura, ele parecia, no entanto, saudável e animado.

Estávamos em pé na enorme cozinha campestre do Long View Farm, um complexo de gravação longínquo, mas luxuoso, no interior de Massachusetts, onde os Stones estavam se preparando no último mês. Eram nove da noite e o bufê da cozinha estava repleto de carnes assadas, lagostas ao vapor e panelas cheias de legumes frescos e amanteigados. Na área de jantar, Charlie Watts filmava com sua câmera de vídeo portátil uma mesa de canto grande, à qual Bill Wyman e os dois tecladistas auxiliares, Ian Stewart e Ian McLagan, estavam sentados e olhando para os pratos. Percebo que as famosas cabeças estão ficando grisalhas, os rostos começam a cair como alforjes desgastados pelo tempo.

A futura turnê dos Stones seria a mais desafiadora de seus 19 anos de carreira. Uma lei para eles mesmos no passado, eles agora estavam incontestavelmente velhos e, assim, viram-se na posição de ter de sair mais uma vez e provar, em público, que ainda conseguiam fazer isso. Sua capacidade criativa não se discutia: Tattoo You, o novo LP, mostrou que todo o velho poder ainda existia, e as letras foram enriquecidas por uma nova complexidade emocional. O show do grupo é que precisava de uma arrumação.

Keith Richards estava determinado a fazer tudo ficar bem. Aos 37, marcado pelos anos loucos de prisões por drogas e manchetes de gritos no tribunal, começou a perceber uma ordem surgir em sua vida. Sua longa relação com Anita Pallenberg, mãe de seus dois filhos, Marlon e Dandelion, havia terminado de uma forma horrível e pública, mas seu romance atual com Patti Hansen, uma jovem modelo, ofereceu esperança de renovação. Mesmo na meia-idade, descobriu que o rock ainda fazia uma espécie de sentido perfeito e poderoso. Então, mais uma vez, reuniu os Stones à sua volta.

No celeiro, um palco brilhante de pinheiro polido tinha sido montado nos 30,5 m de largura do espaço. Poucos metros abaixo, havia uma pequena área de estar com uma lareira, um caro aparelho de som estéreo e uma mesa lateral repleta de bons vinhos e bebidas. Keith foi até o aparelho de som e colocou uma fita cassete, anunciando-a como "o melhor álbum do ano". Era Fiyo on the Bayou, dos Neville Brothers, uma festa animada de R&B ao estilo de Nova Orleans. Keith se serve uma dose de Jack Daniel's, eu pego uma garrafa de vinho e sentamos a uma mesa para admirar a performance incrível de Aaron Neville do velho clássico do doo-wop "The Ten Commandments of Love". Será que os Stones conseguem ser bons em 1981? Tudo o que você tinha de fazer, segundo Keith, era incitá-los.

A julgar por Tattoo You, parece que a banda poderia continuar, criativamente, pelo menos, por mais 20 anos. Espero que sim.

Eu também, porque ninguém mais fez isso, sabe? É um tanto interessante descobrir como o rock pode crescer. Quer dizer, existem outros exemplos, obviamente, mas no tipo da escala em que os Rolling Stones estão, e têm estado há tanto tempo, ainda parece que se fizermos o nosso melhor, eles reagirão a isso imediatamente - o público, os garotos, o que você quiser chamar. Alguns deles não são mais tão jovens. Nem nós.

Os punks gostavam de ressaltar isso durante seus minutos de fama.

Eles são assim. Sempre vêm e vão.

Você encontrou algo que valesse a pena no punk rock?

Sim, havia um certo espírito ali. Mas não acho que existia nada de novo musicalmente, ou mesmo do ponto de vista de relações públicas, de imagem. Havia imagem demais, e nenhuma das bandas teve chance suficiente de elaborar sua música, se tivessem uma. Isso parecia ser o menos importante. Era mais importante vomitar em alguém, sabe? Mas este é um legado nosso também, afinal, ainda somos a única banda de rock presa por urinar em um muro.

Aparentemente, os punks não ficaram impressionados. Eles realmente pareciam odiar bandas como os Stones.

É o que dizíamos sobre tudo o que aconteceu antes de nós. Mas você precisa de um pouco mais do que somente derrubar as pessoas para manter tudo unido. Sempre há alguém melhor em te derrubar, então não me derrube, só faça o que fiz, ok? Faça melhor do que eu, me deixe excitado.

