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A Cruzada Libertadora de Jean Wyllys

Fuzilando os preconceitos, o ex-BBB que virou deputado federal oxigena a cena política brasileira, rompe com o estereótipo de subcelebridade e se projeta como o principal soldado da causa gay no Congresso Nacional

Carlos Juliano Barros Publicado em 09/08/2011, às 16h37 - Atualizado em 04/02/2014, às 16h49

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Jean Wyllys caminha apressado pelos subterrâneos do Congresso Nacional, em Brasília. Apesar do passo apertado, ele discorre pacientemente sobre os detalhes da arquitetura daquele ambiente gasto pelo tempo. Primeiro, brinca sobre o "ninho de ácaros": o roto carpete verde que reveste o chão e as paredes do túnel que conecta o Anexo IV da Câmara dos Deputados - prédio em que se localiza seu gabinete - ao coração propriamente dito do poder legislativo brasileiro. Passando pelo também acarpetado hall do plenário, aponta para um discreto painel de azulejos brancos e azuis que enfeita o espaço, de autoria do artista plástico Athos Bulcão. É ali que jornalistas de toda sorte fazem plantão à espera de declarações dos políticos. Estamos nos dirigindo para uma reunião da Frente Parlamentar LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Antes de chegarmos ao destino final, porém, há uma ligeira pausa para uma foto com uma fã e para a assinatura de um requerimento a favor da ampliação da licença-maternidade para mães com filhos recém-nascidos internados em hospitais. Wyllys tomou posse há apenas seis meses, mas parece à vontade na pele de deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro. Definitivamente, ele não dá a entender que está a passeio pelo Congresso Nacional.

Jean Wyllys é um daqueles fenômenos inesperados e necessários da política que, em um futuro não muito distante, serão assunto recorrente da literatura e do cinema. "Outro dia", ele recorda, "o deputado José Antônio Reguffe (PDT-RJ) me disse: 'Você tem noção de que já deu o seu recado?' Eu sei que já escrevi meu nome na história, mesmo que este seja meu único mandato." Tudo porque Wyllys resolveu assumir para si uma bandeira que a maioria de seus colegas parlamentares tem medo (ou vergonha) de hastear publicamente: a defesa dos direitos civis de LGBTs. Um verdadeiro tabu que, "nunca antes na história deste país" - para usar a expressão imortalizada pelo ex-presidente Lula - havia sido enfrentado tão visceralmente por um parlamentar brasileiro.

Em apenas um semestre de mandato, Jean Wyllys já é provavelmente o mais autêntico e influente porta-voz do movimento gay do Brasil. Por um acidente da história, porém, ele não pode reivindicar o posto de primeiro homossexual assumido a se eleger deputado.

"Antes de mim, teve o Clodovil [Hernandes]", ele comenta. "Mas ele não encampava a luta do movimento, pelo contrário. Em entrevistas, era radicalmente contra as paradas gays...". Wyllys interrompe o raciocínio, como se quisesse encontrar as palavras certas. "O deputado Clodovil não oferecia perigo, compreendeu? O problema é chegar aqui e reclamar por direitos." Foi justamente por rechaçar o estereótipo da "bicha afetada que só se liga a futilidades" que ele entrou em rota de colisão com os setores mais intolerantes da sociedade brasileira.

Apesar de ser um dos deputados de maior evidência da atual legislatura, elogiado por colegas dos mais diversos partidos, ainda é impossível dissociar a trajetória de Jean Wyllys do reality show Big Brother Brasil e de todos os preconceitos que esse capítulo de sua vida pública implica. Ele nasceu em 10 de março de 1974 na periferia de Alagoinhas, cidade modesta do interior da Bahia - a mãe escolheu "Jean" e o pai apelou para o complemento "Wyllys", em homenagem à fábrica de jipes que tanto admirava. Inimigo do futebol e leitor voraz desde a infância, fez faculdade de jornalismo e mestrado em linguística. Até ser selecionado para a quinta edição do programa televisivo que revolucionaria sua vida, colaborava para a grande imprensa de Salvador e trilhava carreira acadêmica como professor de cultura brasileira em uma faculdade particular. Depois de superar os paredões e faturar seu primeiro milhão de reais em 2005, Jean deu nova guinada e realizou o sonho da casa própria em Copacabana, no Rio de Janeiro, bairro que em sua opinião sintetiza exemplarmente a capital carioca. "Copacabana tem um ar meio décadence avec élégance. Não tenho paciência para Ipanema, Leblon", diz.

