O Sangue do Artista

Rafael Grampá alcançou o sucesso repentino com sua primeira grande história em quadrinhos – agora, luta para domar demônios e provar o valor de sua arte

Por Mauricio Monteiro Filho Publicado em 20/07/2011, às 19h53

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Bem antes de Rafael Alexandre Claudino Dias ser o Grampá, ele foi evangélico. Dos 14 aos 17 anos, frequentou cultos regularmente na cidade de Cachoeirinha, interior do Rio Grande do Sul. Sabe a Bíblia de trás para frente até hoje. Mesmo os caminhos mais humanos podem levar ao reino do Senhor: ele entrou para a igreja com os amigos para ficar mais próximo das meninas bonitas da cidade, mas acabou tomando gosto pela religião. Tanto que, em certo verão, viajou por conta própria para as praias gaúchas com a ideia de atrair mais jovens para os cultos. Levava um panfleto, escrito por ele mesmo, como instrumento de propaganda. Depois de discorrer sobre as maravilhas da filiação ao credo evangélico, sintetizava tudo que sentia por Jesus, na última frase do folheto: "Jesus Cristo é afudê" - gíria sulista para algo "excelente". O pastor não gostou, achou a linguagem torpe. Rafael se defendeu, mas o episódio acabou custando a eterna desilusão dele com os assuntos da fé institucionalizada. Então ele encontrou a mais solitária, maldita, epifânica, onírica, beatífica e mundana das igrejas no universo das histórias em quadrinhos. E se tornou Grampá.

O processo do artista por trás dos quadrinhos envolve religião, só que de um jeito não divino. Basta Grampá pegar o pincel, que apoia de leve na polpa do polegar direito, mantendo o prumo sob a guarda do indicador, e o diabo parece se alojar debaixo de sua mesa, espreitando libidinoso sob a prancheta. E espera até que Grampá acerte as contas da dívida impagável que tem com o demônio da arte, desde que ela o escolheu. "Insisto em dizer que a arte é um encosto. Quem é artista vai concordar comigo", ele diz. "Tem que ter fé de fanático religioso para fazer HQ. Dá tanto trabalho, que até sair pra tomar uma cerveja gera arrependimento. E a gente tem que lidar com essa culpa cristã."

Cruel é que o virtuosismo do traço de Grampá, 33 anos, é capaz de contrabandear para o leitor as impressões dessa jornada ao inferno profundo. Ele se diverte pensando em criar histórias que ajam sobre o imaginário, algo como as vozes demoníacas dos discos tocados ao contrário. Seu primeiro trabalho solo, a graphic novel Mesmo Delivery, de 2008, está crivado de mensagens cifradas - boa parte delas de cunho satanista.

Desde então, Grampá sente que a ordem de grandeza do peso do "encosto" passou dos quilos para as toneladas. É essa a carga que ele afirma administrar a cada vez que se curva sobre o papel branco para trabalhar em novos projetos. Sobre os ombros, estão editores, fãs, críticos, colegas e ele próprio - a expectativa geral é de, no mínimo, um trabalho com o mesmo potencial de Mesmo Delivery. Por isso, desde o lançamento do livro, ele vem engordando seu diabinho de estimação, que lhe lança uma sombra cada vez maior e provoca, entre dentes às suas costas: "Desenha, guri".

Para aliviar a pressão, Grampá está entocado. Depois da fama instantânea gerada por Mesmo Delivery, ele se tornou celebridade no circuito especializado, virando noites em baladas, pulando de evento em evento. E criando menos do que gostaria.

Em julho de 2008, após anos se dedicando àquele que era um projeto pessoal, Grampá voou para São Diego para visitar o principal evento relacionado ao mercado de HQs, o Comic-Con. Ali, viu artistas de peso como Mike Mignola e Brian Azzarello comprando a sua obra. Em seguida, vieram os convites de editoras brasileiras e estrangeiras, como a Dark Horse, para ampliar a tiragem e lançar Mesmo Delivery comercialmente. Consta que estúdios como Universal, Sony, Screen Gems e Plan B - a produtora de Brad Pitt - teriam se interessado pelos direitos de filmagem da obra. Na época, cogitou-se que o cineasta Sam Raimi (da trilogia Homem-Aranha) seria o diretor do possível filme.

O assédio aumentou quando, em outubro de 2010, Grampá integrou o primeiro número da coletânea Strange Tales II, em que artistas independentes revisitam personagens clássicos da editora Marvel. Na publicação, o brasileiro assinou a capa e uma história de oito páginas protagonizada pelo anti-herói Wolverine. Segundo Timothy Callahan, um dos mais badalados críticos de quadrinhos do mundo, "são oito páginas de dor, pathos e beleza, e não apenas uma das melhores HQs do ano, mas talvez a história perfeita de Wolverine".

Vale dizer que o Wolverine tradicional das HQs dos X-Men costuma estar às voltas com mutantes inimigos. Já o Wolverine de Grampá sofre de outro mal, que acomete mutantes e humanos com a mesma violência: a dor de amor. "Quando alguém se machuca, libera certa dose de substâncias no sangue para se curar. O Wolverine tem o poder de se regenerar. Imagine a quantidade cavalar dessas substâncias que ele tem circulando no sangue. Isso o deixou viciado em dor", ele explica.