Onde e quando vocês compuseram as músicas de Tattoo You?

Muito foi feito em Paris. Uma das faixas, "Worried About You", foi escrita para Black and Blue. O restante foi feito em Paris, entre 1977 e 1980. Quer dizer, gravamos mais de 40 faixas para Emotional Rescue, mas naquela época era uma questão de escolher as faixas que estavam mais perto da conclusão, porque tínhamos um prazo apertado. Neste álbum demoramos mais, começamos a pensar nele logo depois de o anterior ser lançado, e escolhemos as músicas com muito mais cuidado.

Você viaja muito para a Inglaterra?

Regularmente. Neste ano, ainda não, mas nos últimos anos fui em agosto e fiquei por cerca de dois meses. Depois de uma semana em Londres, costumo ir para o interior, onde as coisas nunca mudam. Vou para uma cidadezinha onde há só umas três pessoas que já foram para Londres - e fica a apenas 110 km de distância. "Ah, Londres? Não, nunca fui. Gente demais." É meio que atemporal ali, é realmente uma ótima âncora para mim. Ainda me incomoda um pouco que eu não possa, sabe... Como assim, que eu ganho dinheiro demais para viver aqui? Quer dizer que eu não posso pensar em viver na Inglaterra? É meio vingativo.

Você e Mick parecem ter uma grande amizade. Realmente é tão sólida quanto parece?

Sim. É uma amizade verdadeira quando você pode bater na cabeça de alguém e não ouvir: "Você não é mais meu amigo". Isso é amizade verdadeira. Um aguenta a encheção do outro. As pessoas pensam que temos discussões enormes e dizem "Ah, eles vão se separar?" Mas é nossa maneira de trabalhar, sabe? Ele é minha esposa, e dirá o mesmo sobre mim: "Sim, ele é minha esposa".

Acho que a percepção popular é a de que Mick provavelmente é o melhor homem de negócios dos dois. Você lida bem com seu dinheiro?

Eu ganho e gasto, mas está tudo organizado. O Mick é muito bom nos negócios. Não tanto quanto as pessoas pensam, provavelmente não tão bom quanto ele pensa, e provavelmente não tão ruim quanto eu penso. Mick quer que você saiba sobre cada detalhe de tudo, entende? O que é admirável - certamente não tenho o tempo nem a inclinação para descobrir essas coisas, mas juntamos nossas informações.

Você sente que ficou rico demais para se identificar com seu público?

Só sinto que há um público lá fora e, desde que ele queira ouvir, acho que vou continuar tocando.

Os integrantes dos Rolling Stones socializam uns com os outros?

Sim, sempre estamos em contato. Charlie vai para Nova York ou outro lugar a cada dois meses. Quanto a mim, só digo que sou continuamente grato - cada vez mais - por termos Charlie Watts sentado ali, sabe? Ele é o cara que não acredita nisso, porque é o jeito dele. Não há nada forçado no Charlie, muito menos sua modéstia. É totalmente real, ele não consegue entender o que as pessoas veem em seu jeito de tocar.

E quanto a Ron Wood? Ele já faz parte da banda há seis anos, mas acho que as pessoas ainda tendem a rebaixá-lo como uma espécie de clone de Keith Richards.

Eu fui o mais apreensivo sobre a entrada do Ronnie. Ele é muito meu amigo e toquei nos álbuns solo dele, mas ele não toca como eu. Para mim, o Ronnie está mantendo coesa a ideia do som dos Stones que Brian [Jones] e eu tínhamos. É o que acho dele. Tem uma sensação instintiva pelo que eu e Brian originalmente trabalhamos como guitarristas e quanto à música. Somos como gêmeos siameses - os dois tocam. Veja dessa forma: há um cara, mas ele tem quatro braços. É assim que gosto de me sentir sobre isso, porque quando sai, não importa quantas pessoas estão tocando e quem faz o quê. Pergunto: quando aquele som sai, ele te atinge entre os olhos e te agarra?

Brian Jones, ex-guitarrista da banda, morreu há 12 anos. Você ainda pensa nele?