Nos corredores do Congresso Nacional, a popularidade obtida pelo reality global ainda rende pedidos de fotos e autógrafos, além de comentários do tipo "torci por você na televisão". Jean Wyllys nem de longe renega o confinamento comandado por Pedro Bial, mas lamenta o fato de que algumas pessoas ainda o coloquem no balaio das ex-celebridades em busca de mais 15 minutos de fama.

"Quando saí candidato, eu não pus no meu material de campanha a referência ao BBB", ele diz. "Não é que eu não tenha orgulho, muito pelo contrário. Mas eu achava que era outra fase da minha vida. As pessoas não têm que ficar estigmatizadas por uma experiência de três meses." O tom de voz é ligeiramente mais elevado, mas Wyllys não aparenta irritação: ele apenas admite que está cansado de dar sempre as mesmas respostas.

Uma vez eleito, Wyllys aposentou o par de brincos que lhe legou duas pequenas cicatrizes na orelha esquerda e também deixou para trás a barba farta, cultivada por algum tempo após o BBB. Na verdade, hoje ele até permite que uma penugem mais ou menos rala sobreviva em seu rosto. Somada aos óculos de aro negro, a barba por fazer lhe confere um carisma inegável. À semelhança de seus amigos parlamentares, Wyllys também não recusou o protocolo do terno e gravata. No entanto, desde a época de campanha, conserva o hábito de pregar na lapela do paletó uma pequena medalha em forma de flor com as cores do arco-íris - a marca registrada da causa gay.

Seria Jean Wyllys, então, uma versão brasileira de Harvey Milk, o político norte-americano que se transformou em ícone mundial na luta pelos direitos civis dos homossexuais durante a década de 70? "Todos nós, ativistas pós-68, somos filhos de Milk. O moderno movimento gay deve muito a ele. Essa comparação vem desde a época da eleição. É claro que eu fico lisonjeado, mas também me assusta o destino que ele teve", Jean diz, sem graça. Encarnado nas telas por Sean Penn, Milk foi assassinado por um colega vereador de São Francisco em 1978, logo após sua maior vitória como homem público: barrar uma lei que previa a demissão sumária de professores que se admitissem homossexuais.

Questiono Wyllys sobre quem poderia representá-lo em um eventual filme sobre sua vida. Ele para e reflete, deixando enfim o inseparável iPad de lado.

"O Caio Blat seria uma boa.", diz.

Começa a reunião da frente parlamentar LGBT, comandada por Jean Wyllys - na Câmara dos Deputados - e pela senadora Marta Suplicy (PT) - no Senado. "Fico puto quando dizem que ela é perua. Ninguém fala que o [prefeito de São Paulo Gilberto] Kassab pinta o cabelo. Isso é machismo puro", Wyllys provoca. Na pauta do dia está a discussão sobre o Projeto de Lei (PL) 122, que torna crime a incitação a atos de violência motivada por orientação sexual. A redação do texto preliminar preparado pela ex-prefeita de São Paulo foi duramente combatida pela bancada evangélica, que considera o projeto uma ameaça ao direito à "liberdade de expressão" nos cultos religiosos. Indo direto ao ponto, pastores têm medo de ir para a prisão se pregarem contra a homossexualidade.

Marta vem dialogando com senadores evangélicos para encontrar uma redação consensual que permita a aprovação da lei que criminaliza a homofobia. A primeira fala de Jean Wyllys na reunião trata justamente dessas ligações perigosas: ele não admite que o texto seja ditado pelos inimigos históricos do movimento LGBT. Marta está visivelmente irritada: "É um acinte o que você tem feito, Jean, dando entrevista dizendo que eu vendi o PL 122. Você não ganha a luta se não deixar que seu oponente também seja protagonista. Você não vai na esquina se não aprender essa lição neste Congresso", aconselha a senadora. Com o semblante também fechado, ele retruca as críticas dizendo que o movimento LGBT é quem deve ser o "protagonista" do processo e não que ela teria "vendido o PL 122".

A reunião termina com as metas de se pensar uma nova redação para o projeto de lei e de se construir um grande acordo entre deputados e senadores, que viabilize a votação já no segundo semestre. Inspirado no apelo de mídia da Lei Maria da Penha, que pune a violência contra as mulheres, o PL que criminaliza a homofobia será rebatizado de "Alexandre Ivo", em homenagem ao adolescente gay de 14 anos torturado por skinheads até a morte, no ano passado, em São Gonçalo (RJ).

