O Rei do Rio

De volta ao Brasil após dez anos jogando na Europa, Ronaldinho Gaúcho – agora mais carioca do que nunca – enfrenta assédio, tentações e o peso da experiência na árdua luta para reconquistar o topo do mundo

Por Pablo Miyazawa Publicado em 17/05/2011, às 10h21 - Atualizado em 21/06/2013, às 07h53

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"Não gosto de ver a minha casa assim." Ronaldinho Gaúcho olha ao redor como se estranhasse a quietude notável daquele início de noite chuvoso no Rio de Janeiro. De fato, da varanda deserta, nada se escuta além de ruídos mecânicos dos ventiladores de teto e um discreto chiado de televisão vindo de uma sala distante. "Fico triste com a casa neste silêncio", ele repete, fitando o vazio. "Gosto de música, barulho, um monte de gente." Seria essa a descrição adequada de um dia típico na mansão do mais badalado e bem pago jogador do futebol brasileiro. Mas há uma dezena de dias, a chegada das filhas de Deisi, irmã de Ronaldo, modificou em definitivo a rotina do clã Assis Moreira. Nascidas prematuras de sete meses e meio, as duas crianças trouxeram paz e calmaria a um lar acostumado a altos níveis de rotatividade.

Ronaldo, que de "inho" não parece ter mais nada, se mudou para o Rio de Janeiro há pouco mais de três meses. Há dois habita com a família em uma mansão, que adquiriu já mobiliada, para "não ter dor de cabeça". Só agora admite estar aclimatado ao ambiente impessoal do isolado condomínio de luxo na Barra da Tijuca, de vizinhança desconhecida e não tão próximo de grandes badalações. Após dez anos jogando na Europa - pelo francês Paris Saint-German, pelo espanhol Barcelona e pelo italiano Milan -, ele voltou a defender um time brasileiro, naquela que foi considerada a mais polêmica negociação do esporte nacional nos últimos anos. Especulações apontavam o astro como certo no Grêmio (RS), time que o revelou nos anos 90, quando não passava de um adolescente acanhado. Houve também conversas com o Palmeiras (SP). Por fim, ele assinou com o Flamengo. O imbróglio foi comandado pelo irmão Roberto Assis, que tomou para si a responsabilidade de realizar o corpo a corpo com a cartolagem. Já na condição de mais valiosa contratação do clube com a maior torcida do país, Ronaldinho foi taxado de "mercenário" por torcedores e críticos. A massa rubro-negra, porém, celebrou com histeria a chegada do ídolo, que jura ter sido o próprio responsável pela escolha do time que defenderá até 2014.

Leia mais perguntas e respostas da entrevista com Ronaldinho Gaúcho, publicadas com exclusividade neste site.

"Todo mundo me dizia: 'Você parece carioca. Combina com o Rio, gosta tanto, tem que vir jogar aqui'." Ronaldo, porém, não esconde que a motivação maior para o retorno ao seu país vai além de meras saudades do clima tropical: "Jogar tudo o que sei no Flamengo pra voltar à seleção", diz. "É esse o objetivo."

Naquele terça-feira, Ronaldo treinou até as 18h. Chegou esbaforido sem precisar dizer que provavelmente tem planos para mais tarde, pois parece - à sua maneira - montado para encarar a noite. Está vestido com uma camiseta da grife Ed Hardy, adornada por pedras brilhantes ao redor da palavra "Ronaldinho", bermuda longa, tênis de cano longo com seu nome escrito com strass na parte traseira. O vistoso relógio no pulso, cravejado de brilhantes, parece de brinquedo e está adiantado de propósito para evitar atrasos. O boné para trás segura a cabeleira longa caindo nos ombros. Visto assim, de perto, Ronaldinho até se parece uma caricatura mais caprichada do próprio Ronaldinho.

Sozinho, longe das vistas de qualquer parente e esparramado em um sofá de tecido branco, ele diz não ter pressa e promete o tempo que precisarmos (cumpriu: acabou falando por duas horas seguidas). Dá a entender que se sente aclimatado. "Agora é fácil convidar os amigos. Nos primeiros meses foi loucura." Até a aquisição do imóvel suntuoso virou notícia: sites divulgaram fotos aéreas de uma mansão paradisíaca que supostamente seria adquirida por Ronaldo. Tal propriedade, entretanto, se localiza em outra rua do mesmo condomínio. A casa da estrela do Flamengo é gigantesca, mas é até discreta se comparada à que fora especulada.

