A Ressurreição de Steven Tyler

Depois de anos de dependência, clínicas de reabilitação e problemas de saúde, o líder do Aerosmith encontrou o renascimento no lugar menos provável: a bancada de jurados do American Idol

Brian Hiatt Publicado em 20/07/2011, às 19h57 - Atualizado em 02/07/2013, às 17h21

<b>FÉRIAS PERMANENTES</b> Tyler em sua casa em Los Angeles, em março

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Por um instante, Steven Tyler quase fica sem palavras. Ele está parado na beira de um penhasco no Laurel Canyon, se extasiando com a paisagem de Los Angeles a seus pés, a cidade esparramada aos poucos dando lugar às montanhas de picos brancos no horizonte. À sua esquerda, depois das colinas verdejantes, uma gangue de nuvens escolheu o letreiro de Hollywood como alvo de uma rajada de chuva. Um vento repentino faz os cabelos de Tyler esvoaçarem enquanto ele recebe tudo de peito aberto. Um suspiro fundo de ar frio, e então ele retoma o monólogo que vem recitando desde que aprendeu a falar. "É tudo mágico", diz Tyler em sua voz rasgada e empolgada, apontando para a tempestade. "Hollywood está chorando, porque a cerimônia do Oscar acontecerá amanhã à noite - está triste por ver o ano terminar, mas também está derramando lágrimas de alegria, porque vai começar tudo de novo."

Tyler fala sério sobre tudo isso, e é capaz de fazer você acreditar também. Ultimamente ele está em um estado maníaco, místico de embasbacamento e gratidão, praticamente vibrando com doces emoções - daí a positividade inabalável que ele exala em seu novo trabalho como jurado do American Idol. "Não tenho certeza se vou ser um mago capaz de disparar bolas de fogo quando chegar aos 80 anos", diz ele, andando pelo topo da colina. "Tenho tido muita sorte atualmente", diz ele. "Estou no topo do mundo." Há quatro meses, o líder do Aerosmith havia se mudado de Boston para Los Angeles por causa do emprego em Idol, que mudou sua vida. Para isso, alugou uma casa neste bairro de Hollywood Hills, com sua fascinante beleza natural - um eco dos bosques de New Hampshire onde ele passou os verões de sua infância, subindo em árvores, tirando a pele de guaxinins e fazendo a história do rock and roll.

O Aerosmith não lança um álbum de músicas inéditas faz uma década - seu último sucesso de verdade, "Jaded", de 2001, foi há a tanto tempo que o clipe contava com a participação de Mila Kunis ainda adolescente. O único disco de estúdio que eles conseguiram lançar depois disso foi uma coleção de covers de blues, Honkin' on Bobo, em 2004. Nesse meio-tempo, Tyler recebeu um golpe duro atrás do outro: descobriu que tinha hepatite tipo C em 2002 e teve seu sistema imunológico devastado pelo tratamento; foi erroneamente diagnosticado com um tumor no cérebro; descobriu que tinha mais outra terrível, mas já resolvida, doença que ele não diz qual é; fez uma cirurgia a laser para tratar um problema na garganta que podia vir a ameaçar sua voz; sofreu com um problema no pé que podia tê-lo afastado dos palcos para sempre; voltou a se viciar em drogas - prescritas, em sua maioria; passou por uma tentativa de desintoxicação e duas passagens por clínicas de reabilitação; caiu do palco em frente a milhares de fãs em Sturgis, Dakota do Sul, durante "Love in na Elevator"; seus parceiros de banda o ameaçaram constantemente de demissão; sua esposa o deixou depois de 17 anos; sua mãe morreu; à certa altura, seus filhos estavam convencidos de que ele iria morrer também. "Eu estava um trapo", diz Tyler.

Mas a última reabilitação parece ter funcionado; ele engatou um namoro sério, com Erin Brady, de 35 anos; conseguiu a vaga em Idol e ter chegado ao fundo do poço só o ajuda a saborear seu atual momento, aqui no topo do mundo. "Se você está sóbrio há 20 anos, perde a sensação de recompensa de ficar sóbrio pela primeira vez", diz ele. "Ficar sóbrio pela primeira vez é quando você está com tudo. É um renascimento, totalmente. Então na vida o que seria do sim sem o não? O que é o inverno sem o verão?"