O almoço na sequência da reunião acontece no 10º andar do Anexo IV da Câmara. Wyllys diz que gosta de "comida de gente": arroz, feijão, farinha e, especialmente, salada. Quase sem tocar no prato, ele fala sobre sua casa no Rio de Janeiro, onde guarda uma coleção nada desprezível de três mil discos e CDs, principalmente de cantoras da MPB. Dono de uma capacidade de argumentação notável, a verdade é que Jean é um pastiche ambulante difícil de categorizar: em uma mesma frase, é capaz de conciliar citações de pensadores eruditíssimos - da estirpe de Hannah Arendt e Michel Foucault - com referências da cultura de massa contemporânea.

Ele também se assume fã da série de quadrinhos X-Men, metáfora mais do que apropriada para a discussão sobre tolerância que ele propõe no Congresso. Questiono se ele está mais para Charles Xavier, o sonhador que prega a convivência pacífica entre humanos e mutantes, ou para Magneto, o rebelde que defende a superioridade da sua linhagem. "Digamos que eu seja uma mistura dos dois", ele responde, entrando na brincadeira. "O Magneto tem uma ideia que eu não tenho - ele vai para o extremo oposto, que é achar que os mutantes são uma raça superior. É o que aproxima o Magneto do algoz. É uma coisa freudiana. Eu quero acabar com isso. Nós somos apenas diferentes."

Rememorando a reunião que presenciei horas antes, indago sobre a relação do deputado com a ex-prefeita de São Paulo. "A gente se afina e desafina. A Marta sempre foi a pioneira da temática LGBT no Congresso. Somos todos devedores dela nesse sentido", Jean analisa, político. "Porém, outras lideranças aparecem e eu sou uma delas. E aí tem uma diferença: eu tenho legitimidade. Eu estou na luta, eu venho do movimento e eu sou gay. Não estou dizendo que ela não tenha autoridade, mas isso qualifica a minha autoridade. E isso a incomoda de alguma maneira. É inegável."

Nos últimos meses, a discussão sobre a criminalização da homofobia vem rendendo bate-bocas homéricos no Congresso. Sem dúvida, o adversário mais caricato de Jean Wyllys é o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), que em março chocou ao declarar, em entrevista, que seus filhos jamais se relacionariam com a cantora Preta Gil por serem "bem educados". Posteriormente, Bolsonaro alegou que não havia entendido a pergunta e que, se fosse racista, "não seria maluco de declarar isso numa televisão".

Sobre essa polêmica, Chico Alencar - um dos três mosqueteiros que, ao lado de Jean Wyllys e de Ivan Valente, compõem a nanica bancada do PSOL na Câmara dos Deputados - fala com admiração sobre o colega de partido. "Outro dia, o Jean deu uma resposta que foi maravilhosa", recorda Alencar. "O Bolsonaro disse: 'Sou muito homem, filho meu que ficar com esse jeitinho de boneca vai apanhar mesmo'. Então, o Jean respondeu: 'Eu questiono que o senhor seja tão corajoso como alardeia porque, se fosse mesmo, não trataria de, naquela entrevista ao CQC, se apressar em dizer que tinha ouvido errado a pergunta, que não era racista de jeito nenhum. Mas na homofobia o senhor caminha com desenvoltura. Por quê? Porque o senhor sabe que racismo é crime e que homofobia ainda não é. Isso é uma grande covardia'."

Jean Wyllys afirma que sempre foi de esquerda. Começou sua caminhada política nas pastorais da juventude e nas Comunidades Eclesiais de Base, o ramo progressista da Igreja Católica influenciado pelo marxismo que foi duramente combatido pelo atual papa Bento XVI, quando ele ainda respondia pela alcunha de cardeal Ratzinger. Mais tarde, como militante do movimento LGBT, percebeu que sua causa era de alcance nacional e que, portanto, não faria sentido concorrer a um mandato regional. Aconselhado por políticos experientes, como Aloizio Mercadante e Heloísa Helena, testou a sorte com uma campanha discreta, baseada nas redes sociais. "Eu tinha que ser eleito, cara. Foi uma conjunção dos astros", brinca.