"O povo inventa umas loucuras que chega a ser engraçado", ele diz, com certa eloquencia, mas ainda aos sussurros. Aos poucos, o tom se eleva e ele se permite olhar nos olhos do interlocutor por cinco segundos seguidos. "Sou tímido. Não gosto de televisão, câmera", se desculpa, com um sorriso de desenho animado. "Mesmo muitos anos dando entrevista, continuo tímido."

No dia anterior, Ronaldo comemorou 31 anos em ritmo de folga. Ficou de fora da partida contra o Cabofriense no sábado anterior, por causa de uma suspensão por tomar o terceiro cartão amarelo no tradicional Fla-Flu. No domingo, aproveitou para adiantar a celebração do aniversário em uma festa de arromba em um clube no Recreio dos Bandeirantes. Na segunda, o técnico deu descanso ao time. Como costuma dizer para justificar fatos que independem de seus próprios méritos, Ronaldo deu sorte de curtir a ressaca sem treinar.

Nascido em Porto Alegre (RS), Ronaldo de Assis Moreira se comporta no Rio como um peixe em águas familiares. "O carioca é um povo feliz, que sabe viver. É aquele cara que está cheio de problemas, mas está sempre rindo, de bem com a vida. Em cinco minutos, é teu amigo", ele relativiza. Durante a semana de Carnaval, o novo carioca demonstrou seu apreço pela cidade, se dedicando de modo quase incessante à celebração pagã favorita dos locais. Realizou um sonho antigo, porém de maneira incompleta: desfilou em "apenas" três escolas de samba do grupo principal. "Se eu não tivesse que jogar naquele dia, teria desfilado em todas."

Com três meses, dá pra sentir o carioca em você?

Não, continuo do mesmo jeito. Mas já comentavam que meu jeito é de carioca. Minha adaptação foi fácil por causa disso. Não precisei fazer nada diferente. Escuto todo mundo comentar: "Agora virou carioca de vez, tem que mudar o nome!" Continuo gaúcho, bem gaúcho. Mas adoro o Rio e estou muito feliz aqui.

Quando resolveu vir, houve preocupação com o clima de violência que assola a cidade?

A gente sempre escutava que o Rio de Janeiro é muito perigoso, mas nunca tive problema. Tudo o que vi foi pela televisão. Quando vim, me disseram: "Vai voltar para o Rio no momento certo, porque, depois de tudo o que aconteceu no Alemão, o povo voltou a sair pra rua, sente-se seguro"... Dei sorte, porque todos falam que agora, sim, está bom de se viver no Rio.

Como começou sua relação com o Rio?

O Rio é maravilhoso. Conheci aos 15, por intermédio de um amigo na seleção, da categoria de base. A gente teve uma folga, e os que não eram do Rio tinham que ficar lá em Teresópolis, e os que moravam lá podiam ir para casa. Ele disse: "Vamos lá pra casa, eu moro em Bangu." Chegando lá já tinha samba, tinha tudo. Falei: "Este é o lugar". Quando não vinha jogar, vinha de férias. Minha paixão é coisa antiga.

O samba já fazia parte de sua vida na época?

Minha família sempre gostou de samba. E eu nasci escutando música. Nasci já no pagode. O Rio é onde tudo isso acontece, então já me identificava muito com a cidade mesmo sem morar aqui.

Futebol você sempre jogou, mas se lembra do momento em que começou a se dedicar à música?

As duas coisas vieram juntas.

Música e futebol?

Sempre gostei de tocar, sempre tive curiosidade. Desde pequenininho, meus tios faziam samba em casa. Tenho fotos minhas com um pandeiro na mão e com uma bola no pé. As duas coisas vieram ao mesmo tempo. E hoje em dia sou amigo da maioria dos caras que eram os meus ídolos. É pedir quase bênção por estar junto. Está sendo legal morar no Rio por isso também.

Quais artistas de que você mais gostava e de quem depois se tornou amigo?

Nasci escutando Alcione, pelo fato de a minha mãe ser fã. E o Zeca Pagodinho, por causa do meu pai e do meu irmão. O Neguinho da Beija-Flor, que eu escutava quando era pequeno e com quem hoje eu tenho amizade... Toda vez que os vejo é muito emocionante.

O que o samba ensinou para sua vida?