Sim, penso nele toda vez que tocamos "Time Is on My Side" ou quando toco os licks de guitarra dele em "Mona". Brian, de muitas formas, era um panaca. Um imbecil. Mau, generoso, qualquer coisa. Você quer dizer uma coisa, dê o oposto também. Até um certo ponto, você conseguia aturar isso. Quando enfrenta as pressões da estrada, ou você leva a sério ou encara como uma piada. Era um processo muito lento, que mudava e é tão impossível de descrever, mas no último ano, quando Brian estava quase completamente incapacitado o tempo todo, ele virou uma piada para a banda. Era a única maneira com a qual conseguíamos lidar com isso sem ficarmos furiosos com ele. Então, ficou uma coisa muito cruel e zombeteira por trás das costas dele. Tudo chegou ao auge quando... ele namorava a Anita na época, e começou a agredi-la, a bater nela, e falei: "O que é isso, querida, você não precisa disso, vamos embora. Eu te levo para longe". Não me importei, não estava envolvido na época, foi só "vamos embora, eu te levo para fora disso, pelo menos você vai poder fazer o que quiser". Então fugimos. Foi muito romântico - Marrakesh, andando pelo deserto e tudo o mais. Quer dizer, Brian era tão ridículo de algumas maneiras e tão bom de outras.

O triângulo Brian-Anita-Keith é o ponto central do livro Up and Down with the Rolling Stones, de Tony Sanchez, lançado em 1979. Sanchez se descreveu, entre outras coisas, como seu traficante, e o relato que fez de seu estilo de vida naqueles anos - fim dos 60, começo dos 70 - é de dissipação quase total e vício. Há algo de verdade nisso?

O livro do Spanish Tony? Deixa eu falar: não consegui ler tudo porque chorei de rir, mas a premissa básica da história - "Ele fez isso, fez aquilo" - é verdadeira. O Tony não escreveu realmente aquilo, contratou alguém da Fleet Street; obviamente, ele mal consegue escrever o próprio nome, sabe? Era um cara ótimo, sempre o considerei um amigo. Só que não mais. Mas entendo a posição dele. Se envolveu com drogas, sua namorada teve uma overdose, foi para a sarjeta... Toda essa porcaria, sabe? Quanto a esse livro, a um episódio em particular, os simples fatos - é, tudo aconteceu, mas no momento em que você chega ao fim, era como os contos de fadas dos Irmãos Grimm - com ênfase no sombrio. É tudo coisa antiga. Sabe, há alguns clichês do show business que sempre parecem ser verdadeiros. Um deles é de que não existe má publicidade, e o outro é de que o show tem de continuar, certo?

Já experimentou metadona?

Só quando não conseguia outra coisa. Que droga dopante, sabe - no sentido de não ser uma droga. Que não-droga dopante.

A heroína afetou sua música, para melhor ou pior?

Pensando nisso, provavelmente sim, eu teria sido melhor, tocado melhor, sem ela. Quer dizer, às vezes as pessoas acham que tocam melhor drogadas, mas é... Na verdade, quando estava no palco tocando, ou gravando, e estava drogado, sabe, e escuto aquilo agora - às vezes ainda tenho que tocar o que tocava naquele momento. "Certo, tenho que tocar essa maldita música de viciado? Eu? Agora? Já passei por isso" e ainda tenho de tocar meus licks de vício. Mas não consigo imaginar o que mais eu teria tocado, independentemente de estar bêbado, drogado ou com um supositório - eles cheiram aquilo. O problema da heroína é que você não tem nenhum poder sobre ela. Não é mais sua decisão, você precisa da droga. "Por quê? Gosto disso." Ela tira a decisão das suas mãos. Você passa por todos os apuros incríveis para consegui-la e não acha nada de mais nisso, porque é a prioridade número um: primeiro a droga, depois você pode ir para casa e fazer o que mais precisa ser feito, como viver. Se conseguir.

Você percebeu que estava viciado?

Aceitei isso. Levei dois anos para ficar viciado. No começo, brincava com isso, é a maior sedução do mundo. A coisa mais normal do mundo, cheirar. Depois: "O que você quer dizer com estou viciado? Estou tomando há dois dias e me sinto bem. Não tomei nada... o dia inteiro". E você pensa que é legal, e isso te suga, entende.

Você ainda se sente atraído por ela?

Sempre, ahn... nunca diga nunca. Mas não, não.

Obviamente, algumas das melhores músicas dos Stones foram compostas sob o efeito.

É, Exile on Main St. foi altamente influenciado por isso. Sticky Fingers também...