Ele está vestindo uma jaqueta de couro brilhante e texturizado do All Saints, uma camiseta laranja avermelhada estampada de batik, calças cargo de couro marrom e os mesmos tênis de corrida que usou na gravação de Idol na noite passada - as laterais são cortadas para acomodar seus pés danificados. Ele anda rapidamente, em passos constantes, e uma ligeira puxada a cada pisada. Há anéis grossos em dois dedos de cada uma de suas enormes mãos. Ele também usa vários colares, um deles adornado com o dente de um guaxinim que pegou quando tinha 18 anos. Os tempos difíceis não deixaram muitas marcas nele, rock star alienígena que é - nem jovem, nem velho. É impossível imaginar Tyler em qualquer outra profissão ou formar a imagem do vocalista vestindo gravata e cabelo escovinha - ele é o que é, em todos os universos possíveis. Suas feições vividamente exageradas parecem feitas de borracha, moldáveis, como se ainda estivessem negociando um formato final - o que combina com seu estado mental sempre em movimento. Seus dentes são tão brancos que até cegam. Seu cabelo é longo, grosso e castanho, com luzes loiras aplicadas e vários fios multicoloridos de qualquer coisa amarrados, à la Keith Richards.

No início do ano passado, no auge de uma pendenga de meses com a banda (eles ameaçaram substituí-lo por cantores como Lenny Kravitz e Paul Rodgers), Tyler procurava por um plano B: "Disse ao meu empresário: 'Foda-se, me arrume um emprego'". Acabou no American Idol, um programa a que não assistia.

Ele está longe da rigidez do ex-jurado Simon Cowell. "Não é como se eu estivesse julgando alguém que cometeu um crime, como um juiz de verdade!", conta Tyler. Mas, como ele pode ser o primeiro a contar, os Estados Unidos o amam em seu novo papel. Ele é levado às lágrimas tanto pelas histórias tristes quanto pelas performances dos concorrentes; é verbalmente criativo; consegue ao mesmo tempo flertar e ser paternal com as jovens mulheres participantes, sem horrorizar a nação. Parece manter uma paz respeitosa com a outra jurada novata, Jennifer Lopez, e tornou-se amigo do veterano Randy Jackson.

Tyler lançou em maio uma autobiografia, Does the Noise in My Head Bother You? , cheia de histórias imorais que não têm nada a ver com o Idol, e agora lançará o primeiro single solo de sua carreira, uma faixa exuberantemente pop chamada "Feels So Good". Mas ele tem uma preocupação infinita com a banda que ajudou a formar há 41 anos, especialmente quanto à sua relação conturbada com o guitarrista Joe Perry ("Meu outro eu, meu irmão demônio", diz ele no livro).

Tyler cativou as pessoas por trás do American Idol ao tocar piano no escritório de um produtor e contar histórias de sua infância pré-rock and roll. "Entrevistamos provavelmente umas 40 pessoas para a vaga", disse o executivo do canal Fox, Mike Darnell, "inclusive Roger Daltrey [vocalista do The Who] - ele foi o oposto de Steven, muito formal, com o cabelo curto, parecia um cara comum. Mas Steven foi inacreditavelmente carismático. Não foi esnobe ao falar de música - contou-me que seu pai tocava música clássica. Disse que às vezes fica emocionado com algumas músicas e chora quando as ouve. Eu soube logo de cara que tínhamos algo precioso em mãos."

No topo do piano em sua casa no Laurel Canyon, há uma foto em preto e branco de um jovem e chapado Tyler ao lado de Michael Jackson na boate Studio 54, nos anos 70, um bloco de folhas amarelas pautadas com versos de uma música ainda inacabada, uma nota autografada por Paul McCartney, agradecendo-o por sua participação no medley de Abbey Road no tributo do Kennedy Center Honors à sua música, e um pacote com informações sobre cada um dos finalistas do American Idol. Ele tem um pedestal de microfone enrolado por echarpes, sua marca registrada, e um violão de 12 cordas repousa em um apoiador.

"Acredite", diz Tyler, "tenho escrito músicas por 40 anos, e este é um ano mágico, porque a porra toda está vindo. Talvez seja porque estou limpo de novo."

