Passado Bem Resolvido

O Nirvana continua perto do Foo Fighters, que produziu um documentário intenso

Por David Fricke Publicado em 20/07/2011, às 19h56

TERAPIA NA TELA Grohl (à frente) superou os problemas do Foo Fighters e o fantasma do Nirvana
JENA ARDELL/L.A. WEEKLY

"Esta é a chance que eu tenho para mostrar às pessoas o quanto doeu - e de contar a verdade", diz Dave Grohl, acomodado em um pátio com vista para um parque, em Austin (Texas). O vocalista, guitarrista e chefe do Foo Fighters se refere a um novo documentário sobre a banda, Back and Forth. Em uma longa sequência, logo no começo do filme, Grohl fala do auge e do colapso de seu grupo anterior, o Nirvana - principalmente da dor e da raiva que ele carrega desde 1994, quando Kurt Cobain se suicidou. "Já nos perguntaram sobre essa merda mil vezes, e nunca fica mais fácil", Grohl prossegue, flanqueado pelo resto do Foo Fighters: os guitarristas Chris Shiflett e Pat Smear, o baixista Nate Mendel e o baterista Taylor Hawkins. No filme, Grohl diz: "Dá para ver como eu fico pouco à vontade ao falar disso". Ele faz uma pausa. "Eu não gosto nem de falar sobre isso."

Dirigido por James Moll, Back and Forth havia sido exibido pela primeira vez na noite anterior, no Festival de Cinema do SXSW (e deve ser exibido no Brasil neste mês), e o Foo Fighters arrematou a noite com uma apresentação em um clube local, com músicas de seu álbum mais recente, Wasting Light. Gravado à moda antiga, com fita analógica na garagem de Grohl em Encino, na Califórnia, o álbum vem carregado com suas próprias associações ao Nirvana. Foi produzido por Butch Vig, que também fez Nevermind, de 1991, e tem participação do baixista do Nirvana, Krist Novoselic, em uma faixa, "I Should Have Known" (Eu devia saber), uma canção a respeito de culpa, ressentimento e Cobain. "Eu posso fazer as coisas que eu tinha medo de fazer há 16 anos", Grohl defende com ardor. "Por que não? Não vou permitir que alguém me impeça de escrever uma música porque acha que pode ser a respeito de Kurt. E ficar em uma mesa de mixagem com Butch e Krist... fazia 20 anos que isso não acontecia. Nós não precisamos conversar. Só ficávamos lá: 'Nós estamos aqui, nós sobrevivemos'."

A determinação de Grohl de começar uma banda nova depois do Nirvana e sua luta para manter o Foo Fighters junto ocupa a maior parte de Back and Forth. Depois que Moll terminou uma edição preliminar do filme, ele perguntou a Grohl se ele queria assistir com a banda toda. "Eu disse: 'Deixe-me eu assistir primeiro, porque eu não quero que isso faça a minha banda se separar'", o músico lembra. "Depois de assistir, percebi que todo mundo ia se sentir desconfortável com o filme." Em certa cena, a respeito da confecção de The Colour and the Shape, disco do Foo Fighters de 1997, Dave Grohl fala sobre como ele teve de jogar fora o trabalho do baterista William Goldsmith e refazer a parte da bateria pessoalmente - o que efetivamente fez com que Goldsmith largasse a banda. "Eu nunca tinha me considerado uma pessoa controladora", Grohl confessa. "Eu não me orgulho de como lidei com a situação. E quase me esqueci do assunto - até ver na tela de cinema."

Hawkins foi forçado a reviver um período de uso pesado de substâncias controladas e, em agosto de 2001, uma experiência em que quase morreu depois de ter uma overdose de analgésicos. "Eu não estava interessado em divulgar aquelas coisas todas", o baterista reconhece. "Agora as pessoas ficam me perguntando coisas do tipo: 'O que você diria para a garotada das bandas que cai demais na balada?' Eu não estou aqui para fazer isso. Eu tive a minha viagem. Eu consegui sair pelo outro lado."

O Foo Fighters está promovendo o álbum e o filme na estrada, começando com uma série de datas nos Estados Unidos, em maio, seguidas por uma turnê europeia que inclui um par de apresentações no Milton Keynes Bowl, nos arredores de Londres. Em 2008, o Foo Fighters lotou o Wembley Stadium, na mesma cidade, em dois shows. A certa altura em Back and Forth, Grohl aparece com um sorriso rasgado estampado no rosto quando caminha triunfante no meio da multidão em Wembley. "Eu não exibiria o mesmo sorriso em 1996", ele diz. "Aquele tempo entre o pré-Nevermind e o pós- Nirvana... tanta coisa aconteceu naqueles poucos anos. Seria impossível para qualquer pessoa processar aquilo sem ter alguns problemas." Grohl faz um gesto para os colegas de banda. "Esta aqui é a melhor segunda chance que qualquer pessoa pode desejar."