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Confira trechos inéditos da entrevista com o jogador do Flamengo, publicada na edição 55 da Rolling Stone Brasil

Por Pablo Miyazawa Publicado em 20/04/2011, às 13h53

Ronaldinho na capa da <i>Rolling Stone</i>

Leia abaixo perguntas e respostas que não estão na versão impressa da edição 55 da Rolling Stone Brasil. Clique aqui para ler um trecho do que foi publicado na revista.

Nesses 15 anos de relação com o Rio de Janeiro, como você define o estilo do carioca?

É um povo feliz, que sabe viver. É difícil ver carioca triste. Eu vejo dessa forma: aquele cara que, às vezes, está cheio de problemas, mas está sempre rindo, vai pra praia, de bem com a vida.

E quais são as principais diferenças entre um gaúcho e um carioca, na opinião de um gaúcho que agora é carioca?

O gaúcho é mais reservado. Primeiro ele vai observar até criar uma amizade. O carioca não: em cinco minutos, o cara é teu amigo [risos].

Você jogou dez anos na Europa, onde a torcida é quieta, aplaude e não canta. Imagino o choque de ter jogado aqui pela primeira vez com o Flamengo...

É muito diferente. Uma alegria misturada com emoção. Antes de eu jogar, já na minha recepção, quando eu cheguei, a vontade já era de entrar no campo pra jogar. É um choque muito grande, faz muita diferença.

Você viveu em cidades bem históricas e especiais - Paris, Barcelona, Milão, e agora o Rio. Antes disso, lá no começo, viveu em Porto Alegre. Você consegue definir um pouco sobre cada uma das cinco cidades em que você viveu?

Porto Alegre é a minha casa, lá eu me sinto bem porque eu sei andar em todos os lugares, vou pra tudo o que é canto. É a mesma coisa que eu estivesse entrando dentro de casa. Paris é maravilhosa, e foi a primeira cidade que eu morei fora do Brasil, e a qualidade de vida era muito legal. Barcelona, pra mim, é o Rio de Janeiro da Europa, eu me adaptava porque eu gostava; Paris era aquela coisa, até para o treino era um outro tipo de roupa que tinha que usar. Em Barcelona eu já andava como aqui no Brasil, como no Rio de Janeiro, havaiana, qualquer roupa e estava tudo certo. Já Paris e Milão têm essa diferença: todo mundo na estica, os próprios jogadores já vão treinar todos arrumados... Barcelona pra mim foi muito bom por causa disso. Eu podia andar como gosto, então me sentia muito bem.

Milão e Paris eram rígidas?

Em Milão e Paris era essa coisa do pessoal mais preocupado com a roupa, o pessoal reparando como tu está vestido...

Mesmo sabendo que você é um jogador de futebol?

São dois lugares onde a moda é muito forte. Eu sempre brincava com os meus amigos que Paris é São Paulo e Barcelona é Rio de Janeiro. Essa era comparação que eu conseguia fazer dos lugares.

Moda é importante para você?

Eu gosto de andar legal, principalmente num estilo que eu me sinta bem. Sempre gostei de moda, mas do meu estilo, da moda que eu gosto. E quando eu fui para Paris já comecei a conhecer outras coisas. Você vai a um restaurante e todo mundo já vai com um tipo de roupa. Quando eu fui pra fora do Brasil foi que eu passei a olhar uma outra moda que não tinha muito a ver comigo.

É fácil fazer amigos no futebol?

É difícil. Tem uns que não são amigos, são colegas de trabalho. A gente se respeita, tem a admiração, carinho, mas não é aquela coisa de levar o cara na tua casa. É amigo lá no trabalho. Vai encontrar o cara em todos os lugares do mundo, vai cumprimentar o cara. É diferente a afinidade. A amizade não é com todo mundo que você tem.

Quais são os caras que resistem a times, torneios e que continuam sendo seus amigos? Que você pode pegar o telefone agora e ligar?

Ah, cara, são muitos. Pelo fato de ter morado em países diferentes, cada clube que joga, a gente faz cinco amigos que você sabe que pode contar, que vai ligar a hora que for e o cara lá do outro lado vai te atender. Tenho amigo desde a época do juvenil que ainda mantenho contato.

Agora, você já conhece o Rio há bastante tempo, quais são os seus lugares favoritos na cidade?

