Caçador de mim

Misterioso, elusivo e indecifrável, Milton Nascimento continua a se reinventar em seu mítico e protegido universo particular

Por Antônio do Amaral Rocha Publicado em 11/05/2011, às 15h25

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Milton nascimento tem o costume de apenas tirar os óculos escuros quando posa para fotografias. O fato em si não seria novidade, uma vez que o adereço tem se feito presente em todas as entrevistas que costuma conceder. O que esse detalhe deveria revelar? Teria alguma relação com a tão propalada timidez que se manifesta na vida daqueles que ousam viver cercados de montanhas?

Timidez nada tem a ver com isolamento ou falta de iniciativa, conforme percebo ao chegar a Três Pontas (MG), onde Milton, nascido no Rio de Janeiro, viveu toda a infância. José, o taxista falante e simpático, demonstrou intimidade com o artista que é um verdadeiro patrimônio cultural da cidade mineira. "Fale pra ele sobre aquele show que ele fez aqui dois anos atrás, quando a cidade foi invadida pelo mundo inteiro. Até eu hospedei gente na minha casa. Ele é muito gente boa, filho do seu Zino. Manda um abraço."

Da Lagoa Pontalete, um dos principais pontos turísticos de Três Pontas, descobre-se por que a cidade carrega esse nome: ao longe, divisam-se os três montes que Milton Nascimento fixou na sua marca. O porto seguro do artista se localiza no número 111 da rua José Bonifácio, diante da praça Travessia (assim batizada em homenagem à sua primeira música de sucesso). A porta é atendida por Alexandre, uma espécie de faz-tudo. "O Bituca [apelido de Milton] acabou de se deitar, mas vou avisá-lo."

Um passeio pela ampla residência confirma outra característica notória: sempre onde está Milton há pelo menos mais uma dezena de pessoas ao redor. No quintal com árvores, há uma piscina sem uso, lotada de folhas secas, além de uma ampla edícula de três cômodos, onde Milton guarda lembranças da vida artística. O cômodo principal mais parece uma sala de troféus: nas paredes, capas de discos, retratos, matérias de jornais ampliadas, bilhetes, cartazes de fã-clube. Ao fundo, em mais uma sala transformada em biblioteca, estão os livros do pai de Milton, Zino, falecido professor de matemática e técnico em eletrônica. Nessa casa ele residiu com Lilia, formando o casal que há 66 anos adotou uma criança negra que viria a se tornar uma das grandes vozes da música brasileira.

"Nasci no Rio de Janeiro, na casa onde minha mãe [de sangue] trabalhava", Milton tentaria explicar, momentos mais tarde. "Lá morava a Lilia, que mais tarde iria ser minha mãe de verdade, depois que minha mãe faleceu."

Com expressão de quem acabou de acordar, ele finalmente surge. Sem camisa, olhando para o vazio e parecendo não se importar com a minha presença, remexe uma enorme mala, escolhe uma camiseta e põe os óculos escuros. Depois de um momento que pareceu eterno, finalmente se dirige a mim. Ao vê-lo descomposto, sinto que invadi sua privacidade. "Onde você quer fazer?", ele pergunta, se referindo obviamente à entrevista. Enquanto caminha em direção à edícula, Milton tira os óculos. Quando se senta, como se seguisse um ritual, coloca-os novamente.

Em meio a discos de ouro e platina, desenhos, fotografias e armários envidraçados, reparo na famosa sanfona Hering de quatro baixos, que proporcionou a Milton o primeiro contato com a música. "Minha mãe cantava nessas festas de rua e eu ia acompanhando", ele relembra a infância, parecendo entusiasmado. "Só que essa sanfona não tinha sustenidos e bemóis, ou os correspondentes às notas pretas. E eu sabia que tinha uma coisa que eu teria que fazer, já que a sanfona não iria dar conta." Começando a exercitar aquela que viria a ser uma das sonoridades mais singulares da MPB, Milton complementava o som do instrumento com a própria voz.

Temos uma percepção de que conhecemos Milton Nascimento, mas, na verdade, conhecemos a música de Milton, os fatos de uma carreira artística de mais de 40 anos de duração, recheada de sucessos e que envolve inúmeros outros artistas brasileiros e estrangeiros, cuja consolidação se deu com o quinto disco, o clássico absoluto Clube da Esquina (1972), em parceria com o então garoto Lô Borges. Mas pouco ou nada se sabe de sua vida pessoal - diferentemente, por exemplo, de figuras públicas como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, que ao lado de Milton formam um verdadeiro "quarteto de ferro" de vertentes masculinas da música nacional. Chico fala somente quando acha que deve, Caetano fala até sem ser perguntado, Gil, sempre em evidência, até ministro já foi. E Milton? O que se sabe de mais particular sobre ele é que, na década de 70, enquanto parte da inteligência da MPB embarcou num rabo de foguete rumo ao exílio no estrangeiro, Milton ficou no Brasil, resistindo. Nessa época, porém, entrou em uma viagem que parecia não ter volta: o álcool. "Esse lance de beber é muito antigo e tem a ver com o período político que o Brasil atravessava", ele diz. "Ao contrário de alguns colegas que foram exilados, eu continuei por aqui e sofria represálias por parte da ditadura." Consta que Milton, em constante estado de ameaça, chegou a ser proibido de se apresentar em São Paulo por Erasmo Dias, então secretário de Segurança Pública. "Essa era uma válvula de escape", explica. "Mas eu parei de beber no momento em que eu concluí que a ditadura militar não merecia que eu me matasse."

