Entrevista Rolling Stone: Marcelo Camelo

Ícone de uma geração posicionada entre o rock e a MPB, o músico renega o papel de porta-voz

Paulo Terron Publicado em 17/05/2011, às 10h24 - Atualizado em 30/04/2013, às 14h34

TRANQUILO Marcelo Camelo em casa, em São Paulo: "Fiquei surpreso com a quantidade de amigos que fiz"

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É possível que Marcelo Camelo seja conhecido como um dos artistas mais românticos do Brasil. Mas não no sentido tradicional da música romântica. As composições do carioca - tanto ao lado do Los Hermanos como na carreira solo - passeiam por impressões sentimentais variadas e, às vezes, abstratas. Mesmo o título do recém-lançado Toque Dela deixa questões em aberto: o "dela" se refere à namorada Mallu Magalhães? Ou a São Paulo, cidade adotada pelo músico há alguns anos? Pode ser uma mistura das duas. Ou nada disso. Conforme ele mesmo explica simpaticamente, "Não corrijo interpretações". Sentado na cozinha, dividindo algumas garrafas de cerveja, o músico falou abertamente sobre o novo trabalho, as diferenças entre as cidades onde morou e o funcionamento esporádico do Los Hermanos.

Há uma influência clara de São Paulo no seu segundo disco?

O que influencia o disco é tudo o que acontece em volta [de mim], e eu gravei a maior parte das músicas em São Paulo. O outro [Sou, 2008] eu fiz a maior parte no Rio.

Você se sente alterado por São Paulo?

Ah, totalmente. É assim com todo mundo. Se você vai pra lá [para o Rio] também. Mudança de bairro, de casa, de temperatura. Se muda o sol, você já é outra pessoa.

Você se diz bem recebido na capital paulista, que parece uma cidade mais fechada do que o Rio em termos de relacionamentos.

Nem fodendo, nem um pouco! É muito mais cordial, muito mais cordata. O Vinicius [de Moraes] tem uma frase: ele diz que adora o Rio porque lá ele tem muitos amigos filósofos; e gosta muito de São Paulo porque aqui ele tem muitos amigos amigos. É muito diferente o tipo de amizade, o tipo de relação.

Você vai ficar aqui permanentemente?

Não. Eu gosto de trocar, estou com saudade do Rio e estou pensando em passar um pouco de tempo lá. Mas eu gostei muito da minha estada aqui, achei fantástico, fiz muitos amigos. Fiquei surpreso com a quantidade de amigos que fiz, com a diversidade de pessoas e com a boa disposição delas.

Leia mais perguntas e respostas da entrevista com Marcelo Camelo, publicadas com exclusividade neste site.

A impressão que dá é que seus amigos cariocas são da sua época de formação.

No Rio você não precisa de amigos, essa é a verdade. A cidade é muito mais legal do que qualquer pessoa, inclusive eu. Você não tem vontade nem de estar consigo mesmo. Você quer abraçar a Lagoa [Rodrigo de Freitas] e ficar lá. Por isso é uma cidade solitária, como se a beleza da cidade fosse a megera.

A primeira frase do disco novo é: "Triste é viver só de solidão". Ela desarma qualquer preconceito quanto ao disco. Foi planejado?

Eu não sei, posso dizer que sim, que tudo faz parte de um grande planejamento de um ano e meio de trabalho. E, ao mesmo tempo, na minha natureza, não consigo planejar friamente uma coisa com distanciamento e precisão. Essa música [ "A Noite" ], por exemplo, é muito antiga. Ela já começava com essa frase. São frases que me ocorrem, que eu ouço e acho interessantes. E daí vai juntando. Pra ser honesto, não escrevo mais nada. Pouquíssimos são os momentos em que eu pego caneta pra escrever letra. Eu vou fazendo com as palavras que acontecem.

E antes você escrevia?

Antes eu escrevia. A mudança do método foi essa, você tem de estar distraído. É como quando alguém vai te fotografar: você sai muito mais bonito quando não sabe que está sendo fotografado. É como aquilo do poeta Cesare Pavese: poesia é quando um idiota olha para o mar e diz que parece azeite. É esse tipo de distração que eu busco. É tentar achar um gol sem ficar chutando muito. É tentar tirar um pouco aquela cara de aferição o tempo inteiro, aquele peso da mão do autor. E fazer um negócio que fique mais de acordo com a fluidez da minha personalidade, que eu sinto que a cada segundo é uma coisa diferente.