Tyler ouve o som de um helicóptero sobre a casa e ri satisfeito. "Lá vem Joe Perry!" Conforme o barulho das hélices vai se tornando mais distante, ele corre até a parede de janelas na parte de trás da casa e balança seus longos braços sobre a cabeça: "Não, Joe, a casa é aqui!" Ele ri. De fato, Perry mandou um SMS furioso no começo do dia - Tyler não revela o conteúdo - e ele ainda não respondeu. O Aerosmith se encontrou com o vocalista em Los Angeles há algumas semanas para trabalhar em umas demos (títulos provisórios incluem "Bobbing for Piranha", "Asphalt" e "Legendary Child") - mas Tyler não conseguiu falar com Perry e a banda gravou sem ele (o empresário de Perry diz que o guitarrista simplesmente não estava disponível para a sessão). Tyler mostra para mim algumas das músicas naquele mesmo dia, e elas ainda soam como o Aerosmith - riffs de rock sinuosos e baladas soul com vocais grandiosos, apontando mais para os anos 70 do que para os 90.

O Aerosmith era terminantemente contra a participação de Tyler em Idol. Eles chegaram a dizer em documentos legais que pegar o emprego poderia indicar a recusa de uma turnê, uma falta passível de demissão por justa causa pelas regras de sua parceria - embora o contrato de Tyler no programa especificamente dê a ele liberdade para excursionar com a banda. Em uma entrevista, Perry desprezou o American Idol, desqualificando-o como uma porcaria comercial: "Está um passo acima das Tartarugas Ninja", declarou.

"Tudo o que fiz, e agradeço a Deus por isso, foi aceitar o risco", diz Tyler. "Ouvi alguém dizer: 'Bob Dylan faria isso?'. E eu disse: 'Não'. Senti uma vergonha imediata. Poderiam ter me transformado em uma piada, poderia não ter funcionado: 'Ele é uma droga, esteve no Idol e vimos quem ele realmente é. Um idiota'. Poderia ter acontecido."

Ele segue para sua sala de meditação, depois de um corredor decorado com um pôster do American Idol, uma caricatura do Aerosmith feita com caneta nanquim e uma foto dele com Tony Iommi, Jimmy Page e Jeff Beck tirada na cerimônia do British Awards 2007. A sala é pequena, com carpete felpudo cor de creme, um espelho de corpo inteiro e dois sofás com o mesmo padrão balinês alaranjado dos sofás da sala de estar, e bonecos de pelúcia dos quatro beatles em um canto. Tyler senta-se no sofá da esquerda e coloca um travesseiro debaixo de seu corpo. "Tenho que endireitar minhas costas, porque me acabei nos últimos 40 anos de banda", diz ele. "Muita gente pensa: 'Oh, ele voltou às drogas e à reabilitação'. Mas eles não sabem o por quê. Vou te mostrar." Ele tira suas sandálias de couro, suas meias pretas, suas bandagens e levanta seu pé direito.

É como se todo o dano físico de anos de um estilo de vida pesado fosse concentrado em um único ponto, como se em vez de ter uma pintura na sala representando sua carreira, tivesse seu pé: os dedos estão entortados uns sobre os outros, distorcidos. É difícil de olhar. "Não quero dar uma de coitado - estou indo tão bem - mas é isso que tenho como pé", diz ele. A condição é chamada neuroma de Morton - e ele a agravou ao passar anos dançando no palco calçando botas Beatle apertadas demais. Seu outro pé também era assim, mas voltou ao normal depois de uma dolorosa cirurgia corretiva há três anos.

Depois dos sempre crescentes excessos dos anos 70, que fizeram com que Tyler e Perry merecessem a alcunha de Toxic Twins (Gêmeos Tóxicos), e que no fim das contas foram responsáveis pelo degringolamento da carreira deles por volta de 1980, Tyler viveu 12 anos de sobriedade, conduzindo o Aerosmith a alturas que ultrapassaram sua primeira fase de sucesso. Mas por volta de 2002 ele começou a derrapar. Tyler culpa, de maneira não muito coerente, o diagnóstico de hepatite e a dor causada pela condição de seus pés. Analgésicos e Frontal eram suas drogas da vez, e, conforme as dores nos pés pioraram por volta do ano de 2007, ele passou a cheirar pílulas de Frontal, que ele chamava de Zanzibars. A cirurgia no pé multiplicou seus problemas. "Fiquei engessado por três meses e eles me deram uma tonelada de remédios para a dor", diz ele. "Sendo um viciado em drogas e alcoólatra, eu tinha tudo o que queria." No terceiro mês de recuperação estava cheirando OxyContin também. Então, certa noite, ele voltou a usar cocaína. "No dia seguinte acordei e disse: 'Mãe de Deus, o que estou fazendo?'"