Muito também se fala a respeito da timidez de Milton Nascimento e que isso denotaria uma característica típica dos mineiros - algo que serviria para justificar as poucas palavras e a preservação quase que religiosa de sua intimidade. Durante uma conversa, ele costuma não pensar muito para responder a questões de cunho mais íntimo, dando a entender que por esse caminho o papo não iria render. "A minha música é meu canal de comunicação mais importante, mas não me calo, não", Milton rebate. "Continuo dando minhas opiniões, ao contrário do que possa parecer."

Uma maneira de fazer o artista falar sobre si talvez seja usar suas próprias canções para desvendar assuntos obscuros. Pode ser um modo de tocar em temas quase proibidos: o filho Pablo, nascido na década de 70, que deu nome a duas músicas do álbum Milagre dos Peixes (1973). Após uma pausa medida, vem a resposta, vacilante e nem sempre clara: "Eu não queria falar do Pablo porque a gente já sofreu muito, nós todos e também a mãe dele...", Milton desvia do tema, passando imediatamente a se referir a outra pessoa. "Agora, eu tenho o Pablo, que estuda medicina em Juiz de Fora, que é um filho que mais se aproxima de mim. E me trouxe alegria, que por muito tempo eu tinha perdido. Por uma sorte do destino, ele tem o nome de Pablo Nascimento e é tudo o que eu esperaria. Pra mim é um presente de Deus. E ele não é um filho adotivo, é muito mais que isso. É uma pessoa que chegou na minha vida trazendo tudo de bom. Então, é ele que quero louvar e recebo dele o mesmo sentimento. E agradeço a Deus por ter me dado essa maravilha."

O mais antigo registro do envolvimento de Milton Nascimento com a política está fixado em fotografias, como aquela de 1968 em que aparece ao lado da escritora Clarice Lispector e da atriz Glauce Rocha na "Passeata dos Cem Mil", que, entre outras questões, protestava contra a morte do estudante Edson Luís - que, por sua vez, inspirou a música "Menino", que Milton compôs com Fernando Brandt e foi gravada por Elis Regina, em 1976.

Já na década de 80, Milton voltou a se envolver com o jogo político graças ao movimento Diretas Já: a música "Coração de Estudante", composta ao lado de Wagner Tiso, se transformou em hino da campanha pela democratização das eleições. "Quando comecei a compor, declarei pra todo mundo que eu nunca iria fazer uma coisa se eu não estivesse sentindo aquilo de verdade", Milton recorda. "E estava acontecendo aquilo tudo no Brasil, aquela loucura, então a gente se aproximou do Tancredo [Neves, falecido ex-presidente] e foi uma coisa muito natural, muito verdadeira." Nas eleições de 2010, ele e Tiso não estiveram no mesmo palanque. Milton preferiu se alinhar à política mineira, assim como a maioria dos artistas locais, gravando com Lô Borges um jingle para a campanha de Antonio Anastásia (PSDB) ao governo de Minas Gerais, enquanto que Tiso enveredou para o outro lado, regravando e adaptando um famoso jingle petista como "Dilma Lá". Como bom mineiro, Milton não se arrisca a opinar sobre a nova realidade brasileira comandada pela presidenta Dilma Rousseff. "É difícil fazer um julgamento, porque ainda estamos no começo de governo", despista.

Os interesses de Milton Nascimento sempre parecem fugir dos padrões vigentes entre os artistas de sua geração. Ainda nos anos 80, se envolveu com a música latina e os chamados "povos da floresta", relação que culminou com o lançamento do disco Txai (1990). Anos antes, se dedicou ao povo negro e à Teologia da Libertação da igreja católica no disco-missa Missa dos Quilombos (1982). O assunto, aliás, parece lhe provocar visível satisfação: "Foi muito difícil fazer Quilombos, porque a maioria dos documentos da época da escravidão o Rui Barbosa mandou queimar", ele conta. Quando terminou de compor as melodias para a missa (com textos de dom Pedro Casaldáliga e do poeta Pedro Tierra), Milton organizou a primeira apresentação em Recife, mas o evento acabou proibido em território brasileiro por ser considerado apócrifo pela Igreja Católica. Tempos depois, a Missa dos Quilombos foi celebrada na Espanha para os peregrinos em Santiago de Compostella. "Teve coisas muito mágicas nessa noite", Milton se emociona, com a voz embargada, deixando evidente sua faceta religiosa. "Quando o texto falava sobre brisa, vinha um vento e o pano do cenário balançava. Quando falava sobre neblina, desceu uma neblina na cidade." Nesse momento, aqueles óculos escuros talvez escondessem uma lágrima.