O respeito. O samba é isso. Uma das coisas mais bonitas é que o pessoal mais novo sempre respeita os das antigas, e eles procuram fazer com que isso não mude. Você vai na casa de um sambista e é aquela hierarquia. O samba me ensinou a respeitar os mais velhos.

O que samba e futebol têm a ver um com o outro? Não esquecendo que o futebol é seu trabalho e também o que você mais gosta de fazer...

Se pudesse jogar escutando samba, seria perfeito [risos]. É uma das coisas gostosas de voltar a jogar no Rio: a torcida é diferente da Europa. Eles cantam o jogo todo. Noventa minutos de alegria ao máximo. Tinha perdido um pouco esse lado. Na Europa, a torcida é certinha. Numa jogada bonita, o máximo é "oooh". Aqui é outra vibração. Jogo no ritmo do samba.

E o hip-hop? Você subiu ao palco de 50 Cent em um show. Ele é um dos caras que você curte?

Muito. Ele, o Jay-Z, o Lil Wayne. Eu gosto do jeito que se vestem, de como cantam. Sou fã desses caras. O 50 Cent é um parceirão. Quando veio pro Brasil, dei a sorte de estar aqui e fui curtir o show com ele.

O que você gosta mais no rap norte-americano? Procura saber o que eles estão cantando?

Eu gosto das letras. Adoro o hip-hop, porque isso ajuda a treinar meu inglês. Eu não falo bem e sempre tive curiosidade, então as músicas me ajudam muito, traduzo as mensagens. Passa uma visão bem real de cada bairro, de cada local. Acho muito legal.

E o rap nacional? Hoje, você consegue ainda se identificar com o que os Racionais MC's cantam?

Os Racionais falam sobre a realidade que acontece em quase todas as favelas, em todas as comunidades. Sou fã do [Mano] Brown. A mensagem que eles passam é algo que já vivi. Me identifico com tudo o que eles cantam pelo fato de ter vivido muitas daquelas coisas.

Você já mencionou que quer se envolver com música quando parar de jogar. Como faria, já que não toca instrumento algum?

Meu sonho é aprender a tocar. Sempre gostei de cavaquinho, violão, fui curioso para todos os instrumentos. Tenho um monte, fico lá tentando. Sei uma meia dúzia de notas, pergunto pros amigos e procuro músicas que encaixem. Alguma coisa sei, mas não tenho muita noção. Tenho vontade de ter um estúdio e aprender a mexer. Futuramente, se Deus quiser, vai dar certo. Hoje é impossível, mas meu plano é esse.

Tem algum artista com quem você gostaria de fazer uma parceria musical?

Muito difícil [pensa]. Sou louco por samba, então é muita gente. Se eu falar o nome de alguém e não citar outros, os caras vão me... Sei lá, Almir Guineto? Só de apertar a mão já estaria bom. Imagine fazer uma coisa junto?

Envolvido com o ambiente futebolístico desde os 7 anos, Ronaldinho jamais cogitou ser ou fazer outra coisa da vida. Roberto Assis, o irmão-empresário, que também defendeu o Grêmio como jogador (nos anos 80), dias antes me revelou ter contribuído direta e indiretamente para a vocação do irmão caçula. "Desde criança ele já vive nesse universo. Tem foto dele no vestiário comigo. A vida dele foi sempre essa doideira." Escancarando um sorriso cheio de dentes, Ronaldo também atribui a inevitabilidade de sua trajetória a fatores intangíveis. "Deus olhou pra mim", ele diz (mais tarde, explicaria que "Deus é Deus e o resto cada um segue do seu jeito"). "No final de semana, meus ídolos estavam dentro de casa. Eu olhava para os jogadores e dizia: 'Quero ser igual a esse cara aí'." Quando pressionado, entretanto, ele se permite admitir a existência de atividades negativas na rotina de um jogador profissional. Como, por exemplo, conceder entrevistas logo após o encerramento de uma partida.

Critica-se muito o discurso padrão do jogador, mas não deve ser lá muito fácil falar algo genial após correr durante 90 minutos...

E nem sempre dá pra ser criativo, porque as perguntas são sempre as mesmas... O cara vem me perguntar já sabendo a resposta.

E o que mais pode ser considerado ruim na rotina do jogador? Vocês treinam diariamente...