Os seus fãs são pessoas que se identificam muito com as letras. Isso te passa pela mente quando você está escrevendo?

A música é uma arte bem primitiva. Quando você faz para impressionar o professor de português na escola, as pessoas vão dizer: "Olha que letra bem construída". Eu faço para mim, para eu achar legal como espectador do negócio. Eu tenho a sensação de que, sendo assim distraído, eu consigo ir mais fundo nas minhas questões, consigo representá-las numa dimensão mais completa. Tanto na música - no jeito de tocar, no arranjo - quanto na letra também. Acho que consegui manter essa indecisão, essa imprecisão, essa dúvida do sentimento, do meu olhar sobre as coisas.


A grande diferença entre um artista que consegue ter uma carreira duradoura e um que é passageiro é a identificação que as pessoas têm com o que ele está dizendo. Eu me lembro de ver fãs do Los Hermanos, em shows, dizendo: "Porra, é o Legião Urbana da minha geração". Eles se emocionavam porque se identificavam.

É uma identificação abrangente porque o aparelho receptor é. Se fosse o mesmo texto com uma roupagem diferente, talvez não tivesse o mesmo impacto. A identificação é um amálgama de coisas. Ela não é só pelo texto, apesar de eu achar importante. As palavras, para quem as escreve, têm uma utilização mais abrangente do que o seu significado. Quero dizer que a identificação é uma coisa mais subjetiva. E sendo subjetivo, às vezes, você consegue falar uma coisa muito precisa. É muito mais do que um cara que está escrevendo uma redação que vai impressionar o professor de português.

Isso de ser porta-voz da geração não interessa?

Não, não tenho nenhum diálogo com isso. Para mim é muito pessoal. Eu sinto como se fosse um pizzaiolo, um padeiro, um mestre cervejeiro - alguém que cuida do processo de alguma coisa. E o meu exercício, a minha musculação, é do meu aparelho perceptor. É isso que eu fico tentando ampliar, entender e ver a diferença. Aquele negócio: "Ih, está viajando", sabe? Eu estou viajando o tempo inteiro. Os assuntos que me interessam não são musicais, necessariamente. As dimensões das coisas são tão grandes que a nossa figura é passageira. Não consigo me sentir representado nessa figura que você descreveu.

E a influência física, visual, que você teve em parte dos fãs? Quando a barba ficou mais longa, muitos também deixaram a deles crescer.

Isso é circunstancial de mercado, não tem nada a ver comigo. A música que a gente estava fazendo era legal e calhou de termos barba. O ser humano é mímese, que é o cerne da nossa existência. Tudo o que faço, as palavras que falo, está sendo uma imitação de alguém. Se não fosse a imitação, a gente não fazia nada. Quando tem uma informação que se replica com mais intensidade e que, por algum motivo, carrega um signo que te toque e que chame a tua atenção, você, às vezes, imita até sem notar. Sei lá, o sapatinho que eu vim usando: pode ser que eu tenha visto alguém usando e resolvi comprar sem perceber.

O nome Toque Dela remete à sua relação com a Mallu. Isso não dá uma abertura paras as pessoas perguntarem sobre a relação? Ou você não se deixa limitar por esse tipo de coisa?

Não, não mesmo.

E é mesmo uma referência, uma homenagem?

Nada do que eu faço - nem nas músicas, nem no título - é uma tradução literal. É sempre um conjunto de signos, entendeu? Se eu falar que é um disco sobre a Mallu, você vai ouvi-lo como se fosse eu fazendo-o para a Mallu. E não é isso o que eu quero. Eu queria que você entendesse como o "toque dela". Quem é ela pra tu? Eu queria que as pessoas tivessem uma relação própria, que não ficassem tentando desvendar por trás da minha vida. Mas, de certa forma, não sucumbi a esse tipo de pressão. É uma forma de posicionamento também.

Morar em São Paulo ajuda nesse sentido. No Rio, sempre aparecem fotos de vocês na praia.

É, o Rio tem muitos paparazzi. O lugar em que a gente mora, o Leblon, tem muitos.

Isso não cria certa tensão, já que não é algo que você busca?

