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Como Bruno Mars, ex-imitador mirim de Elvis Presley, tornou-se o homem de ouro da música pop

Por Jonah Weiner Publicado em 11/07/2011, às 12h56 - Atualizado em 13/11/2012, às 14h54

ESTRELA Bruno Mars em Nova York, em 11 de dezembro de 2010

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São 19h no Madison Square Garden, e até através das paredes de concreto dos corredores do bastidor dá para se ouvir os gritos. A rádio pop Z100 está fazendo seu show anual Jingle Ball - um bufê farto de atrações - e cerca de 18 mil espectadores se acotovelam para uma noite de música e, acima de tudo, gritinhos. No backstage, os "ai, meu Deus" se acumulam: Justin Bieber, a atração principal, desliza pelo carpete industrial usando uma jaqueta de couro apertada. No outro canto, Willow Smith posa para fotos em um casaco de pele de leopardo falsa. Kim Kardashian, espremida em um vestido absurdamente justo, desfila, com uma equipe de filmagem atrás dela. No fim do corredor, algumas garotas com crachás de acesso ilimitado dizem a Hayley Williams, do Paramore, que a amam. Ela diz que as ama também.

Se Bieber é rei nesta noite, um rapaz meio filipino, meio porto-riquenho de 25 anos chamado Bruno Mars é o iniciante que veio do nada e está de olho no trono. Mars recebeu sete indicações ao Grammy neste ano (levou apenas um troféu), menos só do que Eminem, por coescrever e cantar o refrão de "Nothin' on You", de B.o.B, e "Billionaire", de Travie McCoy, e por ajudar Cee Lo a compor a sarcástica "Fuck You". Em seu camarim, Mars faz piadas com executivos da gravadora e outros ilustres visitantes. O próprio Bieber apareceu para prestar homenagem, dando um abraço de mano em Mars e dizendo que queria trabalhar com ele. Agora, Flo Rida está na porta. "Quem você está namorando agora, Flo?", pergunta Mars, contente. "Você está com uma supermodelo diferente toda vez que te vejo!" Um homem de gel no cabelo está conversando com o empresário de Mars, oferecendo-se para "conseguir para Bruno e a banda algumas roupas da Gucci - é só me dar o tamanho de todos". Sacolas de brindes da loja H&M estão espalhadas pelo chão.

Mars fechou 2010 por cima. Está na indústria musical desde 2003, mas só estourou realmente no último ano - primeiro se estabeleceu como o melhor compositor de aluguel do pop, depois desabrochou em um astro solo: hoje, cantará "Nothin' on You" e "Billionaire" junto com o clássico instantâneo "Just the Way You Are" (que ficou quatro semanas no número 1 norte-americano), mais a exageradamente apaixonada "Grenade". Pessoalmente, Mars fala alto e gosta de ter gente por perto, começa a cantar sem avisar e, em uma espécie de imitação de Joe Pesci, faz graça, chamando as pessoas de "FDP". Ele se esforça para deixar todos à vontade, fazendo elogios ou, com a mesma frequência, zoando de leve (chama uma alta executiva da gravadora de "piranhinha"). Mars tem um lado alegre que nem sempre dá para ouvir em suas músicas, nas quais passa a maior parte do tempo representando o meloso supremo, um cantor de voz suave dos romantismos incuráveis (seus grandes olhos castanhos e covinhas não o prejudicam nesse sentido) e um compositor de melodias maravilhosamente diretas. No fundo, é um showman à moda antiga, ótimo em usar truques clássicos da música pop e atualizá-los para o presente repleto de sintetizadores e Pro Tools. Durante seu show no Garden, ele toca um pedaço de "Money (That's What I Want)", dizendo ao público que foi a música que inspirou "Billionaire". A homenagem é mornamente recebida por todos exceto, talvez, pelos adultos - mas, quando engata "Billionaire", o local explode. "Será que devíamos deixar a parte dos

É hora de ir embora. Mars entra no corredor e grita: "Quero um abraço de todas as garotas aqui!" Muitas delas obedecem alegremente, perseguindo-o enquanto ele caminha até o elevador, tirando fotos com o celular. "Quando você pensa em tocar no Madison Square Garden, imagina seu camarim cheio de mulheres nuas", diz Mars baixinho, sorrindo. "Não crianças de 6 anos!" Ele abaixa a cabeça, mas dá para ver que ama a atenção. No andar de baixo, uma van está aguardando para levá-lo ao hotel. Por uma grade, garotas na rua veem Mars e imploram por um autógrafo.