Todo dia, com sol, chuva, neve. É difícil. Menos dez graus e ter que pensar em drible, com tudo congelado. Passar pomada pra esquentar o pé, com o campo cheio de neve... São coisas que eu nunca tinha imaginado, e depois que fui pra Europa bati de frente com isso.

Houve choque cultural quando você se mudou?

Eu me adaptei bem, não sofri muito com isso. Pra mim, o mais complicado é a temperatura. E olha que Porto Alegre faz frio, mas é um frio diferente. Às vezes eu falo com o pessoal que está na Rússia, numa temperatura de menos 20: "Como é que faz pra jogar, se não sente nem o pé?"

E que tal a torcida do Flamengo?

É um fanatismo diferente de tudo o que eu já vivi. O flamenguista é completamente diferente de tudo.

Não dá medo, por eles serem tão apaixonados?

Não. É lógico, tenho consciência de que o dia em que perder título as cobranças vão vir. Mas isso me motiva. Eu gosto dessa pressão. Se tiver um jogo às 4 da tarde, o flamenguista vai ficar na dúvida entre almoçar ou ir ao jogo. E ele vai para o jogo. Então não tem como chegar dentro do campo e não correr, porque aquilo é uma força fora do normal.

Em 2009, Ronaldo Nazário retornou da Europa para jogar no Corinthians. Nesse sentido, a trajetória de vocês é até parecida.

Acho que não foi só eu e o Ronaldo que tivemos essa trajetória. Isso acontece com a maioria dos jogadores, desde antigamente. Normalmente, a gente vai para a Europa para ajeitar o lado financeiro. Porque, se o Brasil fosse lá fora, poucos jogadores sairiam.

Você acha que o brasileiro gostaria de continuar jogando aqui se fosse bem pago?

Com certeza. Com a maioria com quem já falei a respeito, todos disseram a mesma coisa

Então a situação atual é a ideal para você.

Em tudo. Dei sorte de ir lá e conquistar quase todos os títulos importantes. Mas aqui no Brasil eu não tinha conquistado quase nada. Queria voltar para continuar tendo esse estímulo, competições novas, ter objetivo. Lá fora estava caindo numa mesmice que já não estava legal. Voltar para um clube grande, em que a torcida é desse jeito, era um ânimo que faltava para ter alegria para jogar.

Você conseguiu permanecer isolado das críticas enquanto se decidia sobre para qual time iria?

Os caras criaram uma novela... Todo santo dia era um time ou era outro. "O irmão dele já falou aqui, tá certo aqui, tá certo lá." Quando na verdade eu sabia que não tinha nada certo. Eu não tinha decidido, então não tinha como alguém falar. Foi se criando muita coisa, mas eu consegui ficar um pouco à parte, porque meu irmão ficou responsável por tudo e me deixou à vontade. Mais uma vez, ele me salvou.

Algumas torcidas não ficaram felizes com o desfecho, especialmente a do Grêmio.

Fiquei chateado, porque meu time do coração é o Grêmio. Pintou a possibilidade de voltar para lá, mas depois acabei vindo para o Flamengo. É uma situação ruim, porque quando saí do Grêmio [em 2001] a história já tinha sido complicada. E, pela minha escolha, a torcida que eu não queria chatear, acabei tendo que chatear.

Acha que será perdoado pelos torcedores?

Não sei como vai ser o futuro. Quando tiver que jogar, eu vou jogar e isso não muda nada. Hoje em dia defendo o Flamengo e sou profissional, vou jogar como sempre fiz. Não tem muita história. É jogar e deu.

Você se preocupa com o futuro, ou com a "imagem que o Ronaldinho deixará para a juventude"?

Queria que se lembrassem de mim como uma pessoa legal - não só como um jogador de futebol, mas um atleta que se manteve em um nível legal. A preocupação é procurar fazer as coisas mais corretas possíveis, para que daqui a alguns anos vocês não tenham tanta coisa de ruim pra falar.

A ideia que a mídia tem é a de que você é calmo e que dificilmente sai do sério. Eu imagino que ninguém consiga ser assim o tempo todo...

[Interrompe] Mas me tirar do sério é difícil.

Por quê?

É o meu jeito, cara. Eu sempre fui assim. Sei lá. Tudo tem o lado bom e o lado ruim. Prefiro ficar com o lado bom e vamos embora. Deixa o lado ruim pra lá e vamos com o lado bom.