Eu gosto da praia. Quando eu tenho tempo de ir, adoro ir pra praia, adoro jogar meu futevôlei, então quando eu tenho um tempinho livre... Quando estou na frente do mar, eu me sinto bem. Entre shopping e praia e vou sempre pra praia. Eu não tenho [preferência por] uma praia específica, é onde meus amigos estiverem também. Ponto turístico é difícil pra mim, porque sempre tem muita gente e aí, fazendo foto, não aproveito o dia livre. A praia é o meu lugar.

Você está sempre na praia e nunca usa seguranças. Como é essa sua relação com a cidade? Você consegue ficar em paz?

Ah, consigo. Na praia fico tranquilo. Também porque a gente está sempre rodeado de amigos. Então não tem necessidade de segurança, porque na maioria dos lugares que eu frequento eu sei que tenho amigos. Às vezes precisa de segurança quando vai para um lugar que tenha muita gente, mas caso vá para um lugar tranquilo eu ando sozinho.

Você teve algum receio de algum momento e pensou: "minha vida na Europa é tranquila, ninguém pega no meu pé, e estou indo para o Brasil, vão pegar no meu pé, vão ficar me vigiando, me patrulhando", tal como aconteceu com o outro Ronaldo? Isso passou pela sua cabeça alguma vez antes de voltar?

Não, quando eu comecei a pensar em voltar, tinha curiosidade em saber como ia ser morar no Brasil de novo. Sabia de toda a diferença, mas eu queria muito voltar para o Brasil, então...

Não teve nada que fez você pensar: "acho que não quero voltar agora"? Porque o brasileiro é apaixonado, mas sabe pegar no pé. E a imprensa brasileira pega mais no seu pé porque acha que tem direito, afinal, você é brasileiro...

Não sei, cara. Eu como não vejo muita coisa de mídia, então não me abalo muito.

Você já teve alguma preocupação com a sua vida pessoal e com a sua privacidade? Já achou que estavam invadindo demais, sabendo demais, fotografando demais? Isso é uma preocupação?

Dependendo do momento, é. Quando você está numa sua situação que gostaria de estar tranquilo e aquela coisa te sufocando. Enche o saco, às vezes. Acho que em todos os lugares que eu morei foi assim. Eu sabia que se fosse fazer alguma coisa iriam falar, então você já vai sabendo o que vai acontecer. Em nenhum momento pensei em deixar de vir para o Brasil por causa disso, nem me passou pela cabeça.

E os paparazzi? É um problema estar na praia lá jogando e os caras tirando foto?

Incomoda quando o cara quer usar essa foto para te prejudicar. Agora, com as fotos que eles fazem comigo, na praia, no samba, não vejo nada de errado nisso. Claro, se você está num lugar que tu não quer a foto e o cara lá subindo, dentro da tua casa, ou quase isso, daí eu não acho legal, mas o resto não me incomoda.

Mas deve ter tido um momento em que o assédio esteve bem pesado em você. Não acredito que não tenha momentos que isso não tenha te cansado.

Às vezes incomoda. Às vezes você está com um amigo e quer ir ao cinema, quer dar uma caminhada no shopping, ou está todo mundo indo para um show, teus amigos estão lá pulando no meio da multidão... Aí estou louco pra ir, mas não tem como. Então tem umas coisas que são diferentes na minha vida. Não tem como fazer.

Já tentou se disfarçar ou algum truque desse tipo?

Não, não. Às vezes, boto um chapéu, alguma coisa pra ver se passa mais despercebido, mas é difícil.

Chega uma hora em que o jogador está há tanto na Europa que deixa de ficar em evidência aqui no país. Você sentiu, às vezes, algo como: "será que o brasileiro ainda lembra de mim?" Isso passou pela sua cabeça em algum momento?

Não, porque estava em campeonatos que todo mundo acompanhava. Na França tinha menos visibilidade mundial, mas Barcelona e Milan são dois times que todo final de semana os jogos passam na televisão.

Eu li em seu blog que você não curte muito falar e escrever. Então você escreve raramente. Como é esse negócio? Tem a ver com o fato de ser gaúcho, tem a ver com a forma que você foi educado? Você é um cara assumidamente tímido.

É diferente, eu sou tímido e não gosto de televisão, câmera. Sou tímido pra fazer uma coisa que eu não tenho costume. Agora, se eu tiver que fazer propaganda com bola, essas coisas... a bola é minha vida, eu nasci com a bola. Então, ali eu já não sou tímido. Agora, mandar decorar texto, fazer fala, esse tipo de coisa que não é a minha. Se tiver alguém que eu não conheço... depois de dez minutos eu já deixei de ser tímido. O que me deixa tímido mesmo é esse negócio de entrevista, mesmo com todos esses anos.