Assim seguiu para a reabilitação, e logo estava limpo, mas sentindo dores excruciantes, imaginando como faria para voltar às turnês. No verão de 2008, Tyler voou para casa para ficar com sua mãe, idosa e enferma. Ela foi sua primeira fã, o levava aos shows; não riu quando ele disse, ainda um desconhecido de 19 anos, que ela logo teria que comprar uma casa nova para se livrar das fãs enlouquecidas. Ela morreu em julho de 2008, e Tyler não aguentou. Poucos meses depois da reabilitação, voltou a se drogar.

O Aerosmith tentou fazer um novo álbum com Brendan O'Brien, o produtor do Pearl Jam e de Bruce Springsteen. As sessões fracassaram e o Aerosmith culpou Tyler por ter aparecido com pneumonia. Tyler hoje diz: "Joe e eu estávamos chapados". Pela primeira vez em décadas, os Toxic Twins usaram drogas juntos. "Estava ensaiando com Joe, conversando, e disse: 'E aí, o que você tem, cara?' Exatamente como há 30 anos. Nossa amizade era à base de drogas, bandas como a nossa eram assim, e só depois que começamos a compor sóbrios é que percebemos que havia um outro mundo inteiro lá fora."

Durante as sessões com O'Brien, diz Tyler, ele e Perry estavam cheirando pílulas no banheiro, o que não ajudava exatamente na música (apesar dos pedidos insistentes, Perry se negou a comentar essa história). "Joe estava louco, e não conseguia tocar", diz Tyler, "e eu não conseguia cantar, mesmo, porque eu estava cheirando tudo, e isso fode sua garganta. Foi a hora errada, não foi certo". Além disso, ele não se dava bem com O'Brien.

Talvez pela espantosa quantidade de vezes que passou pela jornada de redenção que vai do vício à recuperação, Tyler certas vezes tem problemas em manter o tom de remorso que normalmente acompanha esse tipo de história. "O engraçado é que não importa, mesmo", diz ele. "Eu estava usando, e daí? E daí se posso usar semana que vem. Duvido, porque estou realmente empenhado em meu programa, e há uma reunião na segunda à noite a qual tenho que comparecer. Estou muito orgulhoso, cara, por, como diz Anthony Kiedis, andar no trem da sobriedade. Muitos de nós estão sóbrios e realmente orgulhosos pra cacete disso. E eu não ligo. Salvou minha vida. Quando você vive uma vida tão rica quanto a minha", ele complementa, mudando de mentalidade de novo, "mereço ficar chapado. É que a diferença entre eu e você é que sou um viciado em drogas. Em outras palavras, uso independentemente das consequências adversas - meus filhos me abandonando, o dinheiro indo embora. Sou um idiota. Mas não sou realmente um idiota. Não sou uma má pessoa virando uma boa pessoa. Sou alguém doente se recuperando".

A cabeça de um dos empregados de Tyler surge pela porta - o American Idol está começando. Nos juntamos a Brady, a namorada de Tyler, na sala de estar, onde a TV está suspensa sobre a lareira. Nos sentamos para ver o programa, com Brady deitada sobre o estômago de Tyler por um tempo. É meio de fevereiro, então se trata de um episódio inicial, em que descobrimos quem ficou entre os 24 finalistas. Como em todas as edições em que resultados são mostrados, a duração é irritantemente esticada para duas horas - mas Tyler assiste à coisa toda concentrado, como se nunca tivesse assistido ao programa antes. E não assistiu, de certa forma.

Tyler achou o processo de audição inicial estressante. "Sentar em frente a uma câmera por oito horas é ridículo", diz ele. "Mesma coisa, mesmas pessoas, mesma merda, esperando que alguém cante e salve o dia." Mas ele ficou chocado com o nível de talento dos finalistas. O assistente de Tyler nos oferece saladas. Tyler come sua porção prudentemente, enquanto assiste a si mesmo eliminando a jovem e rotunda cantora Jacee Badeaux. No dia seguinte, Tyler está em seu trailer do programa em um estúdio em West Hollywood, com um estilista e um maquiador trabalhando simultaneamente em sua pele. Canções antigas de Stevie Wonder tocam em um iPod e uma transmissão ao vivo dos ensaios para o Idol rolam em uma TV colocada no mudo. Tyler está para fazer seu primeiro programa com uma plateia ao vivo (ao contrário dos episódios finais, que serão gravados), mas ainda fala sobre o Aerosmith. "Peguei este trabalho como uma resposta para a banda? Porra, claro. Não como resposta, mas para mostrar que não posso mais ser mantido como refém. Serei meu próprio refém. A banda não pode me expulsar."