Ele acena educadamente, vai para trás da van e acende um cigarro às escondidas. "Você é meu ringtone!", uma garota grita para ele. Depois de algumas baforadas, dá um sorriso travesso com os olhos. "Veja isso", diz. Estica a cabeça acima do teto da van: as garotas uivam. Abaixa-se no pára-choque, e os uivos param, como se ele tivesse acionado um botão. Aparece de novo - mais uivos! - e se abaixa novamente. Vira-se para mim e ri, achando graça e exultando seus poderes. "Ha, ha! Não é o máximo?"

O pai de Bruno - Pete "Dr. Doo-wop" Hernandez - é o membro fundador de um grupo vocal havaiano chamado The Love Notes, artistas veteranos do circuito noturno dos hotéis locais. Bruno Mars na verdade se chama Peter Hernandez Jr. (o pai o apelidou de Bruno em homenagem ao lutador Bruno Sammartino); ele mal havia saído das fraldas quando se juntou ao show. "Meu pai cantava várias músicas doo-wop, depois cada um no grupo fazia uma imitação de Ray Charles ou Chuck Berry, e meu tio imitava o Elvis. Sempre pedia pro meu pai: 'Ei, me leva pro palco'." A mãe (que também cantava no show) fez para o garoto de 3 anos um macacão de lamê dourado. No palco com o tio, Mars balançava os quadris e cantava "Hound Dog" para delírio de plateias no Sheraton Waikiki e em outros pontos turísticos. A rede CNN fez uma matéria com Mars e o apresentador Arsenio Hall o convidou para ir ao programa de TV dele. Aos 6 anos, fez uma participação na comédia Lua-de-Mel a Três, de 1992. "Amei. Comi tudo", conta Mars, lembrando o primeiro gosto do show business. "Era um molequinho de 4 anos."


Quando Mars tinha "10 ou 11 anos", os pais se divorciaram e o show familiar chegou ao fim. "Fui ao fundo do poço", conta Mars. "Morava com meu pai, e minhas irmãs ficaram com minha mãe." O irmão Eric, baterista que hoje toca com ele, mudou-se para Los Angeles e, aos 18 anos, Bruno Mars o seguiu. Tinha US$ 700 na conta bancária. "Abria para um show de mágica chamado A Magia da Polinésia no hotel Beachcomber, no Havaí", diz Mars. "Tocava música de fundo para o jantar das pessoas. Pensava: 'Tudo bem, já dei minha cota de shows de cabaré'. Queria fazer minha própria música." Mars chamou a atenção de Mike Lynn, então braço direito de Dr. Dre. Eles gravaram uma demo (Ne-Yo, relativamente desconhecido na época, ajudou na composição) e, cerca de um ano depois da chegada de Mars à cidade, a Universal Motown assinou com ele um contrato de US$ 100 mil. "Todos me avisavam: 'Não gaste todo o seu dinheiro, você não sabe o que vai acontecer'", conta Mars. "E estavam certos." Ele começou a trabalhar em músicas para um álbum de estreia que nunca veria a luz do dia. À medida que o contrato esvaecia, ele se viu integrante de um clube de esperançosos do pop que veem seus sonhos, quase alcançáveis, prestes a desmoronar. Uma das amigas dele era Ke$ha. "Tínhamos o mesmo empresário na época", diz Mars. "A Ke$ha me ligava e perguntava: 'Alguém te ligou? Ninguém me ligou. Que merda!' Estávamos na pior."