Cara, eu tenho dificuldades com todas essas coisas. A foto do paparazzo não é mais desagradável do que qualquer entrevista ou filmagem, do que uma transmissão de rádio. Nesses momentos em que tenho de vir a público falar da minha música, de mim, responder pelas minhas opiniões... Tudo o que eu falar deveria vir com "eu acho", inclusive a minha música. Não tenho convicção de nada. Sou quase contra a convicção, acho a convicção um equívoco.

Mas dar uma entrevista é uma opção. Você pode negar. Já você ir à praia e tirarem...

É verdade, você tem razão. O negócio dos paparazzi eu questiono bastante. A legalidade desse ato, inclusive, porque os caras têm um salvo-conduto. Eu questionei um cara: "A gente está aqui, no nosso momento!" E ele: "Ah, mas você é uma pessoa pública!" E eu fiquei com essa questão na cabeça. Onde é que foi que eu assinei que eu sou uma pessoa pública? Eu não quero ser uma pessoa pública.

A situação é pitoresca, exatamente porque a sua postura não é a de buscar essa atenção.

É uma curiosidade pitoresca do meu namoro com a Mallu. Quando estou sozinho, não vem ninguém. "Olha lá o casal, diferença de idade." Os editoriais viraram meio isso. Mesmo a Rolling Stone tem algumas seções... Sobre o pitoresco. Na primeira página de qualquer portal, você vai encontrar: "Avestruz morre entalado no cu da baleia". Se você for falar com o editor, ele vai falar que é editoria de "curiosidades" e que ela é responsável por mais de 50% dos cliques da primeira página. É uma abordagem indiscriminada porque, com a internet, a gente ficou imaginando que ia dar voz de discussão para uma coisa mais interessante, mas aconteceu o contrário. Os fanzines de antigamente eram muito melhores que os blogs de hoje. E não sou contra a internet, não, deus me livre! Sou totalmente a favor, é a coisa mais linda do mundo. Mas acho uma pena usarmos desse jeito.

Com o seu primeiro disco solo, Sou, você passou a tocar em lugares menores. Muita gente deve ter achado que foi um passo para trás na carreira em relação ao Los Hermanos.

Mas não tem isso. Do jeito que eu organizo, é assim: eu faço música e depois eu penso o que vou fazer com ela. Se aquela música é para aquele tipo de espaço, aquela quantidade de gente, a gente vai e faz. É a música que rege o que vai acontecer, ela está junto com a vida. Não vou tocar "Téo e a Gaivota" num estádio para 20 mil pessoas. É para ouvir sentado. O Sou foi um disco que eu imaginei para as pessoas ouvirem sentadas.


E isso não exige que você dome o seu ego? Porque é inevitável, todo mundo tem ego.

O negócio é o tipo de satisfação que você procura. Se é a quantidade de gente na sua frente cantando, é uma coisa. A trajetória do Los Hermanos teve muita coisa. A gente começou no underground, e aí estourou com "Anna Júlia". Saímos direto do [bar carioca] Bukowski, do buraquinho para 50 pessoas, para tocar para 20 mil no mês seguinte, por causa de "Anna Júlia". Fizemos uma turnê inteira com público gigante, mas para pessoas desinteressadas por nós. E, no final, a gente passou a ser odiado, por causa de "Anna Júlia". No disco seguinte, a gente passou a tocar para pouquíssima gente. Poderia ter vivido esse drama pessoal do passo para trás, mas eu gosto de música, cara. Gosto de fazer música. E o que acontece depois, se as pessoas gostam ou não... Eu adoraria que todo mundo gostasse pra caralho, mas gosto de fazer música e me relaciono com o que está acontecendo culturalmente. Gosto de fazer música [que vai] meio contra o que está acontecendo. Não é contracultura e não é cultura: é o refluxo da parada.

Neste momento você está contrariando o quê?

Já nasci contra eu mesmo. Eu estou contrariando o meu método anterior, o momento anterior da vida, que era de reflexão. Eu vinha de uns dez anos de compromissos ininterruptos. Tinha escola, depois fui para a faculdade, sem parar. Não terminei a faculdade e veio o Los Hermanos - dez anos de Los Hermanos. E aí, quando estava com 28 para 30 anos, eu parei com o grupo e me vi sem nada. Imagine você olhar para os próximos 50 anos e ver que não tem nada marcado, nada. É uma mudança de realidade para uma pessoa que vem, como todos nós, de compromisso. Eu tinha um dinheirinho guardado, que não era muito. Mas eu conseguiria ficar um tempo com ele. Foi nessa realidade que eu fiz o [primeiro] disco. Fiz turnê, vim para São Paulo e estou vivendo outra vida. Agora fiz outro disco. Vou me opondo ao passo anterior.