A verdade é que este não é nem mesmo o primeiro trabalho paralelo que Tyler considerou. "Você está olhando para um cara que cantou com o Led Zeppelin", diz com orgulho de garoto. Em setembro de 2008, Tyler voou para Londres e foi direto para uma sala de ensaios onde Jimmy Page, John Paul Jones e Jason Bonham o esperavam. Meses mais tarde, recebeu um telefonema a respeito de uma proposta relacionada. Disseram a ele que Page e Jeff Beck estavam considerando uma reunião dos Yardbirds e precisavam de um vocalista. Não deu em nada, mas, com Robert Plant se recusando a voltar a cantar com o Zep, Page foi atrás de Tyler. Ele era o cara certo - ele demonstra isso em poucas notas estratosféricas de "Immigrant Song", que soam mais fiéis do que o que Plant conseguiria fazer hoje. A ideia era fazer uns poucos shows e então gravar um disco com músicas novas - não como Zeppelin. "Eu decidi, 'Bem, sei que estou puto com os caras da banda, mas não tão puto', então liguei para Jimmy e disse: 'Vocês são uma banda clássica, assim como a minha também é, e eu simplesmente não posso fazer isso com os meus caras, e não posso fazer isso com Robert'. Eu jamais trocaria o Aerosmith pelo Zeppelin."

Ainda assim, ele rompeu com o empresário do Aerosmith, que ele achava muito próximo de Perry. Seus parceiros de banda ainda queriam excursionar, mas ele achava que seus pés não aguentariam. Como relembra Tyler, Perry respondeu: "Por que você não fica sentado, então?" Tyler balança a cabeça. "É como dar um ukulele para o Perry. Você não pode me colocar numa droga de cadeira de rodas. Eu estava contemplando o fim da minha carreira." Finalmente, ele passou por uma consulta com um médico especialista em lesões esportivas, que receitou pequenas doses de um poderoso analgésico.

Armado dessas pílulas, além de um medicamento moderado de auxílio ao sono, o Lunesta, ele conseguiu passar ileso por quase toda a turnê de 2009. Mas logo começou a moer as pílulas e cheirá-las. "Cheiro tudo, porque sou passional desse jeito com relação às minhas drogas", diz.

Tyler estava chapado de Lunesta em 5 de agosto de 2009, na noite em que caiu do palco do Sturgis - o sistema de som falhou durante "Elevator" e ele estava tentando entreter o público. Em um vídeo no YouTube é possível vê-lo fazendo uma dancinha, um rodopio e então perdendo o equilíbrio e tombando. Ele insiste que não estava assim tão louco: o verdadeiro problema foi o chão escorregadio por causa da chuva. "Só queria que as pessoas soubessem que não sou esse viciado de merda que fica caindo do palco."

Tyler seguiu para o Betty Ford Center por um período de três meses no fim de 2009 e ficou limpo. Ninguém do Aerosmith telefonou, mas ele os procurou. "Implorei por perdão e percebi que dois deles estavam usando [drogas]. Então eu disse, 'Vocês estão achando que eu passei esse tempo no Betty Ford, saí, e vocês vão ficar usando comigo por perto?'"

Os integrantes da banda pediram que seu advogado checasse a possibilidade de demitir Tyler, e deixaram claro à imprensa que estavam avaliando novos vocalistas. Ele ainda assim fez alguns excelentes shows com o Aerosmith, mas, como diz, "com ódio nos olhos".

"Fui um idiota, mas estou grato por isso, porque foi o que nos manteve como uma banda à moda antiga, cinco membros ganhando a mesma coisa por um longo tempo", conta Tyler. "Se há 20 anos eu pensasse que devia fazer um disco solo, talvez hoje estivesse numa condição melhor, mas não foi o que fiz. Meu ego estaria melhor, mas eu não teria ficado com a minha banda." Agora, com a ascensão de American Idol - e as vendas do catálogo do Aerosmith crescendo por consequência disso -, Tyler está conversando com o produtor de Toys in the Attic, Jack Douglas, sobre um possível CD do Aerosmith.

O assistente de Tyler e seu estilista insistem para que ele fique pronto. "Calma, só tenho uma coisa a fazer, que é me enfiar num par de calças, ok? Me enfiar num par de calças, baby!" Flanqueado por um segurança do tamanho de um jipe, segue para o estúdio estilo galpão onde gravará Idol nos próximos três meses.