Foi difícil para você gravar álbuns como estes?

Não, quer dizer, especialmente com os Stones, só porque eles já estavam nesse ponto há tanto tempo, no qual são considerados, sabe, "a maior banda de rock do mundo..." [ri] Deus, meu Deus - você deve estar brincando. Talvez uma ou duas noites, é, você pode incluí-las nisso. Minha opinião é de que, em qualquer noite, uma banda diferente é a maior banda de rock do mundo, porque a consistência é fatal para uma banda. Ela tem de ter altos e baixos. Caso contrário, você não saberia a diferença, seria só uma linha reta, como olhar para um monitor cardíaco. E quando mostra aquela linha reta, baby, você está morto, sabe?

O rock tem uma taxa de mortalidade terrivelmente alta, parece. Entre seus contemporâneos, John Lennon, Keith Moon, John Bonham - quando você os vê partir, fica preocupado?

Há riscos em fazer qualquer coisa. Neste negócio, as pessoas tendem a pensar que nunca acontecerá com elas, mas que bela maneira de ganhar a vida, sabe? Olhando para os últimos vinte e tantos anos, é inegável, acho, que haja uma taxa muito alta de mortalidade no rock. Veja a lista, cara, olha quem já foi: Hank Williams, Buddy Holly, Elvis, Gene Vincent, Eddie Cochran. A lista é infinita. E os grandes, muitos deles já se foram. Otis Redding, cara. O fim dele matou a soul music.

Aquela época psicodélica foi um período estranho para os Stones.

É. Todos meio que entraram nessa onda de sucesso por fazer coisas do outro mundo, até o que os tornava realmente conhecidos era a estranheza do que eles estavam fazendo, e não realmente o que estavam fazendo. Quer dizer, mesmo com Their Satanic Majesties Request (1967), nunca fui muito fã de música psicodélica.

Ter filhos te mudou? Seu filho Marlon é quase um adolescente, certo?

É. Ele está acabando comigo. Chegou ao ponto, nos últimos meses, no qual notei que ele está me repreendendo, sabe? "Pai! Levanta! Você tem um ensaio. Eles estão esperando!" E eu aceito - aceito! "Tá, ok, estou pronto, dá meu jeans." E ele responde "Ah, tá - até parece que você está pronto. Um olho está fechado!" Não tenho de me preocupar com o Marlon, ele é centrado. Está na estrada desde que tinha um ano, então para ele isso é totalmente normal. Ele costumava dormir ao som de "Midnight Rambler" toda noite atrás do meu amplificador, sabe?

É bom não ter de ser um pai disciplinador.

É. Ou apenas se algo está realmente aumentando minha ressaca. Mas tive sorte, nunca fui forçado à posição de dizer "Escuta aqui, filho, você não pode fazer isso". Ainda estou meio que esperando meu próprio pai começar a me repreender - "Maldito rock and roll! Seu idiota!" Bam!

Já "Black Limousine" parece mais generosa em sua avaliação de um relacionamento passado.

É, porque o tempo segue adiante, etc., e também, acho, porque as mulheres em nossas vidas atualmente provocaram uma mudança em nossas atitudes com relação a isso. Deve ser porque tudo o que sai dos Stones é exatamente aquilo que sai. É como nos sentíamos então e é como nos sentimos agora. É puramente uma adivinhação, porque não pensei mesmo nisso, mas parece lógico que as pessoas com quem você está são as que vão te influenciar mais, queira você ou não. O Mick pode querer sentar e compor uma música real dos Stones - sabe: "Bleargh! Seu pedaço de merda, sua caixa de lixo suja!" Mas obviamente não é assim que ele se sente agora. Não é como eu me sinto agora.

Seria certo dizer que vocês estão apaixonados?

Ah, sim, mas sempre estive apaixonado.

Parece que você e Patti...

É pra valer, pra valer. É, estou apaixonado. São essas coisas que, quando você está do outro lado da balança, sabe, e pensa "Diabos, você só pode ficar apaixonado aos 18, aos 23 ou..." mas então fica mais velho e de repente - bam! Mais uma vez! E percebe que tudo aquilo era bobagem, e essas são as coisas que te excitam, sabe? As que te fazem olhar para frente. É a melhor sensação do mundo, certo?

O amor é bom!

O amor usa um chapéu de caubói branco.