Rimas e Um Confeito a Mais

Criolo, que começou como rapper, amplia sua estrada para estilos variados em novo disco

Por Ronaldo Evangelista Publicado em 16/06/2011, às 10h38

SEM RIMAR Nem tudo é rap no segundo trabalho do rapper Criolo
Junior Furlan/Divulgação

Kleber Gomes tinha 12 anos quando descobriu o rap. "Um amigo fez uma rima e descobri que tinha isso, as pessoas podiam versar", ele diz. "Você detecta e começa a perceber as coisas ao seu redor, e, quando vê, aquilo faz parte de você." Era o final da década de 80, tudo muito diferente: o jeito das pessoas, os cortes de cabelo, os gostos, quais discos chegavam ao Brasil, os bailes, os colégios, a rua. Vivendo no Grajaú, extremo sul de São Paulo, Gomes cresceu para virar Criolo Doido, rapper de musicalidade incomum em suas rimas e imaginação especial para construir sua poesia ao mesmo tempo amorosa e incisiva.

Rimando há pelo menos 20 anos, contemporâneo da segunda geração do rap nacional, foi gravar o primeiro CD, Ainda Há Tempo, só em 2006. Pela mesma época criou, com seu parceiro DJ Dan Dan, a Rinha dos MCs, importante encontro para MCs de Freestyle e baile com discotecagens em vinil, itinerante por bairros de São Paulo e outros estados.

No espírito das rinhas, o segundo lançamento de Criolo foi o DVD ao vivo Live in SP, em 2010. A questão é que, na sequência, começou a sentir que o ciclo no rap estava perto de concluído e andava pensando em canções, cantando sambas, compondo melodias. Nessas, conheceu Marcelo Cabral, contrabaixista que no ano passado produziu o CD de Lurdez da Luz, e Daniel Ganjaman, do Instituto, e com eles foi gravar.

Alguns meses depois do encontro, o resultado é o álbum Nó na Orelha, saindo agora (em CD e vinil). A produção é altamente caprichada, deixando Criolo à vontade para alternar raps com canções como a balada soul com arranjo de cordas "Não Existe Amor em SP", o afrobeat "Bogotá", o samba "Linha de Frente" e o dub "Samba Sambei". Com participação de músicos como Guizado, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Thiago França e Juçara Marçal, o disco é oportunidade para Criolo cantar e rimar - e bem - cruzando a força do discurso rap nas canções e a musicalidade nas rimas (ou versos, já que a rima nem sempre é prerrogativa).

Se soa natural a fluência entre imagens, sensações, citações e ritmos, é parte do processo criativo de Criolo. "O grande lance é a escolha do caminho pra chegar no objetivo, essa é a riqueza", observa. "Fala 50 temas e me diz quem ainda não cantou sobre eles, em qualquer segmento musical? Mas o caminho é de cada um, porque sua pegada já é diferente da minha, mesmo a gente andando na mesma rua. Eu senti. Pensei, já foi outra coisa, já tem um confeito a mais." Para Criolo, o ato de compor é um processo de fases distintas. "Passar pro papel, ter a vivência de como construir seu texto, já é uma terceira coisa. Rever, voltar já é quarta, quinta coisa", explica. "Aí você vê o caminhar de cada um, onde tem a poesia de conseguir deixar viva aquela primeira coisa que te moveu. O caminho que cada um faz é uma coisa rica."