Quando o programa começa, Ryan Seacrest apresenta Tyler com um logo do Idol grudado em uma vara - uma versão física de uma imagem que eles têm usado para cobrir a boca dele nas frequentes vezes em que solta um palavrão. Ele brinca segurando o negócio sobre sua própria boca, mas não parece estar achando especialmente divertido. Depois disso, o produtor pede para que a plateia finja ondas de risadas histéricas - a ideia é colocar efeitos sonoros de blip enquanto as imagens cortam alternadamente para o público rindo e Tyler segurando o logo - fazendo com que ele pareça um rock star doidão que começou a xingar incontrolavelmente. "Me incomodou um pouquinho", diz Tyler mais tarde - e ele se mostra notavelmente contido nas edições ao vivo das semanas seguintes, a ponto de o produtor me dizer que espera que ele "se solte".

De volta ao canion, Tyler se torna Tyler por inteiro: fazendo exercícios vocais nas colinas para testar o eco, cantando trechos de músicas dos Beatles, Byrds e Aerosmith a toda potência, demonstrando sua incrível habilidade como vocalista. Quase todos os carros que passam por nós diminuem a velocidade, e os motoristas abaixam seus vidros para dizer a Tyler o quanto o adoram no American Idol. Pergunto se ele tem medo de se tornar amado demais, se há o perigo de virar o tipo de caricatura que Ozzy Osbourne foi por um tempo por causa de The Osbournes. Enquanto reflete, outro carro se aproxima e para no meio da estrada - o casal lá dentro sai para pedir para tirar uma foto. Eles o agradecem, sem prestar atenção na conversa, e Tyler continua seu raciocínio enquanto o carro vai embora. "Quem quer que eu seja, ou ache que seja, quem quer que você ache que eu seja, talvez não seja quem eu sou", diz ele.

Tyler tem 63 anos, embora odeie quando jornalistas apontam isso. Ele não liga muito para a mortalidade. "Vou para o céu e os portões vão estar abertos e Deus vai falar assim: 'Quer saber, eu expulsei Belzebu enquanto escutava uma das suas músicas'." Mas ele imagina como vai morrer. "Tenho uma imaginação muito viva - ser esfaqueado, a faca saindo, ou consigo ver minhas entranhas espalhadas, ou mais frequentemente nos últimos tempos me ver em uma cama com meus filhos à minha volta, como minha mãe morreu, esperando que não me deem drogas demais e eu fique assim" - ele bota a língua para fora espasmodicamente. "Acho que tenho sido tão sortudo na vida que provavelmente vou morrer dormindo, obrigado, Senhor Jesus."

Passamos por um velho bangalô, uma das poucas casas modestas que sobraram na vizinhança, onde um bando de cachorros pequenos está latindo selvagemente por detrás de uma cerca. Tyler se aproxima e eles latem ainda mais alto. Uma mulher loira, de meia-idade, vestindo um roupão, sai de dentro da casa parecendo esbaforida, quase aterrorizada - ela não reconhece Tyler.

"Estou só passando, dando uma entrevista e amo seus cachorros", Tyler diz, tentando acalmá-la. "Tenho um lulu da Pomerânia em casa."

Ela olha para ele com os olhos cerrados, se apoiando sobre o vaso no alto da cerca.

"Qual o seu nome?"

"Sou de uma banda de rock - Aerosmith", diz ele se aproximando. "Steven Tyler."

O queixo dela cai, seus olhos ficam vivos e ela começa a falar. Mora no Laurel Canyon há 35 anos, e seu marido foi levado para o hospital, vítima de um ataque do coração, na noite passada. "Não sou merecedora", diz ela. "Amo sua música. Você é um anjo. Vendo você agora - sinto como se tivesse sido enviado. Tenho 61 anos, mas você está muito melhor."

Os olhos de Tyler parecem um pouco marejados. Ele estica o braço através da cerca e pega as mãos dela. "Quer saber", diz ele, "seu marido vai ficar bem." Ela se ilumina. "Bem, agora vou até assistir a American Idol."

Tyler se encolhe. Depois parece falar sem pensar: "Não, não assista àquilo", diz ele, alto o suficiente apenas para ser ouvido por cima do latido dos cachorros, que agora pulam na altura de sua canela. "Não assista. Continue amando a música."