Na Feira Literária Internacional de Paraty, no mesmo 2010, Grampá teve um encontro definitivo para sua carreira: com o cultuado artista norte-americano Robert Crumb. Conversaram, falaram de técnicas, mas se entenderam melhor quando trocaram desenhos. Emulando o traço de Crumb, Grampá retratou o recluso quadrinista dizendo: "Droga, esses jornalistas são tão irritantes! Por que não me deixam em paz?" Crumb riu: "Você leu minha mente". Devolveu ao gaúcho um desenho de um de seus mais famosos personagens, Deus, acompanhado da frase: "Estou muito bravo com o Sr. Crumb, porque eu não gosto de ser retratado, mas eu tenho que admitir que ele faz um bom chiaroscuro..."

Incapaz de se concentrar como deveria em sua próxima história, Furry Water - que se encontra bastante atrasada, por sinal -, Rafael Grampá passou o mês de março escondido em Porto Alegre, em busca de foco. Foi nesse cenário que ele se permitiu ser entrevistado.

Safo, com um ar de desleixo meticuloso, demonstrou preparo até excessivo diante dos questionamentos. Se o objetivo da reportagem fosse extrair aspas sobre o sentido da vida e a semiótica da arte, haveria material para um livro em apenas meia hora de conversa. Mas eram os demônios que me interessavam. Grampá pareceu se esforçar para quebrar a imagem de marrento e arrogante que constantemente é associada a ele. Dono de um temperamento explosivo, parece possuir relação ambígua com a fama. Ao mesmo tempo que diz achar "patético" quando é abordado por um "Então, você é o Grampá!", ele curte circular pelos lugares da moda da noite gaúcha, usando seu prestígio local para furar fila.

Além da busca pelo foco, o "exílio" em Porto Alegre tinha como intuito a aproximação maior com o escritor Daniel Pellizzari, que assina o roteiro de Furry Water. Mas, no fundo, Grampá buscava distanciamento das distrações paulistanas para encarar seu atual diabo de estimação (o qual batizei de Disciplina).

Na capital gaúcha, incontáveis artistas orbitaram em torno de Grampá. Rafael Albuquerque, que o hospedou na cidade, está indicado ao prêmio Eisner de 2011, o mais prestigiado no mundo das HQs, na categoria Melhor Nova Série por American Vampire. Em uma noite de março, aditivada por uma cerveja artesanal produzida pelo designer Maurício Gonçalves, Grampá relaxou ao lado da nata do desenho gaúcho. Mateus Santolouco, Rodrigo Rosa, Rafael Corrêa, além de Albuquerque, dividiam os tragos. Mais cedo, Edu Medeiros fechava contrato para a publicação de um livro de quadrinhos.

A volta para o Sul também aproximou o artista de suas raízes. Rafael Grampá nasceu em Pelotas, a 250 quilômetros de Porto Alegre. O pai, Josme, era caminhoneiro, o que resultou em constantes mudanças de cidade - primeiro para Gravataí, depois para Cachoeirinha, onde o futuro artista passou a maior parte da infância e adolescência. Os amplos pátios das transportadoras serviram de cenário para as brincadeiras com o irmão mais velho, Cristiano, e também moldaram as referências estéticas de Grampá. Um de seus filmes prediletos também aborda o universo dos caminhoneiros: Comboio, de Sam Peckinpah, a que assistiu com 4 anos. Aos 9, viu o pai sair de casa. Desde então, quase não se viram mais.

Grampá jura não enxergar muitas coincidências, mas todo o enredo de Mesmo Delivery se desenvolve a partir do frete de uma carga misteriosa para um destinatário ainda mais misterioso. O caminhoneiro, Rufo, um ex-boxeador, não tem ideia do que transporta. Em uma parada de descanso, se envolve numa briga e apanha. Desacordado, delira com as imagens dos nocautes que sofreu quando era lutador. Reúne toda a força que tem disponível, prepara o maior soco já desferido no mundo e atinge, acidentalmente, uma mulher que estava atrás de seu adversário. O golpe a mata instantaneamente. A cena diz muito sobre Rufo - e mais ainda sobre o próprio Grampá.

Um crítico brasileiro definiu o momento em que o gaúcho se encontra: "É como [Quentin] Tarantino. Ele chamou atenção com Cães de Aluguel, mas agora tem que fazer seu Pulp Fiction". O demônio que lhe mordisca os calcanhares muitas vezes faz Grampá pensar que o segundo trabalho - aquele que o tornaria um artista definitivo, e não só um sortudo que acertou a mão em uma única obra inspirada - talvez possa acabar em um soco no vazio. E Grampá é arrogante demais para ser qualquer coisa menos do que o melhor.