Um ano depois, a Universal dispensou Mars. Ele começou a tocar em uma banda de bar chamada Sex Panther. Atendendo a pedidos em um lugar chamado Pickwick Pub, o Sex Panther desenvolveu um pequeno séquito, ganhando algumas centenas de dólares por show, mas Mars continuava escrevendo músicas com o amigo Philip Lawrence, tentando assinar um novo contrato. A Epic Records abordou a dupla, pedindo para comprar uma de suas músicas, "Lost", para a nova versão do grupo teen Menudo. "Falei: 'Não mesmo, só me contrata'", afirma Mars. "Nunca pensei em ser compositor. Disse: 'Esta é minha arte!' Eles responderam: 'Damos 20 mil'. E eu falei: 'Aqui está sua música, do que mais vocês precisam?' " Mars diz que trabalhar como compositor "me ajudou a entender um pouco mais o negócio, entender onde estou na música. Quando me contrataram, eu nunca tinha realmente escrito uma música. Se tivesse estourado logo de cara, não teria as pernas que tenho agora". Aponta "Fuck You" como exemplo: "Muita gente me pergunta: 'Você não quis manter essa música? Mas o Cee Lo dá conta do recado. Provavelmente minha voz adocicada não teria sido tão boa".

O estouro de Mars veio em 2009 com "Right Round", de Flo Rida. Um representante de A&R, da Atlantic Records, pediu que ele e Lawrence - que, com um terceiro compositor parceiro, Ari Levine, chamam-se Smeezingtons - tentassem criar um gancho e uma linha vocal para uma faixa instrumental incompleta. Eles decidiram transformar o sucesso new wave "You Spin Me Round (Like a Record)", do Dead or Alive, em uma ode ao sexo oral. O superprodutor Dr. Luke aprimorou a batida e trouxe Ke$ha para cantar o gancho. Lentamente, nascia um hit. Quando os Smeezingtons compuseram "Nothin' on You" e "Billionaire", Mars insistia em se tornar mais do que uma peça entre muitas na engrenagem, cantando os refrãos. "Conheço o Bruno desde que ele nos trouxe essas duas músicas", conta Julie Greenwald, presidente da Atlantic Records. "Dava para ver imediatamente que elas se tornariam gigantes." Mars se supera em coisas simples. Sua doutrinação no doo-wop na infância deu a ele uma apreciação pela objetividade na música: as melodias que cria são elementares, as letras são incrivelmente diretas, os refrãos são longos e sem sutileza. De "Grenade": "I'd jump in front of a train for ya.../Take a bullet straight through my brain/Yes, I would die for you" (Pularia na frente de um trem por você/Levaria um tiro no cérebro/Sim, morreria por você). De "Billionaire": "I wanna be a billionaire, so fucking bad" (Quero tanto ser um bilionário, pra caralho). De "Fuck You": "Fuck you!" (Vá se foder!).

Mars gosta de se encontrar pessoalmente com os parceiros de composição, não de só ficar trocando contribuições por e-mail - ele e os Smeezingtons abordam as coisas "como uma equipe", afirma Cee Lo. Mars se lembra de uma sessão de composição para "Fuck You" com Cee Lo e Lawrence: "Um de nós dizia metade de uma frase, o outro acabava, e assim foi até a música ficar pronta". B.o.B lembra que a sessão para "Nothin' on You" foi espontânea. "Escrever com o Bruno é como conversar com um amigo", diz o rapper. "Você tem de ser direto, não precisa ficar pensando em como dizer algo, simplesmente diz."

"Quero que minhas músicas te nocauteiem", explica Mars. "Gosto de 'Wonderful Tonight', do Eric Clapton. Gosto de 'You Are So Beautiful'. Não penso demais, não sou um cara poético. Não vou dar uma de Shakespeare. Se eu quiser escrever uma música sobre meu amor pela bunda de uma garota, a letra dirá: 'Amo sua bunda' ". Dada sua verve descaradamente adocicada - sem contar sua vida no show business - é surpreendente o quanto autodepreciativo e sarcástico Bruno Mars pode ser: ele constantemente faz piada consigo mesmo. Depois do show no Garden - o tipo de apresentação que qualquer astro pop sonha em fazer -, ele minimiza o triunfo com uma piada, dizendo, em referência ao público majoritariamente pré-adolescente: "O show de hoje foi totalmente Nickelodeon!" Quando o guarda-costas lhe diz que tem de se encontrar com alguns fãs, Mars dispara, brincando: "Diga que é proibido fazer contato visual".