Dizem que o seu futebol tem a ver com alegria. Somente se estiver feliz, sem preocupações, vai conseguir jogar bem. É isso mesmo?

Eu sou assim: quando estou feliz, está tudo certo. Quando o momento não é legal, é complicado. É lógico que você entra lá por 90 minutos e esquece tudo, mas faz diferença. Acho que em todas as profissões é dessa forma.

Vocês são crucificados quando jogam mal, o país critica se perdem a Copa. Você acha que a pressão é exagerada em cima do jogador, em um país cujo esporte número um é o futebol?

Nunca parei pra pensar, porque sempre vivi desse jeito. Desde quando me conheço por gente, sempre encarei o futebol dessa forma. A cada três dias, muda tudo. Um dia estou perna de pau, outro dia estou craque.

Então já se acostumou à pressão?

Não tenho outra opção. O mental é tudo. Se estiver fraco, tu não anda. Se pega uma fase em que a cabeça não está legal, não tem como. Se parar pra pensar em tudo o que está ali, o mental tem que estar forte.

Dá para dizer que seu desempenho já foi comprometido por falta de equilíbrio emocional?

Várias vezes. É complicado, cara. Quando se está num momento em que o time não ganha, é uma porrada atrás da outra. É domingo, é quarta, é domingo, é quarta... Você está fazendo tudo pra acertar e as coisas não acontecem, e aí tem que pensar o porquê de não estar dando certo. E se o mental não está forte...

Já se arrependeu de ter feito algo?

Não. Todas as coisas que não deram certo, é porque não eram pra dar certo mesmo. Não tem nada extracampo de que me arrependo. Dentro de campo, sim. Vários momentos "que merda", que fiz e deveria ter feito de outro jeito [risos]. Não tem como programar muito. Tudo acontece em segundos.

Ronaldinho é muito provavelmente o jogador mais "família" do atual futebol brasileiro. Em sua casa, moram a mãe, Miguelina, a irmã, Deisi (que exerce a função de assessora do caçula) e o cunhado, Sérgio (que dirige para Ronaldo - o jogador teve "problemas" com a habilitação há alguns anos), além das duas sobrinhas. Já Assis está sempre por perto, dividindo-se entre gerenciar a carreira e ser o mentor do irmão. "É fácil trabalhar com quem tu gosta e não tem problemas", Ronaldinho comemora. O pai, João, morreu em um acidente em uma piscina em 1989. "Por isso que tudo que é com água eu respeito muito", explica, apontando para a piscina de porte discreto do outro lado do jardim.

"Se eu não chegar em casa sorrindo, tudo fica triste", Ronaldo exprime de maneira parca o funcionamento de um sistema solar em que o astro principal é ninguém menos que ele próprio. "A família vive em função de mim. Sei que, quando chego triste, todo mundo vai no embalo. Como não acho justo, procuro estar bem para que eles estejam bem também." Mas, conforme se observa sua rotina, parece óbvio que ele não tem pressa alguma de romper laços. "Se fico dois dias sem almoçar junto, é aquela pressão: 'Ô, sumido!'", diz. Nada deve mudar enquanto o jogador permanecer solteiro - situação que deve se manter ainda por tempo indeterminado, pelo menos no que depender de sua vontade. Apesar de superexposto e nem sempre discreto, Ronaldinho dribla com relativa facilidade o interesse da mídia por seus relacionamentos. Seu caso mais notório desde que se tornou famoso, com Janaína Natielli, ex-dançarina do Domingão do Faustão, foi justamente o que lhe rendeu o único filho, João.

Você fez 31 anos ontem. Qual era sua expectativa antes de chegar à casa dos 30? A idade pesa?

Que nada! No Brasil, ser jogador aos 31 anos é ter experiência. Na Europa, todo mundo joga até uns 30 e poucos. No meu time [Milan], eu com 29 era um dos mais novos. Mas não senti mudança nenhuma.

Você não sente que demora para se recuperar de lesões, ou leva mais tempo para perder peso?

Eu dou sorte. Tive poucas lesões, graças a Deus. Até agora nada mudou muito dos meus 20 pra cá. Só esse lado aí, de ter que perder peso. O corpo dá uma mudada no caso de uma recuperação. Mas o resto...

E cabelo branco?

Tenho pra caramba, herança de meu pai. O que ele deixou foi só cabelo branco. Eu pinto, desde os 20 anos. Já não corto o cabelo curto porque tenho medo de ter mais fio branco do que preto. Pinto o cabelo de três em três meses.