A vida toda, Rafael Grampá incubou a ideia de tirar seu sustento das histórias em quadrinhos. Muito cedo, quando fez seu primeiro desenho - um Batman, que sua mãe, Oneide, achou que era um burro -, o garoto convenceu a família de que era isso que faria profissionalmente. Na virada de 1999 para 2000, já versátil em qualquer traço, mesmo sem ter frequentado cursos, decidiu passar a virada do Ano-Novo sozinho. "Foi um ritual de 'vou ser quadrinista'", ele conta. À meia-noite, abriu uma cerveja, brindou com o espelho e selou o pacto consigo mesmo. Sentou-se à mesa que ele próprio havia construído e castigou página após página. "Foi uma cerimônia de virada na minha vida. Não me lembro de ter desenhado tanto numa noite só", diz.

"Duvidaram tanto de mim. Mas esse é o meu tapa de luva. Minha religião é o 'tapadeluvismo'", ele diz. O descrédito de que mais se recorda veio do último chefe, em um estúdio de motion design em que trabalhou por quatro anos. Grampá ensaiou por um ano seu pedido de demissão - havia juntado dinheiro suficiente para investir na criação de Mesmo Delivery. A atriz Carolina Manica, com quem vive há oito anos, foi quem mais o apoiou na ideia. "Ela me deu muita força, me incentivou a fazer o blog [furrywater.wordpress.com]. Ninguém sabia quem eu era", reconhece.

Quando entrou na sala do chefe para pedir as contas, ouviu: "Se você tiver algum reconhecimento como quadrinista, não vai levar menos do que dez anos". Oito meses depois, o ex-funcionário telefonou para o ex-chefe: "Venha para a minha festa". Grampá havia ganhado o prêmio Eisner de Melhor Antologia por Five, uma HQ independente realizada com Becky Cloonan, Vassilis Lolos e os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá.

Na condição de artistas de quadrinhos mais premiados do Brasil, os gêmeos paulistanos Moon e Bá - que estão indicados novamente ao prêmio Eisner 2011, com a minissérie Daytripper - vivem uma relação de competição saudável com o gaúcho. "Tu não ama tua mulher? Mas não a odeia às vezes? Com amigo é assim também", despista Grampá. "Eles são aqueles amigos que vão falar o que você não quer ouvir. Mas no final você sempre acaba refletindo sobre a letra que os caras dão. Geralmente, eles acertam."

Os colegas retribuem a "gentileza". "O Grampá está muito acima da média. Qualquer coisa mínima que ele faz tem muito poder gráfico. E não sei se tem alguém com desenho tão forte no Brasil", opina Bá. "O melhor é ele assumir que é um cara que produz devagar. Esse é o maior conflito dele. Como teve exposição e sucesso muito rápidos, todo o resto é devagar. Mas não acho que ele vá, nem deva simplificar o traço."

Assombrado pelos questionamentos sobre seu ritmo de produção, Grampá chegou a pedir conselhos a Robert Crumb. "This is bullshit", rebateu o mestre. "Não dê ouvidos. É difícil ter um traço tão seguro com pincel, continue assim. Não importa se o desenho é detalhado ou simples, isso cabe ao próprio artista decidir. Você só precisa se preocupar em desenhar cenas legíveis. Simplificar é uma exigência da indústria."

Há alguns meses, o artista Grampá deu lugar ao menino Rafael. Ao abrir seu perfil no Facebook, deparou-se com um pedido do pai, Josme, para que mudasse o status para "filho". "Aceitei, é lógico", diz. Grampá também mudou sua agenda do celular: Josme virou "Pai". Sinais de que até o demônio dá uma trégua às vezes.

A missão de Grampá em Porto Alegre era terminar o roteiro de Furry Water. Às 18h48 de 25 de março, ele colocou o último ponto final no último balão. A tradução para o inglês também está finalizada (a história sairá pela editora Dark Horse) e os desenhos estão encaminhados, à razão de uma página a cada dois dias. A ideia é que o livro esteja pronto no final de 2011.

"Me emocionei lendo o último capítulo", comemora, sem modéstia. "Fiquei com vontade de ter algo em que acreditar por causa do final da HQ. Só sei que o que eu queria dizer com a história está ali." A comemoração faz sentido: Grampá reconhece que a pior coisa que lhe aconteceu foi a demora na criação de Furry Water. "[O atraso] Acaba assinando embaixo que me deslumbrei depois da primeira HQ", admite.

Para não perder o foco, Grampá se retirou do estúdio que dividia com o desenhista Rafael Coutinho, implantou a doutrina da reclusão e se dedica ao desenho em horário comercial, no quarto que serve de escritório em sua casa, em São Paulo. Olhando para o futuro, enumera oito projetos profissionais. O mais ambicioso é dirigir cinema. "Curto a ideia de moldar um ego."

Ego bem que poderia ser o nome de outro de seus demônios. Na célebre fala de Sangrecco, o assistente falastrão de Rufo em Mesmo, Grampá turva os limites de ficção e autobiografia. "Quer saber? Foda-se! Tô careca de saber que não existe público pra minha arte. Mas, porra, eu sinto falta de uns aplausos, saca?", reclama o personagem. Ou seria o artista?