Tem um trecho interessante na música "Vermelho", talvez você possa me corrigir se a minha interpretação estiver errada...

Não corrijo interpretações [sorri].

Este trecho parece ser bem pessoal: "Mas você me chama pro mundo e me faz sair do fundo de onde eu tô". Parece alguém que estava deprimido e que recebeu ajuda de um novo amor. Ou algo assim.

Não, o fundo não é necessariamente um lugar inferior à superfície. É um percurso só. Não vejo assim, como uma ordem de valores.

Você cita o amor sete vezes no disco.

Opa! [ainda sorrindo]

E em todos os seus discos, em algum momento, você fala de amor.

Mas nenhum tanto assim?

Acho que neste tem um pouco mais.

É um bom sinal...

Qual é o seu interesse no amor?

O amor é o modus operandi, é o "como". Tem aquela do [escritor Robert] Anton Wilson que fala: "O objeto que você usa pra olhar o universo descreve em iguais proporções o universo, aquilo que você está observando e ele próprio, aparelho". Então é como se fosse um "como". O Laércio de Freitas, meu mestre absoluto, sempre me dizia: "Marcelo, é 'com' e 'para'. Ser 'com' e 'para' as coisas". O meu irmão tem uma frase que eu acho bonita. Ele diz que a felicidade é um gesto físico. Se você é amoroso, você ganha amor. Se é violento, ganha violência.

O seu disco anterior foi distribuído de forma independente. Com o novo você optou por fazer com a gravadora Universal. Por quê?

Quem distribuiu o anterior foi a Microservice, que é quem fabrica o disco. A diferença, na prática, é que no outro eu financiei tudo sozinho, do meu bolso, e nas vendas e com os shows eu tentei reaver uma parte desse dinheiro de volta. O outro teve o apoio do Terra, o que foi muito importante, viabilizou a feitura do disco. Por um mês de exclusividade me pagaram uma grana que custeou o disco. No segundo disco, também pelo meu selo, o Zé Pereira, eu licenciei pela Universal por cinco anos. A gravadora me pagou o custo como adiantamento.

Mas o disco é seu depois de cinco anos.

Depois de cinco anos, o disco volta pra mim. Só que eu não sei o que eu vou fazer com isso. Se você souber, me conta porque eu não faço ideia do que fazer com essa porra. Vai ficar aqui em casa: um papel com o direito de vender essa porra física, agora que todo mundo já copiou na internet. Mas é isso, depois de cinco anos ele volta pra mim. Daqui a 50 anos se eu quiser juntar a minha obra inteira [em uma caixa], eu consigo.

Não é um saco ser artista e ter de se preocupar com esse lado empresário?

Eu sou adulto, é a vida de homem. É assim. Você não tem essa preocupação? Vou pagar o meu aluguel e tal...


Tenho certeza de que o público médio olha e imagina que você seja rico, que você não precisa mais trabalhar se não quiser.

Pra começar, tratar o Brasil - um país de 200 milhões de habitantes - falando de "público médio"... Esse público médio nem sabe quem eu sou. Acho que é uma coisa totalmente de nicho, de circuito, para um certo tipo de gente. Mas eu não sou [rico], eu não sou. [risos]

O Los Hermanos é um caso raro: o grupo não acabou por briga. Quando é assim, os músicos ficam putos e querem negar o que aconteceu antes.

Pode crer. É "o sonho acabou", querem dar um ponto final para as coisas.

Você vê a separação de vocês como saudável?

É total. Pra mim é total.

Mesmo os shows de reunião foram discretos, sem fanfarra. Não criaram muita expectativa. Pareceu tudo muito planejado. Foi assim mesmo?

Eu não sei como é que essas coisas são passadas para as pessoas, vendo de fora. Mas é tudo muito de verdade. Se não parece uma coisa de fanfarra é porque não é. Não tem essa preocupação de como nós vamos aparecer. Se a gente quisesse divulgar alguma coisa, faríamos uma porção de entrevistas. Mas a gente não estava querendo divulgar nada, entendeu? A gente estava ali se encontrando, com saudade um do outro, do repertório. E aproveitando uma oportunidade de fazer um show, fazer uma grana, matar a saudade do público.

