O Heavy Metal Brasileiro Tem Futuro?

Músicos avaliam a situação do estilo que já foi cartão de visita do Brasil no exterior

Por Tiago Agostini Publicado em 11/05/2011, às 15h23

NA LUTA O Sepultura, exemplo de sucesso para o Shadowside e Shaman

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No final de março, uma minimaratona do heavy metal começa no Brasil: em 20 dias, serão mais de uma dezena de shows com Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Motörhead, entre outros. No segundo semestre, Lemmy volta ao país para dividir palco com o Metallica no Rock in Rio - sendo que a banda de James Hetfield foi a atração mais pedida pelos fãs, segundo a organização do evento. Mas, se o público do estilo continua enorme no país, o metal brasileiro parece ter perdido espaço nos últimos anos.

Em algum ponto dos anos 90, quando o Sepultura ganhava o mundo e se tornava a banda brasileira mais conhecida no exterior, independentemente de estilo, parecia que o heavy metal iria atingir o mainstream nacional. O sucesso da banda mineira arrastou Angra, Dr. Sin, Krisiun, Korzus e, posteriormente, o Shaman. Mas, desde o surgimento desta última, em 2000, não apareceu nenhuma banda brasileira com projeção nacional e internacional. Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, dá de ombros. "O Sepultura é um caso excepcional, é difícil de comparar", analisa. "Nos Estados Unidos tem apenas um Metallica, nenhuma banda chega perto deles. O Megadeth tenta, o Slayer é mais underground. Não dá pra exigir que apareça um Sepultura a cada cinco anos, é um lance de época."

Para Thiago Bianchi, vocalista do Shaman, o problema é outro. "As gravadoras não apostam mais no metal. Nunca houve tantas bandas boas no país, mas o reconhecimento não é o mesmo", analisa. Pela avaliação dele, assim como toda a indústria da música, o metal brasileiro sentiu o golpe do surgimento da internet. "O número de revistas especializadas diminuiu, a televisão já não dá mais tanto espaço e as gravadoras só apostam em música de venda rápida e barata de produzir", reclama. "Quem está montando sua primeira banda tem pouca perspectiva de sucesso."

O cantor também faz uma crítica velada a parte do público brasileiro. "Muita gente só foi passar a gostar da nova formação da banda [Bianchi substituiu o vocalista André Matos em 2007] depois que fomos para a Europa e recebemos o aval gringo." Dani Nolden, do Shadowside, concorda. "Parece que banda brasileira tem que conquistar duas vezes mais que uma estrangeira para ser levada a sério", diz a vocalista, apesar de afirmar que a recepção ao grupo dela "é ótima".

"É muito difícil fazer uma banda de heavy metal funcionar no Brasil", avalia Dani. "O investimento é quase tão grande quanto nos Estados Unidos ou na Europa - só que lá o estilo é pop." O Shadowside acabou de gravar seu terceiro disco, Inner Monster Out, que será lançado pela Universal nos Estados Unidos. Apesar de reconhecer que a relação do Sepultura com o público brasileiro melhorou nos últimos anos, Andreas Kisser diz que o que diferencia o mercado nacional do estrangeiro é a tradição dos grandes shows. "O Brasil só entrou na rota das grandes bandas há 15 anos."

Para tentar mudar a situação, Thiago Bianchi organizou com alguns amigos um abaixo assinado para instituir que 13 de novembro se torne o Dia do Metal Nacional. A campanha ganhou um site, Metal Prol Brasil, em que os simpatizantes podem baixar um formulário para recolher as assinaturas. Iggor Cavalera, atualmente no Cavalera Conspiracy, ironiza a iniciativa. "Isso quer dizer que alguém vai se vestir de Lemmy ou Ozzy nesse dia e entregar presentes?" O conceito, na verdade, é um pouco diferente. A ideia é que durante toda a semana comemorativa haja shows em diversas casas pelo Brasil, com uma grande apresentação no dia 13. Além disso, Bianchi diz que já há negociações com um clube da capital paulista para que uma noite quinzenal só de heavy metal seja realizada. "Queremos levar a iniciativa para todos os estados. É hora de todos os amantes do estilo se unirem para levantarmos o metal nacional."