Seguindo a sina de fugir dos rótulos, ele afirma não desejar ser lembrado apenas como o representante do movimento LGBT na Câmara, apesar de essa inegavelmente consistir na sua principal plataforma de atuação. Na verdade, quer ser conhecido como "o deputado dos direitos humanos". A defesa das religiões de matriz africana, por exemplo, é outra de suas bandeiras. Tanto que, na mão direita, usa guias do candomblé - assim como Caetano Veloso, é filho de Oxum e Oxossi. Também entrou para a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara. "O sistema tributário do Brasil é muito injusto", prega. "Ao tributar principalmente o consumo e não a renda, ele penaliza os mais pobres, que pagam a mesma quantia de impostos que os ricos quando compram o mesmo produto." Na mesma Comissão, por exemplo, Wyllys deu parecer favorável a um projeto de lei que estende o benefício da aposentadoria por invalidez aos militares com esclerose, direito que hoje só cabe aos servidores públicos civis.

"Isso é para provar que não sou revanchista", diz. "O Bolsonaro, que é militar, vai ter que me agradecer."

Mais de 100 e-mails chegam todos os dias à caixa postal do deputado Jean Wyllys. Todos são respondidos. Kleber Alves, o assessor responsável pela triagem das mensagens, conta que há de tudo: assanhados perguntando se Jean está solteiro, adolescentes pedindo ajuda para fazer plástica no nariz, eleitores se dizendo finalmente representados no Congresso. Mas nem todas são flores. Ele mostra uma mensagem que acaba de chegar, em letras maiúsculas: "O VIADÃO, AO INVÉS DE CRITICAR CRISTÃO PQ VC NÃO APRENDE A SER HOMEM, VIADO SAFADO". Ameaças mais pesadas já foram endereçadas ao gabinete, inclusive por telefonemas anônimos. Chegou a ser cogitada a contratação de um segurança para o deputado, mas ele recusou.

Blogs e correntes de e-mail têm espalhado o boato de que Jean Wyllys "declarou guerra" e que deseja botar uma "mordaça nos cristãos" com o projeto de lei que criminaliza a homofobia. "Olha que absurdo! Mas como conter essa campanha subterrânea? É praticamente impossível", ele se desespera, como se estivessese se explicando a um auditório. O deputado acredita que seu raciocínio é de simples compreensão: uma vez que o Brasil é um Estado laico, não pode ser refém dos dogmas de qualquer religião. Mas isso também não obriga um religioso a avaliar a homossexualidade como certa ou errada. Wyllys afirma não desejar que as pessoas abandonem suas crenças, mas que respeitem indivíduos com orientações diferentes. "O direito de se livre associar com quem se quer implica em deixar de fora quem a gente não quer", teoriza. "Existe uma discriminação social que é um preço a pagar por uma sociedade plural. Essa a gente nunca vai conseguir erradicar. Mas a discriminação jurídica é que não pode, de jeito nenhum."

Na verdade, a principal bandeira de Wyllys não é a criminalização da homofobia, mas sim a aprovação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Em maio, um passo contundente foi dado quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu a "união estável" para casais gays. "Mas isso ainda não é casamento civil", ressalta, "porque você tem que pleitear na Justiça, então não é um direito automático. Tanto que um juiz em Goiânia anulou um pedido, apesar da decisão do STF." Desde então, o deputado coleta assinaturas para fazer uma Proposta de Emenda Constitucional, com o objetivo de criar o casamento civil homossexual.

Ele pausa o discurso para retomar fôlego. Mais uma vez, reitera que o argumento nada tem a ver com o sacramento religioso, ou seja, nenhum padre vai ser obrigado a abençoar o matrimônio entre duas pessoas do mesmo sexo. "Durante muito tempo, o casamento civil entre homem e mulher não podia ser dissolvido. Aí houve todo o pleito em torno da lei do divórcio, com a oposição das Igrejas cristãs, mas o divórcio foi conquistado", compara.

Jean Wyllys segue para o aeroporto de Brasília, de onde voará para Buenos Aires, como convidado de uma cerimônia em comemoração ao primeiro aniversário da lei que criou o matrimônio entre homossexuais na Argentina. Animado, diz que vai aproveitar a viagem - e o recesso parlamentar de julho - para descansar. Mas lamenta o fato de que seu passado de celebridade e o enxame de brasileiros em Buenos Aires o impeçam de caminhar anonimamente. No táxi, fala sobre candomblé e evoca versos de uma canção de Clara Nunes - reforçando o artifício de recorrer a letras de músicas e a passagens de livros para comprovar suas teses.

Pergunto se ele tem medo de que o tempo e a vivência em Brasília, com todas as concessões que a vida política implica, amoleçam seu ímpeto transformador. Sem hesitar, cita, sorrindo, uma frase do falecido dramaturgo Dias Gomes: "Há um mínimo de dignidade que se deve conservar, mesmo que seja em troca do sol, mesmo que seja em troca de liberdade".