Pode pegar mal com a imprensa você dizer que fez um show porque era legal ganhar uma grana. Não existe esse tipo de julgamento?

Você está com síndrome de Marília Gabriela, esse resumo. "Vamos resumir..." Eu não falei "ganhar uma grana"... Faz parte, cara. Não faz parte da tua? Negociar com dinheiro? Todo mundo negocia com dinheiro. O dinheiro é a moeda de troca do mundo. Isso é coisa de país católico. Se fosse um país protestante, as pessoas estavam pouco se fodendo. Iam ficar felizes. Eu poderia falar: "Ganhei a maior grana". E as pessoas iam me aplaudir pra caralho [aplaude].

Você se preocupa em dosar a intensidade das turnês hoje?

Varia à beça. Quando comecei o show [solo], estava um pouco nessa [de limitar as datas]. Agora estou querendo fazer mais viagens. Mas sou muito volúvel, posso mudar de opinião daqui a dez segundos, e provavelmente vou mudar. A turnê traz uma dificuldade muito grande na sua vida pessoal. As coisas que são da índole do cultivo, uma samambaia, uma namorada, um bicho de estimação, tudo isso vira uma negociação meio punk. Mas dá saudade também, é legal estar perdido de ônibus, sem saber onde você está, tocar em lugares menores. Eu estava querendo voltar um pouco a isso.

Para o relacionamento, parece uma boa solução você fazer shows junto com a Mallu, não?

Eu participei eventualmente dos shows dela, tocando violão. É, a gente teve vontade de montar uma banda e fazer alguma coisa junto de verdade, mas nunca fizemos. Acho que daria muita liga, porque quando tocamos juntos é muito bonito, músicas minhas ou dela. É superbonito. A gente grava às vezes.

Com o Little Joy, o Rodrigo Amarante disse que voltou a viajar de van. Ele também deu esse "passo para trás". Vocês conversam sobre isso?

Não, ultimamente não.

Eu tinha essa impressão - e acho que muita gente tem - de que vocês da banda são muito próximos, mesmo depois da separação.

O que a gente compartilhou junto, a força que a gente fez com aquela parada, os dias que passamos juntos - isso ninguém tira da gente. Vai ter sempre isso entre nós. O que não significa que a gente frequente diariamente a casa um do outro. Para mim, no subtexto da nossa relação sempre vai estar contida essa coisa tão grande que a gente fez acontecer com um esforço coletivo, numa vivência coletiva intensa. São dez anos de negociação desses termos - o cenário, o iluminador, a luz... Muita coisa compartilhada e aprendida, porque era tudo bem argumentado. É um ambiente muito positivo pra se dar ideia e pra se debater. Foi realmente um período de muito aprendizado, em todos os aspectos que envolvem a carreira.

Você vê o Los Hermanos como um projeto eterno, que sempre vai estar presente?

Não sei, não me faça essa pergunta! Sério, de verdade.

Neste momento, por exemplo, você acha que existe um futuro para o Los Hermanos?

Eu não consigo entender a natureza dessa pergunta. Você está me perguntando se a gente vai voltar algum dia...

Não, não é isso. Pergunto se é uma ideia que fica no fundo da sua mente.

Não.

Nem no sentido de ser uma volta àquele lugar que te ensinou tudo o que você sabe? Depois de dez discos solo, daqui a 20 anos.

Honestamente, não meço as coisas com essa régua. No meu sentimento, a sabedoria da nossa pausa, da nossa parada, foi justa em nos permitir qualquer coisa. Nunca mais nos vermos ou voltar com a banda amanhã. A gente conseguiu, com isso, preservar o negócio ali. E me sinto à vontade em não saber.

E o lado de compor com aquelas pessoas? Você não sente falta? Em especial do Amarante, que era seu parceiro.

Cara, a gente não compôs nada junto. A gente compôs uma música e meia junto ao longo dessa carreira toda. Nosso trabalho coletivo era nessas decisões todas. E arranjos. Sinto falta dele como pessoa, claro... Tu sente saudade da tua ex-namorada? Sente. Mas vai voltar com ela? Não necessariamente.