Dois dias depois do show no Garden, Mars está sentado com B.o.B em um sofá no camarim de um estádio em Tampa, assistindo a vídeos no YouTube. Mars usa uma calça de veludo marrom, mocassim e um chapéu de feltro. B.o.B veste uma calça de moletom folgada e uma touca de lã com abas forradas de pele nas orelhas. Eles tocam "Black and Yellow", de Wiz Khalifa, e B.o.B faz o rap enquanto Mars reproduz a melodia em espiral da música em um ukulele elétrico. "Uma mulher me entrevistou outro dia e me perguntou: 'Você consegue fazer sua imitação do Elvis?'", conta B.o.B. "Falei: 'Quem faz isso é o Bruno!'"

"As pessoas sempre acham que sou você", afirma Mars. "Não liga."


Mars digita seu nome no YouTube mais "Elvis" e toca um vídeo dele imitando Elvis aos 4 anos. Isso leva a um clipe dele adolescente vestido de Michael Jackson, fazendo passos de dança em "Smooth Criminal". B.o.B cai para trás rindo. "É você?", ele grita.

"Era o máximo!", protesta Mars. "Ganhava US$ 200 por dia, cinco dias por semana - mais do que meus professores ganhavam, cara!" B.o.B sai para se preparar para o show. A vibração no camarim de Mars é estranha, inquieta - uma tempestade de neve prendeu ele e a banda no aeroporto O'Hare durante horas naquela manhã (eles haviam tocado em Chicago na noite anterior), e Tampa está fria e cinzenta. Tocando o ukulele, Mars parece uma jukebox humana, soltando trechos de canções diferentes. Canta pedaços de "Whole Lotta Love", "Somewhere Over the Rainbow", "Just the Way You Are", "Many Shades of Black" (do Raconteurs), músicas de A Bela e a Fera, "Holiday" (do Vampire Weekend) e "Electric Feel" (do MGMT). "Amo o MGMT", conta. "Eles dominaram a arte de compor um gancho que você ainda consegue se sentir cool quando está cantando." Comento que ele não parece especialmente interessado em ser cool em suas músicas. "É verdade, sou o que sou", diz. "Sei que 'Just the Way You Are' não é uma gravação do Sex Pistols. É o que é, é para as massas, e estou totalmente feliz com isso."

Depois do show, Mars está no estacionamento com um cigarro. "Só fumo em shows", afirma. "Vou parar no Ano-Novo. Eu me lembro do meu pai me dizendo: 'Se você começar a fumar, vou te encher de pancada'." Cigarros podem não ser o único vício de Mars: em setembro passado ele foi preso, em Las Vegas, por posse de cocaína. Ele se recusa a falar sobre isso, dizendo que o caso ainda está em curso (ele se declarou culpado e recebeu uma multa de US$ 2 mil, 200 horas de serviço comunitário e aconselhamento profissional).

Um promotor regional da gravadora Atlantic se aproxima. "Cara, 'Grenade' está explodindo", diz, apertando a mão de Mars. "Eu sei, cara, obrigado", ele responde. "Não estou tentando te elogiar, mas nem preciso trabalhar os seus discos. Eles são um sucesso", diz o homem. "Desde que 'Grenade' vá bem, cara, fico feliz. Eu me dediquei muito a ela." E o promotor dá o golpe final: "Você é o preferido da minha mãe. Não quero te deixar desconfortável, mas ela te ama". A van de Mars estaciona. "Isso não me deixa nem um pouco desconfortável", ele responde, jogando o cigarro na sarjeta. Não há uma gota de sarcasmo em sua voz. "Isso me dá uma sensação incrível."