Você tem algum medo? Algum trauma?

A coisa que traumatizou a minha família toda foi a forma como o meu pai morreu. Foi na piscina. Mar, piscina, tudo que é com água eu respeito muito. Ninguém aqui gosta de ver alguém sozinho na piscina. Quando vai um, fica outro em volta. Isso que aconteceu é uma das coisas que eu tenho mais... que eu não queria que acontecesse...

Sua irmã, Deisi, é sua assessora. O Assis, seu irmão, é o empresário. Você conseguiria não trabalhar com a família?

Pra mim, é maravilhoso. É muito fácil trabalhar com quem tu gosta. A vida toda minha irmã morou comigo, ela organiza a minha casa, minha vida, a agenda. Do outro lado o meu irmão é quem cuida de toda a minha carreira. É fácil trabalhar com a minha família. Ela não tem problemas, é muito unida, então é muito bom.

Sua mãe nunca fez nenhuma pressão para você se casar?

Não. Minha mãe quer me ver feliz. Ela fica preocupada quando me vê triste. Quando me vê feliz ela fica feliz também. Preocupação normal de mãe, de ver o filho feliz, não interessa como, com quem. Nunca me pressionaram pra casar.

Você teria motivos pra ficar triste? Chateado todo mundo fica, se você joga mal, se você lê alguma coisa que você não gosta. Mas qual foi a última vez que você ficou triste?

Depois que o meu filho nasceu, quando era a data do aniversário dele, ou Natal, e que a gente não estava junto. Eu queria ir, mas não podia estar junto. Nessas datas assim dava uma tristeza, eram os momentos mais... Daí eu tento passar por cima, porque sei que se eu não chegar em casa sorrindo, tudo fica triste. Minha família vive em função de mim, e quando chego triste, vejo que não tem ninguém sorrindo, todo mundo vai no embalo. Como eu não acho justo, eu procuro estar sempre bem para que eles estejam sempre bem também.

Você conseguiria morar sozinho?

Ia ser complicado. A vida toda juntos, gostando de estar junto... Sou família, minha mãe é minha parceira, minha irmã é minha parceirona, meu irmão é paizão. Todo mundo gosta de estar junto. Ficamos dois dias sem almoçar junto e já acham estranho. Todo mundo naquela pressão: "Oh, sumido!". A gente se fala quase todo dia.

Não tem muitos jogadores assim aqui no Brasil que estão tão próximos da família.

Eu acho que o que me faz ser tão família é porque eu ainda sou solteiro. Outros já casam novos e muda tudo. A esposa tem um jeito de ser, a mãe tem um jeito de ser, a irmã tem um jeito de ser, então é complicado conciliar tudo isso e botar dentro da mesma casa. O fato de eu ser solteiro me deixa muito família.

A mulher que conseguir agarrar o seu coração ela vai ter que contornar tudo isso.

E são todos ciumentos ainda [risos]. Minha mãe é ciumenta, minha irmã é ciumenta, todo mundo ciumento. Meu irmão protege bastante, mas é outro tipo de proteção, pelo fato de a gente ser homem já é uma proteção diferente. A mãe não, a mãe, a irmã já sai logo falando que "não gosta de quem tu tá".

Deve ter havido um momento em que você e seu irmão não concordaram em algo.

Várias vezes. Daí a gente conversa: "é importante, tem que fazer", "acho que não é legal, não é o momento, se fosse tu não faria". É conversa normal. De vez em quando ele me dá umas duras, a gente discute, mas tudo mais da parte deles pra mim do que eu pra eles. Eles não me dão problema.

Ver você jogar é um evento além do futebol. Dizem: "O Ronaldinho está se divertindo, ele se diverte enquanto joga". Eu tenho certeza de que você nem conseguiria fazer diferente. Futebol é mesmo aquilo que você mais gosta de fazer?

É, não tem como não estar feliz, é o que mais gosto.

Mas você não vai poder jogar pra sempre. Talvez você não goste de imaginar como vai estar daqui a cinco anos. Mas se depender de vontade você jamais vai deixar de se envolver com isso?

Ah, impossível. Tomara Deus que eu não venha a ter problemas de um dia não poder mais jogar. Lógico que não vou jogar pra sempre, mas sei que quando eu parar profissionalmente vou virar peladeiro, que é o que eu gosto de fazer. Pretendo jogar até quando o meu corpo resistir, até quando me sentir num nível legal. Depois vou virar peladeiro.