Mas as mulheres gostam, não?

Pode ser que eu venha a me adaptar, mas nunca gostei. Até mesmo porque comecei a ter muito novo, então era só eu da minha idade com cabelo branco. Aliás, todo mundo em casa - meu irmão, minha irmã, minha mãe... Meu pai era quase todo grisalho.

Você já chegou perto de pensar em se casar?

Muitas vezes. Penso direto. Meu filho está com 6 anos e o legal de ter voltado [ao Brasil] é viver perto dele.

Já se sente como um pai de verdade?

Ah, estou me sentindo todo poderoso [risos]. Não sei se é porque ele cresceu. Hoje converso com meu filho e estou no momento mais feliz da minha vida.

Vocês saem sozinhos?

A mãe dele acompanha sempre. É uma pessoa legal, me ajuda pra caramba com ele, faz tudo. É nota mil, não me incomoda. A gente está se dando muito bem.

Por que não se casou ainda? É bom ser solteiro?

É bom demais, cara. Tem gente que gosta de ser casado. Eu gosto de ser solteiro.

É uma questão de vocação. Você...

[Interrompe] ...Eu gosto dessa vida que levo. Estou solteiro, mas não estou sozinho [risos]. Tudo certo! Gosto da minha liberdade, de sair e não ter que dar explicação pra ninguém. Lógico, eu me imagino casado, mas com alguém que me entenda. E como é complicado entender... [gargalhadas] Eu fico solteiro.

Não é segredo que você curte baladas. Mas critica-se o jogador que gosta da noite, porque diz-se que a atuação em campo é prejudicada...

Sempre procurei ter um cuidado de não vacilar e sair antes de dia de jogo. Vou quando dá. Se tenho jogo daqui a três dias, é uma brecha para eu ir. Se o treino é à tarde, fica fácil de ir porque dá pra dormir legal de manhã e recuperar. Também não gosto de dar mole de sair e depois ir direto treinar. Não que nunca tenha feito, mas não gosto. Dou sorte de ter tido poucas lesões, então nunca tive problema de perder o horário e não ir treinar. Às vezes que isso aconteceu foram poucas, então fico tranquilo.

Você morou em cidades badaladas, mas não acha que o Rio apresenta ainda mais tentações para um jogador?

Todas as cidades em que morei tinham muito agito. O Rio tem muita coisa, mas é igual às outras cidades. A diferença é que aqui tem samba, que nas outras não tinha. Nunca tive problemas antes, então não imagino que eu vá ter no Rio.

Você lê o que sai sobre você na mídia?

Não sou de ficar olhando muito. Só quando a coisa está boa. Se tem coisa pra me botar pra baixo, nem vejo. Certas coisas que não são verdade vão te irritar. Tem outras que tu não está de acordo e vai ficar indignado. Mas em nenhum momento pensei: "Vou para o Brasil e vão me encher o saco".

Você consegue passar despercebido, ir a restaurantes sem ser reconhecido?

Quando era criança, o pessoal já comentava: "Ele é o irmão do Assis que joga no Grêmio". E não era nem por mim, era porque o meu irmão jogava. Desde pequeno a minha vida foi assim, incontrolável.

E você nem diria que se irrita, porque afinal, essa é a sua vida.

Eu iria me irritar se não fosse assim. Sempre sonhei ser jogador, ser conhecido, dar autógrafo. Nasci vendo isso, e era o que eu queria da minha vida. Ficaria incomodado se não tivesse isso.

Mas já quis ser anônimo?

Às vezes [risos]. Sou louco pra ir no Carnaval da Bahia e ficar pulando lá no meio, e sei que não tem como.

Você se descreve como "tranquilo". E o que mais?

Sou uma pessoa feliz, com família, todo mundo bem, cheio de saúde. Os problemas que tenho são fáceis de resolver. Sou abençoado por ser tão feliz assim.

Você nunca parou pra pensar: "não é possível que eu não tenha nenhum problema"?

Penso de vez em quando, mas é natural. Preocupações e dúvidas normais. Coisas da vida - caso, não caso, compra bicicleta, não compra. Preocupações, acho que todo mundo tem. Não sou de ficar martelando em cima de uma coisa. Passo por cima.

Mesmo porque em três dias tem outro jogo e...

...E a vida muda.