É relembrando os casos da carreira que o homem Milton Nascimento mais se sente à vontade. Como quando fala sobre a projeção internacional dada pelo álbum Native Dancer (1974), um de seus trabalhos musicalmente mais difíceis, que fez em parceria com o saxofonista Wayne Shorter. "Eu estava fazendo a temporada do Clube da Esquina num teatro da Lagoa, no Rio", ele conta, "e o Weather Report do Shorter estava tocando no Municipal na mesma semana". O convite da parceria partiu do próprio saxofonista, mas até a realização do projeto passaram-se dois anos (além de Milton, o disco contou com as participações de Tiso e do baterista Robertinho Silva). "O Wayne me disse na gravação: 'Você é um cara impossível, começa uma música como uma canção de criança e quando vai ver é uma das coisas mais complicadas'", Milton relata. "Foi uma farofa de coisas que abriu as portas para todo mundo. Daí era o pessoal do pop me procurando, o pessoal do rock, o pessoal do jazz..." Hoje, a extensa lista de parcerias e colaborações inclui nomes como Paul Simon, Peter Gabriel, Duran Duran, Jon Anderson (do Yes), Quincy Jones, Herbie Hancock, a banda Angra e, recentemente, a baixista Esperanza Spalding, com quem Milton está escalado para um show no Rock in Rio, em setembro.

O talento que tanto impressionou e ainda hoje rende frutos não é resultado de um estudo formal ou de aulas em conservatório, mas de estar constantemente "tocando na noite e aprendendo", nas palavras do próprio Milton. No início da carreira, ouvindo músicos profissionais em Belo Horizonte, se deu conta de que fazia tudo diferente, porque tirava as melodias e as letras pelo que ouvia no rádio - os chiados, porém, não permitiam distinguir bem as harmonias. "Um dia, me dei conta: 'Vamos ter que começar tudo de novo, isso que a gente faz não é bom'." Mas convenceu-se do contrário quando alguém lhe aconselhou: "Toque do jeito que você toca, porque isso aí ninguém faz!" "Eu estava em casa ouvindo rádio na sala que tem piano e começou a tocar 'Ebony and Ivory'", Milton começa a divagar, cantarolando os primeiros versos da famosa colaboração entre Paul McCartney e Stevie Wonder. "Quando ela terminou, pensei na hora: 'O piano está aqui na minha frente e não fui eu quem fiz essa música!'"

Em 1996, surgiram boatos sobre o estado de saúde de Milton Nascimento. Repentinamente magro demais, consultando-se com médicos do Brasil e dos Estados Unidos, chegou a ser cogitado na imprensa que ele poderia ter Aids. "Fui diagnosticado com diabetes [tipo 2], por várias razões, uma delas emocional", ele esclarece, completando que a medicação que tomava tirava seu apetite, causando a excessiva perda de peso. Em um segundo momento, quando passou a se tratar com especialistas do Brasil, foi gradativamente se recuperando. Hoje, afirma que a doença está controlada e equilibrada. Um desses cuidados inclui comer várias vezes ao dia: em determinado momento, ele chama um dos assessores e solicita: "Me traz algo de cumê!", apalpando a barriga. Minutos depois, um prato de salgadinhos surge diante dele - nada indicado para quem faz regime, mas que serviu para Milton se recompor.

Após mais de duas horas de lembranças, surge certa inquietação no ar. Pergunto se Milton quer fazer algum comentário, ao que ele se prontifica a mencionar as dezenas de jovens músicos de Três Pontas com quem tocou em seu álbum mais recente, ... E a Gente Sonhando (2010). "Quando comecei a me envolver com os músicos novos daqui, fui sentindo que aqui é um canteiro de talentos e que nasce todo dia", ele diz, como um padrinho que enaltece os afilhados. Parece a deixa para a entrada na sala de cinco participantes do disco: Ismael Tiso, Marcos Elízeo, Bruno Cabral, Fernando Marchetti e Lidyanne Brito. "Você fica dois meses fora, e quando volta já tem um monte de monstrinhos tocando por aí", Milton sussurra. "E está todo mundo aí, às suas ordens!"

Elis Regina, tida como a voz feminina mais completa que o Brasil já teve, uma vez declarou: "Se Deus cantasse, seria com a voz de Milton". Sobre a origem de seu timbre de teor divino, o cantor prefere divagar - ou, como costuma tão bem fazer, à moda mineira, deixar o mistério no ar. "A gente saía com a meninada pelos morros e um dia eu resolvi dar uns berros. De repente, a voz voltou", ele relembra. "Eu nunca tinha ouvido o eco. Daí ficávamos cantando e saía um quase coro. Eu gritava e depois respondia num tom acima, até onde aguentava. Fazia três ou quatro vezes, e então saía uma espécie de trio vocal. E assim foi. E eu nunca pensei em fazer diferente. Mas também não conseguiria fazer diferente."