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P&R - Marky Ramone

Ex-baterista do Ramones fala sobre o reconhecimento tardio do grupo

Patrícia Colombo Publicado em 12/07/2011, às 16h54 - Atualizado em 17/09/2013, às 16h16

ANOS LENDÁRIOS Marky Ramone relembra os tempos de punk rock junto ao Ramones
OTAVIO SOUSA

Desde os anos 80, Marky Ramone pega, de tempos em tempos, um avião a caminho do Brasil. Antigamente, ele vinha ao país com sua ex-banda, Ramones, mas hoje aparece com alguns projetos solo ou para discotecar em festas. "Quando eu estiver cansado de vir, meu corpo dirá", ele brinca, ao ser questionado sobre uma possível fadiga do verde-amarelo.

O baterista entrou para o Ramones em 1978, após a saída de Tommy Ramone. Tocou até 1983, quando foi substituído por Richie. Em 1987, retornou aos companheiros de punk rock e com eles permaneceu até 1996, ano em que a banda encerrou definitivamente as atividades. Como o último integrante vivo da formação mais ativa (o vocalista Joey, o baixista Dee Dee e o guitarrista Johnny morreram, respectivamente, em 2001, 2002 e 2004), Marky presencia hoje um culto por parte das novas gerações que entram em contato com o punk rock do grupo. "Antes tarde do que nunca", diz.

Você não se cansa do Brasil?

Quando eu estiver cansado de vir, meu corpo dirá [risos]. Desenvolvi uma relação com os fãs por sempre ter vindo para cá.

Certa vez você comentou que vocês não usavam calças rasgadas por uma questão de moda, mas porque, de fato, não tinham dinheiro para comprar peças novas...

Não tínhamos nada na época. Quando nossos pais nos mandaram sair de casa aos 18 anos, tivemos de sair, arrumar emprego e tentar sobreviver. Em alguns momentos, comi comida de cachorro.

Sério?

Sim. Colocava tempero - sal e pimenta - e comia. Era mais barato. A única coisa que tinha medo era de começar a latir de uma hora para outra [risos].

Vendo a história do punk hoje, qual é, para você, a maior diferença entre o punk norte-americano e o britânico?

O punk norte-americano começou no CBGB, era mais diversão e entretenimento, enquanto que o punk da Inglaterra era mais voltado à temática política. Havia competição [entre as bandas], mas éramos todos amigos. No final, eles tinham o Ramones como base, tendo acrescentado depois tempero próprio. Os britânicos foram ao CBGB, pegaram aquilo e incorporaram no que estavam fazendo na Inglaterra. Eu venho do Brooklyn, um local difícil de Nova York, e as coisas que aconteciam lá eram reais. Muito do que acontecia na Inglaterra foi criado por empresários mais pela questão do visual.

Sobre Johnny, Dee Dee e Joey... Sente a falta deles?

Sim, claro. Penso neles todos os dias. Eram meus irmãos e colegas de banda. E todos morreram. Não dá para se sentir bem com isso, mas a vida segue e você tem de celebrá-la. Tive que treinar meus pensamentos para não ficar deprimido.

Para você, qual é o legado do Ramones?

Nós começamos [o punk rock] e tivemos hinos: "I Wanna Be Sedated", "Blitzkrieg Bop", "Rock 'n' Roll High School". Queríamos proporcionar às pessoas momentos de diversão com canções curtas e doces, que não tinham dez minutos de duração e que não estavam combinadas a jazz ou blues. Queríamos retornar ao ponto onde o rock começou. Little Richard, Jerry Lee Lewis...

Existe algo divulgado durante a trajetória da banda que você gostaria de esclarecer?

Todo o incidente envolvendo o [produtor] Phil Spector. Ele andava armado, mas nunca apontou uma arma para nós. Foi um exagero do Dee Dee ter dito isso. Éramos o grupo que Phil estava produzindo. Se apontasse e a arma disparasse, ele não teria banda. Virou uma lenda na história do Ramones.

E aquele programa de rádio do Howard Stern, no qual você e Joey brigaram no ar?

[Risos] Ah, foi tudo planejado! Howard, eu e Joey éramos muito próximos e queríamos participar pela diversão. Falamos um monte de merda, papo de peruca, bebida, mulher... Quando saímos do ar, todos começaram a rir. E muita gente acredita nisso até hoje.

Você acha que o Ramones atualmente é maior do que jamais foi?

Sim, porque o mundo nos alcançou. Nos Estados Unidos, dominamos a cena underground, chegando a um ponto em que tocávamos para seis mil pessoas em uma noite. Mas quisemos nos aposentar quando estávamos no nosso auge, depois de 22 anos. Desde então há uma nova geração que passou a adorar o que fizemos, e esses jovens se tornaram os responsáveis por essa popularização.

Foi de certa forma um reconhecimento tardio?

Antes tarde do que nunca [sorri]. Prefiro isso a ser uma banda de um hit só.